Eis como o G7 se desindustrilizou

Richard Baldwin [2] – 01/09/2026

Introdução

Talvez o evento mais importante da história econômica moderna tenha sido a industrialização dos países do G7 e sua ascensão ao domínio da economia mundial. Sete gráficos mostram como a velha dominância industrial foi perdida [1]

Durante os séculos XIX e XX, as economias do G7 se industrializaram de forma rápida, crescendo mais rápido do que a média global. Isso fez com que passassem a gerar cerca de dois terços da produção manufatureira e do PIB globais, apesar de conterem apenas 13% da população mundial (5,2 bilhões). Assim, apenas um terço da renda mundial era distribuída entre os outros 4,5 bilhões restantes, habitantes do planeta.

Esse evento foi chamado de A grande divergência (Pomeranz, 2000). A renda per capita do G7 se elevou para um nível muito acima da média global. Foi assim que se criou o mundo que todos conhecemos hoje. Um mundo em que a maioria dos países ficou para trás, enquanto alguns poucos países ficaram fabulosamente ricos.  

Talvez o segundo evento mais importante da história econômica moderna tenha sido a desindustrialização do G7 em relação ao resto do mundo, o que fez com esse pequeno conjunto de países perdesse o domínio econômico. Ora, a partir de 1990, a natureza da globalização mudou. É certo que as mercadorias cruzavam as fronteiras das nações há milênios, mas agora isso passou a ocorrer como o saber fazer industrial; ele passou a se mover dos países do G7 para algumas economias emergentes (Baldwin, 2016).

Eis um relato dos fatos

Usando o conjunto de dados TiVA da OCDE [3], o gráfico no painel abaixo mostra como o G7 como um todo deixou de deter 67% da indústria de transformação global em 1995 para possuir agora apenas 34% (2022). Na minha opinião, essa queda explica em grande parte a tensão geopolítica do mundo de hoje. Ela lembra, por outro lado, a armadilha de Tucídides (Allison, 2017).

Já o próximo painel mostra que as participações nacionais na produção industrial global despencaram, ainda que de forma desigual. A queda do Japão é espetacular: de 23% para 5%. A participação dos EUA caiu, mas estabilizou em torno de 17% a partir da década de 2010. A Alemanha, a terceira das três grandes potências, caiu de 9% para 5%. O restante dos países do G7 estava abaixo de 5% em 1995 e terminou 2022 com cerca da metade da cota de 1995.

Mas a queda dessas participações levanta uma questão fundamental: ela resultou da desindustrialização ou, simplesmente, de uma mera redução relativa em face do rápido crescimento das economias emergentes?

O par de gráficos a seguir mostra as mesmas informações de duas perspectivas diferentes. O gráfico à esquerda mostra como a queda total de 67% para 34% foi distribuída entre os diferentes países do G7. O Japão contribuiu com mais da metade da queda; os Estados Unidos e a Alemanha contribuíram com 12% cada um;  o Reino Unido, a França e a Itália contribuirão com 6 % cada um;  enquanto o Canadá ajudou em apenas 2%.

É preciso ver nesses dados, primeiro, que o Japão está numa posição à parte em termos de desindustrialização relativa e, depois, que os três grandes juntos (Estados Unidos, Japão e Alemanha) foram responsáveis por 80% da perda total por parte do G7.

O painel à direita mostra as quedas percentuais na participação global por país. O Canadá foi o que menos perdeu em termos de participação, passando de 1,8 em 1995 para 1,3 em 2022.

Ora, esses fatos, quando bem examinados, dizem três coisas:

*Primeiro, a perda do G7 de participação na indústria global foi grande, duradoura e generalizada e ocorreu quase todos os países que o compõem.

*Segundo, não se trata apenas de uma questão aritmética. Na maioria das economias do G7, a indústria declinou em relação ao restante da economia. Trata-se, portanto, de desindustrialização e não simplesmente de um crescimento mais lento do que o resto do mundo.

*Terceiro, a experiência foi irregular. Alguns países sofreram uma erosão gradual, outros uma ruptura acentuada; ademais, o momento em que isso ocorreu variou significativamente entre os países componentes do G7.

Em consequência, a pergunta que ainda precisa ser respondida é simples.

Tratou-se de desindustrialização ou de uma perda de tamanho relativo?

A perda de participação global do G7 na indústria manufatureira é notável. Mas a questão realmente importante é saber por que isso aconteceu. Uma queda na participação global não significa necessariamente uma contração da indústria doméstica.

