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Sobre Eleutério F S Prado

Professor da Universidade de São Paulo Área de pesquisa: Economia e Complexidade

A batalha por semicondutores na Europa

Autor: Scott Lavery[1] – Sidecar- 25/04/2024

Em maio de 2023, Olaf Scholz proclamou que uma grande “reindustrialização” estava ocorrendo na Alemanha. Falando no lançamento de uma nova fábrica de semicondutores – Infineon – de US$ 5 bilhões, o chanceler se gabou de que um em cada três microchips europeus agora seria “Made in Saxony”. Um mês depois, a Intel confirmou que investiria US$ 33 bilhões em duas novas fábricas em Magdeburg: o maior investimento estrangeiro direto da história da República Federal.

Isso foi seguido por um anúncio de que a gigante taiwanesa de semicondutores TSMC assumiria uma participação de 70% em uma nova fábrica de fabricação de € 11 bilhões em Dresden. O chamado livre mercado não atraiu essas empresas para a “Saxônia do Silício”: 20 bilhões de euros em subsídios do governo alemão fizeram este milagre. O sumo sacerdote da disciplina orçamental da zona euro deixou de lado os seus sagrados precatórios, respondendo ao declínio do seu modelo de crescimento liderado pelas exportações com uma farra de subsídios.

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Globalização, capitalismo e hegemonia

Andrea Cavazzini [1] – Sin Permisso – 30/08/2024

A ascensão e o aguçamento da rivalidade entre a China e os Estados Unidos são frequentemente reduzidos a desejos pessoais de supremacia (Trump vs. Xi Jinping em particular), quando não são apresentados como uma simples reiteração da eterna batalha do Bem (Ocidente, democracia) contra o Mal (Oriente, despotismo). Pelo contrário, em seu último livro, o economista Benjamin Bürbaumer se propõe a descrever e explicar essa rivalidade. Eis que ela determina algumas das transformações mais importantes da ordem mundial atual, com base em uma análise do capitalismo e suas contradições.

O contexto global em que vivemos é amplamente marcado não apenas pela relação cada vez mais contenciosa entre a China e os Estados Unidos, mas também por uma aceleração da capacidade da China de modificar estrategicamente a ordem institucional – econômica, social e política – do mundo contemporâneo. É urgente elaborar análises o mais ricas possível dessa situação, para entender não apenas as metamorfoses das relações capitalistas e suas alternativas internas, mas também (obviamente) tentar decifrar as possíveis perspectivas de sua abolição.

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Um modelo econômico xenófobo

Autor: Felix Helberg – Jacobina – 09/09/2024

Em Turíngia, antiga Alemanha Oriental, a extrema direita representada pelo partido AfD venceu uma eleição estadual pela primeira vez. Seu sucesso é o resultado de um modelo econômico de baixos salários que, por sua vez, alimentou uma reação anti-imigração.

No domingo ocorreram eleições estaduais nos estados orientais da Alemanha, Turíngia e Saxônia — com a extrema direita se saindo tão bem quanto o esperado. A Alternative für Deutschland (AfD) obteve 32,8% e 30,6% em cada estado, respectivamente, tornando-se o partido mais popular na Turíngia e ficando em segundo lugar na Saxônia. Espera-se que, quando outro estado oriental, Brandemburgo, votar em 22 de setembro, o resultado seja semelhante.

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Sobre a socialização do capital

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

É bem sabido que Marx, já em meados do século XIX, contemplou o processo de socialização do capital, ou seja, a superação da forma “capital privado” pela forma “capital social”. No primeiro caso, a empresa capitalista típica figura como propriedade de certos indivíduos – personificações –, os quais se comportam como capitalistas industriais e/ou comerciais. No segundo, não.

Pois essa forma, em virtude da escala da produção e do tamanho exigido das unidades de produção e comercialização, começara já em sua época a ser substituída por outra mais adequada à expansão do próprio modo de produção. Eis que, no segundo caso, por necessidade intrínseca da atividade econômica, a empresa capitalista vem a ser, então, propriedade coletiva de personificações – indivíduos, famílias etc. – que estão forçados a se comportarem como capitalistas financeiros.

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Capital: finança, poder ou relação social?

Autor: Nick Johnson – Blog: The political economy of development – 28/08/2024

Aqui se cita [e se discute] a introdução do último livro de Geoffrey Hodgson, The wealth of a nation – The institutional foundation of English capitalism, no qual ele põe e defende uma concepção particular de capital e de capitalismo. Embora o conceito de capital como fator de produção desempenhe um papel proeminente na economia convencional, o termo capitalismo é aí menos usado. Muitos economistas preferem usar o termo economia de mercado, em vez de capitalismo. Talvez seja porque eles veem a teoria econômica como um conjunto de leis universais que podem ser aplicadas a qualquer sistema econômico que tenha existido na longa história da sociedade humana.

Em contraste, muitos economistas críticos, não convencionais ou heterodoxos usam mais prontamente o termo capitalismo. Sendo mais críticos em relação ao sistema ora existente, eles o veem como historicamente específico. Ao fazê-lo, julgam que ele necessita de uma reforma significativa ou mesmo que é preciso substitui-lo por algo melhor. Isso não implica em aderir a tese do socialismo como um estado planejado centralmente, pois pode simplesmente apontar para uma abertura à evolução socioeconômica, seja lá o que isso possa envolver.

