O autor da nota publicada em sequência, que se perfila como keynesiano, examina as consequências da política econômica keynesiana na lucratividade do capital – o que é raro nesse ramo da literatura sobre macroeconomia. No entanto, ele não toca na questão das relações entre a acumulação de capital, o aumento da produtividade do trabalho e da queda da produtividade aparente do capital e, assim, da tendência ao declínio da taxa de lucro.
Eis o artigo:
Autor: Nick Johnson – Fonte: The political economy of development – 2/07/2025
O que salva o capitalismo hoje pode enfraquecê-lo amanhã. As políticas governamentais que sustentam o pleno emprego correm o risco de sustentar o capital improdutivo [de valor excedente] e atrasar a destruição criativa. Mas existe uma solução progressiva para esse problema?
Hoje em dia, os governos se tornaram os primeiros a responder ao capitalismo. Seja uma crise financeira ou uma recessão induzida pela pandemia, os formuladores de políticas geralmente recorrem ao mesmo kit de ferramentas: cortar as taxas de juros, aumentar os gastos públicos e manter a demanda à tona. E essa prática tem funcionado, pelo menos no curto prazo.
Mas, historicamente, alguns economistas fizeram uma pergunta mais difícil: essas intervenções mantém vivas certas partes da economia, mas elas deveriam ser reestruturadas ou deixadas para trás? O estímulo pode sustentar os lucros do setor privado, mas também diminui a concorrência e atrasa as mudanças dolorosas de que o capitalismo precisa para prosperar? A resposta pode ser sim, embora existam formas alternativas de intervenção estatal que levam em conta tais problemas. Elas agem para ajudar na reestruturação da indústria e apoiar o dinamismo capitalista.
Os leitores regulares deste blogue (qual seja, The political economy of development) provavelmente saberão que simpatizo com aspectos da economia keynesiana e marxista. Não desejo ver o capitalismo derrubado por uma revolução socialista, pelo menos não da maneira como isso foi feito historicamente. Sou a favor de intervenções estatais na economia capitalista para alcançar objetivos progressistas. Mas há limites para tais intervenções e este poste explora um dos principais.
Abordagens keynesianas e TMM para gerenciamento de demanda
Desde a publicação da Teoria Geral de John Maynard Keynes em 1936, vários ramos em evolução da economia keynesiana, do mainstream ao radical, adotaram a noção de que os governos deveriam intervir na economia que sofre de desemprego em massa, a fim de aliviar a situação. Simplificando, eles devem agir para aumentar a demanda efetiva ou os gastos gerais por meio de políticas monetárias (corte de taxas de juros) e/ou fiscais (corte de impostos ou aumento dos gastos públicos).
Para Keynes e seus seguidores, pelo menos no curto prazo, grande parte do desemprego é causado por uma demanda inadequada em relação ao produto potencial. Em tal situação, é provável que muitas empresas sofram de excesso de capacidade e produzam abaixo de todo o seu potencial. Assim, um estímulo político que aumente a procura deve ter como objetivo restaurar a produção ao seu nível potencial mais próximo da capacidade total, o que aumentará não só a procura de produção, mas também de novos empregos e a criação de mais empregos.
Para o keynesianismo, um estímulo excessivo à demanda pode levar a uma inflação mais alta se empurrar os gastos além da capacidade total de produção das empresas, fazendo com que elas aumentem os preços em vez de expandir a produção e o emprego. Essa inflação do lado da demanda geralmente deve ser evitada pelos formuladores de políticas.
A Teoria Monetária Moderna (TMM) vem a ser um conjunto de ideias sobre as instituições monetárias da economia capitalista e sobre as políticas potenciais que elas ser feitas. Adota uma série de ideias da economia “pós-keynesiana”, uma escola de pensamento um tanto radical ou não convencional. Mas, os seus proponentes, apelam mais para as ideias originais de Keynes e menos para as de seus descendentes mais convencionais.
A TMM compartilha com as escolas keynesianas e pós-keynesianas originais uma ênfase maior na política fiscal do que na política monetária na gestão econômica em comparação com o pensamento dominante moderno. Argumenta que o pleno emprego, emprego para todos que desejam estar empregados, pode ser alcançado com a ajuda de uma política fiscal ativa para estimular a demanda sempre que necessário. Isso geralmente deve assumir a forma de um déficit fiscal, com gastos públicos maiores do que o recolhimentos dos impostos, financiados pelo aumento do endividamento ou pela “impressão de dinheiro”.