Logicamente, a perda de participação global na indústria manufatureira de um país pode ter duas origens.

Em um extremo, o papel da indústria na economia interna do país pode não ter mudado, mas a sua participação relativa na economia mundial pode ter diminuído.

No outro extremo, a participação do país na economia mundial pode ter permanecido estável, mas a importância da indústria na economia interna da nação pode ter diminuído.

Há um slide no anexo que mostra a lógica dos cálculos para quem estiver interessado.

Desindustrialização nacional e tendências de tamanho

Os gráficos na figura abaixo mostram os dados do G7 de outro modo. O painel à esquerda mostra como a importância da indústria nas economias do G7 mudou entre 1995 e 2022, segundo os dados disponíveis no banco de dados TiVA (observar as linhas cheias).

Deve-se notar que, globalmente, a participação da indústria manufatureira no PIB permaneceu relativamente estável, mas caiu de 20% em 1995 para 18% em 2022 (observar a linha tracejada em vermelho). Isso diz que a desindustrialização global não responde pela história observada no G7.

De modo geral, dois tipos de experiências ocorreram no G7 elas aparecem refletidos no gráfico da esquerda. Japão, Alemanha e Itália começaram com produções industriais altas, sofreram uma queda por volta de 2008, se recuperaram mas terminaram iguais ou acima da linha indicadora da média global. As participações do Japão e da Itália se estabilizaram desde 2010, aproximadamente. A Alemanha estabilizou, mas caiu novamente a partir do final da década de 2010.

Os outros países, Estados Unidos, França, Canadá e Reino Unido, começaram com uma participação baixa e caíram rapidamente, especialmente até 2009. Isso é o que se poderia denominar de desindustrialização relativa. Nesse caso, a indústria manufatureira cresceu mais lentamente do que a média mundial desde 1995. A desindustrialização (no sentido da participação no PIB) desacelerou ou reverteu na década de 2020 nos Estados Unidos, França e Canadá.

O Reino Unido se destaca por ter experimentado uma aceleração de sua desindustrialização na década de 2020. Pode não ser coincidência que isso tenha ocorrido quando o país implementou sua saída da rede industrial da União Europeia que operava num mercado único. O Acordo de Comércio e Cooperação entre UE e Reino Unido (ATT) foi assinado em dezembro de 2020 e implementado imediatamente (UE, 2021).

O gráfico à direita mostra aquilo que poderia ser chamado de efeito escala. A maioria dos países do G7 viu sua importância na economia global diminuir gradualmente ao longo dessas décadas. Os Estados Unidos se destacam por terem aumentado sua participação durante a década de 1990, tendo reduzido essa participação nos anos 2000, mas com uma recuperação modesta desde então.

Assim, a participação média dos EUA na economia mundial oscilou em torno de 25% durante todo esse tempo, mas parece estar seguindo uma tendência de alta. Como leitores atentos já entenderam, isso significa que os Estados Unidos cresceram mais rápido que a economia mundial desde 2011. O outro país que se destacou foi o Japão, mas na direção oposta. Sua participação no PIB global caiu de 18% para 4%.

Decomposição

Como mencionado, pode-se dividir a perda de participação global de manufatura de cada país em um fator de desindustrialização e um fator de tamanho. O gráfico em sequência mostra essa decomposição.

Sem surpresa, o fator desindustrialização foi o mais importante para a maioria das economias do G7. No caso do Canadá, França, Reino Unido e Estados Unidos, esse fator foi dominante. No entanto, na Alemanha e no Japão, funcionou no sentido oposto, já que a importância da indústria de transformação no PIB aumentou em relação à média mundial. Por isso, suas barras azuis estão acima da linha zero.

O fator tamanho era muito importante para o Japão, no sentido de que sua perda de participação global se devia inteiramente à perda de tamanho relativo. O tamanho também era importante para a Alemanha e a Itália.

É interessante notar que as experiências dos Estados Unidos e do Japão foram opostas. A perda de participação dos EUA na manufatura se deveu à sua relativa desindustrialização (o Canadá segue o mesmo padrão). O Japão se deveu à perda de tamanho relativo.

Resumo e observações finais

O que causou a mudança do primeiro grande evento da história econômica moderna (qual seja ele, a industrialização do G7) para o segundo grande evento (qual seja ele, a desindustrialização do G7)?

Na minha opinião, a mudança se deve a uma mudança na natureza do processo da globalização. A partir do final do século XX, a revolução das tecnologias de informação e comunicação (TICs) tornou possível organizar atividades extremamente complexas, como a indústria que se cristalizou no século XXI, em múltiplos locais mesmo se as distâncias entre eles era planetária (Baldwin, 2016).

