Piketty e o problema econômico do mundo

Michael Roberts – The next recession blog – 09/06/2026

No último fim de semana, o World Inequality Lab (WIL) promoveu a sua terceira edição da Conferência mundial sobre desigualdade (World Inequality Conference – 2026), realizada na Escola parisiense de Economia (Paris School of Economics).

Esse laboratório hospeda e mantém um banco de dados mundiais sobre desigualdade (World Inequality Database) de acesso aberto. Provavelmente os mais famosos membros da equipe desse laboratório sejam os seus diretores Thomas Pikkety e Gabriel Zucman, sendo o primeiro muito conhecido devido a sua obra-prima Capital no século XXI , assim como em razão dos livros subsequentes.

A conferência contou com participantes de 58 nacionalidades diferentes e se concentrou na apresentação do Relatório global da justiça econômica (Global Justice Report).  No discurso de abertura, proferido por Piketty, foi dito que, embora a desigualdade global tenha caído drasticamente desde que Keynes falou, há 75 anos atrás, sobre a possibilidade de alcançar prosperidade para todos, esse desiderato, que pode ser visto como  “o problema econômico do mundo”, permanece como um desafio.

 O mundo ainda enfrenta, segundo ele, “desigualdades marcantes e crescentes e uma crise ambiental ameaçadora”. Sem fazer qualquer referência às crises regulares e recorrentes de produção e investimento, ele sugere que o “problema econômico do mundo” pode ser resolvido por meio da realização de um “cenário concreto possível”. Acredita, por isso, que o futuro deve ser encarado não como “uma distopia tecnológica, mas como uma utopia, ou seja, como um lugar em que prevaleçe prosperidade para todos” (Piketty).

No relatório, os autores afirmam que “apresentam uma nova visão para o progresso global no século XXI. Eis que se trata para eles de fundamentar o desenvolvimento humano e a igualdade na habitabilidade planetária”. Enquanto tal, o teor dessa proposta se afigura ao mesmo tempo como ambicioso e moderado.  É ambicioso ao mostrar como a prosperidade global e a solução da crise climática podem ser alcançadas; mas também, por outro lado, afigura-se moderado, pois, segundo os autores, essa situação somente poderá ser resolvida, pouco a pouco, apenas nos próximos 75 anos!  Ora, parece muito tempo para vários bilhões de humanos e para as espécies que habitam o planeta!

O relatório estabeleceu algumas metas importantes. O objetivo é fazer convergir a renda nacional mensal per capita em todo o mundo para €5.000 em cada um dos países do mundo atual, fechando assim uma lacuna entre a menor e a maior delas que atualmente monta de 16 vezes.

Para alcançar essa meta, a participação da metade inferior da pirâmide da riqueza global deve aumentar de 2% para 30%, enquanto a participação da classe bilionária global deve diminuir de 6% para 0,05%. Quase 90% da população mundial dobraria sua renda ao mesmo tempo que trabalharia cerca de metade das horas que trabalha hoje. O aquecimento global aumentaria a partir de sua média atual de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, mas seria limitado a 1,8°C até 2100, em vez de acelerar para mais de 4°C de acordo com as tendências macroeconômicas projetadas. 

Em resumo, o objetivo é obter: a) igualdade global de renda; b) o fim do aquecimento global; c) jornadas de trabalho mais curtas para todos; d) sistemas educacionais e de saúde muito melhorados; e) reflorestamento e o fim da agricultura industrial.

Como tudo isso deve ser alcançado? Um “fundo global de justiça” seria criado por meio da arrecadação de fundos suficientes para realizar gastos anuais de 10,3% do PIB mundial ao ano em média durante o período de 2026-2060 – um salto enorme em relação aos gastos atuais de agências internacionais e governos, que são apenas 0,4% do PIB anual.

Parte dos fundos arrecadados e, posteriormente, reinvestidos seriam destinados a um “fundo soberano mundial” equivalente a 60% do PIB mundial. Os fundos arrecadados viriam de um imposto global sobre a riqueza dos multibilionários (o imposto subiria de 0% até 20%), assim como de um imposto de renda global (que chegaria a 90% no topo), ambos mirando cerca de 1% da população mundial.

Basicamente, a renda dos bilionários seria drasticamente reduzida pela tributação para ser, depois, devidamente redistribuída. O imposto global sobre a riqueza significaria que a participação dos 50% mais pobres na distribuição mundial de riqueza aumentaria de cerca de 2% hoje para cerca de 30% até 2100, um aumento de 15 vezes, enquanto a participação de riqueza da classe bilionária mundial cairia de 6,4% para 0,05%, uma queda de mais de cem vezes. Tal “fundo global justiça” seria controlado democraticamente por governos nacionais com poder de voto proporcional ao tamanho da população representada.

Os autores acreditam que a convergência global para um nível superior a 5.000 euros por mês não seria factualmente possível, pois é preciso manter o aquecimento global dentro de um orçamento de carbono de 2°C. Eles tratam essa questão como se ela envolvesse uma troca. O relatório rejeitou um “cenário grosseiro de crescimento”, ou seja, onde todas as pessoas dos países ricos do Norte global sofreriam perda de renda para ajudar a aumentar a renda dos habitantes do Sul global. Os autores acreditam que podem equilibrar esse círculo, redistribuindo riqueza e renda dentro dos países do Norte global dos bilionários para a maioria, e também reduzindo as horas de trabalho por meio do aumento da produtividade e do aumento do investimento em educação e saúde. 

