As tarifas de Trump em questão

Apresenta-se abaixo um artigo que contrapõe duas grandes teses sobre a atual política tarifária dos EUA. Primeiro, ele resume as explicações de Stephen Miran, um autor ligado ao atual governo dos EUA, as quais expõem supostamente a lógica implícita dessa política; em sequência, ele contrapõe essas teses à posição crítica mantida por Paul Krugman. Para tanto, o artigo apresenta a seguinte questão: “as tarifas de Trump são a resposta certa para reestruturar o sistema de comércio global?”. Para depois concluir que “a teoria econômica e as evidências históricas sugerem que não”.

Alberto Ortiz Bolaños [1] – Publicação do autor [2] – 18/02/205

Desde a campanha eleitoral dos Estados Unidos, Donald Trump tem falado repetidamente sobre questões relacionadas à sua agenda make America great again e agora, como presidente, ele está começando a agir. Além das políticas de imigração contra pessoas sem documentos, os elementos essenciais de sua agenda incluem uma política tarifária ligada às questões de segurança e às  ameaças contra o abandono do dólar como ativo de reserva.

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Do choque tarifário de Trump: por quê?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

As medidas tarifárias do governo Trump, assim como as dúvidas sobre quais seriam os seus reais objetivos, tem causado perplexidade.  Se se confia num escrito de Stephen Miran, que figura como presidente do Conselho de Assessores Econômicos do atual presidente dos EUA, o choque tarifário que está sendo implementado visa sobretudo reindustrializar a economia norte-americana. Pois, como disse Trump metaforicamente, “se não se tem aço, não se tem um país”.

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Declinio e queda do dólar?

Dando continuidade ao esforço de entender a política econômica internacional do governo Trump, publica-se aqui um artigo que põe em dúvida os resultados que supostamente pretende atingir. Ao invés de tornar “a América grande de novo”, essa política pode levar, segundo o autor, ao aprofundamento do declínio do império norte-americano. Será?

Autor: Jeffrey Frankel [1]Project Syndicate – 20 de março de 2025

A desvalorização do dólar e o domínio do dólar não são necessariamente mutuamente exclusivos. Mas a abordagem para enfraquecer o dólar que o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, está considerando significaria quase certamente o fim do reinado do dólar americano como moeda internacional dominante.

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Protecionismo e desequilíbrios comerciais

Neste artigo, Nick Johnson tenta combinar as teses de Nicholas Kaldor e Michael Pettis para justificar as tarifas como parte de um esforço para reequilibrar o comércio internacional atualmente desbalanceado principalmente em favor da China. Ele sugere, que as tarifas devem ser complementadas com políticas de renda. Nesse sentido, ele julga que o salário real deve aumentar na China, mas curiosamente não sugere que ele deve ser reduzido nos Estados Unidos. Ao fim e ao cabo, as suas sugestões parecem ingênuas já que não levam em conta, comparativamente, o desenvolvimento da produtividade do trabalho vis-à-vis a evolução dos salários reais nas últimas décadas e, assim, a evolução da lucratividade. Ora, diante dessa evolução, as perspectivas de lucratividade dos diferentes ramos da produção são cruciais.

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O plano mestre de Trump segundo Yanis Varoufakis

Publica-se em sequência um escrito de Yanis Varoufakis em que ele tenta encontrar uma racionalidade mais substantiva na política econômica de Donald Trump. Talvez seja apenas uma enormidade já que a sua tese não parece estar apoiada em documentos abalizados. Mesmo se provém de seu estilo altisonante, talvez ajude a compreender melhor essa política.

Autor: Yanis Varoufakis [1] – Sin Permiso [2] – 27/02/2025

Diante das medidas econômicas do presidente Trump, os seus críticos centristas oscilam entre o desespero e uma fé pungente de que seu frenesi tarifário desaparecerá. Eles assumem que Trump vai bufar até que a realidade revele a falsidade de seu raciocínio econômico. Eles não se deram conta do seguinte:  a imposição de tarifas feita por Trump faz parte de um plano econômico global sólido, mesmo que seja inerentemente arriscado.

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Os efeitos possíveis da política tarifária norte-americana

Autores: Adam S. Hersh e Josh Bivens

Introdução

Este artigo, buscando mostrar os efeitos econômicos possíveis das tarifas que podem ser impostas pelo atual governo norte-americano, responde a seis questões:

1ª) As tarifas podem ser usadas de forma eficaz para atingir certas metas inteligentes na formulação de políticas econômicas?

2ª) Tarifas altas e amplas podem corrigir o déficit comercial dos EUA ou repor o emprego na indústria?

