Voltando à tese da financeirização

Três teses são confrontadas nesse post: duas delas mantém a tese da financeirização do capitalismo contemporâneo e a outra a rejeita em nome do marxismo clássico.

A primeira faz referência à uma mudança estrutural, construída politicamente, que teria ocorrido no capitalismo a partir dos anos 1980. Com ela teria sobrevindo uma fase inteiramente nova do capitalismo ou mesmo um novo capitalismo. Mediante o seu advento ocorreu uma inversão indevida entre as posições relativas do capital financeiro e do capital produtor de riqueza real; o primeiro deles passa não só a dominar, mas a conter e prejudicar o bom desenvolvimento do segundo.

A segunda emprega esse termo para designar uma mudança endógena no próprio movimento histórico da acumulação de capital. O que surge agora não é, entretanto, algo inteiramente novo, mas que assumiu contemporaneamente uma magnitude e uma profundidade que requer uma demarcação adequada. Trata-se da culminação do processo histórico tendencial de globalização e socialização do capital. Eis que o mundo como um todo agora se verga diante da relação de capital. Ora, se isso ocorre sob algum susto dos velhos liberais, acontece inexoravelmente sob a espada e a égide dos neoliberais.

A terceira tese nega completamente as duas acima resumidas. Ela afirma que a teoria da crise e dos ciclos que se pode encontrar nos textos de Marx dá conta perfeitamente do movimento conjuntural de ascensão das finanças no capitalismo contemporâneo. Argumenta, assim, que a hipótese da financeirização é um falso caminho para a análise marxista. Representa erroneamente os desenvolvimentos contemporâneos do capitalismo e, em particular, deixa de entender a função do capital fictício quando ocorre uma crise prolongada e estagnação.

A nota se encontra aqui: Voltando à tese da financeirização

A nota original, em inglês, do economista grego Stavros Mavroudeas pode também ser confrontada com a tese do economista brasileiro de coração, Ladislau Dowbor. Este último autor, como se sabe, tem desenvolvido uma crítica severa ao capitalismo governado pelas finanças. O seu livro, A era do capital improdutivo, tem atraído a atenção do público brasileiro que não se conforma como o evidente sacrifício do emprego e da produção para tentar salvar as formas fictícias do capital. As suas teses que têm, sem dúvidas, um forte componente de originalidade, vêm mais de Keynes do que de Marx – julga-se. Ainda que estejam contribuindo para o debate, elas se aproximam mais da primeira posição acima elencada.

A nota de Mavroudeas está aqui: Mavroudeas – Financialization Hypothesis 

Como arruinar um país em três décadas

Os leitores desse blog, lendo o título, devem imaginar que o post vai falar do Brasil. Não, ele não vai mencionar a economia capitalista instalada na terra brasilis. Vai discorrer sobre a situação precária da economia italiana no interior da zona do Euro. Entretanto, os leitores que, de fato, lerem a pertinente nota de Servaas Storm sobre o caso da economia capitalista na Itália, certamente pensarão que um texto muito semelhante poderia ser escrito sobre o Brasil.

Logo, ao lerem “Itália”, devem, portanto, pensar no Brasil.

Segundo o texto que esse autor apresenta, as políticas de austeridade defendidas e aplicadas pelos economistas neoliberais estão abrindo uma caixa de Pandora na Itália e na Europa em geral. Pode ser esta uma tese keynesiana típica já que recomenda uma atitude de acomodação diante da possibilidade da rebelião. Mas ela tem a sua verdade.

Ninguém pode dizer onde isso vai acabar. Os economistas (incluindo os italianos) carregam uma enorme responsabilidade em tudo isso, tanto porque são muito culpados pelo caos quanto porque não conseguem chegar a soluções estratégicas racionais para resolver as crises em curso. “Talvez”, escreveu John Maynard Keynes, “seja historicamente verdade que nenhuma ordem social pereça, salvo por sua própria mão” (Keynes, 1919). Economistas racionais têm que provar que o veredicto de Keynes está errado, começando na Itália – pelo menos porque a confusão do Brexit parece estar além da redenção.

Se a situação econômica de alguns países do Norte inspira esse tipo de alerta, o que a situação de alguns países do Sul não deveria suscitar? O Brasil se encontra quase estagnado desde a década dos anos 1990, com um pequeno surto de crescimento entre 2004 e 2010.

A partir de 2011 entrou no caminho da recessão devido a um aperto dos lucros e uma queda da demanda agregada, fatos que ocorreram no primeiro governo Dilma. A partir de 2015 entrou no rumo da depressão justamente em razão das políticas de austeridade implementadas por Levy, Meirelles e Guedes. Ora, essas políticas servem principalmente ao capital financeiro e não ao capital industrial. Como continua assim, é preciso também perguntar: onde isso vai acabar?

O texto se encontra aqui: Como arruinar um país em três décadas