Uma crítica do materialismo simbólico de Jacques Lacan

A questão de saber o que é o materialismo parece às vezes fácil de resolver. Trata-se da posição filosófica que admite a existência de uma realidade exterior ao homem e que independe da sua subjetividade. Ora, desde que este “senhor” se tornou um ser social, a própria realidade passou a ser transformada coletivamente, não apenas materialmente, mas também “para ele” enquanto tal. Pois, a realidade não se configura para esse ser inteligente sem as simbolizações e, em especial, sem a linguagem natural que emprega diuturnamente, acordado ou mesmo dormindo. Como se sabe, como um véu, elas recobrem o real que continua subsistindo independentemente delas.

As palavras, entretanto, não estão coladas a referentes, como se deles fossem meras imagens. Diferentemente, as palavras se referem às coisas por meio do uso que delas se faz na prática social. As pessoas que participam da associação linguística que se chama sociedade, por sua vez, sabem usar a linguagem que a unifica de algum modo; eis que aprenderam as suas regras, assim como o modo de empregar as palavras, os seus limites referenciais, as distinções entre elas. É daí que surge uma questão perturbadora: como as significações são postas socialmente, teriam elas alguma objetividade ou seriam meramente subjetivas.

Essa questão se apresentou para os olhos cansados de apreender coisas difíceis, mas ainda curiosos, deste economista quando leu a introdução do primeiro capítulo do livro Elementos políticos do marxismo lacaniano de David Pavón-Cuellar (2014). Aí esse autor afirma que Jacques Lacan é, contra algumas de suas afirmações esparsas, um materialista que reivindica um “materialismo simbólico”, isto é, “um materialismo baseado numa teoria materialista da linguagem, de sua materialidade simbólica ou do significante em sua literalidade material” (2014, p. 21).

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