Michael Roberts – The next recession blog – 13/09/2026
A Suécia vai às urnas hoje em uma eleição geral extremamente acirrada que pode ver a extrema-direita entrar no governo pela primeira vez, caso os partidos de direita do país formem maioria. No entanto, pesquisas de opinião mostram a aliança de oposição centro-esquerda à frente, com Magdalena Andersson, dos Social-Democratas, a favorita para se tornar primeira-ministra novamente após quatro anos na oposição. Mas a vantagem de seu bloco diminuiu consideravelmente nos últimos dias da campanha.
Em 2022, o atual primeiro-ministro, Ulf Kristersson, líder dos moderados de centro-direita, quebrou um tabu antigo ao fazer um acordo com os Democratas da Suécia (SD), anti-imigrantes, para que sua coalizão minoritária pudesse formar um governo. Esse acordo deu ao SD influência desproporcional sobre a política do governo, especialmente em relação ao crime e à imigração,
Kristersson agora foi além, prometendo cargos ministeriais para o SD caso retorne ao poder. Na tentativa de reconquistar eleitores, os social-democratas de Andersson também se moveram para a direita em criminalidade, imigração e integração, o que significa que uma vitória da esquerda dificilmente significaria uma reforma das políticas radicais atuais. Na prática, assim como na Dinamarca, os social-democratas adotaram as políticas de imigração da direita.
E apoiaram o fim da política ‘neutra’ de longa data da Suécia em assuntos exteriores e apoiaram entusicamente a adesão da Suécia à OTAN, tornando-se um dos mais beligerantes no apoio à continuação da guerra na Ucrânia contra a invasão russa. De fato, a percepção de ‘ameaça russa’ de invadir a Europa é um tema de quase todos os partidos políticos suecos. Andersson disse ao FT que suas principais prioridades no governo eram a Ucrânia e a “intensificação da cooperação” com países europeus – aparentemente não o custo de vida ou questões econômicas.
Sempre foi uma ilusão de que a Suécia era o ‘terceiro caminho’ entre o capitalismo de livre mercado sem restrições e o comunismo autocrático da economia de comando. Os grandes ganhos do movimento trabalhista sueco no início do século XX foram gradualmente revertidos. Assim como em outras economias capitalistas, as políticas do neoliberalismo – um retorno aos mercados livres, baixa tributação para os ricos e as corporações, cortes no estado de bem-estar social e nos salários reais, aumento da desigualdade etc. – operam na Suécia desde meados dos anos 1990.
A Suécia pode ainda ter uma distribuição de renda mais ‘igualitária’ do que os EUA e o Reino Unido, mas ainda é muito desigual – e a desigualdade tem aumentado mais rapidamente desde os anos 1990 em relação a todas as economias capitalistas avançadas. Os 10% mais ricos dos suecos recebem para casa (após impostos), 33% de toda a renda pessoal, enquanto os 50% mais pobres compartilham apenas 20%.
A desigualdade de riqueza é ainda pior. Em 1980, o 1% dos principais proprietários de riqueza pessoal ficou com 17,7% de toda a riqueza pessoal; agora eles têm 22,5%. Os 10% mais ricos tinham 54,4% em 1980; agora eles têm 68,2%. Os 50% mais pobres dos suecos tinham apenas 13,4% da riqueza pessoal total em 1980; agora eles têm mais dívida do que riqueza, com -10,9%!, tal foi o aumento dos empréstimos (hipotecas etc)! – Dados do WID.
Na Suécia, como na maioria dos outros países nórdicos, as reformas tributárias dos anos 1990 reduziram a carga tributária para famílias mais ricas, por exemplo, diminuindo a tributação do capital e diminuindo ou abandonando a tributação sobre a riqueza. Ao mesmo tempo, houve cortes nos benefícios sociais para os pobres.
A Suécia não é mais um exemplo de país em que a oferta de bens e serviços é estatal. O país é um dos líderes mundiais em ter serviços públicos fornecidos pelo setor privado, pagos pelo governo. Cerca de um terço de todas as escolas secundárias suecas são chamadas ‘escolas livres’, sendo a maioria administrada por empresas com fins lucrativos, enquanto cerca de 40% dos provedores de saúde primária são de propriedade privada.
As suas ações são até mesmo vendidas na bolsa de valores. A oferta pública foi terceirizada em detrimento da qualidade. As escolas suecas passaram de ser uma das melhores do mundo em classificações internacionais para “uma das mais medianas”. Os social-democratas há muito tempo são contra que escolas independentes possam lucrar e pagar dividendos. Mas nunca conseguiram reunir maioria para acabar com isso.
E então há a imigração. Mais de 600.000 imigrantes do Oriente Médio entraram no país desde o desastre da Síria/Iraque. Muitos imigrantes são jovens solteiros e ajudaram empresas capitalistas e o setor público a superar uma grave escassez de mão de obra para trabalhos pouco qualificados. Mas a quantidade de imigrantes per capita é muito maior do que em qualquer outra economia europeia e aumentou a pressão sobre esses serviços públicos, que já sofriam com medidas neoliberais. As pequenas cidades na Suécia passaram por baixos salários, serviços mais pobres e depois enfrentaram um influxo de novos imigrantes. Esse foi o terreno fértil para a mensagem racista e nacionalista dos democratas de ‘Suécia para os suecos’.
A ascensão dos democratas suecos segue o padrão do chamado populismo que vimos na Alemanha, França, Itália, Dinamarca e outros países da UE, assim como com o Brexit no Reino Unido e Trump nos EUA. É produto do fracasso do capitalismo em entregar resultados após o fim da Era de Ouro em meados dos anos 1960, mas especialmente após o colapso financeiro global, a Grande Recessão e a subsequente Longa Depressão. O capitalismo sueco, um pouco como a Alemanha (só que como uma economia muito menor), experimentou uma desaceleração no crescimento econômico nas últimas décadas e, especialmente, desde 2008.
Qualquer que seja o bloco político – de esquerda ou direita – conquistar a maioria em um novo parlamento, isso mudará pouco.




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