Demanda de consumo em Marx

Neste post apresenta-se parte de um escrito de Radhika Desai em que essa autora procura mostrar a pluralidade determinações da crise econômica segundo Karl Marx. Ela contesta especialmente a tese segundo a qual todas as crises podem ser apresentadas como consequências da “lei da taxa decrescente de lucro”. E que, por isso, a Lei de Marx não é sempre a “causa última” das crises, as quais, entretanto, poderiam ser disparadas por vários fatores (tese de Michael Roberts). Em consequência, ela reabilita até certo ponto a importância do subconsumo nas crises.

Em suas palavras:

“Este texto desafia o desprezo pelo “subconsumo” – e, assim, pelo papel da demanda de consumo na reprodução capitalista e por sua falta nas crises – no marxismo contemporâneo. Está em jogo aqui um melhor entendimento não apenas da teoria da crise, (…) mas também do legado intelectual de Marx. O escrito mostra como a centralidade da demanda de consumo é sublinhada nos três volumes de O capital e nos Grundrisse. Prossegue discutindo as origens, as fraquezas e a persistência desse desprezo. O texto também mostra que Marx não considerou o subconsumo por meio de uma ótica moralista, como se tratasse de uma necessidade que é descumprida. Tal desprezo não se origina em Marx, mas no “produtismo”, isto é, na ideia de que o capitalismo é um sistema de “produção pela produção”.

A tradução para o português de parte do texto original (Consumption demand in Marx and in the current crisis) encontra-se aqui: Demanda de consumo em Marx

A agonia (e morte?) do desenvolvimento no Brasil

Quando se olha o comportamento da economia capitalista no Brasil nos últimos setenta anos de uma perspectiva que fica apenas na observação dos dados empíricos, é absolutamente nítido que dois grandes períodos aparecem: um deles que vai até 1980, o qual não pode deixar de ser considerado como de alto crescimento e um outro, que se inicia em 1990, o qual está caracterizado por uma quase-estagnação. A década dos anos 1980 é de crise e de transição entre esses dois padrões de crescimento do produto interno bruto (PIB).

O primeiro período mencionado é usualmente chamado de nacional desenvolvimentista. O segundo tem sido caracterizado como liberal periférico, já que nele domina o neoliberalismo.

Contudo, esse segundo período pode também ser dividido em dois outros. Empregando uma terminologia já em uso, mas ainda não fixada na historiografia, o período que vai de 1990 a 2015 pode ser caracterizado como neoliberal progressista. Entretanto, após esse último ano, a gestão da economia capitalista no Brasil tornou-se – é preciso diferenciar – neoliberal reacionário.

Ao contrário do que acontecia anteriormente, este último período passou a apontar a barbárie – e não mais para a civilização. Trata-se, sem dúvida, do advento de uma regressão, de uma decadência.

A que se deve esse comportamento da taxa de crescimento do PIB? Por que o Brasil ficou para trás no assim chamado processo de globalização? O neoliberalismo reacionário contraria o desenvolvimentismo ou, mais do que isso, ele representa o abandono do projeto de desenvolvimento nacional que orientou a economia brasileira nos últimos 70 anos?

É preciso, portanto, que as forças potenciais da civilização – que moram ainda nas classes trabalhadoras em sentido bem amplo –, passem a acreditar e apostar numa mudança mais profunda da sociedade. E, nessa perspectiva, o socialismo democrático e o ecossocialismo surgem como alternativas promissoras. Se o presságio acima se confirmar, sobrevirá a barbárie e o fim de nossa humanidade possível. Veja-se que, em certos espaços da sociedade brasileira, isto já está acontecendo e de modo bem evidente.

O texto está aqui: A agonia (e a morte?) do desenvolvimento no Brasil

 

A formação do modo de ser neoliberal

Com este post termina-se a publicação de um artigo e uma nota que tratam, como o título acima indica, da formação intencional e construtiva do modo de ser neoliberal. O primeiro deles, Neoliberalismo e subjetivação capitalista, de autoria de Pierre Dardot e Christian Laval, veio à tela aqui neste blog nas duas últimas segundas-feiras. Agora, para complementá-lo, publica-se uma resenha do livro O ser neoliberal (Gedisa, 2019), resultado de uma discussão recente entre esses dois autores e o psicanalista espanhol Enric Berenguer.

Nesse escrito, eles mais uma vez retomam a questão de como melhor definir o neoliberalismo. Com esse propósito principal repensam tudo o que disseram em A nova razão do mundo, mas indicam também que os processos de formação de subjetividade adequados à produção capitalista não passaram a existir apenas no capitalismo contemporâneo; pois, ao contrário, existiram também nas épocas históricas precedentes, ainda que com certas especificidades.

Ora, aquilo que foi chamado por Foucault de governamentalidade tem assumido formas diversas, ainda semelhantes, ao longo da história do capitalismo. Assim, se o neoliberalismo recebe também nesse novo livro o foco crítico principal, não deixam eles de fazer também referências críticas importantes às formas que existiram no período de domínio do liberalismo clássico e, depois, no período da socialdemocracia.

