Haverá uma catástrofe com adoção da IA?

Michael Roberts – The next recession blog –26/02/2026

Um relatório publicado no último fim de semana pelo obscuro grupo de analistas financeiros “Citrini Research”, versando sobre o impacto futuro da IA, causou uma venda de ações das empresas de software.  A “Citrini” era pouco conhecida até publicar o seu “Global intelligence crisis report” – um aviso sobre uma crise global que viria com a adoção da IA”. Mas, subitamente, a publicação acumulou mais de 22 milhões de visualizações só no X.

A mensagem básica do aviso diz que, em poucos anos, os “agentes” de IA podem substituir amplamente o trabalho humano em todos os setores da economia.  Se acontecer, isso levaria a um aumento massivo do desemprego, seguido por um colapso do consumo e uma crise financeira no setor de ‘crédito privado’ às famílias e nas hipotecas, desencadeando assim uma brutal recessão.

Os autores da “Citrini” dizem que não estavam fazendo “previsões”, mas apenas apresentando um “cenário” do que poderia prevalecer já em meados de 2028. Nesse cenário haveria uma queda de 38% no mercado de ações, uma taxa de desemprego acima de 10% e um colapso nos mercados de crédito às famílias e de hipotecas.  E tudo ocorreria porque a IA seria muito bem-sucedida! Eis que os “agentes” de IA usurpariam os postos de trabalho humanos, especialmente aqueles ligados ao desenvolvimento de software e outras tecnologias de ponta. Ora, esses postos estão sendo atualmente ocupados por profissionais qualificados.

Como a “Citrini” justificou esse cenário desastroso que, supostamente, virá a ocorrer na economia capitalista dos países avançados e que atingirá tanto o mercado de ações como os mercados de trabalho para milhões de trabalhadores principalmente para aqueles mais qualificados?

Como ela convenceu e assustou os investidores americanos (pelo menos por um dia ou dois)?  O principal argumento apresentado é o seguinte: os “agentes” de IA, desenvolvidos pelos gigantes da tecnologia, seriam tão produtivos e eficazes que as empresas obteriam enormes lucros substituindo a mão de obra humana porque ela se tornaria relativamente mais cara.  A “Citrini” projetou que milhões ficariam sem salários e que, por isso, não poderiam mais gastar como antes; assim, uma recessão liderada pelo consumo seria inevitável.

O cenário de 2028 é assim descrito. “Os donos da computação veriam a sua riqueza explodir à medida que os custos de mão de obra fossem desaparecendo. Nesse processo, o crescimento real dos salários entrariam em colapso. Apesar das repetidas vanglórias da administração sobre produtividade recorde, trabalhadores de colarinho branco perderiam os seus empregos para máquinas, sendo forçados a assumir cargos de salário inferior.” …

A circulação do dinheiro estagnaria. A economia de consumo centrada no ser humano, que representava 70% do PIB na época, murcharia. “Não haveria escapatória porque não haveria fatores contrários capazes de impedir o desastre – não haveria, segundo ela, “freio natural algum”. A perda de renda levaria a inadimplência de hipotecas, não por trabalhadores de baixa renda, mas desta vez por aqueles trabalhadores de alta tecnologia que recebem altos salários. Eis que os “agentes” de IA tomariam os seus lugares.

O cenário desenhado pela “Citrini” descartou a visão convencional das crises como um processo de ‘destruição criativa’. Nesse caso, como se sabe, “a inovação tecnológica destrói empregos, mas depois os cria em volume ainda maior”. Desta vez não seria assim. Eis como pintou o quadro:

 “A IA tem criado empregos. Engenheiros de prompts. Pesquisadores de segurança em IA. Técnicos de infraestrutura. Os humanos ainda estão por dentro dos negócios, trabalhando no mais alto nível e dando a direção das coisas. Contudo, para cada novo posto criado pela IA, dezenas estão se tornando obsoletos. Os novos postos estão pagando uma fração do que pagavam os postos eliminados.”

Nesse quadro, a recessão que se seguiria não poderia corrigir os efeitos da crise, pois não se trata agora de uma recessão cíclica tradicional, mas sim de uma recessão estrutural permanente.