Eles acreditam que “um alvo de suficiência poderia ser mais eficaz do que um decrescimento agregado. Por exemplo, uma meta de PIB per capita de 60.000 euros com deslocamento expressivo do consumo para setores imateriais, mudança nos hábitos alimentares e reflorestamento levaria a um aumento de temperatura de apenas 1,8°C em 2100, ou seja, menos do que os 1,9°C associados a um grande crescimento uniforme (15.000 euros para todos em 2100), mas sem suficiência e transformação estrutural. “Ao mesmo tempo, a produção de combustíveis fósseis seria gradualmente extinta e totalmente substituída por energia renovável para reduzir os danos causados pelo aquecimento global.

O que podemos concluir disso?  Essas metas para igualdade global e para o limite do aquecimento global abaixo de 2°C são viáveis, tanto econômica quanto politicamente? Economistas tradicionais foram rápidos em criticar o relatório. Noah Smith, um conhecido pesquisador econômico, chamou  o relatório de “maluco e totalmente absurdo”. Segundo Smith, a alegação do relatório de que o aquecimento global atingirá 4°C até o final do século está desatualizada e exagerada, mas foi um valor escolhido para que Piketty e seus colegas pudessem justificar seu imposto sobre a riqueza bem “exagerado”

Smith continua dizendo que o relatório defende um decrescimento impossível de ser alcançado politicamente, o que poderia ser contestado. Sugere, ademais, que ele prevê um “planejamento econômico global” tão centralizado que faria o Gosplan ter vergonha de implementá-lo.” “De modo ainda mais ridículo, Piketty imagina uma autoridade fiscal global capaz de executar esse plano insano por meio da tributação global”.  

Do ponto de vista do capital e dos super ricos, Smith está certo: para alcançar até mesmo essas metas modestas (igualdade global e controle climático até o final do século) seria necessário planejamento global e cooperação internacional. Smith vê isso como “insano”, mas não oferece alternativa à atual insanidade de continuar destruindo o planeta e permitir que a pobreza e a desigualdade aumentem cada vez mais.

A minha própria crítica ao relatório é que o relatório se baseia na distribuição dado uma situação histórica de fato – e não numa redistribuição prévia, ou seja, por meio da instituição da propriedade coletiva e do controle do poder corporativo. As respostas políticas oferecidas no relatório são: redistribuição de renda por meio de tributação progressiva e transferências sociais; mais investimento público em educação e saúde; e um sistema monetário global.

O que está faltando nele?  Não há no projeto que aqui se discute uma política para mudar radicalmente a estrutura socioeconômica da economia mundial – na prática, o capitalismo continuaria existindo, ou seja, permaneceria existindo tal como existe agora. Os atuais donos do capital, ou seja, dos bancos, empresas de energia, empresas de mídia tecnológica, grandes farmacêuticas e seus donos bilionários, todos eles continuariam mantendo as suas posições atuais.  

Ao invés de destitui-los, o relatório prevê apenas que se deve tributá-los pesadamente; julga que os governos devem mesmo se unir para usar os recursos coletados por meio dos impostos para investir em necessidades sociais. Portanto, a política é de redistribuição da desigualdade existente de renda e riqueza, não de mudança da propriedade. Não julga que é preciso mudar a estrutura social que gera essas desigualdades extremas, ou seja, a propriedade privada dos meios de produção.

Uma elite muito pequena detém os meios de produção e as fontes de finanças; é por meio deles e delas que ela usurpa a maior parte da riqueza e da renda. E a concentração de riqueza está realmente relacionada à posse do capital produtivo, dos meios de produção e das finanças. É o grande capital (finanças e negócios) que controla os investimentos, o emprego e as decisões financeiras do mundo. Um núcleo dominante de 147 empresas, por meio de participações interligadas umas com as outras, controla 40% da riqueza da rede global, segundo um instituto de pesquisa suíço (Swiss Institute of Technology). Um total de 737 empresas controlam 80% de tudo.

Essa é a desigualdade que importa para o funcionamento do capitalismo – o poder concentrado do capital. Eis que a desigualdade de riqueza decorre da concentração dos meios de produção e das finanças nas mãos de poucos. Como essa essa estrutura de propriedade permanece inalterada, qualquer política redistributiva baseada no aumento dos impostos sobre riqueza e renda sempre ficará aquém de resolver o “problema econômico mundial”.

Neste ponto, costuma-se argumentar que a propriedade pública das finanças e dos setores-chave das grandes fontes de riqueza ora existentes no mundo é impossível e utópica – isso nunca acontecerá sem alguma revolução popular – o que, por sua vez, nunca acontecerá. A minha resposta diz que a adoção de políticas supostamente menos radicais, como tributação progressiva e/ou uma mudança gradual no investimento público, ou ainda cooperação global para quebrar a transferência de valor e renda do Sul Global para a elite rica do Norte Global, são igualmente utópicas. Ora, essa é de fato a visão de economistas pró-capital como Noah Smith.

Qual governo do G7 no mundo está disposto a adotar tais políticas?  Nenhum.  Quão perto eles chegaram de adotar alguma das políticas do relatório nos últimos dez ou vinte anos?  Nada que se aproxime – pelo contrário, os governos cortaram impostos para os ricos e as corporações e os aumentaram para o restante; enquanto o investimento público em necessidades sociais diminuiu.  E existe alguma cooperação global para acabar com a exploração das multinacionais e bancos no Sul Global ou para acabar com a produção de combustíveis fósseis e os jatos particulares?

Os autores do relatório dizem: “A desigualdade é uma escolha política. É o resultado de nossas políticas, instituições e estruturas de governança.” Mas a desigualdade não é resultado das “nossas” políticas, instituições e estruturas de governança, mas sim da propriedade privada do capital e dos governos dedicados a sustentar seu poder e riqueza. Se isso não acabar, a desigualdade de renda e riqueza nacional e global permanecerá e continuará a piorar, e as mudanças climáticas atingirão pontos de inflexão irreversíveis.

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