O discurso autoritário do economista mainstream

Os economistas de centro-direita tem se esforçado para criticar as políticas econômicas do PT. Em geral, com essa intenção, eles não fazem referência aos objetivos desse partido político na condução do governo. Como se sabe, as políticas do PT nessa área tinham uma certa coerência: procuraram melhorar a repartição da renda, elevar os ganhos dos mais pobres, sem mudar as instituições que balizam o funcionamento do sistema capitalista realmente existente.

O Partido dos Trabalhadores, como se sabe, apesar de alguma retórica, não é e nunca foi um partido socialista. Na verdade, a sua política econômica nunca deixou de manter e promover o capitalismo tal como o herdou dos governos do PSDB. Note-se que ele nunca quis enfrentar o problema da desindustrialização e da reprimarização. Ora, a economia capitalista no Brasil, após a década perdida dos anos 1980, tem se mantido num padrão de lento crescimento que deve ser classificado como (neo) liberal e dependente.

Alguns economistas de centro-direita sustentam mesmo que “as políticas equivocadas dos petistas, ignoradas por Lula e seu partido, produziram crise e alimentaram a ascensão da extrema direita”. Ora, essa acusação, em primeiro lugar, ignora que as crises são inerentes ao capitalismo. Na verdade, como crítica, é destemperada e mesmo falsa.

Note-se por isso, em segundo lugar, que ela ignora que a ascensão da extrema direita foi alimentada por uma operação anticorrupção levada a efeito pelo judiciário, mas orientada politicamente inclusive por interesses externos. Como se sabe, a corrupção é endêmica na política brasileira e dela participaram tanto o PT quanto o PSDB, assim como quase todos os outros partidos políticos existente no Brasil.

Este post encaminha uma nota que procura fazer uma crítica mais geral ao padrão de argumentação dos economistas em geral, em particular dos economistas que se pautam pela teoria neoclássica. Baseia-se fortemente na teoria dos discursos de Jacques Lacan, para dizer que os economistas do “mainstream” costumam fundar a sua arenga numa cientificidade impessoal e positiva, supostamente isenta de valores morais e políticos, que funciona como um “grande Outro”.

Desse modo – sustenta-se enfaticamente – eles se sentem fortes tanto para recusarem toda crítica que atinge o sistema enquanto tal, quanto para se desresponsabilizarem quanto às consequências funestas, socialmente desastrosas, das políticas de prescrevem ou ajudam a implementar.

Quando chegam ao poder, promovem sistematicamente a concentração da renda nos estratos mais altos sem se sentirem minimamente culpados pelo feito. Afinal, acham-se muito competentes numa cientificidade matemática (Economics) que, por ter esse caráter, é julgada implicitamente melhor do que aquelas que se sustentam no campo da Economia Política. A matemática é o grande Escudo e a grande Espada da teoria econômica vulgar, ou seja, aquela que apreende apenas os nexos externos entre os fenômenos.

O texto está aqui: O discurso autoritário do economista mainstream

O advento da sociedade rottweiler

Esse uso do substantivo próprio “rottweiler”, pesadíssimo, qualifica o quê? Não há dúvida, é com esse indicador de estupidez, bruteza e ferocidade que Paul Collier adjetiva a sociedade que existe atualmente na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e na Europa: “a despeito da promessa de prosperidade” – diz – “o que o capitalismo moderno está correntemente entregando é agressão, humilhação e medo”.

Mesmo se essa raça canina nem sempre é tão feroz assim, pois os seus donos, tal como o neoliberalismo reacionário está fazendo da sociedade, é que a fazem ser assim, é isto, precisamente isto, o que esse autor quis mostrar em seu livro O futuro do capitalismo – enfrentando novas inquietações (L&PM, 2019), recém-publicado.

Nesse folhoso – o vocábulo cabe bem –, Paul Collier pretende mostrar as consequências das políticas econômicas que foram feitas sob a égide desse pensamento político, primeiro numa linha progressista e depois num rumo francamente reacionário (o atual). Mas não só. Ele pretende também argumentar que o capitalismo deve voltar a ser regido pela ética comunitarista, passando de novo a ser regulado numa perspectiva política socialdemocrática.

As suas teses estão resumidas e comentadas aqui: Sociedade Rottweiler – Criação histórica do neoliberalismo

 

Quando o neoliberalismo encontra o fascismo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

O neoliberalismo é, sim, criador. Do que mesmo, na prática!? De má distribuição da renda, da destruição da proteção social dos mais pobres, da precarização da condição de vida dos trabalhadores – tudo isso é bem conhecido. Ainda que procure se justificar em nome da liberdade, o que ele procura mesmo é elevar a taxa de lucro do capital industrial e manter intocado e em processo de valorização o volumoso capital fictício acumulado nas últimas décadas. Mas a sua mais terrível – tem gente que gosta desse último termo e o emprega positivamente – criação não é bem conhecida. E ela precisa, sim, ser mostrada e bem mostrada.

Antes disso, note-se que esse agenciamento político é de certo modo sincero quando exalta a liberdade, mas se veja também que defende, em última análise, a liberdade do agente econômico, do homem como personificação do seu capital. E, nessa perspectiva, é preciso perceber que o neoliberalismo se move também no terreno da moralidade e tem uma pretensão tanto idealista quanto “idealista”.   

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Perspectivas da economia mundial para 2020

Como mensagem de fim de ano e começo de outro, este blog publica dois artigos de Oscar Ugarteche e Alfredo Ocampo. Eles tratam das perspectivas da economia mundial para 2020.

O ano de 2019 foram bem complicados para vários países vistos de vários ângulos: crescimento econômico; coesão social; integração internacional e crise política. Ao longo do ano, as principais organizações internacionais reduziram a previsão de crescimento para a maioria das economias, como resultado de fatores que vêm surgindo há alguns anos: deterioração das relações comerciais, altos níveis de dívida, concentração de renda, fluxos migratórios, racismo e uma queda no investimento produtivo.

Espera-se que a tendência geral da economia mundial continue em ritmo lento na maioria das economias, com o claro contraste das economias asiáticas que continuarão a crescer três vezes mais rápido que o Ocidente, o que poderia ser afetado principalmente pelos protestos em Hong Kong e Índia. Para as economias avançadas, o prognóstico é cinzento, porque os problemas da União Europeia não terminam com a saída do Reino Unido.

O primeiro texto se encontra aqui: Perspectiva da economia mundial para 2020
O segundo texto, por sua vez: Estamos próximos de uma recessão nos Estados Unidos