Não é neofeudalismo, mas hipercapitalismo

Stephen Maher [1] – Sin Permiso [2]22/05/2026

As gigantes da tecnologia no topo da economia moderna não inventaram um novo modo de produção: são simplesmente empresas capitalistas no sentido clássico, ou seja, que exploraram os seus trabalhadores.

Um dos dogmas mais persistentes da esquerda atualmente é a ideia de que o investimento produtivo está dando lugar à especulação improdutiva, levando ao “esvaziamento” da economia industrial e ao declínio do capitalismo. Afinal, parece óbvio que os capitalistas preferem antes ganhar dinheiro rápido do que entrar no árduo e arriscado processo de produzir realmente algo sob a forma de mercadoria. Em consequência, a tese do neofeudalismo entrou em voga.

Esses argumentos geralmente focam o suposto papel parasitário das finanças e do “capital fictício”.

Mais recentemente, porém, alguns autores expandiram o argumento para descrever um emergente “capitalismo rentista”, no qual a extração de rendas por meio do poder monopolista e controle sobre o Estado deslocou a produção como principal meio pelo qual os capitalistas acumulam riqueza. Na realidade, a distopia que se desenrola ao nosso redor não é resultado do colapso da lógica do capitalismo, mas advém como expressão direta dessa lógica.

Por exemplo, em um artigo recente publicado no portal Sidecar (mas abaixo traduzido para o português), Dylan Riley reitera um ponto importante frequentemente associado ao seu coautor, Robert Brenner. Assinala que a “dependência generalizada do mercado” consiste na base do capitalismo. Ou seja, a característica definidora do capitalismo é que ele é um sistema no qual tanto a classe dominante quanto as massas trabalhadoras dependem do mercado para seu bem-estar.

Entre outras coisas, isso tem implicações fundamentais para a compreensão da emergência do capitalismo, resumida brevemente por Riley no artigo. Isso nos leva a focar nas relações de produção dentro das sociedades ao invés se concentrar apenas em suas conexões comerciais externas com um “sistema mundial”, para determinar a natureza do modo de produção.

Riley insiste que a crítica de esquerda não deve ser direcionada aos capitalistas em específico e às suas histórias peculiares de violência, mas sim à lógica do capitalismo. No entanto, a sua afirmação posterior de que os capitalistas hoje acumulam cada vez mais riqueza por meio da busca de rendas, extração política e pilhagem, em vez de “investimento produtivo”, é conceitualmente confusa e carece de suporte empírico. Na verdade, essas afirmações se baseiam justamente na falta de análise da “dinâmica do sistema” e de “suas leis do movimento”, que ele justamente faz a denúncia.

Para começar, pode-se perguntar: qual é a fonte da “renda” que esses capitalistas supostamente extraem? Para que o valor seja extraído na forma de renda, ele primeiro deve ser produzido. A única maneira de contornar essa exigência seria adotar a visão neoclássica de que o poder de precificação das empresas cria valor do nada.

Se partirmos de um arcabouço que entende o valor como resultado de processos materiais reais realizados por seres humanos reais, essa explicação não é muito satisfatória. O aluguel, junto com os lucros e os juros, deve, portanto, ser entendido como um direito a um fundo finito de mais-valor produzido na esfera da produção do sistema econômico, como mostra Karl Marx.

Isso, por sua vez, implica relações específicas — sistêmicas — entre renda e lucro. Renda é uma dedução da produção total gerada no sistema econômico. Isso significa que não é possível expandir essa extração sem limites. Ela está limitada pelo que realmente foi produzido. Como a renda é subtraída do lucro, o seu montante está limitado e o seu limite é aquele ponto em que a produção deixa de ser viável — minando assim a fonte de renda e a reprodução de todo o sistema. O “incentivo ao lucro” (nos termos de Marx) deve ser suficiente para levar os capitalistas a investir em atividades produtivas; se a extração de renda extrapolar esse limite, a própria renda se tornará impossível.

Se as atividades rentistas fossem sistematicamente mais lucrativas do que o investimento produtivo, então todos os capitalistas tentariam se tornar rentistas – tal como Riley sugere.[3] E se isso acontecesse, a enxurrada de capital nesses setores intensificaria a competição e empurraria os retornos para a média social.

