Resenha: O código do capital

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

O objetivo deste escrito é fazer uma resenha do livro O código do capital: como a lei cria riqueza e desigualdade [2] de Katharina Pistor, professora de direito da Universidade de Columbia. Mesmo tendo a pretensão de fazer leitura amigável do escrito, não é possível superar uma dificuldade: ela aborda essa potência que move a sociedade moderna não como economista – o que seria normal dada a sua especialização –, mas também sem ter em conta o que a tradição de economia política pensa sobre ela.

Como o título já mostra bem, a sua preocupação central é a elevação da desigualdade de renda e riqueza que vem ocorrendo desde os anos 1980; eis o dado que ela mesma apresenta logo no início do livro, o qual foi retirado do World Inequality Report de 2018: entre 1980 e 2017, 50 por cento população mundial recebeu apenas 12 por cento da riqueza criada nesse período; por outro lado, um por cento capturou 27 por cento. Para explicar essa tendência recente, ela menciona que as explicações dos economistas são bem insuficientes.

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China destrona EUA como lider mundial em pesquisa

Autor : Imran Khalid [1]SinPermiso06/04/2025

Na última década, houve uma profunda mudança no mundo acadêmico global que alterou fundamentalmente a hierarquia da pesquisa científica. Antes considerada um ator periférico na ciência de ponta, a China agora subiu para a vanguarda da excelência acadêmica. Os últimos rankings do Nature Index revelam uma tendência impressionante: nove das dez maiores instituições de pesquisa do mundo são agora chinesas, com a Universidade de Harvard sendo a única presença ocidental no alto escalão.

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O dilema do “império” americano

Trump quer que o mundo subsidie o império dos EUA

Jomo Kwame Sundaram [1] Ideas 23 de abril de 2025

O principal conselheiro econômico de Donald Trump afirmou há algum tempo que o seu presidente enceta uma política tarifária com o objetivo de “persuadir” as outras nações a pagar aos EUA o ônus de seu império global na suposição de que ele é benéfico para todas as nações.

O economista geopolítico Ben Norton [2] foi um dos primeiros a destacar a importância do briefing do presidente do Conselho de Assessores Econômicos de Trump, Stephen Miran, no Instituto Hudson.

O Instituto é financiado por bilionários como o czar da mídia Rupert Murdoch, que controla a Fox News, o The Wall Street Journal e outros meios de comunicação conservadores.

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América: um novo paraíso fiscal?

Joseph Stiglitz [1] – Social Europe/Project Syndicate – 30 de abril de 2025

Trump está transformando a América em um paraíso fiscal, segue desmantelando salvaguardas e alimentando a desigualdade por meio da desregulamentação global.

Donald Trump está rapidamente transformando os Estados Unidos no maior paraíso fiscal da história. Basta observar quatro ações: a) a decisão do Departamento do Tesouro de se retirar do regime de transparência que compartilha as identidades reais dos proprietários das empresas; b) a retirada do governo das negociações para estabelecer uma Convenção das Nações Unidas sobre Cooperação Tributária Internacional; c) a recusa em aplicar a Lei de Práticas de Corrupção no Exterior; d) a desregulamentação maciça de criptomoedas.

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Uma nova ordem mundial?

Steve Maher e Scott Aquanno – Sidecar – 10 de abril de 2025

Em 2 de abril, Donald Trump anunciou a imposição de tarifas abrangentes a países de todo o mundo, atingindo aliados e inimigos com enormes barreiras comerciais, no que equivaleu a um ataque direto à ideologia do livre comércio. Uma tarifa de 34% seria imposta à China, 20% à União Europeia, 49% ao Camboja, 48% ao Laos, 46% ao Vietnã e assim por diante: números elaborados de acordo com uma fórmula matemática simplificada, na qual o déficit comercial de mercadorias dos EUA com qualquer país era dividido pelo valor das importações dos EUA para esse país, e esse número era então dividido pela metade.

O Wall Street Journal lamentou que Trump estivesse “explodindo o sistema de comércio mundial” e voltando à “velha erUma a do protecionismo comercial”. Para o Financial Times, foi “um ato surpreendente de automutilação”, que “derrubaria a ordem econômica global e mancharia a prosperidade dos EUA”. Os investidores logo entraram em colapso. Os principais índices de ações despencaram e cerca de US$ 10 trilhões em valor de mercado sumiram.  

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Quem pode ser chamado de rentista?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Introdução

O livro de Brett Christophers (já examinado em outro escrito), que chama o capitalismo de rentista[2], tem, como o próprio título já mostra, uma tese sobre o desenvolvimento contemporâneo desse sistema de produção, repartição e consumo. Para chegar a essa conclusão, ele se baseia numa distinção entre produzir para o mercado e possuir direito de obtenção de renda na economia mercantil. Contudo, bem examinada, esse entendimento não se sustenta teoricamente – mesmo que o livro seja bem interessante como uma expressão do rumo histórico recente desse sistema.   

