Titãs no capitalismo contemporâneo

Autores: Benjamin Braun [1] e Adrienne Buller [2]

A ascensão das gestoras de ativos

Em meados de outubro de 2021, a BlackRock revelou os resultados obtidos até o terceiro trimestre que ali se encerrava: a gigante da gestão de ativos anunciou, então, que tinha quase US$ 10 trilhões em ativos sob gestão. É um grande montante já que se mostra “aproximadamente equivalente a todas as indústrias globais de fundos de cobertura (hedge funds), “participação privada” (private equity) e capital de risco, combinadas”. Considerando que essa empresa quebrou a marca de US $ 1 trilhão em 2009, vê-se que obteve um aumento de quase dez vezes em apenas alguns anos

Desde a crise financeira de 2008, testemunha-se a ascensão dessa indiscutível superpotência de capital acionário. A BlackRock, embora excepcional, não está sozinha. Ela tem como rival mais próxima, a Vanguard. Ora, essas duas empresas controlam quase US$ 20 trilhões em ativos, tendo uma participação de mercado combinada de mais de 50% no mercado em expansão dos fundos negociados em bolsa (Exchange Traded Funds ou ETFs[3]). E elas não são apenas grandes – elas são “universais” – pois controlam grandes participações em todas as empresas, classes de ativos, setores e geografias da economia global.

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A economia neoclássica é incapaz de compreender a politica tarifária de Trump

O texto em sequência aponta para “a incapacidade da economia convencional de explicar a desigualdade doméstica e a competição internacional entre as nações” e, assim, a política tarifária de Trump. A perspectiva dessa crítica, contudo, não parecer ser a dos países subjugados. De qualquer modo, ela admite implicitamente que as relações entre países portam contradições, as quais se manifestam como interações que visam a cooperação e/ou o conflito.

Autor: Branko Milanovic

Blog do autor – 19 de maio de 2025 – Título original: Nothing (meaningful) to say.

Em um excelente artigo recente “Guerra e política internacional” (de acesso livre), John Mearsheimer apresenta uma versão sucinta da teoria realista das relações internacionais, aplicada ao mundo multipolar atual. Ele se concentra na existência inevitável da guerra devido à forma como o sistema internacional está estruturado: vem a ser uma anarquia em que nenhum país desfruta do monopólio do poder semelhante ao que o Estado tem na política interna; eis que nele não há  uma instância capaz de impor o cumprimento das regras.

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O projeto de lei fical “grande e bonito” de Donald Trump

Autor: Michael Roberts[1] – The next recession blog – 25/05/2025

A Câmara dos Deputados, a câmara baixa do Congresso dos EUA, na qual o Partido Republicano tem uma pequena maioria, aprovou as propostas de orçamento do governo do presidente Donald Trump.  Trump o chama de “The big, beautiful bill”. 

Se aprovado, esse projeto estenderia os cortes abrangentes de impostos para os ricos – e especialmente para os mais ricos –, os quais foram aprovados em 2017, durante o primeiro mandato presidencial de Trump. O “belo projeto” de lei também faria grandes reduções no financiamento do seguro saúde (Medicaid), assim como no programa de ajuda alimentar (Food stamps), os quais visam suprir carências de indivíduos e famílias de baixa renda. E, claro, ele também propõe cortes nos subsídios fiscais para energia renovável (drill baby, drill, como costuma entoar).

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Matando o futuro da civilização

Autor: Paul Krugman – Blog do Substack – 14 de maio de 2025

Podemos estar perdendo nossa última e melhor chance de pôr limites nas mudanças climáticas

No último dia 12 de maio, os republicanos da Câmara divulgaram as partes finais de sua proposta de lei tributária e orçamentária – trata-se, para quem leu, de material para pesadelos. Como documenta Bobby Kogan, do Center for American Progress, o projeto de lei imporia os enormes cortes no Medicaid e no SNAP (Supplemental Nutrition Assistance Program) – que substituiu o antigo programa anteriormente conhecido como vale-refeição –, os maiores da história. Milhões de americanos de baixa renda perderiam a cobertura de saúde; milhões passariam fome. E muitos dos que sofreriam mais seriam as crianças das mais famílias pobres.

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Cortando o Estado, mas mantendo a Segurança

Autor: Pablo Pryluka [1]- Argentina sob a motosserra de Milei

A ascensão de Javier Milei à presidência da Argentina veio com todos os tipos de promessas de reparação econômica, política e cultural. Em um discurso de campanha, no período que antecedeu as eleições de outubro de 2023, Milei afirmou que, caso seu partido, La Libertad Avanza, chegasse ao poder, “a Argentina poderia alcançar padrões de vida semelhantes aos da Itália ou da França em quinze anos. Se você me der vinte anos”, continuou ele, “a Alemanha” será alcançada. E se você me der trinta e cinco anos, os Estados Unidos serão alcançados.

