Globalização, capitalismo e hegemonia

Andrea Cavazzini [1] – Sin Permisso – 30/08/2024

A ascensão e o aguçamento da rivalidade entre a China e os Estados Unidos são frequentemente reduzidos a desejos pessoais de supremacia (Trump vs. Xi Jinping em particular), quando não são apresentados como uma simples reiteração da eterna batalha do Bem (Ocidente, democracia) contra o Mal (Oriente, despotismo). Pelo contrário, em seu último livro, o economista Benjamin Bürbaumer se propõe a descrever e explicar essa rivalidade. Eis que ela determina algumas das transformações mais importantes da ordem mundial atual, com base em uma análise do capitalismo e suas contradições.

O contexto global em que vivemos é amplamente marcado não apenas pela relação cada vez mais contenciosa entre a China e os Estados Unidos, mas também por uma aceleração da capacidade da China de modificar estrategicamente a ordem institucional – econômica, social e política – do mundo contemporâneo. É urgente elaborar análises o mais ricas possível dessa situação, para entender não apenas as metamorfoses das relações capitalistas e suas alternativas internas, mas também (obviamente) tentar decifrar as possíveis perspectivas de sua abolição.

Continuar lendo

Um modelo econômico xenófobo

Autor: Felix Helberg – Jacobina – 09/09/2024

Em Turíngia, antiga Alemanha Oriental, a extrema direita representada pelo partido AfD venceu uma eleição estadual pela primeira vez. Seu sucesso é o resultado de um modelo econômico de baixos salários que, por sua vez, alimentou uma reação anti-imigração.

No domingo ocorreram eleições estaduais nos estados orientais da Alemanha, Turíngia e Saxônia — com a extrema direita se saindo tão bem quanto o esperado. A Alternative für Deutschland (AfD) obteve 32,8% e 30,6% em cada estado, respectivamente, tornando-se o partido mais popular na Turíngia e ficando em segundo lugar na Saxônia. Espera-se que, quando outro estado oriental, Brandemburgo, votar em 22 de setembro, o resultado seja semelhante.

Continuar lendo

Sobre a socialização do capital

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

É bem sabido que Marx, já em meados do século XIX, contemplou o processo de socialização do capital, ou seja, a superação da forma “capital privado” pela forma “capital social”. No primeiro caso, a empresa capitalista típica figura como propriedade de certos indivíduos – personificações –, os quais se comportam como capitalistas industriais e/ou comerciais. No segundo, não.

Pois essa forma, em virtude da escala da produção e do tamanho exigido das unidades de produção e comercialização, começara já em sua época a ser substituída por outra mais adequada à expansão do próprio modo de produção. Eis que, no segundo caso, por necessidade intrínseca da atividade econômica, a empresa capitalista vem a ser, então, propriedade coletiva de personificações – indivíduos, famílias etc. – que estão forçados a se comportarem como capitalistas financeiros.

Continuar lendo

Capital: finança, poder ou relação social?

Autor: Nick Johnson – Blog: The political economy of development – 28/08/2024

Aqui se cita [e se discute] a introdução do último livro de Geoffrey Hodgson, The wealth of a nation – The institutional foundation of English capitalism, no qual ele põe e defende uma concepção particular de capital e de capitalismo. Embora o conceito de capital como fator de produção desempenhe um papel proeminente na economia convencional, o termo capitalismo é aí menos usado. Muitos economistas preferem usar o termo economia de mercado, em vez de capitalismo. Talvez seja porque eles veem a teoria econômica como um conjunto de leis universais que podem ser aplicadas a qualquer sistema econômico que tenha existido na longa história da sociedade humana.

Em contraste, muitos economistas críticos, não convencionais ou heterodoxos usam mais prontamente o termo capitalismo. Sendo mais críticos em relação ao sistema ora existente, eles o veem como historicamente específico. Ao fazê-lo, julgam que ele necessita de uma reforma significativa ou mesmo que é preciso substitui-lo por algo melhor. Isso não implica em aderir a tese do socialismo como um estado planejado centralmente, pois pode simplesmente apontar para uma abertura à evolução socioeconômica, seja lá o que isso possa envolver.

Continuar lendo

A interversão do Esclarecimento

Autora: Gillian Rose [1]

A obra Dialética do esclarecimento de Horkheimer e Adorno foi escrita dez anos depois dos escritos até agora considerados [no livro Marxist Modernism – Introductory lectures of Frankfurt School critical theory]. Eles o escreveram nos anos 40. Eis que os livros que discutimos até agora – de Lukács, Bloch e Benjamin – foram todos escritos nos anos 30. Nele, eles criticam as posições desses três filósofos nos campos da filosofia da história, da teoria da sociedade capitalista tardia e da estética.

