Oscar Ranzani [1]
O prestigiado psicanalista Jorge Alemán propõe uma hipótese desconfortável: não basta analisar instituições, programas ou variáveis econômicas para entender o presente. Também é necessário interrogar a conspiração libidinal que sustenta os novos poderes. Em seu livro mais recente, Neoimperadores, o gozo do poder (NED Ediciones), Alemán ensaia uma cartografia onde a psicanálise se cruza com a teoria política para refletir sobre a ascensão da ultradireita além dos lugares comuns.
Longe da ideia de um poder difuso e despersonalizado – como descrito por Antônio Negri e Michael Hardt em Império – Alemán percebe o retorno de figuras que incorporam comando, concentram identificações e exibem descaradamente uma vontade de desfrutar que desafia sociedades atravessadas pela frustração e pelo desencanto. Nesse deslocamento, a política deixa de ser uma administração justa para se tornar um palco: há corpos, inimigos, excessos e uma promessa de resolução imediata que beira o delirante.
Com referências que vão de Sigmund Freud às derivas contemporâneas do capitalismo, o autor questiona quais condições possibilitaram o surgimento desses neoimperadores, capazes de transmitir agitação social e transformá-la em adesão, ódio ou fascínio. Será o esgotamento da hegemonia liberal? Será uma mutação na subjetividade produzida pelo capitalismo tecnológico? Ou será a irrupção daquele “exterior sombrio” que, como Freud alertou, nunca é domado pela lei? O que o livro NeoImperadores deixa muito claro é que, para pensar o poder hoje, já não basta olhar para as estruturas: é preciso ouvir o que insiste, muitas vezes em silêncio, no próprio coração das conversas. Em seu novo livro, Alemán propõe que não há poder sem economia de gozo.
Questionado sobre o que essa perspectiva psicanalítica acrescenta às leituras mais clássicas da ascensão da extrema-direita, o autor aponta que “há uma questão complexa nessa temática”. “Pensava-se que o império, na teoria de Negri, por exemplo, era algo que se expandia transversalmente e sem um centro. Agora estamos vendo que houve uma reorientação, que os comandantes do império apareceram; “os neoimperadores” – diz Alemán – “estão agora tentando separar o capitalismo da democracia”. “A economia do gozo mostra que os novos imperadores gozam com o poder. O próprio Trump diz que o seu limite, o único que o detém, é a moralidade; ora, na realidade, ele está dizendo que o seu único limite vem a ser a sua própria forma de desfrutar do exercício do poder”.
É, pois, da essência do neoimperador desfrutar do poder. Não pode haver um neoimperador com inibições neuróticas. Não se está dizendo que ele precisa ser louco, mas que, na estrutura onde existem condições de poder para o advento dessa figura, alguém que tem barreiras neuróticas está impedido. E o está precisamente porque o neoimperador já se move em um espaço pós-iluminista, onde as normas, a verdade, as contradições, o que foi dito ontem ou o que foi dito hoje, tudo isso já não conta mais”.
Estamos enfrentando um retorno do super-homem na política; veio à cena uma mutação por meio da qual as necessidades impessoais se inscrevem em figuras que condensam o prazer e a violência. “O neoimperador típico está estruturalmente ligado à guerra; ele faz todo tipo de gestos ligados ao exercício da guerra. Mesmo aqueles que não têm poder de fogo, como o presidente da Argentina, precisam realizar seus rituais de guerra”.
Em vários trechos do livro, surge a ideia de que esses líderes conseguem capturar afetos como ódio, frustração ou ressentimento. Como ocorre essa captura libidinal? Quais condições subjetivas tornam isso possível hoje? Alemán explica que, “sob o neoliberalismo, durante os últimos 40 anos, o capitalismo em sua marcha destruiu os pontos de ancoragem da civilidade e da comunidade simbólica; está última foi dissolvida gradualmente”.
“Sem esses pontos de ancoragem, as formas do gozo (jouissanse), da pulsão de morte, em particular, frutificam. E os neoimperadores se tornam veículos para que isso aconteça. Vamos lembrar que em volta dos neoimperadores prosperam teóricos. E esses teóricos querem separar, como foi dito já, o capitalismo e a democracia; para o projeto político da extrema-direita é fundamental apropriar-se da violência. Eles querem ignorar a morte, pois a consideram um erro da natureza, algo que é corrigível tecnologicamente. Eles sabem que a guerra faz parte do novo momento do capitalismo mundializado. E é por isso que eles também têm as melhores condições para canalizar ódio, a violência e tudo o mais.
