Trabalho imaterial e fetichismo: uma crítica a Negri e Hardt

Autor: Eleutério F. S. Prado[1]

No livro Império[2], Hardt e Negri definem trabalho imaterial como trabalho que produz, entre outras coisas, mas de uma maneira especial, serviços: “Como a produção de serviços não resulta em bem material e durável, definimos o trabalho envolvido nessa produção como trabalho imaterial – ou seja, trabalho que produz um bem imaterial, como serviço, produto cultural, conhecimento ou comunicação”[3]. Ao fazê-lo, eles ficam além ou aquém de Marx?

Em conseqüência, de modo preliminar, deve ficar claro que esses dois autores, ao empregarem o termo trabalho imaterial, estão se referindo ao trabalho que produz bens ou utilidades – e não ao trabalho abstrato, no sentido de Marx, que é uma abstração e  substância do valor. Obscuras permanecem, porém, as razões e as conseqüências dessa opção teórica.

Em O capital, esse último autor menciona uma certa preferência encontrada em textos econômicos por tratar da produtividade do trabalho no modo de produção capitalista fazendo referência ao conteúdo material do trabalho. Hardt e Negri atribuem uma enorme importância ao que chamam de trabalho imaterial. Por isso, crêem importante fazer diferença entre trabalho que produz coisa útil e trabalho que gera imediatamente serviço útil.

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O conceito de totalidade na crítica do capitalismo

Autora: Sandrine Aumercier[1]

À medida que se aproxima de seus limites internos e externos, a mercantilização do mundo tenta relançar a acumulação de capital de forma cada vez mais enfurecida, como se estivesse diante de uma máquina que está parada, mas que deve continuar funcionando a todo custo.

A violência desse esforço, que não para diante de qualquer esfera da existência social que quer anexar, só é igualada pelo inevitável esgotamento de suas fontes de movimento. Diante desse horizonte totalitário, a teoria crítica que pretende compreender esse funcionamento não pode almejar menos do que abraçar o nível da totalidade.

Voltando-se para esse propósito, ela tem de desafiar a fobia daqueles que diagnosticam sempre alguma tendência totalitária escondida no próprio conceito de totalidade. Mas também é preciso renunciar ao fruto venenoso dos amanhãs cantados a que o conceito de totalidade parece convidar.

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Sujeito em Lacan (II)

Eleutério F. S. Prado [1]

Na primeira parte deste artigo mostrou-se que a concepção de sujeito deste mestre psicanalista advém de uma fundação primeira, a qual se descreveu como homo alienatis. Como já se procurou mostrar em outro artigo desta safra de 2023, essa figura teórica está presente, de modo implícito, na economia política e na economia positiva sob a aparência do homo oeconomicus. A primeiro homo é a essência oculta do segundo homo. Agora, nessa segunda parte, pretende-se mostrar um outro aspecto desse sujeito tal como pensado por Lacan: posta também como uma fundação primeira, esta outra merece ser chamada de homo insaciabili. Ou seja:

O pensamento de Lacan, como se sabe, está enraizado no estruturalismo que vê a linguagem como um sistema cujas “leis” se impõe supostamente àqueles que nele adentram e que dele participam – não, portanto, como um complexo de signos criado do socialmente, portador de contradições, cujo envolvimento torna possível tanto a alienação quanto a desalienação.[2] A linguagem possibilita o assujeitamento do indivíduo social, mas também a crítica das ilusões forjadas socialmente com a sua mediação para mantê-la, passo primeiro para chegar à ação coletiva que pode realizar o sujeito enquanto tal.

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Sujeito em Lacan (I)

Eleutério F. S. Prado[1]

O objetivo desta nota consiste em debater um pouco, da perspectiva da crítica da economia política, a noção de sujeito em Lacan com base principalmente no livro O sujeito lacaniano entre a linguagem e o gozo de Bruce Fink, publicado em 1995, em inglês, e em 1998, em português.[2] Antes de tudo, como acentua esse autor, Lacan concebe o sujeito como falta-a-ser, ou seja, por meio de um princípio primeiro que o nega enquanto tal: “o sujeito” – diz ele – “fracassa em se desenvolver como alguém, como um ser específico; pois, no sentido mais radical, ele é um não-ser”.

Lacan, portanto, ao invés de pensar o humano como um ser que está atualmente em estado de alienação, mas que poderá vir a ser sujeito em certas condições, ele o funda como um homo alienatis, como um ser que não pode superar esse estado de alienação a não ser como uma mera faísca – tal como se mostrará mais à frente – mas também, enfim, como homo oeconomicus. Um esclarecimento melhor desse impasse lacaniano requer que se aprofunde uma comparação.

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Zizek pergunta: onde está a ruptura metabólica?

Não está aí? Eis, pois, uma pseudo questão.

Publica-se aqui, em sequência, um artigo de Slavoj Žižek que foi divulgado pelo sítio LavraPalavra, em 2020. Eis que ele ganhou importância diante o agravamento da crise climática e, num plano ainda mais geral, da crise ecológica. Nesse artigo, o filósofo esloveno faz uma crítica ao livro Kohei Saito, O ecossocialismo de Karl Marx. E o faz do ponto de vista de seu neohegelianismo lacaniano.

O seu ponto principal consiste em argumentar que o conceito de ruptura não é adequado para tratar do problema. Segundo Žižek, essa noção pertence ao materialismo dialético; eis que, pensando ainda deste modo, se acolhe a separação entre sociedade e natureza, considerando essa última como uma fonte de riqueza, ou seja, como uma base que permite o desenvolvimento das forças produtivas.