É, pois, importante ver como ele põe essa distinção examinando um caso particular: a Arqiva, uma grande empresa britânica provedora de serviços de telecomunicação, “primariamente, não extrai, produz ou provê”, ou seja, não cria mercadorias, pois “o crucial em seu modelo de negócio não consiste em fazer algo; ao invés, consiste em ter”.  Eis que, segundo ele, ela não está na atividade de “extração de materiais (setor primário), de produzir industrialmente (setor secundário) ou de prover serviços (setor terciário)”; vale-se supostamente das demandas de consumidores e de outras empresas para extrair renda.

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Do anarcocapitalismo à auteridade

Michael Roberts – The next recession blog – 15/04/2025

No dia 14 de abril, o FMI anunciou que concordou em emprestar ao governo argentino Milei mais US$ 20 bilhões (além das dívidas existentes contraídas no passado) para ajudar o governo a cumprir suas obrigações de dívida e restaurar as suas reservas cambiais em rápida queda. O acordo de empréstimo liberará US$ 12 bilhões iniciais, com mais US$ 3 bilhões chegando no final do ano.  

O governo diz que deve receber US$ 28 bilhões somente em 2025, incluindo US$ 15 bilhões de dinheiro do FMI, US$ 6 bilhões de outros credores multinacionais, US$ 2 bilhões de bancos globais e US$ 5 bilhões da extensão de um swap cambial com a China. Milei se gabou de que “o que o seu governo terá uma montanha de dólares“; eis que tema meta de dobrar as reservas cambiais brutas para US$ 50 bilhões.

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Economia do lado da oferta

Autor: Martijn Konings – Sidecar – 24 janeiro 2025

O renascimento da “economia do lado da oferta” keynesiana e uma política industrial proativa sob o governo Biden pareciam marcar uma mudança significativa. Os neoliberais há muito insistiam que os governos deixassem as forças da globalização do mercado se desdobrarem, acomodadas pela garantia de um ambiente não inflacionário por meio de uma política fiscal e monetária austera.

Mas a crise financeira global e o crescimento dramático do apoio governamental aos mercados financeiros que se seguiram sugeriram que os mercados não eram tão suavemente autorregulados ou “livres” da autoridade pública como se afirmava. As medidas de emergência implementadas durante a pandemia, que ampliaram a rede de segurança financeira muito além do setor bancário, impulsionaram essas ideias para o mainstream.

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O casino global pode explodir?

Escrevendo no dia 10 de abtil, após a queda nos precos dos titulos do tesouro americano, a autora desta postagem se mostrou alarmada. Pouco depois voltou ao normal. Será que o pior já passou? Eis uma pergunta que não tem uma resposta fácil. Leia-se, portanto, o que ela tem a dizer. De qualquer modo, o preço dos titulos do tesouro americano cairam de novo ontem diante das ameaças de demissão que pesam sobre o presidente do Fed.

Autora: Ann Pettifor [1] – Sin Permiso – 19/04/2025

É preciso considerar os perigos do Tesouro dos EUA que figura aogra como uma “fábrica de garantias” de baixa qualidade. Pois, outra falha do sistema bancário paralelo poderá explodir o que chamo de cassino global? E qual será o impacto nas famílias, empresas e governos?

O mercado de títulos dos EUA parece estar afundando, como mostra o gráfico da Bloomberg abaixo. É preciso, pois, parar de falar apenas sobre comércio e começar a falar sobre títulos do Tesouro dos EUA.

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Cortando o Estado, mas mantendo a Segurança

Autor: Pablo Pryluka [1]- Argentina sob a motosserra de Milei

A ascensão de Javier Milei à presidência da Argentina veio com todos os tipos de promessas de reparação econômica, política e cultural. Em um discurso de campanha, no período que antecedeu as eleições de outubro de 2023, Milei afirmou que, caso seu partido, La Libertad Avanza, chegasse ao poder, “a Argentina poderia alcançar padrões de vida semelhantes aos da Itália ou da França em quinze anos. Se você me der vinte anos”, continuou ele, “a Alemanha” será alcançada. E se você me der trinta e cinco anos, os Estados Unidos serão alcançados.

Quando ele de fato assumiu o cargo em dezembro daquele ano, ele o fez com uma agenda política ousada, mas com pouco apoio do Congresso. La Libertad Avanza conquistou apenas 15% dos assentos na Câmara de Deputados e 10% no Senado, ambos dominados por peronistas, de um lado, e Juntos por el Cambio, a coalizão que levou Mauricio Macri à presidência em 2015, do outro. As promessas foram grandes, mas, embora vitoriosa, Milei teve um espaço apertado para manobrar. 

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