Ruy Fausto e a política marxista

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Aqui se pretende investigar como esse filósofo brasileiro, que deu uma contribuição exemplar para a compreensão da obra de Karl Marx, apresenta os fundamentos da política marxista e como ele faz a crítica do marxismo consagrado como tal.  

Mesmo se atravessa a sua obra como um todo, essa questão é tocada explicitamente na introdução ao livro Sentido da Dialética – Marx: lógica e política [2], publicado em 2015. Vale notar que essa é uma nova edição de um livro publicado em 1983 – 32 anos antes, portanto – sob o título Marx: lógica e política [3], o qual recebeu depois o complemento Investigações para uma reconstituição do sentido da dialética.

Essa inversão na formação do título – o original é substituído pela parte mais expressiva do subtítulo, transformando-se por sua vez em subtítulo –, é explicada pelo autor como advinda da necessidade de expressar melhor o objetivo central de sua obra. Este não seria comentar filosoficamente a obra de Karl Marx, mas compreender a dialética por meio dela: “ainda se ocupando centralmente do corpus marxiano” – diz –, “o objeto fundamental dos textos é entender o significado da dialética”.

Ora, essa consideração tardia parece implausível: afigura-se bem difícil aceitar que Ruy Fausto não tenha tido interesse na crítica da economia política e em suas implicações políticas, mesmo se a sua contribuição filosófica se deu na esfera da lógica.

Para os propósitos dessa nota, isso não importa, mesmo porque ele próprio parece se contradizer; eis que, quatro parágrafos adiante da citação anterior, fala da história interna do livro e diz que ela é complexa: “o ponto de partida (…) é a questão dos fundamentos da política marxista”. Na verdade, já na primeira edição do livro, na primeira nota de rodapé da introdução, ele diz que “o ponto de partida de nossas investigações foi o problema – que estava na ordem do dia no início dos anos 1960 – das relações entre o marxismo e a moral [na verdade, a ética]”.

De qualquer modo, é assim que ele explica o que o levou a um “tópos dialético”. O que é de interesse para a elaboração da presente vem em sequência:

“De fato, vi-me diante de uma antinomia – o ponto de partida da dialética é sempre uma antinomia – que era a seguinte: Seria absurdo supor que a política marxista se fundasse apenas (…) na grande possibilidade da emergência de uma sociedade socialista; uma fundamentação quase transcendental era necessária. Entretanto, essa fundamentação parecia implicar uma subordinação da política marxista à ética, o que (…) era dificilmente aceitável”

Tem-se, portanto, uma questão que o autor reputa como lógica, mas o seu traço – aquilo em que precisamente consiste – não está explícito e demanda um esforço de esclarecimento. Veja-se em primeiro lugar que o problema surge de uma condição estrutural da sociedade atual. O capitalismo, ou seja, o sistema social da relação de capital, constitui-se sobre uma contradição estrutural: os homens aí são ao mesmo tempo iguais contratantes e desiguais como tais já que estão separados em classe sociais.

Ora, a solução dessa contradição só pode vir por meio de uma sociedade futura em que os homens estejam postos como iguais e em que não haja classes sociais, ou seja, por meio de uma sociedade socialista. Diante desse quadro tem-se que o fundamento da luta pelo socialismo vem a ser apenas e tão somente a luta de classes bruta como tal ou, alternativamente, ela requer também um imperativo ético?

Na primeira alternativa, o fundamento da luta pelo socialismo vem a ser superar a contradição usando todos os meios agressivos e instrumentais disponíveis. Aqueles que lutam se autorizam a fazê-lo pois são seres incompletos aos quais foi sonegada uma humanidade plenamente constituída; eis que dispõem apenas de aparentes – falsas em essência – igualdade e liberdade.

Na segunda alternativa, esse fundamento prático utilitário acima descrito passa a se ancorar também em um fundamento ético “quase transcendental” que regularia as lutas pelo socialismo com base em uma “moral socialista”. Mas isso põe um grande problema já esse complemento negaria a condição de incompletude dos trabalhadores assalariados no modo de produção capitalista. Em linguagem filosófica, Ruy Fausto diz que assim se estaria assumindo que a eles se aplica já “a ideia de homem”, ou seja, de homens que são já sujeitos livres e iguais.  

Apresentadas assim, fica claro que ambas as alternativas se mostram insustentáveis; o complemento ético ao primeiro fundamento parece necessário, mas ele o anula como tal. Ora, diante desse impasse, a conclusão a que se deve chegar é que o entendimento, ou seja, o pensamento regido pela lógica clássica, não se afigura como suficiente para pensar o fundamento da luta marxista pelo socialismo como advento possível no correr da história.