Agora, para recapitular os pontos antes alcançados, reafirmamos: Lukács viu o período de sucesso do fascismo como um período de desintegração e decadência; Bloch, por outro lado, viu-o como um período de desintegração, mas o considerou como um momento de transição; e Benjamin, de outro modo, por um lado, considerava que as novas formas de tecnologia do período teriam um potencial libertador, mas, por outro lado, ressaltou que o inimigo de classe não havia deixado de ser vitorioso.

Continuar lendo

Fraser: base e superestrutura

Autora: Nancy Fraser [1] – Jacobina – 26/08/2024

Desenvolvi uma concepção expandida de capitalismo para fugir das versões base-superestrutura do marxismo, que enxergam os sistemas econômicos como o real alicerce da sociedade, enquanto tratam todo o resto como mera “superestrurura”. Nesse modelo, a causalidade flui apenas em uma direção, da base econômica à superestrutura político-legal.

E isso é profundamente inadequado. Minha alternativa foca em repensar a relação econômica entre o subsistema econômico da sociedade capitalista e o plano de fundo de suas necessárias condições que a tornam possível — processos, atividades e relações que são absolutamente essenciais para a economia capitalista, como a reprodução social, natureza não-humana e bens comuns.

Continuar lendo

As finanças e as corporações

Autores: Stephen Maher e Scott Aquanno[1]

A financeirização vem junto com a própria evolução do capitalismo; ela opera em suas tensões e antagonismos. Uma vez que as contradições desse sistema nunca podem ser totalmente resolvidas, ele deve mudar continuamente para superar as barreiras e crises que elas geram – por meio de um processo semelhante à adaptação darwiniana. O conflito de classes é manifestação de sua contradição – ainda que não única – mais importante.

Embora o colapso do mercado de ações de 1929 tenha sido seguido, durante toda a década de 1930, por ondas de luta da classe trabalhadora, ele revelou também as profundas instabilidades do sistema em que o capital financeiro está centrado nos bancos. Isso estimulou o Estado a separar os bancos da governança corporativa, o que levou as corporações industriais a assumirem novas funções financeiras. Assim, essas empresas se adaptaram aos desafios de gerenciar operações cada vez mais complexas, internacionalizadas e diversificadas, por meio da reorganização de um mercado financeiro interno na forma de um planejamento corporativo.

Continuar lendo

Fim da hegemonia alemã na União Europeia?

Michael Roberts – The next recession blog – 01/09/2024

Ocorreram recentemente eleições em dois grandes estados provinciais no leste da Alemanha.  Os partidos eurocéticos, anti-imigrantista e amigos da Rússia, tanto da extrema direita quanto da nova esquerda, ficaram à frente.  Os partidos da atual coligação federal dos sociais-democratas, dos verdes e dos chamados democratas livres estão sendo dizimados nestes estados da antiga Alemanha Oriental. 

Os três estados do leste juntos abrigam cerca de 8,5 milhões de pessoas, representando 10% da população da Alemanha. Mas não é apenas nesses estados que o “centro” da política alemã está entrando em colapso.  Os três partidos do governo de coalizão do chanceler Scholz viram sua participação conjunta nos votos cair de mais de 50% no final de 2021 para menos de um terço hoje.

Continuar lendo

Capitalismo cadente e a raiva das massas

Autor: Richard D. Wolff [1] – Counterpunch – 14/08/2024

Na esteira de sua enorme derrota em 30 de junho de 2024, quando 80% dos eleitores rejeitaram o presidente “centrista” francês Emmanuel Macron, ele disse que entendia a raiva do povo francês. No Reino Unido, o conservador e perdedor Rishi Sunak disse o mesmo sobre a raiva do povo britânico; o líder trabalhista Starmer diz agora que compreende por que a raiva está explodindo em seu país. É claro que essas frases desses políticos geralmente significam pouco ou mesmo nada; elas não implicam numa mudança de rumo substantiva.   

Esses líderes europeus e seus partidos continuam a calcular qual seria a melhor forma de recuperar o poder depois que o perderam. Nisso, eles são como os democratas norte-americanos após o desempenho de Biden em seu debate com Trump, agora em 2024, ou como os republicanos nos EUA após a derrota de Trump, em 2020. Em ambos os partidos, um pequeno grupo de líderes e de doadores toma sempre todas as decisões importantes, mas organiza depois o teatro político para ratificá-las “democraticamente”. Mesmo uma surpresa como a de Kamala Harris, que substituiu Biden na corrida eleitoral, é apenas um pequeno desvio no rumo costumeiro da política contemporânea.

Continuar lendo