Ora, esse é o cerne da teoria da concorrência de Marx; é também o que se encontra em qualquer escola de negócios: o capital é retirado de setores com retornos abaixo da média e direcionado para aqueles com retornos acima da média, resultando em uma tendência de equalização da taxa de lucro. Isso não significa que os lucros não possam ser maiores em um setor do que em outro. Isso apenas implica que o investimento buscará os maiores retornos e que esse investimento afeta a capacidade e, portanto, a competição e os lucros.

Assim, retornos persistentemente acima da média exigem a existência de alguma barreira para a equalização competitiva da taxa de lucro. Algumas empresas precisam ser capazes de impedir que outros capitais entrem nesses setores devido ao seu controle sobre alguma condição de produção ou circulação que outros não podem reproduzir ou acessar. Em outras palavras, eles devem possuir poder de monopólio. Na verdade, é exatamente assim que Marx define a renda: ela advém de vantagens específicas de mercado que não podem ser eliminadas pela concorrência.

Se abandonarmos a ligação de Marx entre renda e monopólio, então a renda pode passar a se referir a qualquer renda derivada da propriedade. Mas todos os capitalistas possuem e controlam as condições de produção e circulação: fábricas, armazéns, sistemas logísticos, software, marcas, redes de clientes, patentes, sistemas de pagamento, plataformas etc. Se se pensa que apenas a propriedade gera renda, então o lucro como categoria distinta tende a desaparecer completamente sob essa forma rentista.  

Diante de tudo isso, a análise de Riley sugere efetivamente que o capitalismo está sendo substituído por alguma forma de “neo-feudalismo”, já que a acumulação de riqueza por meio do “saque” mina a competição e leva à suspensão das “leis do movimento” do capitalismo.

No entanto, isso não é respaldado empiricamente. Como Scott Aquanno e eu demonstramos em um artigo recente na Review of Radical Political Economics, as grandes empresas de tecnologia, que tem sido frequentemente alvo desses debates, não têm obtido lucros acima da média de forma consistente. Os seus lucros oscilaram em torno da média. Também não há evidências de que a mobilidade do capital na economia tenha sido reduzida da forma que os argumentos em favor do “capital monopolista” ou do “capitalismo rentista” exigiriam.

Isso significa que, mesmo assumindo que as atividades dessas empresas são totalmente “improdutivas” (o que não é realmente o caso), a renda que obtêm não é aluguel. Na verdade, seriam o que Marx chama de “lucro comercial”, ou seja, o lucro obtido por capitais que desempenham funções de circulação e realização.

Google, Meta, Amazon e outras empresas similares não apenas extraem valor de empresas produtivas, mas constroem e gerenciam infraestruturas que outros capitais usam para circular mercadorias, reduzir tempos de rotatividade, obter mais-valor e competir de forma mais eficaz.

As empresas mercantis estão sujeitas à disciplina competitiva que as empurram a melhorar continuamente — até mesmo revolucionar — as condições de produção e circulação. Isso inclui infraestrutura de telecomunicações, armazenagem e logística, além de publicidade. Dessa forma, a análise de Marx sobre o capitalismo continua a oferecer uma explicação poderosa dos rápidos processos de desenvolvimento tecnológico e logístico que testemunhamos ao nosso redor todos os dias. Longe de se afastarem das leis do movimento do capitalismo, essas dinâmicas são expressões cristalinas dessas leis.

Riley sugere que os capitalistas certamente odeiam competição. Todos querem destruir os seus rivais e conquistar o poder de monopólio. Mas isso simplesmente não é possível. Nada pode impedir o que Anwar Shaikh chama de “guerra entre empresas”, já que as empresas lutam para maximizar a parte que obtêm do mais-valor social total — especialmente quando as grandes finanças podem fornecer às grandes corporações o poder de fogo necessário para derrubar quaisquer barreiras à concorrência na busca de lucros acima da média. A competência não é contingente, mas constitutiva do sistema.

Por fim, a ideia de que as empresas não estão fazendo “investimentos produtivos” é simplesmente um mito. As empresas centrais do capitalismo contemporâneo estão investindo massivamente em capital fixo, logística, software, data centers, inteligência artificial, infraestrutura energética e cadeias globais de suprimentos. O investimento empresarial continua alto, os gastos em pesquisa e desenvolvimento cresceram, a inovação tecnológica avançou rapidamente e empresas líderes continuam presas em uma competição acirrada de preços. As teorias do monopólio em geral têm dificuldade em explicar todas essas dinâmicas.

