Uma “escolha de Hobson” para Trump

Michael Roberts – The next recession blog – 12/03/2026

Hoje, o petróleo bruto ultrapassou $95 por barril, apesar da Agência Internacional de Energia (AIE) ter aprovado a maior liberação já realizada de reservas emergenciais de petróleo. Os Estados-membros, em consequência, estão programando liberar 400 milhões de barris nos próximos dias. Isso terá pouco efeito no preço do petróleo porque o Iraque teve que suspender as operações em seus terminais de petróleo após dois petroleiros terem sido alvejados em águas iraquianas.

O Estreito de Ormuz também permanece efetivamente fechado; vários navios comerciais parecem ter isso atingidos na costa do Irã. Isso levou grandes produtores do Oriente Médio a reduzirem a produção, restringindo ainda mais a oferta global. O governo iraniano afirma que os EUA devem garantir que nem ele nem Israel atacarão o país no futuro para que um cessar-fogo seja considerado.

Portanto, a guerra no Irã não está indo bem para Donald Trump.  A sua “escolha pela guerra” (ou seja, pela agressividade desenfreada) tornou-se uma “escolha de Hobson”[1].  O seu “plano” de decapitar a liderança iraniana com bombardeios rápidos e assim conseguir uma mudança de regime nos moldes da “solução venezuelana” não aconteceu.  O Irã não é a Venezuela.  Trata-se de um país enorme com mais de 90 milhões de habitantes e um estado armado até os dentes que possui equipamentos militares necessários para se defender por um período longo.  O regime controlado pelos mulás iranianos – é preciso ver – está diante de uma luta existencial.

A esperança que Trump tinha de uma revolta do povo iraniano contra o regime não se concretizou.  O regime é odiado pela maioria. Recentemente, como se sabe, matou mais de 30.000 pessoas que protestavam nas ruas contra as más condições vida. Mas quando bombas caem sobre as cabeças das pessoas, elas deixam de poder ir às ruas, passando a temer pela própria existência.  Além disso, qualquer protesto desse tipo seria ferozmente reprimido pelo regime, que até agora não se dividiu; ao contrário, parece unido para continuar resistindo.

Então, põe-se agora uma “escolha de Hobson” para Trump.  Ou ele declara uma “vitória” e consegue um cessar-fogo com o regime ainda intacto, ou reforça a aposta no possível uso de tropas terrestres, aumentando os bombardeios para tentar derrubar o regime apenas com força militar.  Mas isso pode significar a morte de muitos americanos. Os israelenses não querem parar. Eles querem, se isso for possível, reduzir o Irã à condição de Gaza. Mas eles precisam do financiamento e dos armamentos providos pelos EUA; ademais, eles enfrentam ataques perigosos de mísseis do Irã e do Hezbollah no Líbano.

De qualquer forma, tendo iniciado uma guerra que a maioria dos americanos se opõe (segundo pesquisas de opinião), Trump e seus seguidores estão agora diante de uma possível derrota nas eleições legislativas de meio de mandato.  O Congresso, controlado pelos republicanos de Trump, não fez nada para impedir essa guerra, ilegal segundo a constituição dos EUA. Um congresso democrata também não garantirá que Trump venha a ser contido, mas ele poderá bloquear o financiamento da guerra e impedir outras políticas econômicas de Trump.

E essa guerra está custando ao estado americano mais de 1 bilhão de dólares por dia.  Claro, a administração Trump aumentou dramaticamente o orçamento de “defesa” para mais de US$ 1 trilhão por ano! Contudo, após apenas duas semanas já está se vendo que a guerra está consumindo uma parte considerável do armamento e da logística imediatmente disponíveis. Isso, como resultado, está reduzindo o material necessário para continuar a guerra na Ucrânia.  O presidente ucraniano Zelenskyy já está reclamando da falta de financiamento e de armamentos que precisa para sustentar a linha de frente contra os russos.

Mas não se trata apenas do custo da guerra pressionando o orçamento dos Estados Unidos, muito mais preocupante é o impacto nos preços da energia e, eventualmente, na economia global.  Como já argumentei antes, os preços do petróleo e gás só subiriam a níveis astronômicos se duas coisas acontecessem: primeiro, se o Estreito de Ormuz, um ponto chave de estrangulamento para o tráfego marítimo, fosse bloqueado; e segundo, se as instalações de produção e distribuição de petróleo nos estados do Golfo, Arábia Saudita e Irã fossem destruídas.