Isso vai acontecer porque “a IA tem ficado melhor e mais barata. As empresas estão demitindo trabalhadores para usar depois as economias obtidas para comprar mais capacidade de IA, o que lhes permite demitir mais e mais trabalhadores. Os trabalhadores que foram deslocados pela IA passam a gastar menos. Empresas que vendem produtos para consumidores vendem menos, ficam mais fracas e, por isso, lutam para investir mais em IA para proteger as suas margens de lucro. A IA tem ficado melhor e mais barata. Tem-se agora um circuito de retorno sem freio natural.” A inteligência humana não será mais necessária, porque “a inteligência de máquina agora é um substituto competente e em rápida evolução da inteligência humana em uma gama crescente de tarefas”.

O que devemos pensar desse cenário de desgraça?  Aparentemente, muitos investidores no mercado de tecnologia dos EUA engoliram essa estória – pelo menos por um dia.  Mas eles voltaram à razão quando foram tranquilizados por economistas tradicionais e por outros especialistas, os quais afirmaram que a “Citrini” estava apresentando um cenário que certamente nunca vai acontecer. 

Como foi mostrado em postagem anterior, as inovações tecnológicas levam algum tempo para permear a economia e para provocar uma mudança significativa na produtividade, impactando assim nas dimensões quantitativa e qualitativa da força de trabalho.

A OCDE estima que pode levar até 20 anos até que a IA se torne uma ‘tecnologia de uso geral’. E essa previsão pressupõe que modelos e “agentes” de IA tenham se tornado mais experientes e pelo menos tão livres de erros quanto os humanos.  Ademais, um novo relatório argumenta que levou 100 anos para passar da descoberta da corrente elétrica por Michael Faraday e Joseph Henry, ocorrida na década de 1830, para a difusão da eletricidade e impulsão do crescimento da produtividade, transformando a economia.  E que o ChatGPT só surgiu há cinco anos. 

Sim, um sistema econômico impulsionado por “agentes” de IA está agora em processo de crescimento acelerado. “Agentes” de IA atuantes na área do consumo já estão começando a reservar viagens e realizar pequenas compras de forma autônoma para os consumidores. Em breve, eles vão lidar com compras mais complexas: negociarão preços e termos, coordenarão entregas e devoluções, enfim transicionarão com outros agentes em velocidade automática. O mercado global de “agentes” de IA, avaliado em 5,4 bilhões de dólares em 2024, deve atingir 236 bilhões de dólares até 2034.

Isso significa que uma parcela crescente das empresas não precisará mais de seres humanos em seus quadros de empregados. Haverá “agentes” atuando em nome de indivíduos, interagindo com outros agentes que representam vendedores, provedores de logística e processadores de pagamento. A maior parte da cadeia de suprimentos comercial poderia eventualmente ser de “agente” para “agente”.

Ou pelo menos é o que diz a história que está sendo contada – contudo, a coisa pode não ser tão simples assim. Ainda há muitos problemas na capacidade desses “agentes” de se comunicarem entre si e oferecerem um serviço confiável que combine trabalho humano qualificado e experiente. Além disso, “agentes” de IA são digitais, não fabricam bens físicos, que ainda precisamos.

Para isso, os “agentes” terão que se unir a robôs e isso só poderá ter um custo de investimento exorbitante.  E esse é o cenário real para uma futura recessão.  Muitos comentaristas tradicionais da publicação da “Citrini” consideraram que ela apresentara uma argumentação que a tornara ‘puro Marx’.  Eis que representa um colapso do consumo sem recuperação, ou seja, o fim do capitalismo por falta de demanda efetiva.  Ora, uma recessão e um colapso vindos do lado dos consumidores não tem guarida na teoria de crises de Marx – embora a maioria dos economistas tradicionais (e muitos de esquerda) acredite que assim seja.

Marx rejeitou a teoria do ‘subconsumo’ das crises em muitas ocasiões. A teoria de Marx não se baseava no subconsumo, mas em superinvestimento ou superacumulação.  Capitalistas recorrem a tecnologias e máquinas para reduzir custos de produção e aumentar a lucratividade livrando-se de mão de obra.  Mas na teoria marxista, apenas o trabalho humano pode criar valor na produção, então surge uma contradição entre o aumento da produtividade do trabalho e a obtenção de lucratividade, pois ocorre eliminação de trabalhadores no processo de elevar a força produtiva do trabalho.

