Autor: Michael Roberts – The New School Economic Review, 12/2023
Neste comentário, Michael Roberts recorre às autobiografias de Duncan Foley e Anwar Shaikh para refletir sobre as contribuições, muito importantes e bem abrangentes, desses dois autores.
Se há dois possíveis candidatos ao prêmio maior em Economia (conhecido como Nobel) que o mereceriam são Duncan Foley e Anwar Shaikh. Mas, em vez disso, o Prêmio Riksbank é sempre concedido a economistas convencionais, os quais muitas vezes não lançam luz sobre qualquer uma das questões econômicas e sociais candentes de nosso tempo.
Em vez disso, ao longo de suas longas carreiras, Foley e Shaikh aplicaram seu extenso conhecimento teórico às questões macro e microeconômicas que são verdadeiramente importantes: Foley escreveu sobre o papel do dinheiro, o crescimento, ciclos e desigualdade; Shaikh produziu análises sobre as crises, o comércio internacional, os lucros e até mesmo sobre o mercado de ações.
Tanto Foley quanto Shaikh basearam grande parte de suas contribuições na análise de Marx do capitalismo, que é baseada, como se sabe, na teoria do valor trabalho. No entanto, ambos preferem não ser considerados como economistas marxistas. Por quê? Em que pontos Foley e Shaikh seguiram Marx, como desenvolveram as suas análises e em que dele divergiram? Permitam-me que me baseie nas suas próprias autobiografias curtas, encontradas no excelente A Biographical Dictionary of Dissenting Economists, editado por Philip Arestis e Malcolm Sawyer (2001).[1]
Eis o que Foley disse em sua autobiografia: “o meu projeto intelectual foi (e ainda é) encontrar bases sólidas para as teorias econômicas da moeda e da estabilidade macroeconômica”. Em colaboração com Miguel Sidrauski, no livro Monetary and Fiscal Policy in a Growing Economy (1971), demonstrou que a estrutura neokeynesiana IS-LM é incompatível com qualquer concepção em que a demanda agregada depende do investimento.
“Conseguimos introduzir dinheiro e ativos financeiros apenas em uma base ad hoc; nosso tratamento rigoroso do balanço de fluxo de ações parecia descartar um papel autônomo para as decisões de investimento das empresas e das empresas nesse tipo de modelo.”
Em outras palavras, o modelo de equilíbrio neoclássico/neokeynesiano não poderia encontrar lugar para os motores do investimento no capitalismo. Nele não um traço sequer do motivo do lucro!
Foley desempenhou um papel único na tentativa de unificar a economia de equilíbrio walrasiana com a economia política clássica de Malthus, Ricardo e Marx. Ele praticamente trouxe a teoria do equilíbrio geral para o MIT. Foley estava confiante de que, ao introduzir o dinheiro nos modelos de equilíbrio geral, ele poderia demonstrar como as economias realmente funcionam.
Inspirando-se em Marx, Foley reconhece que as economias são regidas pelo lucro. Que uma maior lucratividade impulsiona o crescimento, isso não é bem apreciado pelos economistas pós-keynesianos e heterodoxos. Pois, consideram as economias capitalistas estão fundadas no assalariamento, ou seja, são dependentes do consumo de massa (formador da “demanda efetiva”) e não dos lucros do capital.
Ao se mudar para Stanford, ele participou pela primeira vez de um renascimento da teoria econômica marxista e sraffiana. Nas palavras de Foley, “empreendi um estudo de Marx para ver se ele oferecia uma abordagem alternativa coerente para compreender a economia e se essa abordagem poderia abordar os problemas da moeda e da estabilidade macroeconômica que me obcecavam”.
