O choque Milei

Autor: Romaric Godin [1] – Esquerda.net – 15/12/2024

Um ano após a sua chegada ao poder, o Presidente argentino Javier Milei apresenta um balanço econômico que considera lisonjeiro. Mas a realidade é a de uma recessão violenta, que levou um em cada dois argentinos à pobreza, para desenvolver uma lógica extrativista neocolonial.

Após um ano no poder, Javier Milei já mudou a economia argentina. Do seu ponto de vista, a sua estratégia de choque, que consistiu em desvalorizar o peso argentino pela metade, pouco depois de ter chegado ao poder, e em reduzir drasticamente as despesas públicas, é um sucesso de que se gaba em cada uma das suas viagens ao estrangeiro. Sempre, claro está, através de uma escolha cuidadosa dos números.

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O domínio exuberante do capital fictício

Autor: Renildo Souza[1]

O papel crucial da ciência e da tecnologia na economia capitalista do século XXI favorece a valorização das mercadorias-conhecimento gerando as chamadas renda-conhecimento

Neste artigo, centrado na categoria capital fictício e nos bancos, voltamos a discutir as possíveis pistas, os começos de elaboração, acerca da finança da lavra de Karl Marx na Seção V do livro III de O capital.

Em sua definição, Marx explicou: “A formação do capital fictício tem o nome de capitalização. Para capitalizar cada receita que se repete com regularidade, o que se faz é calculá-la sobre a base da taxa média de juros como o rendimento que um capital, emprestado a essa taxa de juros, proporcionaria”.[i]

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Mudou, mas ainda é capitalismo

Autor: Cédric Durand[1]

O teórico Fredric Jameson diz que “o mercado é… o Leviatã em pele de cordeiro”; “a sua função não consiste em encorajar e perpetuar a liberdade, mas sim em reprimi-la”. [2] A ideologia do mercado se sustenta numa aparência de liberdade, mas, na verdade, proíbe os seres humanos de tê-la, ou seja, que eles possam tomar coletiva e conscientemente o seu destino econômico nas próprias mãos, alegando que tal iniciativa só pode levar à tragédia. Segundo ela, nós temos a sorte de poder deixar as coisas para o Deus oculto da mão invisível, o mercado smithiano que transforma vícios privados em virtudes públicas e que, supostamente, transforma o choque de interesses em algo harmonioso?[3]

Esse mito leva a uma abdicação da liberdade de deliberar e, assim, do poder organizar o futuro. Implica também no abandono da possibilidade de rever os planos em conjunto conforme se desenrola o inesperado. Por meio do projeto neoliberal de livre mercado, as sociedades abandonam o domínio das coisas ao longo do tempo para confiar nos mecanismos impessoais das finanças.

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O fascismo como espectro resurgente

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Como é sabido o Manifesto Comunista, publicado pela primeira vez em 1848, inicia-se assim: “Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar” etc. etc. etc. Karl Marx e Friedrich Engels, é bem evidente, usaram o termo “espectro” como uma metáfora para falar de uma possibilidade real que, já na ascensão do capital industrial, assustava as burguesias e seus representantes no continente de nascimento do capitalismo. Se essa assombração tem assustado os donos do capital na história do capitalismo, não haveria também uma assombração que vem abismando a classe trabalhadora?

Samir Gandesha [2}, em seu esforço [3] para pensar o aparecimento dos novos extremismos de direita na cena política do século XXI (excertos de seu texto original são apresentados em sequência desta nota), sugere que sim; para esse autor há, sim, um outro espectro e ele vem ameaçando as forças da transformação desde os primórdios do capitalismo industrial. Por se antepor continuamente ao espectro do comunismo na história do capitalismo, considera que esse abantesma ressurge nas crises do sistema, especialmente quando elas se tornam crises do liberalismo. Se o fascismo faz sempre critica aparente ao sistema é porque subsiste como contrarrevolucionário.

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Como funciona a propaganda fascista

Autor: Samir Gandesha [1]

Como se pode retomar atualmente a apresentação sociopsicológica de Adorno sobre a propaganda fascista? Existem basicamente três áreas nas quais as reflexões de Adorno são esclarecedoras: (1) populismo; (2) a análise dos “agitadores” contemporâneos; e, finalmente, (3) a indústria cultural. Antes de abordar estes temas é importante considerar primeiro as limitações de suas extraordinárias reflexões.

Como argumentei em outro lugar, as suposições sociológicas da apropriação de Freud por Adorno, especificamente o conceito de “capitalismo de Estado” de Pollock – segundo o qual o papel do Estado é administrar as tendências de crise do capitalismo – precisam ser repensadas no período caracterizado pela obsolescência do keynesianismo. Além disso, Adorno tinha uma confiança imediata no relato freudiano ortodoxo da teoria da pulsão e no conceito do conflito edipiano. Mas isso precisa também ser repensado e reconstruído para ir além, já que a ontologia atomística e hobbesiana de Freud não se encaixa particularmente bem com uma ontologia social que está em dívida com Hegel e Marx.