A TMM, de forma controversa e distinta, postula que os governos emissores de moeda soberana sempre podem gastar mais já que, de fato, nunca podem ficar sem dinheiro (ou seja, sem o dinheiro que emitem). Assim, o desemprego é culpa do governo, que sempre pode agir para reduzi-lo expandindo a demanda. A TMM também defende que o governo deve garantir o emprego.
Tanto os keynesianos quanto os adeptos da TMM argumentam que os governos devem agir para estabilizar a demanda na economia capitalista. A TMM, em particular, argumenta que um déficit fiscal, que cria gastos públicos deficitários – gasta mais do que a receita tributária –, tenderá a sustentar um superávit do setor privado, com renda maior do que os gastos de empresas e famílias juntos.
Esse excedente também pode ser chamado de poupança ou lucros no caso das empresas. Assim, uma política fiscal ativa, que sustente a demanda, pode manter o setor privado como um todo financeiramente saudável, apoiando a sua solvência. Para a TMM, a criação de dinheiro liderada pelo Estado por meio de déficits fiscais apoia a lucratividade do setor privado e, portanto, o investimento do setor privado e o crescimento econômico resultante.
O problema da lucratividade
No entanto, há um problema com essa visão de que a economia capitalista pode ser perpetuamente impulsionada pela demanda e pela criação de dinheiro: ele diz que os lucros devidos ao estímulo pelo lado da demanda não são necessariamente sustentáveis.
O estímulo político pode aumentar temporariamente os lucros agregados do setor privado devido ao aumento a demanda; contudo, ele pode apoiar empresas ineficientes ou não competitivas fazendo-as durar. Ademais, ele reduz a pressão sobre as empresas para inovar, cortar custos ou investir em reestruturação. Acredita-se, também, que ele pode distorcer os sinais de preços, atrasando a realocação de capital e trabalho para usos mais produtivos. O seu efeito final implica numa redução do crescimento geral e da produtividade no longo prazo.
Estímulos repetidos (baixas taxas de juros e gastos deficitários) podem manter vivas as empresas “zumbis”. São empresas que não são mais competitivas no mercado, mas continuam existindo devido ao crédito barato ou ao apoio estatal. O Japão na década de 1990, após o estouro de uma enorme bolha de preços de ativos, é frequentemente citado como um caso desse fenômeno. Eis que ele marcou o fim de um longo período de rápido crescimento e desenvolvimento, conhecido como o “milagre japonês”.
Tanto a perspectiva marxista quanto a pós-keynesiana aponta para a taxa de lucro como central para o processo de acumulação de capital (uma palavra supostamente mais antiquada e substituta para crescimento econômico). Se um estímulo à demanda aumenta os lucros temporariamente, mas não restaura a lucratividade subjacente (devido ao excesso de capacidade ou baixa produtividade do trabalho), o investimento produtivo pode permanecer fraco. Isso pode levar a um ciclo de estagnação, em que os governos são forçados a estimular a economia perpetuamente apenas para manter a demanda.
Em última análise, se o setor privado for menos capaz de se expandir, o estímulo do governo pode levar ao aumento da inflação e, em seguida, à estagflação, com baixo crescimento e aumento do desemprego acompanhado de inflação mais alta. Lidar como essa combinação preocupante de resultados econômicos torna-se particularmente difícil para os formuladores de políticas; pois, ao optar pela redução da demanda para conter a inflação, o governo pode desacelerar o crescimento e aumentar ainda mais o desemprego.
Em suma, as políticas de gerenciamento de demanda inspiradas em keynesianas e TMM podem enfraquecer o incentivo para a reforma estrutural do lado da oferta e o aumento da produtividade em toda a economia. Os críticos de tais políticas podem argumentar que elas resolvem o problema da demanda, mas não o problema da lucratividade.
O papel da destruição criativa
A ideia de “destruição criativa”, inspirada como se sabe em Marx, foi cunhada por Joseph Schumpeter: um capitalismo dinâmico e produtivo, com empresas incentivadas pelo lucro, evolui por meio de ondas de inovação que destroem velhas indústrias ao mesmo tempo em que se criam novas empresas. Como já descrito, as políticas do lado da demanda podem suprimir esse processo, mantendo vivos os setores em declínio e atrasando uma reestruturação dolorosa, mas necessária.