Não estamos diante de um capitalismo que está desmoronando ou caindo e se decompondo num rentismo desenfreado; defrontamo-nos, isso sim, com um sistema ainda demasiado robusto, lucrativo, dinâmico e competitivo. E esse é verdadeiramente o problema.

Capitalistas e capitalismo

Dylan Riley 4] – Sidecar [5] – 08 de maio de 2026

Uma das distinções mais importantes para entender a dinâmica do mundo atual e seu surgimento histórico vem a ser aquela que existe entre capitalistas e capitalismo. Capitalistas são atores econômicos orientados para o lucro. Como comerciantes de longa distância, financiadores de príncipes e coletores de impostos, eles existem em uma grande variedade de sociedades há milhares de anos. O capitalismo, em contraste, é um sistema de dependência de mercado abrangente que surgiu muito mais recentemente e em uma área geograficamente muito mais restrita (nos Países Baixos e na Inglaterra nos séculos XV e XVI).

Nunca se deve esquecer que os capitalistas geralmente detestam o capitalismo; eles odeiam especialmente a restrição posta pela concorrência. Eles preferem ganhar dinheiro obtendo renda ou de extração política sem arriscar sua riqueza em investimentos incertos. De fato, a ameaça mais óbvia ao capitalismo hoje não vem da classe trabalhadora, mas paradoxalmente dos capitalistas que, com sucesso crescente, descobriram como ganhar dinheiro extraindo renda em vez de obter lucro em investimento produtivo.

Essa tese está longe de ser original, mas ela não é suficientemente reconhecida por duas razões interligadas. A primeira é a desconfiança da comparação. Para muitos estudiosos, questionar por que, por exemplo, Inglaterra e Holanda fizeram a transição para a agricultura dependente do mercado é sinal de eurocentrismo incorrigível e de uma falha retrógrada em compreender que o capitalismo era um sistema global ab initio. Isso naturalmente leva a uma enorme pressão para descrever todos os tipos de atividade lucrativa, especialmente as atividades mercantis coloniais, como uma forma emergente de capitalismo.

A segunda razão é uma pressão mais específica para descrever vários sistemas agrícolas exploradores brutais, especialmente a escravidão, como se fossem capitalistas. Para sustentar essa afirmação, demonstra-se infinitamente que as elites agrárias desses sistemas mantinham registros cuidadosos, eram orientadas para a obtenção de lucro e estavam envolvidas em sistemas sofisticados de finanças.

Ambas as tendências, aquela que recusa a comparação e aquela que pensa o capitalismo como um sistema econômico organizado pelo motivo lucro, são manifestações de fraqueza política. O capitalismo parece imune a uma crítica imanente que parte do sistema em seu estado puro e que desdobra o seu caráter inerentemente contraditório como social e anárquico.

Em vez disso, o capitalismo deve ser condenado em termos de seu passado e presente violentos, de seu envolvimento com o colonialismo, racismo e opressão.  Assim, o objeto da crítica muda sutilmente do sistema – o capitalismo – para os atores: os capitalistas. Mas a raiva contra ricos com passados duvidosos não substitui uma análise da dinâmica do sistema e das oportunidades que suas leis do movimento abrem e bloqueiam.


[1] Professor adjunto de Economia na SUNY Cortland e coeditor do Socialist Register. Ele é coautor de The Fall and Rise of American Finance: From J. P. Morgan to BlackRock com Scott Aquanno e autor de Corporate Capitalism and the Integral State: General Electric and a Century of American Power.

[2] Fonte imedita: https://www.sinpermiso.info/textos/no-es-neofeudalismo-es-hipercapitalismo.

Fonte original: Fonte: https://jacobin.com/2026/05/neofeudalism-hypercapitalism-tech-production-economy

[3] N. T.: Essa ilusão surge porque o capital de finanças pode crescer ficticiamente, não por extração de parte do mais-valor social total, mas porque as dívidas podem ser roladas com a criação de dívidas ainda maiores.

[4] Professor de Sociologia na Universidade da Califórnia, Berkeley, e faz parte do comitê editorial da New Left Review. Ele escreve para a NLR e Jacobin.

[5] O artigo original, com o título em inglês “no substitute”,  foi publicado no portal Sidercar da New Left Review em 09/05/2026: https://newleftreview.org/sidecar/posts/no-substitute. Publica-se aqui uma tradução para auxiliar os leitores interessados no artigo principal de Stephen Maher. E se o faz muito a contragosto porque essa nota é expressão de um marxismo ultra vulgar. 

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