O que vem após o neoliberalismo?

N. T.: Publica-se abaixo um artigo informativo, mas algo confuso, que responde ao título acima. Ele versa sobre as mudanças no capitalismo advindas da ascensão das grandes empresas de tecnologia digital (big techs) e das gestoras ativos, as quais são apresentadas como “rentistas”. Apesar disso, ele põe um problema teórico que seria preciso desenvolver a partir da apresentação dialética de O capital. O artigo não resolve essa questão, ao contrário, atrapalha o esforço de resolvê-la de um modo rigoroso.

Ele não compreende que capital é uma relação social de exploração que se manifesta por meio de formas reificadas, a saber, dinheiro, meios de produção, força de trabalho e mercadorias acabadas. Não consegue ver que as plataformas são uma forma de capital financeiro. Ele parece não saber nada sobre a distinção entre o capital portador de juros, que financia a produção de mercadorias, e o capital fictício, que financia o consumo ou tem uma relação indireta com a produção. Chama, por isso, os pagamentos associados ao capital fictício de renda, confundindo, assim, os “juros” apropriados pelo capital fictício – que não é de fato capital, mas parece que é – com a renda da terra. É partindo desse erro crasso, que teóricos pouco rigorosos citados no artigo chegam à ideia absurda do tecnofeudalismo.  Contudo, ainda assim o artigo pode ser lido com proveito por aqueles que querem pensar o capitalismo em sua configuração contemporânea.


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O fascismo como espectro resurgente

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Como é sabido o Manifesto Comunista, publicado pela primeira vez em 1848, inicia-se assim: “Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar” etc. etc. etc. Karl Marx e Friedrich Engels, é bem evidente, usaram o termo “espectro” como uma metáfora para falar de uma possibilidade real que, já na ascensão do capital industrial, assustava as burguesias e seus representantes no continente de nascimento do capitalismo. Se essa assombração tem assustado os donos do capital na história do capitalismo, não haveria também uma assombração que vem abismando a classe trabalhadora?

Samir Gandesha [2}, em seu esforço [3] para pensar o aparecimento dos novos extremismos de direita na cena política do século XXI (excertos de seu texto original são apresentados em sequência desta nota), sugere que sim; para esse autor há, sim, um outro espectro e ele vem ameaçando as forças da transformação desde os primórdios do capitalismo industrial. Por se antepor continuamente ao espectro do comunismo na história do capitalismo, considera que esse abantesma ressurge nas crises do sistema, especialmente quando elas se tornam crises do liberalismo. Se o fascismo faz sempre critica aparente ao sistema é porque subsiste como contrarrevolucionário.

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Como funciona a propaganda fascista

Autor: Samir Gandesha [1]

Como se pode retomar atualmente a apresentação sociopsicológica de Adorno sobre a propaganda fascista? Existem basicamente três áreas nas quais as reflexões de Adorno são esclarecedoras: (1) populismo; (2) a análise dos “agitadores” contemporâneos; e, finalmente, (3) a indústria cultural. Antes de abordar estes temas é importante considerar primeiro as limitações de suas extraordinárias reflexões.

Como argumentei em outro lugar, as suposições sociológicas da apropriação de Freud por Adorno, especificamente o conceito de “capitalismo de Estado” de Pollock – segundo o qual o papel do Estado é administrar as tendências de crise do capitalismo – precisam ser repensadas no período caracterizado pela obsolescência do keynesianismo. Além disso, Adorno tinha uma confiança imediata no relato freudiano ortodoxo da teoria da pulsão e no conceito do conflito edipiano. Mas isso precisa também ser repensado e reconstruído para ir além, já que a ontologia atomística e hobbesiana de Freud não se encaixa particularmente bem com uma ontologia social que está em dívida com Hegel e Marx.

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A base subjetiva da propaganda fascista

Autor: Samir Gandesha [1]

A propaganda fascista é construída em torno do conceito básico do “‘pequeno-grande homem’, de um “sujeito” que sugere tanto onipotência quanto a ideia de que vem a ser um “tipo” simples, de sangue vermelho e imaculado, alguém do próprio povo.”

É dessa forma que Adorno apresenta o conceito norteador da “personalidade autoritária”: aquele tipo de personalidade caracterizado tanto pela subordinação ao “forte” (barbeiro suburbano) quanto pela dominação sobre o “fraco” (King Kong). Nisso, a estrutura do caráter social reproduz a contradição que está no cerne da sociedade burguesa entre uma autonomia ou liberdade em teoria, mas heteronomia e falta de liberdade na prática. [N. T.: Eis que essa contradição engendra um “sujeito” fraco/forte, ou seja, que é fraco diante das forças do sistema econômico, mas que tem de ser forte para vencer na vida]. De acordo com Adorno, a imagem do “pequeno-grande homem” responde

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A massa fascista e o “pequeno-grande homem”

Autor: Samir Gandesha[1]

Não pode haver dúvidas hoje de que, após um longo período de dormência, elementos autoritários e, às vezes, francamente fascistas retornaram à vida pública com força total. Voltaram não apenas por toda a Europa, Reino Unido e Estados Unidos, mas globalmente, mais notavelmente na Turquia, Índia e Brasil.