O que Saito teria feito em seu livro não teria passado de uma inversão do produtivismo original em um antiprodutivismo. Daí que ele chame a sua posição diante do problema historicamente criado pelo desenvolvimento do capitalismo de “comunismo descrescimentista”. Žižek, por seu turno, parece propor que uma transformação ocorreu já na ordem simbólica, pois, agora, a natureza está totalmente e irreversivelmente humanizada É assim que ele termina o artigo: “não há retorno a um sentimento autêntico de nossa unidade com a natureza: a única maneira de enfrentar os desafios ecológicos é aceitar completamente a desnaturalização radical da natureza”.

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É Žižek um intelectual sério?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Aviso: ainda que seja bem importante encontrar uma resposta, a pergunta posta pelo título não será aqui respondida. Pois, esta nota apenas visa reapresentar criticamente um artigo escrito por esse autor, o qual também ele escolheu denominar interrogativamente: É o trabalho abstrato universal? O objetivo consiste, outrossim, em opor uma pequena à sua provocação maior porque ela própria suscita esse tipo de dúvida. A reflexão necessária para respondê-la que fique, pois, com cada um. Mas que se examine também, ao mesmo tempo, por justiça, a seriedade do autor da presente nota.

A figura pública do autor de Menos que nada – Hegel e a sombra do materialismo dialético, como bem se sabe, levanta outros questionamentos: como se deve classificar melhor o Sr. Slavoj? Seria o Sr. Žižek um filósofo hegeliano, um crítico cultural pós-moderno, um leninista de escritório, um novo gênio iluminista ou mesmo um agitador contrarrevolucionário? Ora, essa espécie de confusão não seria produzida, propositalmente, por ele mesmo? Afinal, não se vive hoje na sociedade do espetáculo?

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A experiência analítica e seu futuro

Autor: Pierre Fougeyrollas

A nossa crítica seria incompleta se não focalizasse também a experiência analítica tal como é concebida por Lacan. No centro desse modo de interação, ele coloca o processo de transferência, o que não nos parece errado.

De fato, à Freud parecia que a manifestação da transferência constituía o ponto de inflexão da cura. Pois o paciente literalmente permanece um paciente enquanto o narcisismo neurótico o impede de investir efetivamente a sua libido num outro. O amor de transferência é justamente o renascimento de uma capacidade de investimento objetal que se dirige a um outro privilegiado: o analista. E, a partir daí, abre-se uma nova fase em que o nó neo-edipiano da transferência pode ser desatado, dando assim, gradualmente, à libido um mínimo de fluidez e margem de manobra.

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A análise freudiana do “ego”; o jogo do “eu” de Lacan

Autor: Pierre Fougeyrollas

Entre 1954 e 1955, Lacan reivindicou ter certa erudição filosófica diante de uma plateia de analistas pouco conhecedores dessa área. Com exceção de elementos clericais inspirados num anti-materialismo extremo. Explicou a ela que a concepção freudiana do ego englobava uma herança que antecedera a descoberta da psicanálise. Enfatizou, ademais, as especulações sobre um envelhecimento do freudismo como justificativa para desenvolver a sua teoria regressiva do sujeito, no sentido filosófico do termo.

Nessa perspectiva, postulou: “A obra metapsicológica de Freud depois de 1920 foi mal lida, foi, ademais, interpretada de forma delirante pela primeira e pela segunda geração depois de Freud – por pessoas insuficientes preparadas“. Pode-se supor, diante dessa consideração, que o autor esteja dando continuidade à sua crítica de um freudismo achatado e americanizado que esteve no centro de seu Discurso de Roma. Mas, não! Ao fim e ao cabo, é o próprio Freud que ele ataca.

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O problema da sexualidade: de Freud à Lacan

Autor: Pierre Fougeyrollas[1]

Antes de tratar de forma mais precisa e mais aprofundada a questão do sujeito, peça central do que Lacan chama de seu sistema, é necessário examinar com certa atenção sua teoria da sexualidade. Ora, essa teoria é resultado direto da interpretação linguística do inconsciente freudiano, algo que já discutimos e que serve de base para a sua doutrina do sujeito.

Aparentemente, esse autor é fiel à descoberta freudiana do conteúdo sexual do inconsciente. Porém, ele não diz que “a verdade do inconsciente é – uma verdade insustentável – a realidade sexual?” Mas, por que, então, essa verdade seria insustentável?

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A metapsicanálise de Jacques Lacan

Autor: Pierre Fougeyrrolas[1]

Ao republicar, mais uma vez, sua tese de doutorado de 1932 sobre a psicose paranoide em sua relação com a personalidade, Lacan nos permite compreender melhor sua trajetória intelectual.

A tese, na verdade, mostra que seu autor ainda não tinha, naquele momento, o sistema que mais tarde seria o seu próprio. A dissertação revela um certo ecletismo em que conceitos e temas conceituais de várias tradições psiquiátricas, de várias correntes psicológicas e, finalmente, da psicanálise são justapostos – não organicamente articulados. Em suma, apresenta uma imagem de Lacan antes do lacanismo e levanta a questão do que sobreviveu desse velho universo mental no sistema atual oferecido como a verdadeira interpretação da obra freudiana, mas também como sua retificação.

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