O ponto culminante desse estudo foram as obras seminais de Foley, Money, Accumulation and Crisis (1986a) e Understanding Capital: Marx’s Economic Theory (1986b). De fato, em 1976, Foley escreveu uma das explicações mais sucintas e claras da teoria monetária de Marx em seu prefácio à obra-prima de Suzanne em Brunhoff, Marx on Money. Eis o que ele afirma aí:
“Cheguei à conclusão de que Marx oferecia uma teoria econômica coerente e consistente. A concepção marxiana do circuito do capital é uma alternativa ao equilíbrio walrasiano como concepção do sistema econômico como um todo; ademais, ela mostra algumas fraquezas importantes do paradigma walrasiano. O circuito do capital é, no fundo, uma concepção dinâmica, e não estática, da interação econômica. Marx também explica corretamente o surgimento da moeda simultaneamente com o desenvolvimento da troca e do sistema de mercadorias, em vez de inserir dinheiro e finanças em uma economia de troca, como muitos teóricos monetários fazem” (1976).
Na minha opinião, foi essa consciência de Foley que levou ao sucesso de seus livros sobre crises capitalistas. No entanto, Foley acredita que
“em Marx não havia solução completa para os problemas de moeda e de estabilidade macroeconômica. Marx trata apenas de forma tímida e incompleta do problema da articulação dos aspectos microeconômicos e macroeconômicos da economia. A teoria monetária de uma moeda padrão de mercadoria que ele desenvolveu com base no trabalho de Tooke precisa de uma revisão fundamental para abordar as instituições financeiras e os problemas modernos.”
Em vez de uma revisão da teoria monetária de Marx, ao contrário dele, vejo como uma tarefa desenvolver essa teoria no mundo das economias fiduciárias. De fato, outros trabalhos de autores marxistas mostraram que a abordagem de Marx é superior a qualquer outra, incluindo a tão alardeada Teoria Monetária Moderna (Roberts 2019).
Foley, contudo, não se considera marxista. Ele deixa isso claro por meio da ambiguidade com que fala sobre o assunto. Quando ingressou no departamento de economia de Stanford,
“fui pressionado a me definir como marxista ou como economista neoclássico. Tinha medo de não conseguir satisfazer a nenhuma delas. Há muitas ideias fundamentais em Marx com as quais concordo: a abordagem geral do materialismo histórico para o estudo das sociedades humanas; a insistência na importância das divisões de classe e da exploração na análise das dinâmicas sociais; as ligações entre dinheiro e tempo de trabalho social enunciadas pela teoria do valor de Marx; o circuito do capital; a centralidade da mudança tecnológica para o desenvolvimento econômico capitalista; a crítica da forma mercadoria como princípio de organização social; e a análise da teoria social em termos de contexto ideológico, por exemplo. Mas outras partes do discurso de Marx me parecem deslocadas: sua explicação da evolução dos padrões de vida dos trabalhadores no desenvolvimento capitalista é contraditória; o seu relato de mudança revolucionária baseada no conflito de classes é incoerente; as suas presunções sobre as instituições das economias socialistas parecem ingênuas a ponto de irresponsabilidade”.
Foley parece rejeitar a ideia de Marx de que o conflito de classes seja o motor da história humana; ademais, ele considera qualquer imagem de socialismo sem classes como “irresponsável e ingênua”. De fato, em uma recente transmissão da SOAS-NSSR no YouTube (Foley 2022), ele afirmou que “Marx queria planejamento central de cima para baixo. Contudo, ele estava errado quando pensava que isso conduziria à emancipação do proletariado, porque a exploração continuaria com a nova classe política.”
Foley disse ainda nessa entrevista que alcançar o socialismo “era mais difícil do que parar o aquecimento global”. Os economistas de esquerda deveriam se preocupar em desenvolver políticas para “melhorar as coisas dentro do sistema”. Notou que os trabalhadores conseguiram com os Factory Acts, na Inglaterra vitoriana em que Marx viveu, regular as horas e as condições de trabalho. Foram as divisões dentro da classe capitalista que possibilitaram essa reforma. Agora, com as mudanças climáticas, defendeu o estabelecimento de alianças com setores do capital para melhorar a situação dos trabalhadores.
Foley tentou desenvolver modelos econômicos na tradição de Kaldor, Hicks e Goodwin “considerando a macroeconomia como localmente instável por causa dos efeitos aceleradores do investimento. Essa instabilidade local é limitada por efeitos financeiros e de liquidez, resultando em um comportamento de ciclo limite.”