A figura do pai da horda freudiana primitiva aparece como chave para essa interpretação. Há riscos na transferência desse mito para a política contemporânea. O que ilumina é o que poderia escurecer? “Ela ilumina” – diz Alemán – “pois já não devemos esperar que essas figuras tenham limites simbólicos. E o pai da horda é preciosamente aquele para o qual não existem “barreiras simbólicas”. Há – e isso deve nos preocupar – um chamado à violência instalado e ele vem de diferentes lugares; há, sim, até mesmo uma violência inesperada ou incalculável. Não podemos esquecer que, no mito freudiano, o pai da horda acaba sendo morto”.
A crise atual parece marcar o fim da hegemonia neoliberal ou, talvez, a sua transformação. Jorge Alemán pensa que ocorreu, sim, uma transformação. Até agora a hegemonia neoliberal precisou de uma cobertura democrática; contudo, a partir de agora, há um mundo (e o confronto com a China tem muito a ver com isso) em que o capitalismo no Ocidente não precisa mais de uma relação estrutural com o campo democrático. Portanto, a tese de Fukuyama de que o ponto de chegada da história era a conjunção entre capitalismo e democracia liberal está se mostrando errônea. Pois, com o xeque-mate que a China está dando nos Estados Unidos, trata-se para o imperialismo de separar o capitalismo da democracia liberal.
A figura do neoimperador faz pensar em Donald Trump. Então se põe a questão de saber se o mundo enfrenta um fenômeno homogêneo ou se existem diferenças substanciais entre os diferentes tipos que podem assumir a figura de neoimperadores. Ora, para Jorge Alemán não há diferenças substanciais entre os diferentes líderes políticos dessa espécie. Há algo muito importante em comum entre eles e isso diz respeito ao desinteresse que têm pela democracia.
A ideia de uma “deshistoricização violenta” produzida pela tecnologia e pelo capital é central na tese aqui examinada. Como isso se relaciona com o que alguns chamam de “crise de memória” ou “amnésia histórica contemporânea”? Todos os pontos de ancoragem simbólicos foram destruídos nos últimos anos.
Alemán já tratou disso em vários dos seus livros. Este último conceitualmente completa uma série que se inicia com o livro Ultradireitas. Com a destruição desses pontos de ancoragem, a memória foi bloqueada, pois não se reconhece mais nenhum legado ou herança simbólica. Trata-se de uma deshistoricização muito importante e ela está ocorrendo em muitos setores da população.
Na América Latina, onde as experiências populares têm uma história forte, a figura do neoimperador adota características específicas ou está inscrita na mesma lógica global? Alemán acha que elas estão inscritas na mesma lógica global e o exemplo argentino é paradigmático nesse sentido. E, de certa forma, o que aconteceu na Venezuela também é emblemático: mesmo se o presidente do país foi capturado, a vida nesse país permanece igual…
Em termos clínicos, o livro fala de pontos de fixação do gozo (jouissance) nos laços sociais. Como detectar esses pontos privilegiados hoje? No ódio de uns pelos outros? Na promessa de ordem? Nas transgressões? Para Alemán, as três coisas atuam em conjunto. “No ódio aos outros certamente, porque sempre há uma prioridade narcisista que cada vez mais promove o ódio a determinados outros. Na Europa, a extrema-direita usa o conceito de “prioridade nacional” para tentar ancorar as suas políticas anti-imigração e racistas”.
“A promessa de ordem está absolutamente ligada aos princípios econômicos e à sua relação com a tecnologia. Ela faz a dimensão política da ordem desaparecer – e isso põe um sério problema para o vínculo social. O que leva à transgressão: o tempo todo o neoimperador comete transgressões simbólicas, ele não consegue viver sem mostrar seu caráter transgressor.
Como o neoimperador oferece uma “ficção de unidade perfeita”, que tipo de política poderia, por outro lado, sustentar divisão, conflito e diferença sem perder eficácia? Eis o que diz Alemán: “Sim, sem perder eficácia. Na verdade, para que haja um projeto onde ocorram divisão, fissuras e desejo, paradoxalmente esse projeto precisa ter grande autoridade simbólica. Assim, a grande questão política da esquerda e dos movimentos nacionais e populares na época dos neoimperadores é como constituir uma autoridade política, que não seja nem punitiva nem repressiva, mas que seja uma autoridade firme”.
