O blogue publicou um artigo de Stphen Maher criticando Dylan Riley, Aqui vai a sua resposta. Note-se, porém, que o termo “capitalismo” denota o sistema da relação social – contraditória – de capital. Note-se, por isso mesmo, que o capitalismo desde sempre dependeu do Estado para existir. Nesse sentido, ele nunca foi não-político, Ademais, nele sempre existiu o uso do poder político, assim como de outros poderes, para extrair renda. Contudo, o termo “capitalismo político” consiste num oxímoro já que nega aquilo que o capitalismo é em essência, ou seja, um sistema se alevanta sobre “relações sociais de coisas”.
Autor: Dylan Riley [1]
A forma de capitalismo em que vivemos atualmente é aquela em que a extração de riqueza depende cada vez menos do poder de mercado e mais de manobras políticas.
Segundo a minuciosa reportagem de David Kirkpatrick na revista The New Yorker, Donald Trump e sua família teriam acumulado US$ 4 bilhões desde o início de seu mandato por meio de uma vertiginosa gama de esquemas, a maioria dos quais parece ter sido concebida para inflar o valor de seus ativos (criptomoedas, clubes de golfe, hotéis etc.).
Além disso, investigadores alegam que Trump usou sua posição para manipular o mercado de ações em benefício próprio, que se apropriou de enormes quantias de verbas aprovadas pelo Congresso e que parece empenhado em transformar a Receita Federal (IRS) em um instrumento de enriquecimento pessoal. Todos esses supostos métodos de extração de riqueza dependem diretamente da posição política de Trump e exemplificam uma intensificação do fenômeno amplamente documentado da inflação de preços de ativos orquestrada politicamente, que tem sido tão marcante nas últimas duas décadas.
Para o economista Stephen Maher, no entanto, não há nada interessante nessa teorização,. Em uma crítica ao meu recente post no blog Sidecar intitulado “Sem substituto”, ele afirma que “a noção de que o investimento produtivo está dando lugar à especulação improdutiva” é um “clichê da esquerda”, do qual ele oferece uma crítica tanto conceitual quanto empírica. (As traduções dos artigos de Maher e Riley se encontram aqui) .
Conceitualmente, diz Maher, “a renda é uma dedução da produção total gerada em toda a economia” e, portanto, “não pode se expandir indefinidamente”, embora o que exatamente seja esse limite, e como saberíamos que ele foi atingido, permaneça sem explicação. Empiricamente, Maher argumenta que as grandes empresas de tecnologia investem pesadamente em novas tecnologias e alcançaram, em sua maioria, a taxa média de lucro e, portanto, não são rentistas.
Essa crítica específica erroneamente a perspectiva que pretende abordar. De fato, ela sequer menciona o conceito central em que essa perspectiva se baseia: o capitalismo político. A tese do capitalismo político é bastante diferente do que Maher denomina neofeudalismo, capitalismo rentista ou capitalismo monopolista. Contrariamente a Maher, ela reconhece plenamente que as grandes empresas de tecnologia têm sido competitivas e feito investimentos. Como Robert Brenner e eu apontamos em “A longa recessão e seus resultados políticos”: “Certamente, as grandes empresas de tecnologia gostariam de ser monopolistas e se esforçaram muito para garantir o apoio direto do Estado a esse esforço.
Mas o fato é que as empresas do setor de tecnologia continuam sujeitas à restrição competitiva, dependentes de investimentos e a condições altamente competitivas de avanço tecnológico”. A questão é que, entrelaçado com a economia produtiva, e prejudicando-a, está um setor improdutivo, predatório e extrativista, no qual as taxas de retorno se baseiam principalmente em relações políticas, e não em investimentos produtivos. Maher realmente nega isso? É difícil entender com base em que ele o faria.
E quanto à crítica conceitual de Maher? Ele afirma que as rendas só podem existir através do estabelecimento de “vantagens de mercado que não podem ser eliminadas pela concorrência”. Mas, como existe concorrência, para Maher, não é possível que as atividades rentistas sejam consistentemente mais lucrativas do que as atividades produtivas, pois, se fossem, o capital inundaria o setor rentista, e isso igualaria os retornos entre os dois por meio da concorrência. Em outras palavras, no médio prazo, as rendas deveriam desaparecer.
O principal problema dessa crítica é que ela pressupõe que as rendas sejam relações de mercado distorcidas. Como esse é o ponto de partida de Maher, ele só consegue concebê-las como uma manifestação do poder monopolista. (Essa é uma das razões pelas quais ele confunde erroneamente a tese do capitalismo político com a do capitalismo monopolista.) Mas existem muitas formas de renda que não têm nada a ver com mercados e, portanto, não dependem de monopólios.
Um exemplo óbvio disso é a apropriação direta da receita tributária para fins privados, exemplos dos quais estão por toda parte nas manchetes. A administração Trump, a família Trump e pessoas influentes com conexões políticas supostamente não usam o poder de mercado para cobrar preços mais altos por seus produtos do que poderiam fazê-lo de outra forma e, assim, obter uma “renda de monopólio”. Em vez disso, de acordo com extensas reportagens, sendo a mais recentemente de David Kirkpatrick na revista The New Yorker, eles canalizam fundos diretamente do Tesouro para si mesmos e para seu grupo.
O fator decisivo para o grupo Trump é o poder político, não uma posição favorável no mercado, nem mesmo a propriedade. Embora este certamente não seja o único exemplo de capitalismo político, e o verdadeiro significado econômico da pilhagem trumpista ainda dependa de estudos empíricos, ele tem a vantagem de mostrar o mecanismo em funcionamento e a necessidade de novas ferramentas conceituais para compreendê-lo. Maher insiste, se seu título for levado a sério, que vivemos na era do “hipercapitalismo”, um “sistema forte, lucrativo, dinâmico e competitivo”.
Plus ça change, plus c’est la même chose. Alguém realmente deveria contar as boas notícias para as empresas que estão crescendo fora do setor de tecnologia.
Tradução Pedro Silva
Jacobina, 12/06/2026
[1] Professor associado de sociologia da Universidade da Califórnia em Berkeley e membro do comitê editorial da New Left Review.

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