A imagem visualmente mais chocante de tal retorno são os centros de detenção de migrantes que se espalham pelo sul da Europa. Mais notórios, são os “acolhimentos” de crianças centro-americanas negligenciadas e aterrorizadas, supostamente sujeitas a abusos psíquicos e sexuais, nos campos de concentração na fronteira sul dos Estados Unidos com o México.

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Identificação com o agressor: uma explicação para a adesão ao fascismo neoliberal

Autor: Samir Gandesha [1]

Pode-se dizer que o capitalismo neoliberal contemporâneo se caracteriza por duas notas negativas bem significativas: [aumento da desigualdade de renda e riqueza, e crescimento dos movimentos políticos de direita].

Observa-se, por um lado, um aumento impressionante na desigualdade social e econômica desde meados da década de 1970. Por exemplo, desde 1977, sessenta por cento do aumento da renda nacional dos EUA, conforme Piketty, foi canalizada para os dez por cento mais ricos da população. Dada a presente constelação de forças e tendências, tais como, por exemplo, o aumento do investimento em capital fixo e em inovação técnica que intensificam a automação, essa desigualdade só tenderá a aumentar nos próximos anos e décadas.

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Aonde nos leva o declinio do império norte-americano?

Autor: Richard D. Wolff [1] – Counterpunch – 09/09/2024

As evidências sugerem que os impérios muitas vezes reagem aos períodos em que entram em declínio expandindo demais seus mecanismos de sobrevivência. Ações militares, problemas de infraestrutura e demandas de bem-estar social podem então se combinar ou entrar em conflito. Acumulam-se assim custos e efeitos de reação que o império em declínio não consegue administrar. Políticas destinadas a fortalecer o império – e isso já aconteceu na história – agora o minam.

As mudanças sociais contemporâneas dentro e fora do império podem reforçar, retardar ou reverter o declínio. No entanto, quando os líderes negam a sua existência, isso pode acelerar o processo. Nos primeiros anos dos impérios, os líderes e os liderados podem reprimir aqueles entre eles que enfatizam ou que apenas ousam mencionar o declínio. Os problemas sociais também podem ser negados e/ou minimizados; se admitidos, podem ser atribuídos a bodes expiatórios convenientes – imigrantes, potências estrangeiras ou minorias étnicas – em vez de serem associados ao declínio imperial.

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A China muda de estratégia para impulsionar o crescimento

Autor: Romaric Godin[1] – Sin Permiso – 05/10/2024

Três anos após a falência da maior incorporadora imobiliária da China, a Evergrande, Pequim está usando agora a bazuca monetária para tentar conter o enfraquecimento contínuo de sua economia. Em 24 de setembro de 2024, o Banco Popular da China (BPOC), que é também o banco central do país, anunciou uma série de medidas massivas de apoio à economia de um modo particularmente incomum.

O governador do BPOC, Pan Gongsheng, convocou uma coletiva de imprensa não anunciada para expor seu plano. Primeiro, um corte na taxa de refinanciamento de sete dias dos bancos, o equivalente à taxa básica de juros da China, de 1,7% para 1,5%. Essa medida deve levar a uma diminuição das taxas no médio e longo prazo.

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A base estrutural das novas direitas

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Para explicar o fenômeno das novas direitas, assim como a sua ascensão vertiginosa no cenário político contemporâneo, Rodrigo Nunes, num artigo de grande qualidade (Nunes, 2024), aponta para a existência e persistência de um “operador ideológico” em sua base; para que ocorresse, segundo ele, era preciso que o seu crescimento fosse impulsionado pelo “empreendedorismo”. A base do fenômeno social aqui, portanto, é uma disposição psicopolítica.

Para que a aliança tácita de classe constitutiva desse movimento fosse posta, era necessário, segundo ele, que “algumas imagens e palavras produzissem uma identificação”. Só essa mediação tornou possível que interesses tão diversos, desde aqueles dos trabalhadores informais, de setores das classes médias até dos capitalistas financeiros, fossem soldados politicamente.

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A batalha por semicondutores na Europa

Autor: Scott Lavery[1] – Sidecar- 25/04/2024

Em maio de 2023, Olaf Scholz proclamou que uma grande “reindustrialização” estava ocorrendo na Alemanha. Falando no lançamento de uma nova fábrica de semicondutores – Infineon – de US$ 5 bilhões, o chanceler se gabou de que um em cada três microchips europeus agora seria “Made in Saxony”. Um mês depois, a Intel confirmou que investiria US$ 33 bilhões em duas novas fábricas em Magdeburg: o maior investimento estrangeiro direto da história da República Federal.

Isso foi seguido por um anúncio de que a gigante taiwanesa de semicondutores TSMC assumiria uma participação de 70% em uma nova fábrica de fabricação de € 11 bilhões em Dresden. O chamado livre mercado não atraiu essas empresas para a “Saxônia do Silício”: 20 bilhões de euros em subsídios do governo alemão fizeram este milagre. O sumo sacerdote da disciplina orçamental da zona euro deixou de lado os seus sagrados precatórios, respondendo ao declínio do seu modelo de crescimento liderado pelas exportações com uma farra de subsídios.

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