Em vez de desenvolver ideias econômicas marxianas sobre lucratividade, Foley estudou as propriedades estatísticas da economia como sistemas complexos (Foley 1994) e se dedicou a reconsiderar o papel da racionalidade nas explicações econômicas. Ora, essa linha de pesquisa se encontra mais na tradição pós-keynesiana do que na marxista.
Na verdade, Foley rejeita a visão de que a teoria keynesiana é conservadora e que ela faz parte do mainstream que sustenta o sistema capitalista. A teoria keynesiana dominante ainda considera que as economias se movem inerentemente em direção ao equilíbrio ótimo, tal como sustentou Wicksell. Afirma que a demanda causa flutuações no curto prazo, mas que apenas fatores de oferta, como capital próprio e tecnologia, podem afetar o crescimento de longo prazo. Mas Foley vê Keynes de forma diferente.
Keynes – diz ele – vê “forças sombrias do tempo e da ignorância” enublando o futuro. Os especuladores perseguem o que pensam que outros especuladores pensam e isso, às vezes, leva a desastres. As empresas podem não vender seus produtos e os trabalhadores podem não encontrar trabalho.[2] Foley considera que “Keynes via o estado geral do capitalismo como algo que permitia o desemprego involuntário: daí que escreveu a Teoria Geral.
Essa avaliação positiva de Keynes parece diferir dos comentários que fez sobre Keynes no prefácio ao livro de Brunhoff citado acima. Aí, Foley questiona o “grau em que a política monetária do Estado pode criar ou moderar crises na acumulação de capital”. Afirma, ademais, que a análise de Keynes sobre essa questão – que conclui que, dentro de amplos limites, a política monetária pode alterar a taxa de investimento e determinar a demanda agregada – está em contradição direta com o pressuposto a que se chega com base na discussão de Marx.
E vai além: “aqueles que estão engajados nas lutas ao lado da classe trabalhadora só podem ficar enfraquecidos quando se baseiam na análise monetária adotada por Keynes, ou mesmo em outros economistas burgueses, pois essa análise é incorreta. Uma teoria correta do dinheiro firmemente fundamentada nos princípios da concepção materialista da história é essencial”.
Tentar confundir a economia keynesiana e seu viés do lado da demanda com a economia marxiana e seu viés do lado da oferta não é tarefa fácil, especialmente quando os keynesianos consideram uma economia baseada em salários e não em lucros. É ainda mais difícil fundir a economia de equilíbrio geral com o modelo dinâmico de crise proposto pela economia marxiana. Mas Duncan Foley não mede esforços para conseguir isso.
A contribuição de Anwar Shaikh para a compreensão da economia real – isto é, na perspectiva da a economia política do capitalismo – é imensurável. Shaikh nunca foi convencido pela economia convencional ensinada nas universidades. Ele começou pensando com base na tradição heterodoxa, assimilando Kalecki, Sraffa, Robinson e Pasinetti, mas depois passou a gravitar em torno da escola clássica.
Shaikh se autodenomina um economista clássico, não um marxista, pois parece considerar que Marx tem a mesma teoria e conceitos econômicos básicos que Smith, Ricardo e Malthus. Isso é estranho porque Marx discordou deles. Como se sabe, O Capital tem por subtítulo “crítica da Economia Política”. Aí, ele se refere especificamente aos economistas clássicos do início do século XIX, àqueles que vieram antes que a economia se tornasse “vulgarizada” (Marx). Após o período inicial, os economistas decaíram e se tornaram lutadores ideológicos voltados para a mera preservação do capitalismo.
Esse posicionamento de Shaikh parece também estranho porque a sua obra está mergulhada na análise marxista do capitalismo. Ademais, ela dá contribuições importantes para nossa compreensão de uma perspectiva marxista. Como ele mesmo diz, a sua “análise apreende com contundência as origens, estrutura e reprodução intrinsecamente conflitantes do sistema”.
Na verdade, Shaikh abrangeu quase todos os domínios da macroeconomia (e microeconomia) e forneceu novos insights teóricos apoiados por evidências empíricas, uma combinação que é lamentavelmente ausente na economia mainstream (e mesmo entre círculos heterodoxos e marxistas).