Na opinião do economista que aqui escreve, o tema da governamentalidade tem de ser apropriado pela crítica que vem de Marx, naquela precisamente em que discute as formas de subsunção do trabalho ao capital. Ora, esse tema tem sido discutido mesmo sem qualquer referência à Foucault sob o conceito de subsunção intelectual ou mental do trabalho ao capital. Ademais, é evidente que, assim, o tema não é esgotado mesmo numa perspectiva que se cinge ao capitalismo no Ocidente.

É preciso mencionar que seria necessário incluir, num estudo mais abrangente, não apenas o fascismo e o nazismo, mas também o comunismo estalinista e o comunismo maoísta, assim como outras variantes dessas formas de exercer o poder e de dominar os seres humanos comuns.

O texto se encontra aqui: A formação do modo de ser neoliberal

Neoliberalismo e subjetivação capitalista – Parte II

Continua-se neste post a publicação de um artigo que trata do conceito de neoliberalismo. Traz-se por isso, com esse objetivo, a segunda e última parte de um escrito muito importante de Pierre Dardot e Christian Laval.

Como foi dito no primeiro post, se essa forma de prática política é, sim, implementação de medidas como privatizações, diminuição da proteção social dos trabalhadores, decrescimento da oferta de bens públicos etc. Porém, de modo algum, pode ela ser reduzida a essa dimensão estritamente econômica. Eis que é, também, uma forma de governamentalidade, isto é, de criação por meio de técnicas de poder de uma subjetividade adequada à expansão do capitalismo.

O neoliberalismo implica na generalização da forma social “concorrência” – que originalmente é apenas “concorrência de capitais” para âmbitos sociais que não deveriam ser regulados economicamente, tais como hospitais, escolas, associações, igrejas etc. E essa generalização é, sim, produzida construtiva e deliberadamente.

Sustentam esses dois autores que “a imposição dessa forma de concorrência nada tem de natural. “Não resulta de processos espontâneos. Não é efeito de uma espécie de “canibalização” inerente à dinâmica do capitalismo. É produto, isto sim, de uma construção política.”

Note-se, nesse sentido, que “o fator competitivo mais importante hoje é o “capital humano”, a formação do indivíduo, o seu “desenvolvimento pessoal” dentro e fora da empresa, a sua subjetividade no trabalho e fora dele, ele também deve ser remodelado de acordo com o princípio da concorrência”.

Se totalitarismo implica, como queria Hannah Arendt, na realização determinada de um fim último, a conquista do mundo, o capitalismo neoliberal é uma forma de totalitarismo. Esse objetivo não é, entretanto, perseguido por meio da absorção e subordinação do mercado e da sociedade civil como um todo ao Estado, mas, ao contrário, por meio da conquista e subordinação do Estado e da sociedade civil como um todo pela lógica do mercado.

A segunda parte do artigo se encontra aqui: Neoliberalismo e Subjetivação capitalista – II

Neoliberalismo e subjetivação capitalista – Parte I

Inicia-se com este post a publicação de um artigo e uma resenha que tratam do conceito de neoliberalismo. Nos dois primeiros posts, publica-se um escrito de Pierre Dardot e Christian Laval em que esse tema é ventilado.

O que é o neoliberalismo? – eis a pergunta central que esse artigo responde. Se é evidente que essa prática política implica na adoção de determinadas políticas econômicas como privatizações, diminuição da proteção social dos trabalhadores, decrescimento da oferta de bens públicos etc., ela própria não pode ser reduzida ao seu aspecto econômico.

Segundo Dardot e Laval, se neoliberalismo é expansão da lógica mercantil em âmbitos ainda não mercantilizados, ele é na verdade mais do que simplesmente isso. Segundo eles, “o neoliberalismo deve ser caracterizado pela transformação da competição em forma geral das atividades de produção, especialmente daquelas que produzem serviços não mercantis e até mesmo daquelas atividades sociais fora da esfera produtiva”.

Nesse sentido, como o alimentador deste blog tem escrito há mais de dez anos, consiste numa forma suplementar de subsunção do trabalho ao capital, para além da subsunção formal e da subsunção real, tal como foram caracterizadas originalmente por Karl Marx. Assim, esta forma pode ser – e tem sido – denominada subsunção intelectual ou mental do trabalho ao capital.

Este post e o seguinte encaminham a tradução para o português de um artigo de Dardot e Laval publicado originalmente em francês, em 2010. Neste escrito, eles apresentam essa tese pondo um foco especial no neoliberalismo, sem deixar, no entanto, de mencionar que a socialdemocracia nunca deixou de ser, também, uma forma de “governamentalidade” – ainda que não tenha sido destrutiva da vida boa com passou a ser a sua sucessora. Note-se que, ao apresentá-la, criticam também o economicismo presente ainda em grande parte do marxismo:

É esta pelo menos a tese deste trabalho: a autonomização e a extensão da concorrência não procedem da ação subterrânea de supostas “leis imanentes da produção capitalista”, algo que a concorrência veio impor a cada capitalista individual sob a forma de um “constrangimento externo. Muito ao contrário, elas são o efeito de práticas, técnicas, discursos que generalizam aquilo que no jargão gerencial é chamado de “melhores práticas” e que, portanto, vem homogeneizar para toda sociedade certas maneiras de fazer e de ser.

A primeira parte do artigo se encontra aqui: Neoliberalismo e Subjetivação capitalista – I