“As possibilidade econômicas de nossos netos” hoje

Branko Milanovic – Blog do autor no Substack – 28/09/2026

Subtítulo: Contra a atividade intencional e as religiões abraâmicas em um mundo de abundância

Em uma discussão recente sobre a “abundância iminente” produzida pela inteligência artificial e a redução da necessidade de mão de obra humana — aparentemente um futuro belo — citei, como muitas pessoas estão fazendo, o curto ensaio de Keynes, As possibilidades econômicas de nossos netos. Vindo a luz em 1930, mostra-se um tanto enigmático e com muitas camadas de significado.  

O que é relevante desse texto no contexto atual são as previsões extremamente otimistas de crescimento econômico. Keynes previu um aumento de quatro a oito vezes na renda média per capita em países avançados nos próximos cem anos. Segundo a sua visão tal abundância material levará a uma necessidade muito menor de mão de obra e, portanto, a uma semana de trabalho de cerca de 15 horas. Finalmente, mostrará um dilema sobre se a humanidade – tendo finalmente resolvido “o problema econômico” — saberá como usar todas essas horas extras de liberdade e lazer.

 Nessa breve discussão, há uma semelhança inconfundível entre As possibilidades econômicas… de Keynes e as de Marx em A Ideologia Alemã. Pois, ambos tinham uma visão otimista de que o tempo livre nos permitirá expressar plenamente nossa natureza humana, ao eliminar a divisão sufocante e entorpecedora do trabalho e ser (para usar o exemplo de Marx), “caçar de manhã, pescar à tarde… criticar [a arte] após o jantar”.

Keynes tem uma visão otimista semelhante de que a solução do problema econômico que, por milênios, aprisionou a humanidade, nos colocará em um caminho de liberdade das restrições e do florescimento de todas as capacidades humanas. Semelhanças nesse aspecto entre Marx e Keynes são muito fortes e talvez valham a pena explorá-las melhor. Em contraste com essas visões, o que acreditamos agora é no mínimo muito menos otimista.

O que me chamou atenção, no entanto, nesta nova leitura de As Possibilidades Econômicas… é algo que eu havia ignorado antes, acredito, por motivos “políticos”; há algo que Keynes mencionou, mas não elaborou. Trata-se da rejeição por parte de Keynes de que uma atividade intencional se torna desejável para a humanidade uma vez que o problema econômico foi resolvido. Daí a dúvida sobre se religiões monoteístas serão necessárias quando atingirmos a abundância.

O raciocínio é o seguinte. Para resolver o “problema econômico”, segundo Keynes, há quatro requisitos: baixo crescimento populacional, ausência de guerra, progresso tecnológico e, mais importante, poupança e acumulação de capital. Para acumular capital, é preciso demonstrar uma capacidade incomum — e, de certa forma, anti-humana — de adiar a gratificação: em vez de buscar prazer consumidos aqui e agora, o dinheiro é usado para investir em um projeto cujo retorno é incerto e pode estar distante no futuro.

Uma sociedade economicamente avançada só é possível se um conjunto grade de pessoas com recursos internalizarem esse princípio de gratificação adiada — ora, isso é bem estranho aos humanos: queremos coisas boas, seja bom café, sapatos bonitos ou ótimas férias, agora mesmo e as queremos como tais, não na forma abstrata de dinheiro acumulado em uma conta bancária.

Em outras palavras, o hedonismo, o prazer agora, é uma característica humana normal e saudável; “abstinência”, o prazer abstrato do prazer futuro, é peculiar e, de certa forma, “mórbido”. Marx chamou essa busca de “hedonismo abstrato”. A tendência natural de desfrutar de atividades em si mesmas, em vez de se envolver em atividades cujos frutos estão no futuro, foi derrubada por aqueles que não desvalorizam os prazeres futuros e é a eles que devemos o crescimento econômico.

Mas — e isso é fundamental — o que acontece quando alcançamos o “reino da liberdade” e não precisamos mais acumular? Essa habilidade — por ser indispensável em tempos de escassez — de repente é vista pelo que é, quase uma “propensão semi-criminosa, semi-patológica que se entrega com um arrepio aos especialistas em doenças mentais.” Ela não é mais necessária e, se continuar praticada, mostra quase uma falha pessoal: incapacidade de viver o momento (como todo professor de yoga dirá); de aproveitar atividades como tal, não de realizar atividades com propósito cujos benefícios estão muito distantes.

De onde vem essa habilidade incomum mencionada pelo economista? Keynes faz aqui um “desvio” muito interessante e liga o adiamento do prazer a religiões monoteístas que também prometem os benefícios de uma vida feliz futura em algum futuro indefinido e empiricamente não verificável. Aqui está o parágrafo muito importante de Keynes, onde a alusão é direcionada apenas ao judaísmo, mas as implicações claramente se estendem às outras duas religiões abraâmicas:

“Talvez não seja por acaso que a raça que mais fez para trazer a promessa de imortalidade ao coração e à essência de nossas religiões também tenha feito mais pelo princípio do juro composto e ame particularmente essa instituição humana tão intencional.”

As religiões abraâmicas têm sido extremamente úteis para levar as pessoas a se envolverem em atividades cujos resultados surgem em um futuro distante. Sem aceitar que as sobremesas de alguém sejam adiadas, ninguém economizaria, e nenhum capital seria acumulado. O hábito desse adiamento e sua validação, ou louvor, vêm do adiamento embutido no judaísmo, cristianismo e islamismo (embora apenas o primeiro seja tacitamente implícito), onde os prazeres futuros eram prometidos àqueles que se negavam os prazeres terrenos. A abnegação religiosa e a promessa de salvação, por um lado, e o adiamento da gratificação econômica, por outro, precisavam um do outro e trabalhavam lado a lado. (Há, é claro, ecos de Max Weber aqui.)

Mas, uma vez que “o problema econômico” seja resolvido, podemos abandonar esse adiamento antinatural do prazer. Podemos encontrar prazer em atividades como tais – não no que a atividade pode nos trazer no futuro – e então as religiões que nos ensinam o contrário tornam-se redundantes e até nefastas. Embora Keynes não tire totalmente essa implicação, acho que estamos certos em simplesmente estender para apenas mais um passo, o argumento que ele construiu com tanto cuidado, expondo-o, tijolo por tijolo, de que em um mundo de abundância, religiões monoteístas não são mais necessárias, porque o prazer não precisa ser adiado, e poupança e investimento não são necessários.

Tudo será consumo. E prazer diário (Estou ciente de que Niall Ferguson criticou (injustamente) Keynes por isso)

Talvez tenha sido difícil para Keynes, dada a situação ideológica no Reino Unido nos anos 1930, seu papel semioficial no governo e a visão já presente dele como um pouco rebelde, traçar explicitamente essa implicação para nós — mas acredito que quem ler seu ensaio hoje não pode deixar de dar esse passo simples, todos os elementos bem e claramente expostos por Keynes.

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