Shaikh considera, com razão, que uma de suas maiores contribuições é a “regulação turbulenta” da competição capitalista. Com isso, ele quer dizer que “as atividades individuais não planejadas que caracterizam a produção capitalista só se tornam socialmente coerentes por meio de processos reais de oscilações, discrepâncias e erros em torno de centros de gravidade em constante movimento, como os preços da produção ou o crescimento equilibrado”.
Tal como Duncan Foley, ele rejeita a análise de equilíbrio, a chamada estática comparativa, assim como a análise de unidades individuais a partir de um suposto estado de equilíbrio. Tendo adotado uma teoria do valor do trabalho, primeiramente de Ricardo, a saber, que os preços relativos são em grande parte determinados pelo tempo de trabalho, ele desenvolveu uma prova única da transformação de Marx dos valores do trabalho em preços de produção determinados pela equalização das taxas de lucro através da competição do capital.
Embora existam agora provas mais rigorosas do procedimento de transformação de Marx, assim como refutações do teorema crítico de Okishio, o “procedimento iterativo” de Shaikh tem uma forte semelhança com o de Marx. E evidências empíricas de sua validade (a saber, que os preços de mercado são, em última análise, determinados pelos preços da produção e pelos valores do trabalho) têm sido demonstradas por ele e outros estudiosos desde então. Sua abordagem, seguindo Ricardo e Marx, é também uma demolição devastadora do modelo marginalista de “fatores de produção” para determinação de preços, baseado no que Shaikh chama da “função de produção fraudulenta”.
O fato mais importante é que Shaikh baseia todo o seu trabalho no papel do lucro em um sistema de produção cujo fim não é a produção de bens e serviços, algo que o mainstream ignora completamente. Shaikh enfatiza que qualquer análise adequada do capitalismo deve partir do ponto óbvio de que a força motriz do modo de produção capitalista é o lucro – ou seja, o ponto central não é nem a produção, nem o aluguel, nem a tecnologia, mas o lucro.
Sim, o capitalismo expandiu as forças produtivas a níveis sem precedentes, mas, por outro lado, aumentou a desigualdade, produzindo também a destruição recorrente tanto dos meios de produção (falências e fechamentos) quanto da força de trabalho (desemprego e perda de salários). O desemprego é permanente e não pode ser eliminado no sistema capitalista. A economia capitalista funciona apenas por meio do que Shaikh chama de “competição real”, que consiste em um processo turbulento e conflituoso. “Trata-se de uma guerra, não de um balé”; vem a ser uma luta conflituosa entre capital e trabalho, assim como entre os próprios capitais.
Em sua opinião, há duas fontes muito diferentes de lucros. O lucro pode surgir da transferência líquida de riqueza ou valor para o circuito do capital; pode surgir da produção de um excedente dentro do circuito do capital. Nesse ponto, considero que ele se afasta de Marx, que é categórico ao afirmar que o lucro (mais-valor) surge apenas da exploração do trabalho, mais especificamente, do trabalho produtivo.
A transferência de riqueza de outra parte da economia para outra não cria valor ou mais-valor, mas resulta de uma transferência de parte do total existente de mais-valor. Como disse Marx: “Esse ganho na alienação decorre, portanto, do fato de que o preço da mercadoria é maior do que seu valor real, ou que a mercadoria é vendida acima de seu valor. O ganho, por um lado, implica sempre uma perda, por outro. Não se cria nenhum acréscimo à existência geral”.
A meu ver, a tentativa do Shaikh de conciliar os economistas clássicos com Marx esbarra nesse obstáculo. A escola clássica reconhece o papel do lucro na economia capitalista, mas nem Ricardo nem Smith consideraram a exploração do capital sobre o trabalho. Eles não sustentaram que há pulsão constante por mais lucro no capitalismo.
Deram uma explicação “sombria” para a queda da taxa de lucro; eis que, para eles, ela se devia ao aumento dos custos salariais (Ricardo) ou à intensa concorrência (Smith). Os neo-ricardianos do século XX, como Piero Sraffa, e os pós-keynesianos, como Joan Robinson e Michal Kalecki, que rejeitaram a teoria do valor de Marx e sua lei da lucratividade, adotaram a resposta ricardiana de que o aumento dos custos salariais reduzia os lucros. Suas posições não podem ser conciliadas com Marx e, mais importante, não são corretas, na minha opinião.