[N. T.: Em outras palavras, ao tentar elevar a lucratividade em seus próprios negócios, os capitalistas podem produzir uma queda na lucratividade média na produção de mercadorias como um todo. Tal como indica o gráfico em sequência.

Contudo, pode-se acrescentar que o aumento da produtividade do trabalho, após os efeitos de redução (flexa vermelha) e criação de empregos (flexa azul), pode produzir um aumento pequeno (tipo A), razoável (tipo B) ou grande (tipo C) do volume de emprego do sistema econômico. A questão que fica é saber qual tipo prevalecerá? Isso é o que se mostra no gráfico ilustrativo que aparece em sequência e que, com o anterior, não consta do artigo original do Michael Roberts].

De qualquer modo, a queda da lucratividade ao longo do tempo leva a uma queda nos lucros e, em seguida, a uma ‘greve’ de investimento por parte dos capitalistas. Esse é o ‘freio natural’ que a “Citrini” afirma implicitamente não existir com a IA.  Os capitalistas param de investir, demitem depois os trabalhadores e é somente por isso que os trabalhadores deixam de conseguir sustentar o consumo.  Críticos tradicionais da posição de “Citrini” estão certos ao dizer que, se a IA aumentar tanto a produtividade, isso levará à queda dos preços, fazendo com que o poder de compra do consumidor se mantenha. Mas eles ignoram o cenário real de desgraça: aumentar a produtividade significa menos crescimento do valor adicionado e, eventualmente, queda na lucratividade.

Historicamente, há outro lado do impacto da tecnologia.  A mudança tecnológica tem sido o principal motor do crescimento do emprego ao longo da história. Cerca de 60% dos trabalhadores nos EUA hoje estão empregados em ocupações que não existiam em 1940.  Na década de 1840, Friedrich Engels argumentou do seguinte modo: a mecanização elimina empregos nos setores existentes, mas também cria  empregos em novos setores.  O historiador Robert Allen, entretanto, caracterizou esse período inicial como aquele em que ocorrera uma “pausa no efeito Engels”. Pois, nele, a revolução industrial impulsionou a produção a passos largos, mas não os salários e o emprego.  Contudo, os salários reais e os empregos só começaram a subir durante o longo boom da década de 1850.

Na década de 1850, Marx esclareceu esses dois lados da ‘destruição criativa’: “Assim que a maquinaria libera parte dos trabalhadores empregados em um determinado ramo da indústria, aqueles que estão no exército de reserva também são desviados para novos canais de emprego e são absorvidos por outros ramos; enquanto isso, as vítimas originais, durante o período de transição, em sua maioria morrem de fome e perecem.” (Grundrisse).  Então, eventualmente, novas tecnologias podem levar a economia adiante, mas somente depois de um tempo e às custas do trabalho (e não para sempre).

Economistas tradicionais sugerem que o trabalho poderia ser protegido por um imposto sobre “agentes” de IA e por subsídios de capital e/ou governo aos desempregados – esses são os remédios usuais oferecidos para a calamidade prevista pela “Citrini”.  Mas isso não seria eficaz se a lucratividade acabasse sendo reduzida. Em vez disso, o que é necessário é a propriedade coletiva da tecnologia de IA e de seus proprietários privados, para que quaisquer ganhos de produtividade sejam usados para atender as necessidades sociais (redução de horas e aumento de bens e serviços públicos).

Ocorreram três razões pelas quais os investidores do mercado de ações entraram em pânico ao ler o cenário apresentado pela “Citrini”, apesar das falhas em seus argumentos.  Os investidores já estavam preocupados com um possível estouro da bolha de IA, o que pode ocorrer se o enorme investimento em modelos de IA não trouxerem retornos suficientes. 

Os investidores também achar que as empresas de desenvolvimento de software existentes e que operam com mão de obra humana estão sob ameaça dos “agentes” de IA. Ademais, eles também temiam que o estouro eventual da bolha possa se espalhar para os credores privados de crédito não regulamentado. Se isso ocorrer vai causar uma crise sistêmica. Mas os investidores se sentiram tranquilizados pelos contra-argumentos ao cenário de desgraça da “Citrini” e, por enquanto, tudo volta ao normal.

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