A Guerra-Espetáculo de Trump no Irã: cortina de fumaça para a grande crise

Por José Paulo Guedes Pinto[1]

“No espetáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenrolar é tudo. O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.” – Guy Debord, tese 14 do livro “A Sociedade do Espetáculo”

Vivemos um momento em que a política internacional passou a operar cada vez mais como espetáculo. Em vez de enfrentar problemas estruturais, governos constroem narrativas dramáticas que dominam o noticiário e tentam reorganizar momentaneamente o apoio político. Como lembrava Guy Debord no livro, na nossa sociedade do espetáculo, a realidade social é substituída por imagens e encenações: a política torna-se uma produção permanente de narrativas, custe o que custar.

Em outro texto defendi que foi essa lógica que marcou o episódio do sequestro do presidente Nicolas Maduro autorizado por Trump na Venezuela. Sigo pensando que a retórica agressiva e violenta, as ameaças militares e as sanções econômicas são mecanismos espetaculares que seguem funcionando menos como soluções reais e mais como instrumentos simbólicos para reorganizar a política doméstica dos EUA, desviar a atenção das crises internas e tentar alimentar a base de Trump com a imagem de um líder forte.

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Para a crítica da Inteligência Artificial (AI)

Ora ameaça, ora apenas ferramenta, é ilusório ver a IA como externa a nós. Ela é fruto do mesmo aparato que reduz nossa subjetividade a um fluxo previsível. É hora de desertar da linha do tempo e reaver o tempo múltiplo – onde podemos ter voz própria

Largue a mão da IA, agarre o inconsciente

Autora: Veridiana Zurita [1] – Outras Palavras – 23/06/2023

Desde o lançamento do ChatGPT [2] em novembro de 2022, o debate sobre Inteligência Artificial (IA) reacendeu nas redes. Falar sobre IA está na ordem do dia. Debatemos sobre suas potências e limites, nossos deslumbramentos e medos frente a um sistema, supostamente, inteligente. As análises sobre o tema variam entre a ameaça de sermos dominados por “Alexas” e “Siris” e a impossibilidade de tal domínio, afinal nossa inteligência humana seria única, insuperável. De toda forma, o tom do debate coloca nós (humanos) versus ela (inteligência artificial). Dominados ou superiores, debatemos a IA inebriados por tal dualidade – aliás, característica de uma certa “inteligência humana”.

De um lado a IA é percebida como entidade tecnológica, uma aparição-mágico-maquínica que no futuro próximo dominaria o humano, superando sua inteligência e causando a temida extinção. Do outro, a IA é analisada como “não-inteligência”, como artificialidade-maquínica, que prevê comportamentos a partir de cálculos que jamais poderiam sistematizar aquilo que conhecemos como afetos, amor, ética e moral humana. Poderíamos dizer que as duas versões são e não são possíveis. O famoso é e não é dialético. 

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