Ser de direita em política

Autor: Matthew McManus [1] (Primeira Parte)

O que significa ser de diteita em política?

É a adesão que define a condição da sociedade e que constitui a sociedade como algo maior do que o “agregado de indivíduos”, tal como a mente liberal a percebe. Os conservadores são céticos em relação às reivindicações feitas em nome do valor do indivíduo, se elas entram em conflito com a fidelidade necessária à manutenção da sociedade. E é assim,  mesmo se se deseja que o Estado (no sentido do aparato do governo) mantenha um controle bem frouxo das atividades dos cidadãos enquanto indivíduos. Pois, a individualidade é também um artefato, uma conquista que depende da vida social das pessoas.

(Roger Scruton – O Significado do Conservadorismo)

A posição de direita na história moderna

Desde pelo menos a eleição de Trump em 2016, a questão do que constitui a direita em política – e o que a distingue do liberalismo e do socialismo – ganhou importância renovada. Na direita política [norte-americana], o termo “liberal” tem sido frequentemente usado em sentido pejorativo, como se fosse um insulto – eis que tem apenas menos veneno do que o termo “socialista”. No entanto, muitos intelectuais proeminentes da direita política (…) orgulhosamente se identificam como “liberais clássicos”, especialmente quando fazem discursos inflamados sobre alguma suposta doutrinação de estudantes universitários.

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O neoliberalismo morreu?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

A questão é bem controversa. Segundo Nancy Fraser, o neoliberalismo não morreu; contudo, passou da fase progressista para uma fase reacionária (veja-se a nota Depois do neoliberalismo). Já para Branko Milanovic o mundo está entrando em uma nova era, mas o neoliberalismo não chegou ao fim. Segundo ele, os países ricos adotam agora uma política com dupla face:  abandonam a globalização neoliberal internacionalmente, mas continuam a promover um projeto neoliberal internamente (veja-se a nota O que vem depois da globalização?).

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A desigualdade nos Estados Unidos (Parte II)

Autor: Paul Krugman – A primeira parte está aqui.

A importância do poder do trabalhador [1]

Após a Segunda Guerra Mundial, as disparidades de renda na América permaneceram relativamente estreitas por mais de uma geração. Alguns eram ricos e muitos eram pobres, mas não havia a extrema desigualdade, a fragmentação econômica e a guerra de classes tal como veio a existir depois.

Então, começando por volta de 1980, a desigualdade aumentou, chegando a níveis incrivelmente altos tal como se vê atualmente. Como ficou documentado na postagem anterior (Parte I), não apenas o 1% superior na distribuição de renda se afastou dos 99% restantes, mas dentro do 1% superior o 0,1% superior, o 0,01% superior e o 0,001% superior também se afastaram daqueles que ganham menos do que eles.

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A desigualdade nos Estados Unidos (Parte I)

Autor: Paul Krugman

Por que os ricos ficaram cada vez mais ricos?

Entre a Segunda Guerra Mundial e a década de 1970, as disparidades de renda na América do Norte eram relativamente estreitas. Algumas pessoas eram ricas e muitas eram pobres, mas a desigualdade geral entre os americanos em termos de riqueza, renda e status era baixa o suficiente para que o país tivesse uma sensação de prosperidade compartilhada. As coisas são muito diferentes hoje, pois a sociedade americana é assolada por extrema desigualdade, fragmentação econômica e guerra de classes.

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Jardim, enxame, fábrica

Autor: Quinn Slobodian [1]08/06/2025

Os pólipos confundiram os teóricos políticos do século XVIII. As criaturas que coletivamente compõem os recifes de coral atuavam de um modo que desafiava as expectativas relativas ao desígnio divino e à hierarquia estabelecida do reino animal. Como esses organismos tão inferiores poderiam criar estruturas tão enormes, as quais pareciam ser o produto especial de uma única mente?

 Como criaturas microscópicas poderiam entravar a rota dos navios que se moviam por meio das forças mais poderosas da Terra, quebrando seus cascos e os forçando a contornar as metrópoles de pólipos que se elevavam como ilhas? Não é surpreendente que o antropólogo e anarquista James C. Scott tenha feito, mais tarde, uma analogia entre pólipos e camponeses. “Assim como milhões de pólipos antozoários criam, voluntária ou involuntariamente, um recife de coral”, escreveu ele, “milhares e milhares de atos individuais de insubordinação e evasão criam também seu próprio recife político ou econômico”.