Quando isso se tornou possível, tornou-se lucrativo aproveitar as enormes diferenças salariais existentes entre os países por meio do deslocamento da produção. As empresas do G7, então, transferiram para o exterior o conhecimento de gestão, técnico e engenharia que haviam acumulado no passado. Fizeram isso para que ele pudesse ser combinado com mão de obra barata no exterior, o que permitia um aumento da lucratividade.

Surgiu, assim, uma nova combinação produtiva: indústria de alta tecnologia com baixos salários. Antes das TICs, as opções eram produção de alta tecnologia e altos salários em economias avançadas ou produção de baixa tecnologia e baixos salários em economias emergentes. A nova combinação se mostrou muito competitiva e muito lucrativa.

A nova combinação implicou também numa transnacionalização das vantagens comparativas em escala global. A vantagem comparativa em tecnologia detida pelos países do G7 foi combinada com a vantagem comparativa dos baixos salários detida pelas economias emergentes. Parte da atividade fabril do G7 foi assim transferida para alguns outros países, mormente da Ásia.   

Esse fluxo de know-how das empresas do G7 para as economias emergentes, assim como a nova competitividade mista assim criada, teve um efeito colateral não intencional. Desencadeou a industrialização dos países receptores em um ritmo sem precedentes na história. Foi uma industrialização impulsionada por um processo que tinha muito pouco em comum com a industrialização original verificada no G7 no século XIX.

Essa mudança histórica consiste na “segunda desagregação” do processo da globalização. Eis que a “primeira desagregação” ocorreu quando o consumo e a produção passaram a divergir geograficamente (Baldwin 2006). Foi assim que ocorreu aquilo que foi chamado de “grande divergência”

As TICs tornaram possível dividir os processos de fabricação que ocorriam nas economias do G7 em partes ou etapas com a finalidade de transferir algumas delas para o exterior sob o critério do maior lucro possível. As fábricas deixaram de se concentrar geograficamente para se desagregarem geograficamente. O processo como um todo foi chamado de “hiperglobalização” em referência à forma como a profunda integração econômica transnacional conflitava com a soberania nacional e com a democracia (Rodrik, 2011).

Referências

Allison, G. (2017). Destined for war: Can America and China escape Thucydides’s trap? Houghton Mifflin Harcourt.

Baldwin, R. E. (2006). Globalisation: the great unbundling(s). Prime Minister’s Office, Economic Council of Finland.

Baldwin, R (2016), The Great Convergence: Information technology and the new globalisation, Harvard University Press (Chapter 3).

Baldwin, R (2019), The Globotics Upheaval: Globalization, robotics, and the future of work, Oxford University Press.

Baldwin, R (2023). Where in the world are manufacturing jobs going? Factful Friday, 22 December 2023, Linkedin, https://www.linkedin.com/pulse/where-world-manufacturing-jobs-going-richard-baldwin-x1zbe/

Baldwin, R (2024). “China is the world’s sole manufacturing superpower: A line sketch of the rise”. VoxEU.org, 17 January 2024. https://cepr.org/voxeu/columns/china-worlds-sole-manufacturing-superpower-line-sketch-rise

Baldwin, R (2024). India vs China: Trade’s role in their industrialisation, Factful Friday, Linkedin, March 15, 2024.

European Commission. (2021). EU–UK Trade and Cooperation Agreement.

Herrendorf, B., Rogerson, R., & Valentinyi, Á. (2014). Growth and Structural Transformation. In Handbook of Economic Growth (Vol. 2, pp. 855–941).

Pomeranz, K. (2000). The great divergence: China, Europe, and the making of the modern world economy. Princeton University Press.

Rodrik, D. (2011). The globalization paradox: Democracy and the future of the world economy. W. W. Norton & Company.


[1] Fonte original: https://rbaldwin.substack.com/p/how-the-g7-deindustrialised?

[2] Professor de Economia Internacional no IMD; fundador e editor-chefe da VoxEU; livros: The Globotics Upheaval (2019), The Great Convergence (2016).

[3] TiVA (Trade in Value Added) da OCDE é uma base de dados e metodologia que analisa o comércio global focando no valor adicionado por cada país na produção de bens e serviços, revelando as complexas cadeias de suprimentos globais e superando as limitações das estatísticas comerciais tradicionais, que frequentemente resultam em dupla contagem. 

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