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A interversão do Esclarecimento

Autora: Gillian Rose [1]

A obra Dialética do esclarecimento de Horkheimer e Adorno foi escrita dez anos depois dos escritos até agora considerados [no livro Marxist Modernism – Introductory lectures of Frankfurt School critical theory]. Eles o escreveram nos anos 40. Eis que os livros que discutimos até agora – de Lukács, Bloch e Benjamin – foram todos escritos nos anos 30. Nele, eles criticam as posições desses três filósofos nos campos da filosofia da história, da teoria da sociedade capitalista tardia e da estética.

Agora, para recapitular os pontos antes alcançados, reafirmamos: Lukács viu o período de sucesso do fascismo como um período de desintegração e decadência; Bloch, por outro lado, viu-o como um período de desintegração, mas o considerou como um momento de transição; e Benjamin, de outro modo, por um lado, considerava que as novas formas de tecnologia do período teriam um potencial libertador, mas, por outro lado, ressaltou que o inimigo de classe não havia deixado de ser vitorioso.

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Fraser: base e superestrutura

Autora: Nancy Fraser [1] – Jacobina – 26/08/2024

Desenvolvi uma concepção expandida de capitalismo para fugir das versões base-superestrutura do marxismo, que enxergam os sistemas econômicos como o real alicerce da sociedade, enquanto tratam todo o resto como mera “superestrurura”. Nesse modelo, a causalidade flui apenas em uma direção, da base econômica à superestrutura político-legal.

E isso é profundamente inadequado. Minha alternativa foca em repensar a relação econômica entre o subsistema econômico da sociedade capitalista e o plano de fundo de suas necessárias condições que a tornam possível — processos, atividades e relações que são absolutamente essenciais para a economia capitalista, como a reprodução social, natureza não-humana e bens comuns.

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As finanças e as corporações

Autores: Stephen Maher e Scott Aquanno[1]

A financeirização vem junto com a própria evolução do capitalismo; ela opera em suas tensões e antagonismos. Uma vez que as contradições desse sistema nunca podem ser totalmente resolvidas, ele deve mudar continuamente para superar as barreiras e crises que elas geram – por meio de um processo semelhante à adaptação darwiniana. O conflito de classes é manifestação de sua contradição – ainda que não única – mais importante.

Embora o colapso do mercado de ações de 1929 tenha sido seguido, durante toda a década de 1930, por ondas de luta da classe trabalhadora, ele revelou também as profundas instabilidades do sistema em que o capital financeiro está centrado nos bancos. Isso estimulou o Estado a separar os bancos da governança corporativa, o que levou as corporações industriais a assumirem novas funções financeiras. Assim, essas empresas se adaptaram aos desafios de gerenciar operações cada vez mais complexas, internacionalizadas e diversificadas, por meio da reorganização de um mercado financeiro interno na forma de um planejamento corporativo.

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Fim da hegemonia alemã na União Europeia?

Michael Roberts – The next recession blog – 01/09/2024

Ocorreram recentemente eleições em dois grandes estados provinciais no leste da Alemanha.  Os partidos eurocéticos, anti-imigrantista e amigos da Rússia, tanto da extrema direita quanto da nova esquerda, ficaram à frente.  Os partidos da atual coligação federal dos sociais-democratas, dos verdes e dos chamados democratas livres estão sendo dizimados nestes estados da antiga Alemanha Oriental. 

Os três estados do leste juntos abrigam cerca de 8,5 milhões de pessoas, representando 10% da população da Alemanha. Mas não é apenas nesses estados que o “centro” da política alemã está entrando em colapso.  Os três partidos do governo de coalizão do chanceler Scholz viram sua participação conjunta nos votos cair de mais de 50% no final de 2021 para menos de um terço hoje.

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Capitalismo cadente e a raiva das massas

Autor: Richard D. Wolff [1] – Counterpunch – 14/08/2024

Na esteira de sua enorme derrota em 30 de junho de 2024, quando 80% dos eleitores rejeitaram o presidente “centrista” francês Emmanuel Macron, ele disse que entendia a raiva do povo francês. No Reino Unido, o conservador e perdedor Rishi Sunak disse o mesmo sobre a raiva do povo britânico; o líder trabalhista Starmer diz agora que compreende por que a raiva está explodindo em seu país. É claro que essas frases desses políticos geralmente significam pouco ou mesmo nada; elas não implicam numa mudança de rumo substantiva.   

Esses líderes europeus e seus partidos continuam a calcular qual seria a melhor forma de recuperar o poder depois que o perderam. Nisso, eles são como os democratas norte-americanos após o desempenho de Biden em seu debate com Trump, agora em 2024, ou como os republicanos nos EUA após a derrota de Trump, em 2020. Em ambos os partidos, um pequeno grupo de líderes e de doadores toma sempre todas as decisões importantes, mas organiza depois o teatro político para ratificá-las “democraticamente”. Mesmo uma surpresa como a de Kamala Harris, que substituiu Biden na corrida eleitoral, é apenas um pequeno desvio no rumo costumeiro da política contemporânea.

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