Os neoimperadores falam e, ao fazê-lo, produzem os seus próprios códigos. O que acontece com a linguagem política nesse processo? A relação com a linguagem e a escrita parece ser importante na política. Será que se pode pensar que o novo imperador não apenas captura o desconforto, mas também o organiza e intensifica?
Segundo Alemán, os neoimperadores capturam continuamente o desconforto; mais do que isso, intensificam-no o mais que podem. Na medida em que porções significativas das populações se tornam marginais, o neoimperador consegue entrar em contato direto e muito próximo com essa marginalidade.
Alemán menciona a “vontade de gozar” como algo que esses líderes exibem descaradamente. Qual seria a diferença entre esta exposição e as formas mais tradicionais de exercício do poder, que tendiam a disfarçar esse gozo? Segundo ele, isso se manifesta agora no Ocidente. Na China, ao contrário, não há demonstração desse gozo mesmo que Trump não consiga perceber isso. Esse é o jeito chinês: Xi Jinping enviou um vice-ministro das relações exteriores para recebê-lo.
Segundo Alemán, é muito importante para os neoimperadores mostrar que eles são estranhos à castração, que possuem um poder especial, que a castração no sentido psicanalítico não passa por eles, que detêm, como mostram os memes, um poder especial. Eles se afirmam aparentando que não serão alcançados pelo que na psicanálise – é preciso lembrar disso – é chamado de “castração”.
Como a noção de lei é reconfigurada nesse cenário em que o líder parece estar simultaneamente dentro e fora dela? “Seria necessário” – diz – “uma nova experiência política para reconfigurar a noção de direito, porque a guerra também faz parte desse problema. Estamos caminhando para um mundo onde a guerra não é declarada, a trégua não é despertada, as ameaças vêm e vão ao sabor do momento. Em um mundo com essas características, reconfigurar o que entendemos até agora por lei é praticamente impossível. Essa será a tarefa da política de esquerda ou dos movimentos nacionais e populares que virão: restabelecer uma relação diferente com a lei, uma lei que não depende do gozo do poder”.
No livro surge a ideia de um “exterior sombrio”, sempre prestes a irromper. Esse exterior é algo que retorna ou algo que nunca deixou de estar presente na vida social? “Sim, nunca deixou de existir, mas nesse modelo coloca em jogo algo que nunca havia sido colocado em prática: a possibilidade de aniquilar a espécie”.
E em termos de subjetividade, qual a diferença entre o sujeito neoliberal clássico e o sujeito que emerge sob a influência dos neoimperadores? “O sujeito neoliberal clássico ainda podia ser tentado pela ideia de ser um empreendedor de si mesmo. Agora, neste novo momento, há milhares de pessoas que, como parte do experimento, não vão sobreviver”.
Há algo da ordem da impotência em jogo nessas figuras? “Sim, porque esse absoluto se torna impossível de conquistar completamente. E esse momento em que chegamos agora é muito perigoso, porque a impotência geralmente é resolvida com um apelo à violência. É o momento perigoso da impotência. Mas existe a possibilidade de construir uma contrafigura ao novo imperador que não recorra às suas próprias lógicas de identificação e prazer.
O livro Neoimperadores é um diagnóstico, um aviso ou também um convite para pensar em estratégias políticas alternativas.Todos os três geram um mesmo diagnóstico na forma de uma hipótese. É um alerta de algo que, se for radicalmente cumprido, como detalhado em alguns pontos do livro, pode ter consequências bastante desagradáveis. E é, bem, uma advertência sobre a necessidade de uma política que contrarie radicalmente o exercício dominante do poder por parte dos novos imperadores.
Onde estaria a possibilidade de resistência hoje? Para Jorge Alemán, a possibilidade de resistência tem que passar por três coisas. Primeiro, é preciso fazer uma leitura internacional de onde estamos situados. Segundo, é necessário transformar o processo eleitoral em um processo de confronto com os poderes. E terceiro, é preciso ligar as três coisas: a leitura internacional, o processo eleitoral e os movimentos sociais. Sem o nó dessas três coisas, não parece possível que surja uma autoridade política alternativa.
[1] Jornalista e crítico de cinema, cultura e espetáculos do jornal argentino Página 12. O presente texto consiste de uma reconstrução de entrevista feita por Oscar Ranzani com Jorge Alemán, a qual publicada em maior de 2026 no diário Pagina 12.

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