Até agora, a primeira condição está satisfeita. Só a ameaça de atacar petroleiros nesse estreito já parou o trânsito de petroleiros, ao mesmo tempo em que os prêmios de seguro de transporte marítimo dispararam, deixando muitos navios descobertos. E para evitar destruição, muitos estados do Golfo fecharam instalações de produção.  Portanto, apesar das alegações de Trump de que navios serão escoltados pelo Estreito de Ormuz pela marinha dos EUA e que o regime iraniano estaria “quase completamente” derrotado, as grandes oscilações nos preços do petróleo e gás continuam e permanecem muito acima dos níveis pré-guerra.

O que tudo isso pode significar para a economia mundial? Isso depende do que vier a acontecer com os envios de petróleo e gás da região e da escala dos danos de longo prazo às instalações de petróleo e gás. Se um cessar-fogo for alcançado na próxima semana, ainda haverá uma queda nas exportações mundiais de petróleo e gás, mas isso talvez não seja suficiente para manter os preços da energia nos altos níveis atuais.

Mas se o conflito durar meses, as exportações de energia podem cair de 5 a 6%, o que manteria os preços cerca de 10 a 20% acima dos níveis pré-guerra.  E se as instalações de petróleo e gás fossem permanentemente danificadas ou ficarem fora de operação por muito tempo, então os preços do petróleo poderiam chegar a $150 por barril, ou quase três vezes os níveis pré-guerra, e os preços do gás natural disparariam para €120 MWH, ou quatro vezes a taxa pré-guerra. 

Segundo a Capital Economics, tal aumento seria comparável ao choque global de oferta do final dos anos 1970, que contribuiu para a alta inflação e recessão global. Mas pode não ser tão ruim, já que as principais economias dependem muito menos do petróleo e gás do que nos anos 1970, graças à transição para energia renovável e a uma melhora geral na eficiência energética.

Mesmo assim, se ocorrer uma guerra prolongada, isso intensificará a tendência preexistente nas principais economias para caírem na estagflação, ou seja, no aumento da inflação dos preços e do desemprego, algo que vem junto com a queda do crescimento econômico. Segundo economistas do Royal Bank of Canada, a inflação dos preços ao consumidor nos EUA dispararia para 3,7%, ante os atuais 2,4% ano anterior, se os preços do petróleo se mantiverem em $100 por barril. 

A economia dos EUA perdeu 92.000 empregos em fevereiro e a taxa de desemprego subiu para 4,4%. E isso após um 2025 marcado por um aumento médio mensal de empregos considerado bem fraco; fora dos períodos em que ocorreu uma recessão em mais de duas décadas, ele se mostrou como o mais fraco.  A guerra contra o Irã, que eleva a incerteza, tende a aumentar ainda mais o desemprego.

A inflação europeia também dispararia se os preços do gás natural permanecerem nos níveis atuais.  E a inflação aumentaria significativamente nas economias do Leste Asiático e na Índia.  O crescimento econômico mundial, segundo o Fundo Monetário Internacional, resistiria a um aumento de 10% nos preços da energia, mas desaceleraria de cerca de 3,2% projetado para este ano para 3%. O Reino Unido e a zona do euro cresceriam cada um apenas 1% ou menos. 

Mas se os preços do petróleo permanecerem acima de $100 por barril, o dano seria muito maior. Por exemplo, a Société Générale estimou que cada aumento sustentado de 10 dólares nos preços do petróleo ampliaria o déficit em conta corrente da Índia, atualmente em torno de 1% do PIB, em meio ponto percentual e reduziria o crescimento econômico em 0,3%. 

Se chegar a $100 por barril, isso significaria um déficit atual de 3% do PIB e uma redução no crescimento econômico de uma previsão de 6,4% para 5% para 2026. E nesse nível de preço do petróleo, isso poderia reduzir o crescimento do PIB real dos EUA em 0,8% (ou seja, de 2% ao ano para perto de 1%) e a inflação americana poderia chegar a 4% ao ano.

Isso representaria um sério dilema para os bancos centrais.  Eles deveriam aumentar as taxas de juros para tentar conter a inflação ou deixar a inflação disparar para não prejudicar o crescimento econômico?  O aumento das taxas pode desencadear o estouro da bolha de IA que ainda está a caminho.

De qualquer forma, famílias ao redor do mundo, nas economias do Norte Global e do Sul Global, enfrentariam preços crescentes e custos de empréstimos e/ou queda no emprego e na renda.  A escolha de Hobson se apresentaria tanto para eles quanto para Trump.


[1] Hobson’s Choice é um filme britânico de comédia romântica de 1954, dirigido por David Lean, baseado na peça de mesmo nome de Harold Brighouse. Nele, há uma situação em que uma escolha livre é oferecida, mas na verdade, existe apenas uma opção disponível. É a ilusão de ter opções, quando aceitar aquela que se apresenta vem a ser a única alternativa disponível.

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