Quando ele de fato assumiu o cargo em dezembro daquele ano, ele o fez com uma agenda política ousada, mas com pouco apoio do Congresso. La Libertad Avanza conquistou apenas 15% dos assentos na Câmara de Deputados e 10% no Senado, ambos dominados por peronistas, de um lado, e Juntos por el Cambio, a coalizão que levou Mauricio Macri à presidência em 2015, do outro. As promessas foram grandes, mas, embora vitoriosa, Milei teve um espaço apertado para manobrar. 

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Sobre as origens do dinheiro

Autor: Michael Hudson [1]Counterpunch – 7 de março de 2025

O final do século XIX viu uma linhagem de economistas, principalmente alemães e austríacos, criar uma mitologia sobre as origens do dinheiro, que ainda é repetida nos livros didáticos de hoje. Para eles, o dinheiro se originou apenas na forma de mais uma mercadoria que era trocada; o metal foi a mercadoria preferida porque não é perecível (e, portanto, é passível de ser guardado), pode ser padronizado (apesar da possibilidade de fraude se não for cunhado), podendo, ademais, ser facilmente divisível. Supõe-se, assim, que a prata foi usada em pequenas trocas de mercado, o que é irreal, dado o caráter grosseiro das balanças antigas, as quais era muito imprecisas para pesos de alguns gramas.[1]

Essa mitologia não reconhece que o governo possa ter desempenhado qualquer papel como inovador, patrocinador ou regulador monetário, ou ainda como entidade que dá valor ao dinheiro ao aceitá-lo como um veículo para pagar impostos, comprar serviços públicos ou fazer contribuições religiosas. Também é minimizada a função do dinheiro como padrão de valor para denominar e pagar dívidas.[2]

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Declinio e queda do dólar?

Dando continuidade ao esforço de entender a política econômica internacional do governo Trump, publica-se aqui um artigo que põe em dúvida os resultados que supostamente pretende atingir. Ao invés de tornar “a América grande de novo”, essa política pode levar, segundo o autor, ao aprofundamento do declínio do império norte-americano. Será?

Autor: Jeffrey Frankel [1]Project Syndicate – 20 de março de 2025

A desvalorização do dólar e o domínio do dólar não são necessariamente mutuamente exclusivos. Mas a abordagem para enfraquecer o dólar que o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, está considerando significaria quase certamente o fim do reinado do dólar americano como moeda internacional dominante.

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Tarifas comerciais como política econômica: um debate

Autor: Michael Roberts – 02/08/2025

Michael Pettis é professor americano de finanças na Guanghua School of Management da Universidade em Pequim, e membro sênior não residente do Carnegie Endowment for International Peace. Ele se tornou uma fonte de mídia popular sobre a economia da China, mas também sobre o comércio global e as tendências de investimento.

Na esteira do anúncio de Donald Trump de aumentos de tarifas sobre as importações dos EUA de vários países, Pettis tem exposto a visão contra o consenso da economia convencional, sustentando que as tarifas às vezes podem ser benéficas para um país e até mesmo para a economia mundial.

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Captura e produção de valor na economia mundial

 Autor: Tomás N. Rotta [2]

Introdução: análise marxista das cadeias globais de valor, 2000-2014 [1]

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 e a subsequente mudança da manufatura dos Estados Unidos e da Europa para a Ásia remodelaram drasticamente as cadeias de valor globais. Essa nova fase da globalização, impulsionada pela ascensão da China, resultou em uma desindustrialização significativa nos Estados Unidos e na Europa, com impactos profundos nos salários, emprego, política e distribuição de renda. Nesse contexto, o presente estudo fornece uma nova análise empírica de como o valor econômico é produzido e distribuído na economia global.

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Do neofeudalismo ao capitalismo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Faz-se nessa nota um comentário sobre um escrito de Jodi Dean em que essa autora do campo crítico explica por que pensa que o modo de produção capitalista está se transformando num novo outro que denomina de neofeudalismo. O seu artigo From neoliberalism to neofeudalism recém-publicado [2] se mostra bem apropriado como objeto de crítica porque está construído com base numa ingenuidade metodológica.

Eis que apresenta essa tese partindo de uma definição de capitalismo:

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