Eleutério F. S. Prado [1]
O informe que aqui se apresenta sobre a evolução recente da economia argentina é uma tradução do Informe de conjuntura macroeconômica nº 18 do CONICET/UBA [2], elaborado por Joaquin Waldman e sua equipe. Ei-lo:
A economia [argentina] teve um julho para esquecer: o Estimador Mensal de Atividade Econômica (EMAE) do INDEC despencou 2,9% mensalmente, uma queda de magnitude não vista desde a pandemia. Como essa estimativa é muito sensível ao surgimento de novos dados, ela pode mudar em publicações futuras. No entanto, assumindo que esse valor vá ser confirmado, tem-se um resultado trágico; como mostra o gráfico em sequência, a queda se mostra como uma das piores da histórica recente. Apenas 1% dos dados recolhidos no passado foi menor, sendo a sexta pior dos 270 meses disponíveis (veja o Gráfico 1).
A queda na atividade em julho foi generalizada: segundo os dados setoriais disponíveis apenas dois dos 15 setores permaneceram em níveis positivos. Assim, como ilustra o Gráfico 2 abaixo publicado, o boom nos setores que lideraram o crescimento estabilizou nos últimos meses. Esse grupo inclui as atividades agrícolas, mineração e intermediação financeira, além de pesca, restaurantes e hotéis. Esse grupo de setores cresceu 24,1% de novembro de 2023 até o primeiro trimestre deste ano. Desde então, sua produção caiu 2,6%. O restante da economia, por outro lado, variou apenas 1,1% do início do governo até o primeiro trimestre de 2026, e caiu 2,9% nos últimos quatro meses. Após um período de crescimento heterogêneo, a estagnação se mostra bem consolidada.
Os principais indicadores de consultorias privadas de agosto não indicam uma reversão rápida da queda. O Índice Construya, que mede as quantidades de insumos da construção vendidas ao setor privado, caiu 3,5% mensalmente; o Índice de Produção Industrial preparado pela FIEL caiu 0,9% mensalmente; o Índice de Confiança do Consumidor da UTDT caiu 1,1% mensalmente; e o consumo em massa medido pela consultoria Scentia caiu 0,7% mensalmente.
Por sua vez, a arrecadação (recaudación) de impostos vinculados à atividade econômica em geral também não se recuperou, como mostrado no Gráfico 4. Pior ainda, eles continuaram sua tendência negativa também em setembro. Assim, é difícil esperar que o terceiro trimestre mostre crescimento em comparação com o segundo. Na verdade, a queda trimestral que estimamos estaria ligada à queda da atividade no segundo trimestre do ano, quando contraiu 0,6% em comparação ao primeiro. Dessa forma, a economia entraria em recessão técnica, pondo fim à recuperação anterior.
A economia capitalista da Argentina caracteriza-se por ser muito volátil, com crises frequentes. A atual seria a décima primeira recessão desde 1993 (veja o Gráfico 5). Essas recessões tiveram uma duração mediana de um ano, com queda de 6%.
Ao analisar as razões por trás dessas dez recessões, dois elementos se destacam como os mais comuns. Três deles ocorreram após uma desvalorização significativa (2013-14, 2015-16 e 2018) e outros três são atribuíveis a eventos internacionais (1995, 1998-2000 e 2008-09). Por fim, a crise de 2019-20 combinou ambos os fatores: a queda na atividade causada por um salto no dólar foi posteriormente agravada pela pandemia.
Nos três eventos restantes, a atividade contraiu sem desvalorização ou choque externo, constituindo uma referência para o caso atual. Essas recessões ocorreram em 2001-02.5, 2011-12 e 2022-24 e, embora sejam diferentes entre si, têm elementos comuns que contribuem para a compreensão do presente.
As recessões selecionadas tiveram um colapso nos investimentos. Em duas delas (2001 e 2022), tensões financeiras levaram a expectativas de baixo crescimento, reduzindo a demanda por máquinas e equipamentos. No evento restante (2011-12) e na crise de 2022, o contexto de controles de importação e movimentações de capitais, que limitaram a possibilidade de compra de máquinas, contribuíram para a queda dos investimentos.
Por outro lado, duas dessas crises começaram com taxas de câmbio real muito baixas ($1.200, aos preços atuais, em II-01 e $1.600 em III-22). Isso diminuiu a competitividade, desencorajando a produção negociável – a indústria caiu 22% na recessão de 2001-02 e 18% na de 2022-24.6 Por sua vez, a valorização reduziu a demanda por bens não comercializáveis, afetando seriamente a construção, que caiu nesses dois eventos.
Em todas as três crises, o consumo privado caiu. Em particular, a crise de 2001-02 mostrou um colapso de 17% nessa variável, devido à deterioração da renda do trabalho que não foi suavizada pelo crédito, devido às altas taxas de juros. Finalmente, em duas dessas recessões (2001-02 e 2022-24) pode-se identificar um corte nos gastos públicos que retardou a recuperação.
Identificamos quatro elementos em recessões passadas que são replicados no caso atual. O primeiro deles vem a ser uma taxa de câmbio real (TCR) deliberadamente baixa para segurar a inflação, o que afeta a competitividade das atividades negociáveis e torna as atividades não negociáveis mais caras (veja o Gráfico 6).
O segundo deles aponta para rendas do trabalho fortemente apertadas. Diferente de 2001-02, isso não se manifesta em uma alta taxa de desemprego, mas em uma informalidade crescente, com salários reais muito abaixo dos salários formais. Isso reduz o dinamismo no consumo privado. Terceiro, a volatilidade das taxas interbancárias e as altas inadimplências tornam os empréstimos caros, impedindo uma reativação por meio de crédito. Por fim, tanto o consumo quanto o investimento público ainda são muito baixos, impedindo o Estado de liderar a reativação.
Em resumo, nem famílias, nem empresas, nem o governo são candidatos naturais para resolver a recessão. Isso gera uma demanda anêmica, compatível com a produção estagnada. Para piorar, a gestão da taxa de câmbio e o forte influxo de moeda estrangeira proveniente da venda de hidrocarbonetos significam que o restante do mundo também não impulsiona a demanda dos setores produtivos mais importantes. Assim, as projeções de crescimento diagnosticam um desempenho pior do que o observado após outros planos de estabilização, e em constante revisão para baixo (ver o Gráfico 7).
[1] Professor aposentado da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br; Blogue na internet: https://eleuterioprado.blog.
[2] O pdf do informe do CONICET se encontra abaixo,







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