3ª) As tarifas equivalem à formulação de uma política industrial para os Estados Unidos?

4ª) Quem “paga” as tarifas impostas às importações feitas pelos EUA?

5ª) Os formuladores de políticas podem pretender tornar as tarifas uma fonte significativa de receita para cobrir os gastos do governo?

6ª) É mais fácil e mais transparente cobrar tarifas do que usar outras formas de impostos?

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Guerra Rússia-Ucrânia: três anos depois

Autor: Michael Roberts – Fonte: The next recession blog – 24/02/2025

Ucrânia: uma catástrofe humana

Chegou-se já ao fim do terceiro ano da guerra Ucrânia-Rússia. Após três anos de guerra, a invasão da Ucrânia pela Rússia causou perdas impressionantes ao povo e à economia da Ucrânia. Existem várias estimativas do número de civis ucranianos e de baixas militares (mortes e feridos): 46.000 civis e talvez 500.000 soldados. As baixas militares russas são quase as mesmas. Milhões fugiram para o exterior e muitos outros milhões foram deslocados de suas casas na Ucrânia.

Uma avaliação ucraniana confidencial do início de 2024, relatada pelo Wall Street Journal, colocou as perdas de tropas ucranianas em 80.000 mortos e 400.000 feridos. De acordo com dados do governo, no primeiro semestre de 2024, três vezes mais pessoas morreram na Ucrânia do que nasceram, informou esse jornal. No ano passado, as perdas ucranianas foram cinco vezes maiores do que as da Rússia, com Kiev perdendo pelo menos 50.000 militares por mês.

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As tarifas de Trump vão causar apenas uma “pequena pertubação”?

Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 03/05/2025

Falando ao Congresso dos EUA no dia 2 de fevereiro último, após 100 dias no cargo, o presidente Donald Trump afirmou que as novas tarifas sobre as importações dos maiores parceiros comerciais dos EUA causariam “uma pequena perturbação” que logo acabaria. Eis que – disse – “as tarifas vêm para tornar a América rica novamente e para tornar a América grande novamente. E isso já acontecendo e vai acontecer muito rapidamente.”

Na verdade, muito rapidamente. Em 1º de fevereiro, Trump impôs tarifas de 25% sobre produtos importados do Canadá e do México pelos EUA e uma tarifa adicional de 10% sobre as importações chinesas, de tal modo que todos os três principais parceiros comerciais dos Estados Unidos passam agora a enfrentar barreiras significativamente maiores. As medidas provocaram uma resposta imediata de Pequim, que disse que cobraria uma tarifa de 10 a 15% sobre produtos agrícolas dos EUA, desde soja e carne bovina até milho e trigo a partir de 10 de março.

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Tarifas comerciais como política econômica: um debate

Autor: Michael Roberts – 02/08/2025

Michael Pettis é professor americano de finanças na Guanghua School of Management da Universidade em Pequim, e membro sênior não residente do Carnegie Endowment for International Peace. Ele se tornou uma fonte de mídia popular sobre a economia da China, mas também sobre o comércio global e as tendências de investimento.

Na esteira do anúncio de Donald Trump de aumentos de tarifas sobre as importações dos EUA de vários países, Pettis tem exposto a visão contra o consenso da economia convencional, sustentando que as tarifas às vezes podem ser benéficas para um país e até mesmo para a economia mundial.

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O protecionismo dos EUA pode prejudicar a China?

Fonte: Financial Times. Copiado do blogue de Adam Tooze.

O gráfico abaixo mostra o desenvolvimento das exportações chinesas para os Estados Unidos (em vermelho), para os países desenvolvidos exceto os Estados Unidos (em azul claro) e para os mercados ditos emergentes (azul escuro). Os dados que nele constam permitem avaliar o impacto máximo das tarifas possíveis postas pelos Estados Unidos nas importações que recebe da China. Segundo o Financial Times, esse impacto seria significativo se for máximo, mas não desastroso. Não se considera o impacto possível dessa política tarifária na própria economia norte-americana.

“A China” – diz Tooze – “diversificou as suas exportações em relação ao mercado dos EUA desde o primeiro mandato de Trump. A demanda total americana por produtos chineses agora representa cerca de 2,8% do PIB da China, de acordo com a consultoria Capital Economics. Os seus cálculos sugerem que um aumento na tarifa efetiva de cerca de 15% para 60% (in extremis) – tal como Trump ameaçou – poderia encolher a economia chinesa em apenas 1%. Essa porcentagem talvez seja menor do que muitos costumam pensar que poderia ser; veja-se, ademais, que essa porcentagem é máxima já que não considera outros fatores de compensação”.