Tudo isso dá origem a algumas questões difíceis:
- A estabilização macroeconômica é anticapitalista no longo prazo?
- Qual deve ser o papel da gestão da demanda se os formuladores de políticas ainda quiserem minimizar os custos sociais e econômicos do desemprego, preservando o dinamismo econômico?
- Que escala de crise econômica ou financeira é necessária para exigir uma intervenção significativa do lado da demanda?
- Esse argumento legitima a austeridade fiscal, uma política que parece ter sido impopular e econômica e socialmente prejudicial nos últimos anos?
- Existe um caminho politicamente viável para equilibrar o estímulo com a reestruturação?
Algumas lições da história
Na Idade de Ouro do Capitalismo do pós-guerra, que durou até o início dos anos 1970, ocorreu um rápido crescimento na produção e na produtividade em todo o mundo capitalista, com pleno ou excesso de pleno emprego em muitos países, inflação moderada e instabilidade financeira mínima. Ela pareceu dar suporte para à tese da eficácia das políticas keynesianas.
Mas a política governamental foi muito além da gestão da demanda durante esse período; havia intervenção estatal na indústria, nacionalização e coordenação da gestão salarial na forma de políticas de renda e negociações entre governos, empregadores e sindicatos em muitos países. O sistema de Bretton Woods de controles financeiros internacionais e taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis, também um legado da influência de Keynes na formulação de políticas, sustentou essas estruturas de políticas nacionais.
Para os defensores tardios do laissez-faire, o colapso desse sistema na década de 1970, em meio à queda da lucratividade, estagnação da produção e da produtividade, assim como aumento do desemprego e da inflação, constituiu-se como prova das falhas nas ideias keynesianas e da intervenção estatal em geral. No entanto, o período subsequente, dito neoliberal, tem sido notavelmente menos bem-sucedido economicamente em muitos países; o desenvolvimento capitalista global desde então tem sido, ademais, tipicamente desigual.
Mas se os argumentos acima sobre lucratividade estiverem corretos, então um colapso e um período de reestruturação industrial talvez fossem inevitáveis. O mesmo acontece com a ideia de que existem aspectos do keynesianismo que permanecem válidos, se quisermos que a Idade de Ouro seja corretamente compreendida e aprendida. Muitos economistas ainda argumentam que a intervenção estatal efetiva em geral deve ir além da gestão da demanda para que o dinamismo potencial do capitalismo seja totalmente aproveitado.
Veja-se agora o que ocorreu no período mais recente. Na esteira da crise financeira global de 2008-09, os estados membros dos EUA e da EU implementaram fortes esforços de estímulo econômico e eles, sem dúvida, impulsionaram os lucros em setores como finanças e tecnologia, mas deixaram setores estruturalmente fracos, como varejo e manufatura, vulneráveis, sem as reformas necessárias. Uma virada para a austeridade fiscal em países como o Reino Unido, em 2010, foi associada à estagnação econômica; enfrentava-se assim um fraco desempenho de produtividade que perdura até os dias atuais.
Portanto, o dinamismo econômico depende de mais do que se abster de produzir estímulos fiscais. Um estímulo monetário sem precedentes foi realizado por anos após o fim da crise financeira global. E ele pode ter mantido vivas as empresas “zumbis”. A alternativa de uma reestruturação dolorosa foi então considerada uma opção pior pelos formuladores de políticas. Talvez fosse necessária uma reestruturação mais ambiciosa das finanças e da indústria coordenada pelo Estado, mas isso pareceu obviamente um anátema para o governo liderado pelos conservadores da época.
Finalmente, o enorme estímulo ao investimento liderado pelo Estado da China pós-2008 elevou o PIB e os lucros corporativos por um tempo, mas piorou o excesso de capacidade e o endividamento no setor imobiliário e de infraestrutura. Nesse caso, o estímulo de curto prazo levou a problemas de longo prazo, que são muito evidentes hoje.
O crescimento chinês, agora significativamente menor, tornou-se excessivamente dependente de investimentos e exportações de produtos industriais, uma tendência que contribuiu para desequilíbrios globais significativos e aumento do conflito sobre o comércio internacional, à medida que produtos chineses competitivos, como veículos elétricos, inundam os mercados globais. O consenso crescente é que a China precisa reestruturar drasticamente a demanda, reduzindo o investimento e aumentando o consumo. Ora, isso terá que ser associado a uma reestruturação da oferta. Esta última mudança necessária não tem sido muito apreciada pelos governantes chineses.