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Liberdade para o capital, mas não para as pessoas

Autor: Mathias Schmelzer [1]

Introdução ao livro apresentado na figura acima

Faça amor, não invista’, ‘livre-se dos banqueiros’, ‘o capitalismo não está funcionando’. Esses foram alguns dos slogans que, repetidos pelos manifestantes, ecoaram na cúpula do G20 de abril de 2009, em Londres. Com milhares de pessoas participando das manifestações, os confrontos com a polícia deixaram um manifestante morto. Contudo, um acampamento climático de mil pessoas foi levantado em Bishopsgate; elas estavam ali porque se opunham ao comércio de carbono. Ademais, uma agência do Royal Bank of Scotland foi saqueada. De qualquer modo, viu-se naquele momento uma das manifestações mais conflituosas que eclodiram na onda global de agitação desencadeada pela crise financeira.

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O povo do capital (II)

Autor: Quinn Slobodian

O ópio social e o animal humano

Charles Murray expandiu esse tema em um artigo que circulou na reunião da Sociedade Mont Pelerin em Cancún, México, em 1996. Eis o que então disse: já que “uma reforma liberal radical… agora parece potencialmente ao alcance nos Estados Unidos”, os neoliberais precisavam pensar sobre o seguinte ponto: “como um estado liberal pode lidar com o sofrimento humano que persiste depois que as políticas liberais passam a vigorar”.

Murray estava sem dúvida bem ciente do processo enormemente perturbador que estava sendo desencadeado pela terapia de choque econômico na Rússia pós-soviética. Por isso, em seu escrito, ele citou com aprovação a analogia de Herbert Spencer da sociedade a um ser humano viciado em drogas: “a transição da beneficência estatal para uma condição saudável de autoajuda e beneficência privada deve ser vista como uma transição de uma vida comedora de ópio para uma vida normal – dolorosa, mas corretiva. “

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O povo do capital (I)

Autor: Quinn Slobodian [1] [2]

Juntos, estamos promovendo um novo fusionismo que argumenta pela existência, como Mises já sabia, de vínculos férreos entre cultura, economia e política. Lew Rockwell

Em 2006, o formulador de ideias Charles Murray, de longa data um defensor incansável de uma ciência racial revivida, fez o discurso principal em um “jantar de liberdade” que marcava o vigésimo quinto aniversário do centro internacional dos laboratórios de ideias neoliberais, a Atlas Economic Research Foundation. Membro da Sociedade Mont Pelerin (SMP) desde 2000, Murray usou seu tempo para apresentar a desgastada história sobre como Ronald Reagan e Margaret Thatcher criaram a oportunidade para que ocorresse a difusão das ideias de Friedrich Hayek, Ludwig von Mises e Milton Friedman.

Eis que essa explosão fora auxiliada pelas fundações Cato, Heritage e Hoover, assim como por dezenas de outros laboratórios de ideias ao redor do mundo, os quais a Atlas vinha promovendo. Pensando no futuro, Murray perguntou o que eles estariam discutindo daqui a vinte e cinco anos numa reunião da Atlas, a ser realizada em 2031, no seu quinquagésimo aniversário. Não seria a liberdade econômica, o livre comércio, o gênio do empresário ou qualquer um dos outros pontos salientes do roteiro neoliberal. Ele previu que eles falariam sobre ciência.

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O que vem depois da globalização?

Introdução IHU

O mundo está entrando em uma nova era. Os países ricos adotarão uma política dupla: abandonar a globalização neoliberal internacionalmente e promover um projeto neoliberal internamente

Depois de duas fases de globalização [1ª onda e 2ª + 3ª ondas no gráfico abaixo], “o mundo está entrando em uma nova era [indicada pela 2ª reversão no segundo gráfico em sequência] na qual os países ricos adotarão uma política dupla incomum: abandonar a globalização neoliberal internacionalmente e promover resolutamente um projeto neoliberal internamente”, afirma o economista Branko Milanovic.

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A discórdia se espalhou pelo mundo

Autor: Jomo Kwame Sundaram [1]

O presidente dos EUA, Donald Trump, deliberadamente semeou discórdia em todo o mundo na tentativa de refazê-lo para servir melhor aos supostos interesses americanos. Ele não cederá influência, muito menos poder e controle, a outras nações, muito menos a pessoas.

Acordo de Mar-a-Lago

O seu principal conselheiro econômico, Stephen Miran, ofereceu alguma justificativa para as tarifas de Trump, além de promover o seu plano “Acordo de Mar-a-Lago” para o renascimento imperial dos EUA. Mas mesmo que a maioria dos governos aceite participar, o dilema dos déficits dos EUA não será resolvido.

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