Shaikh acolhe a visão de James Steuart de que há duas fontes de lucro. Este economista clássico argumentou que existiam duas fontes de lucro: o lucro positivo gerado na produção e o lucro relativo obtido nas transferências de valor de um capital para outro. Marx foi claro, eu acho, sobre isso: “Antes dos fisiocratas, o mais-valor – isto é, o ganho na forma de lucro – era explicado puramente com base na troca, na venda da mercadoria acima de seu valor. E sir James Steuart, em geral, não foi além dessa visão estreita.”.
Isso não quer dizer que um elemento-chave da transformação de Marx dos valores do trabalho em preços de produção e depois em preços de mercado em “competição turbulenta” se baseia no conceito de troca desigual. O próprio Shaikh explica isso bem. Marx mostra que “o lucro industrial se baseia na extração do trabalho excedente, não na transferência de riqueza por meio de trocas desiguais”.
Mas então, quando ele passa a considerar os preços que não são mais proporcionais aos valores do trabalho (por exemplo, os preços da produção), a troca desigual torna-se parte da questão novamente, e o lucro agregado agora reflete tanto o benefício da alienação quanto o lucro da mais-valia.”
O conceito de troca desigual não é apenas relevante para a competição entre capitais dentro de uma economia nacional, mas para a explicação básica da transferência de valor dos capitais mais fracos do Sul Global para os capitais tecnicamente superiores do Norte Global. De fato, a contribuição do Shaikh para uma teoria do comércio internacional reconhece isso.
Ao contrário da lei da “vantagem comparativa” de Ricardo, o intercâmbio desigual de Marx demonstra que a competição comercial internacional não leva a um equilíbrio comercial entre as nações. Pelo contrário, leva a que os produtores mais desenvolvidos (isto é, tecnologicamente avançados) ganhem uma “vantagem absoluta” sobre os seus concorrentes menos desenvolvidos.
Shaikh tem sido uma das principais fontes de referência na explicação da lei de Marx da tendência de queda da taxa de lucro, tanto como resultado do progresso tecnológico no capitalismo quanto como causa subjacente de crises regulares e recorrentes da produção capitalista. Como disse Marx (1973), esta é “a lei mais importante da economia política” porque mostra a contradição última da produção capitalista: entre os lucros e a satisfação das necessidades sociais.
Shaikh gosta de apresentar essa lei da seguinte forma: “na linguagem da microeconomia, ou seja, a produção capitalista mostra uma tendência inerente a custos variáveis médios e custos totais médios mais baixos, em detrimento de custos fixos médios mais altos. Mostro que o aumento secular resultante da relação capital-produto é suficiente para produzir uma taxa de lucro secularmente decrescente, mesmo que a participação nos lucros aumente. Esta é a lei de Marx.”
A partir daí, Shaikh nos leva mais longe. Ele argumenta que “uma taxa tão secularmente decrescente necessariamente produzirá uma ‘onda longa’ no lucro real total, que acelera, depois desacelera, estagna e até cai”. Tenho grande simpatia pela teoria da acumulação capitalista de ondas longas, algo identificado pela primeira vez pelo economista russo Kondratiev e citado pela primeira vez por Shaikh em um artigo de 1992. A teoria das ondas longas é exclusiva da economia marxiana, nem mesmo o modelo de crescimento de Harrod nos leva tão longe. E Shaikh produziu muitas provas poderosas de ondas longas para mostrar em que estado está a acumulação capitalista.
Segundo Shaikh, o principal ponto de Kondratiev é que os ciclos econômicos são recorrentes e “organicamente inerentes” ao sistema capitalista. Eles também são inerentemente não-lineares e turbulentos: “o processo da dinâmica real é unitário, mas não é linear: não assume a forma de uma simples linha ascendente. Pelo contrário, seu movimento é irregular, com rachas e flutuações.” Há flutuações cíclicas na rentabilidade. Estes se expressam nos ciclos por que passam as empresas e o capital fixo, os quais são inerentes à produção capitalista.