Uma alternativa política progressista?
O problema da lucratividade e a necessidade de reestruturação industrial periódica, que visa manter o capitalismo dinâmico, pode apontar aparentemente para a necessidade de implementar sempre uma política de laissez-faire, ou seja, para uma política que supostamente deixa as coisas para o mercado.
Ora, isso é um tanto irônico, dado que as ideias sobre os limites da gestão da demanda e da destruição criativa se inspiram em teses de Marx e de economistas influenciados pelo marxismo. Contudo, julga-se aqui, essa situação também pode apontar para soluções políticas mais progressistas. O mercado, o Estado e outras instituições não devem ser vistos – penso – como separados e em conflito. Devem ser entendidos como atividades que funcionam necessariamente trabalhando em conjunto, atuando potencialmente para o bem da economia e da sociedade.
Políticas industriais eficazes vem a ser uma possibilidade; nesse caso, o Estado fornece uma visão de longo prazo para a economia como um todo e, por isso, coordena e apoia a expansão dos setores produtivos. O fornecimento de bens e serviços públicos que mantêm baixos os custos das empresas e expandem as oportunidades de investimento, como infraestruturas de qualidade, educação e formação, bem como a investigação fundamental que o sector privado muitas vezes não pode ou não quer financiar, são também vitais para a prosperidade a longo prazo. As políticas do mercado de trabalho e da segurança social que apoiam a reconversão e a recolocação de trabalhadores tornadas necessárias pela evolução da procura de competências continuam a ser fundamentais.
Em suma, há muitas coisas que apenas o Estado pode fazer em uma economia capitalista. Se ele é capaz de fazer tudo isso de modo adequado vem a ser outra questão! O próprio Keynes disse que o Estado deveria fazer coisas que o setor privado não está fazendo e que elas teriam de ir muito além da gestão da demanda.
Em conclusão
Sob o capitalismo, parece haver uma tensão entre estabilização e transformação. Resta a questão de saber se uma economia que depende do estímulo estatal constante é sustentável.
A disciplina de mercado por meio da falência e da realocação da força de trabalho e capital é algo duro para as pessoas, mas pode ser necessário para o dinamismo capitalista. A política de gerenciamento de demanda keynesiana ou inspirada na TMM pode enfraquecer essa disciplina a serviço da sociedade, pelo menos por um tempo, mas a que custo? O estímulo à demanda sustenta os lucros do setor privado e aumenta o emprego por um tempo; contudo, ele impede a transformação industrial, podendo prejudicar o desempenho econômico de longo prazo.
No entanto, existem alternativas que envolvem políticas industriais, de mercado de trabalho e de bem-estar concebidas de forma inteligente. No caso de grandes choques negativos na demanda, como resultado de uma grave crise financeira ou de uma pandemia, por exemplo, grandes estímulos fiscais e monetários ainda podem ser justificados se evitarem o colapso social e econômico, bem como a instabilidade política.
Sim, mas eles precisam ser cuidadosamente projetados com fatores-chave de longo prazo; é preciso ter em mente a produtividade e a mudança estrutural. Isso pode ser difícil de realizar, mas continua sendo vital para alcançar e sustentar – penso – a prosperidade, a justiça social e a liberdade individual.
As tensões subjacentes aqui exploradas, entre correções de políticas de curto prazo e desafios estruturais de longo prazo, levantam questões difíceis sobre o escopo e os limites da gestão econômica. A caixa de ferramentas de política macroeconômica de hoje se mostra inadequada para fazer as mudanças estruturais agora necessárias sob o capitalismo? Ademais, subsiste um apego a suposições desatualizadas ou errôneas?
Tudo isso deixa algumas questões em aberto:
- Há um caminho viável para os formuladores de políticas que apoie o investimento e a inovação sem depender do estímulo da demanda?
- Como as políticas de gerenciamento de demanda podem ser estruturadas de forma mais eficaz para atingir metas progressivas de longo prazo, além de simplesmente visar a inflação baixa?
- Esse problema é mais sobre economia, política ou a relação inevitável entre os dois?

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