Para enfrentar essa antinomia – diz Ruy Fausto – não existia solução “com os recursos oferecidos pela lógica tradicional, antiga ou contemporânea”. Para encontrar uma saída, era preciso – segundo ele – trilhar num caminho não convencional, ou seja, era preciso recorrer à herança hegeliana.  “Em uma palavra, o fundamento ético tinha de estar e não estar presente. Ele deveria estar como determinação ‘implícita’ (…), mas ausente enquanto determinação ‘explícita’”. Ou seja, o fundamento da política marxista deve ser a luta de classe bruta, mas ele só se mantém como legitimo se conserva a ética como determinação implícita dessa luta. A própria luta deve, pois, pôr ao final o “homem” como homem, ou melhor, como homem-sujeito.

Ruy Fausto descobriu a solução da questão que buscara enfrentar já ao longo dos anos 1960, quando iniciara os seus estudos de pós-graduação, na preparação de um trabalho universitário na Universidade de Rennes, em França. Pois, na introdução consultada, ele diz: “Muito cedo me interessei pelo marxismo e pela dialética, ao mesmo tempo em que me engajei na atividade política, na mouvance [movimento] da esquerda radical não estalinista”.

No bojo dessa descoberta, que se lhe afigurara como “duas ou três coisas de fato escandalosas”, ele se defrontara com uma contradição, “uma instância da famosa e muito misteriosa contradição dialética”. Mas não apenas isso, pois descortinara algo que lhe parecia um paradoxo: “havia uma grande diferença entre um pensamento ‘implícito’ e um pensamento ‘explícito’”; eis que chegara “à ideia estranha de que a expressão de um conteúdo modificava (…) o teor semântico desse conteúdo”.

Enfim, descobrira que pôr uma ideia explicitamente, ao invés de mantê-la implícita, isso afetava o seu valor de verdade; ou seja, concluíra que o humanismo deveria ser mantido implícito na luta marxista pelo socialismo, pois, se ele se tornasse explícito na prática política, ele se interverteria em anti-humanismo. No curso das pesquisas, ademais, acabou substituindo o par dialético implícito/explícito pelo par igualmente dialético posto/pressuposto. Ou seja, passou a escrever que o humanismo teria de ser mantido como um pressuposto da boa prática marxista.

Pois, se o humanismo fosse posto, ao invés de ser mantido como pressuposto, ele se interverteria em anti-humanismo. Se os trabalhadores passassem a agir eticamente no confronto com os capitalistas, eles, mesmo sem o desejarem, estariam afirmando a condição que agora têm de serem apenas “homens”, ou seja, seres sociais iguais não-iguais e livres não-livres. Se eles, ao contrário, se desvencilhassem por completo do humanismo, eles apenas reproduziriam o anti-humanismo, ou seja, perderiam a condição de seres que querem criar um mundo humano. Ou seja, ao invés da interversão, ter-se-ia perversão (Fausto não usa esse termo).

E aqui se encontra a crítica que Ruy Fausto dirigia ao marxismo dominante, notoriamente estalinista: a prática pretensamente revolucionária assim posta não libertaria e não igualaria os homens. A história mostrara à saciedade que, na melhor das hipóteses, conduziria a partidos não democráticos e, eventualmente, a sociedades burocráticas.[4]

Além do fundamento da política marxista, Ruy Fausto investigou a fundamentação do discurso teórico contido em O capital, Teoria dos mais-valores e Grundrisse. Nesse estudo, ele encontrou um problema semelhante ou paralelo àquele antes acima mencionado, a saber, se esse discurso está ou num fundado numa antropologia, ou seja, se o homem está aí posto ou excluído. A sua resposta, que também articulou mais extensamente em capítulo do livro aqui referido, vem a ser que o homem como sujeito está pressuposto no discurso marxiano.

Com a pretensão de tratar desses pontos em outros mini artigos como este, menciona-se aqui que Ruy Fausto, na obra madura, questionou a ideia de que se poderia caracterizar a sociedade atual apontando somente para o modo de produção sobre o qual se alevanta; segundo ele, seria necessário também caracterizá-las pela forma política – liberal, socialdemocráticas, neoliberal, fascista – por meio dos quais estão se desenvolvendo.

Para ele, finalmente, mesmo se a política marxista foi de certo modo superada, a crítica da economia política ainda fica bem de pé e caminha com segurança. “Se esta for entendida como crítica do ‘momento’ socioeconômico da formação capitalista, ela continua significando muita coisa, embora não seja tudo o que pretendia ser, para Marx”. Eis aqui mais um ponto que mereceria receber uma melhor discussão, seja por contestação seja mediante desenvolvimento.


[1] Professor aposentado do Departamento de Economia da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br; blogue na internet: https://eleuterioprado.blog

[2] Fausto, Ruy – Sentido da dialética – Marx: lógica e política. Editora Vozes, 2015, p. 11-21.

[3] Fausto, Ruy – Marx: lógica e política. Tomo I. Editora Brasiliense, 1983.

[4] Ver Fausto, Ruy – Formas sociais e políticas contemporâneas. https://eleuterioprado.blog/2026/03/08/formas-sociais-e-politicas-contemporaneas/

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