As crises são normais no capitalismo. A história dos sistemas de mercado revela padrões recorrentes de altos e baixos ao longo dos séculos, emanados justamente do mundo desenvolvido. As principais crises do capitalismo são as “depressões” dos anos 1840, a “Longa Depressão” de 1873-1893, a “Grande Depressão” dos anos 1930, as “Crises de Estagflação” dos anos 1970 e a atual Grande Crise Mundial.
Em um artigo apresentado por Shaikh em 2014, ele atualizou sua análise das ondas longas, algo que também desenvolve em seu magistral livro Capitalism: Competition, Conflict, Crises. Shaikh mostra como o capitalismo avança por meio de crises regulares, que às vezes se transformam em depressões profundas. Foi essa análise que levou Shaikh a prever, já em 2003, que uma grande depressão, ou seja, a Grande Recessão, estava chegando.
Para aqueles da tradição marxista, o trabalho de Shaikh com Ahmet Tonak (1994) sobre contas nacionais para revelar categorias marxistas de dentro do véu neoclássico das estatísticas oficiais provou ser inestimável. O objetivo aqui é distinguir entre trabalho produtivo (como o produzido por um concerto) e trabalho improdutivo (como vendedores que aceitam dinheiro em troca de acesso e guardas que impedem outros de comparecer). Tais distinções afetam profundamente nossas medidas de produção nacional e nossa compreensão da “saúde” de uma economia capitalista.
E depois há a inflação, um questão importante no período pós-pandemia. A economia convencional não conseguiu explicar o aumento repentino dos preços de bens e serviços em todo o mundo. Suas principais teorias (“oferta monetária excessiva” ou “aumentar os custos salariais” ou “expectativas de inflação”) têm se mostrado inadequadas e empiricamente erradas. Assim, as medidas de política dominante foram reduzidas ao aperto monetário com pouco efeito sobre a inflação, mas que, em vez disso, reduziu os “lucros das empresas”, bem como amorteceu o consumo das famílias, aumentando o custo dos empréstimos, causando assim uma nova depressão.
Shaikh oferece uma teoria alternativa da inflação: “A taxa máxima de crescimento é a taxa de lucro. Assim, a razão entre a taxa de crescimento real e a taxa máxima de crescimento (a “razão do produto”) pode ser interpretada como um indicador do grau de utilização do potencial de crescimento da economia. Quanto maior esse índice, maior a probabilidade de que o excesso de demanda acabe acelerando a inflação em vez do crescimento” (Shaikh, 1999). Embora a teoria da inflação de Shaikh pareça mais próxima de uma explicação orientada para os custos (embora baseada na lucratividade) do que de uma abordagem marxista do valor, ele encontra “uma correlação muito impressionante” entre a “taxa de produção” e a taxa de inflação nos EUA e em outros países da OCDE.
Talvez, para mim, uma das contribuições mais importantes do Shaikh seja desmistificar a tese do monopólio pós-keynesiano. Shaikh diz que sua “abordagem é muito diferente da economia ortodoxa e da tradição heterodoxa dominante”. O capitalismo é baseado na “competição real” e não na “competição perfeita”. A fonte da exploração não é o poder monopolista: o lucro não é o resultado de alguma “margem” sobre os custos que os monopólios obtêm (Kalecki).
No ano passado, os mercados de ações do mundo sofreram suas maiores quedas desde a crise financeira global de 2008. O que impulsiona as flutuações de preços do que Marx chamou de “capital fictício”? Shaikh fez uma tentativa convincente de responder a essa pergunta. Considera que os movimentos dos preços das ações são regulados pela rentabilidade das empresas, mas não pela taxa de rentabilidade do capital enquanto tal, mas sim pela taxa de rentabilidade dos novos investimentos.
Segundo ele, a taxa de retorno no mercado de ações dos EUA é muito semelhante à taxa correspondente de empresas em novos investimentos durante a maior parte do período pós-guerra. “As duas taxas flutuam substancialmente, mas mostram essencialmente a mesma média e desvio padrão, com a taxa do mercado de ações antecipando e seguindo a taxa corporativa de forma surpreendente (Shaikh 1997). Isso me permite mostrar que os preços (anuais) das ações são fortemente regidos por seus “fundamentos”.