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A base subjetiva da propaganda fascista

Autor: Samir Gandesha [1]

A propaganda fascista é construída em torno do conceito básico do “‘pequeno-grande homem’, de um “sujeito” que sugere tanto onipotência quanto a ideia de que vem a ser um “tipo” simples, de sangue vermelho e imaculado, alguém do próprio povo.”

É dessa forma que Adorno apresenta o conceito norteador da “personalidade autoritária”: aquele tipo de personalidade caracterizado tanto pela subordinação ao “forte” (barbeiro suburbano) quanto pela dominação sobre o “fraco” (King Kong). Nisso, a estrutura do caráter social reproduz a contradição que está no cerne da sociedade burguesa entre uma autonomia ou liberdade em teoria, mas heteronomia e falta de liberdade na prática. [N. T.: Eis que essa contradição engendra um “sujeito” fraco/forte, ou seja, que é fraco diante das forças do sistema econômico, mas que tem de ser forte para vencer na vida]. De acordo com Adorno, a imagem do “pequeno-grande homem” responde

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Identificação com o agressor: uma explicação para a adesão ao fascismo neoliberal

Autor: Samir Gandesha [1]

Pode-se dizer que o capitalismo neoliberal contemporâneo se caracteriza por duas notas negativas bem significativas: [aumento da desigualdade de renda e riqueza, e crescimento dos movimentos políticos de direita].

Observa-se, por um lado, um aumento impressionante na desigualdade social e econômica desde meados da década de 1970. Por exemplo, desde 1977, sessenta por cento do aumento da renda nacional dos EUA, conforme Piketty, foi canalizada para os dez por cento mais ricos da população. Dada a presente constelação de forças e tendências, tais como, por exemplo, o aumento do investimento em capital fixo e em inovação técnica que intensificam a automação, essa desigualdade só tenderá a aumentar nos próximos anos e décadas.

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A China muda de estratégia para impulsionar o crescimento

Autor: Romaric Godin[1] – Sin Permiso – 05/10/2024

Três anos após a falência da maior incorporadora imobiliária da China, a Evergrande, Pequim está usando agora a bazuca monetária para tentar conter o enfraquecimento contínuo de sua economia. Em 24 de setembro de 2024, o Banco Popular da China (BPOC), que é também o banco central do país, anunciou uma série de medidas massivas de apoio à economia de um modo particularmente incomum.

O governador do BPOC, Pan Gongsheng, convocou uma coletiva de imprensa não anunciada para expor seu plano. Primeiro, um corte na taxa de refinanciamento de sete dias dos bancos, o equivalente à taxa básica de juros da China, de 1,7% para 1,5%. Essa medida deve levar a uma diminuição das taxas no médio e longo prazo.

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A base estrutural das novas direitas

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Para explicar o fenômeno das novas direitas, assim como a sua ascensão vertiginosa no cenário político contemporâneo, Rodrigo Nunes, num artigo de grande qualidade (Nunes, 2024), aponta para a existência e persistência de um “operador ideológico” em sua base; para que ocorresse, segundo ele, era preciso que o seu crescimento fosse impulsionado pelo “empreendedorismo”. A base do fenômeno social aqui, portanto, é uma disposição psicopolítica.

Para que a aliança tácita de classe constitutiva desse movimento fosse posta, era necessário, segundo ele, que “algumas imagens e palavras produzissem uma identificação”. Só essa mediação tornou possível que interesses tão diversos, desde aqueles dos trabalhadores informais, de setores das classes médias até dos capitalistas financeiros, fossem soldados politicamente.

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A batalha por semicondutores na Europa

Autor: Scott Lavery[1] – Sidecar- 25/04/2024

Em maio de 2023, Olaf Scholz proclamou que uma grande “reindustrialização” estava ocorrendo na Alemanha. Falando no lançamento de uma nova fábrica de semicondutores – Infineon – de US$ 5 bilhões, o chanceler se gabou de que um em cada três microchips europeus agora seria “Made in Saxony”. Um mês depois, a Intel confirmou que investiria US$ 33 bilhões em duas novas fábricas em Magdeburg: o maior investimento estrangeiro direto da história da República Federal.

Isso foi seguido por um anúncio de que a gigante taiwanesa de semicondutores TSMC assumiria uma participação de 70% em uma nova fábrica de fabricação de € 11 bilhões em Dresden. O chamado livre mercado não atraiu essas empresas para a “Saxônia do Silício”: 20 bilhões de euros em subsídios do governo alemão fizeram este milagre. O sumo sacerdote da disciplina orçamental da zona euro deixou de lado os seus sagrados precatórios, respondendo ao declínio do seu modelo de crescimento liderado pelas exportações com uma farra de subsídios.

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