Ao escrever este ensaio, fiquei impressionado com a grande variedade de tópicos abordados por Foley e Shaikh e suas ideias, que lançaram uma luz brilhante sobre as maquinações da besta capitalista. Foram economistas nobres que não ganharam prêmios Nobel.
Referências
Arestis, Philip, and Malcolm Sawyer. 2001.A Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Edward Elgar Publishing.
Foley, Duncan K. 1976. “Preface.” Marx on Money, vii–ix. Urizen Books. Author: Suzanne de Brunhoff.
Foley, Duncan K. 1986a. Money, Accumulation and Crisis.Harwood Academic.
Foley, Duncan K. 1986b. Understanding Capital: Marx’s Economic Theory. Harvard University Press.
Foley, Duncan K. 1994. “A Statistical Equilibrium Theory of Markets.” Journal of Economic Theory,62(2): 321–345.
Foley, Duncan K. 2001. “Duncan K Foley” In A Biographical Dictionary of Dissenting Economists, ed. Philip Arestis and Malcolm Sawyer. Edward Elgar Publishing.
Foley, Duncan K. 2022. “Production & Productivity” https: // www. youtube. com/ watch? v=o2yrTeY7yOE, SOASxNSSR Lecture Series.
Foley, Duncan K., and Miguel Sidrauski. 1971. Monetary and Fiscal Policy in a Growing Economy. Macmillan.
Marx, Karl. 1969. Theories of Surplus Value. Progress Publishers.
Marx, Karl. 1973. Grundrisse: Foundations of the Critique of Political Economy. Vintage Books.
Roberts, Michael. 2019. “Modern Monetary Theory: A Marxist Critique” Class, Race and CorporatePower, 7(1): 1–16.
Schlefer, Jonathan. 2015. “Not even Paul Krugman is a real Keynesian” https:// www. bostonglobe. com/ ideas/ 2015/ 03/ 23/ not-even-paul-krugman-real-keynesian/yXWqBRxzxDx2uXHy3NBh9J/ story. html.
Shaikh, Anwar. 1986. “The Humbug Production Function” In The New Palgrave: A Dictionary of Economic Theory and Doctrine, ed. John Eatwell, Murray Milgate and Peter Newman. London: Macmillan Press.
Shaikh, Anwar. 1992. “The Falling Rate of Profit and Long Waves in Accumulation: Theory and Evidence” In New Findings in Long Wave Research, ed. Alfred Kleinknecht, Ernest Mandel and Immanuel Wallerstein. London: Macmillan.
Shaikh, Anwar. 1997. “The Stock Market and the Corporate Sector: A ProfitBased Approach” In Markets, Unemployment and Economic Policy, ed. Philip Arestis, Gabriel Palma and Malcolm Sawyer. London: Routledge.
Shaikh, Anwar. 1999. “Explaining Inflation and Unemployment: An Alternate to Neoliberal Economic Theory” In Contemporary Economic Theory, ed. Andriana Vachlou. London: Macmillan.
Shaikh, Anwar. 2001. “Anwar M Shaikh.” In A Biographical Dictionary of Dissenting Economists,ed. Philip Arestis and Malcolm Sawyer. Edward Elgar Publishing.
Shaikh, Anwar. 2014. “Profitability, Long Waves and the Recurrence of General Crises” https://thenextrecession.files. WordPress. com/ 2016/ 04/ profitability-long-waves-crises-2.pdf, International Initiative for Promoting Political Economy Conference, Naples.
Shaikh, Anwar. 2016. Capitalism: Competition, Conflict, Crises. New York: Oxford University Press.
Tonak, E. Ahmet, and Anwar Shaikh. 1994. Measuring the Wealth of Nations: The Political Economy of National Accounts. Cambridge University Press.
[1] Salvo indicação em contrário, todas as citações de Foley e Shaikh são de Foley (2001) e Shaikh (2001), respectivamente.
[2] Em 23 de março de 2015, Duncan Foley e Lance Taylor receberam o Prêmio Leontief 2015 por suas pesquisas sobre a relação entre macroeconomia e qualidade ambiental.

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