Além do capitalismo: outros passos são necessários

Título original: Replacing capitalism – not with socialism, but with democracy? (Substituir o capitalismo, não pelo socialismo, mas pela democracia?) Apresenta-se abaixo uma crítica ao artigo de Jason Hickel e Yanis Varoufakis abaixo mencionado, traduzido e republicado aqui, neste blog, sob o título Além do capitalismo: três primeiros passos.

Michael Roberts – The next recession blog – 13/02/2026

Os economistas de esquerda Jason Hickel e Yanis Varoufakis escreveram juntos um artigo para o jornal britânico The Guardian.  Eis o seu título original: We can move beyond the capitalist model and save the climate – here are the first three steps (Podemos ir além do modelo capitalista e salvar o clima – aqui estão os três primeiros passos). Jason Hickel é professor na Universidade Autônoma de Barcelona e pesquisador sênior visitante na LSE. Yanis Varoufakis é líder da MeRA25, ex-ministro das finanças e autor do livro Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo. [1]

Hickel e Varoufakis começam deixando a coisa muito clara. “Nosso sistema econômico atual é incapaz de enfrentar as crises sociais e ecológicas que enfrentamos no século XXI. Quando olhamos ao redor, vemos um paradoxo extraordinário. Por um lado, temos acesso a tecnologias notáveis e a capacidade coletiva de produzir mais comida, mais coisas do que precisamos ou do que o planeta pode fornecer. No entanto, ao mesmo tempo, milhões de pessoas sofrem em condições de severa privação.”

Por que isso?  Hickel e Varoufakis nos dizem de forma direta que o problema é, sim, o “capitalismo”. Uma resposta estranha vinda de Varoufakis, que recentemente escreveu um livro que argumenta que “o capitalismo está morto” e foi substituído pelo velho feudalismo, ou mais precisamente pelo ‘tecno-feudalismo’. Em consequência, a referência ao capitalismo feita por Hickel e Varoufakis se afigura um tanto estranha. 

Por capitalismo, eles não querem se referir a “mercados, comércio e empreendedorismo, que existem há milhares de anos antes da ascensão do capitalismo.”   É verdade.  Mas, em vez disso, os autores do texto aqui examinado dizem que por “capitalismo queremos dizer algo muito estranho e muito específico: um sistema econômico que se resume a uma ditadura governada por uma pequena minoria que controla o capital – os grandes bancos, as grandes corporações e o 1% que possui a maioria dos ativos de capital.”

Não compreendo por que se trata de algo ‘estranho’.  Afinal, a história da organização social humana desde os tempos primitivos tem dividido as pessoas em classes, de tal modo que uma classe dominante explora o restante por meio de diferentes modos sociais: escravidão, feudalismo, absolutismo e, nos últimos 250 anos, capitalismo. No último, a força de trabalho humana encontra-se explorada por meio da posse e controle dos meios de produção.

De fato, como dizem os autores, sob o capitalismo “o propósito da produção não é principalmente atender às necessidades humanas ou alcançar progresso social, muito menos alcançar quaisquer objetivos ecológicos. O objetivo é maximizar e acumular lucro. Este é o objetivo principal. Esta é a lei capitalista do valor. E para maximizar lucros, o capital exige crescimento perpétuo – produção agregada em constante aumento, independentemente de ser necessário ou prejudicial.”

Sim, o capitalismo é um sistema movido pelo lucro que explora a massa de trabalhadores; porém, a ênfase dos autores neste texto é menos nesse aspecto do capitalismo e mais em sua ‘irracionalidade’.  Ou seja, nele ocorre a “produção massiva de coisas como SUVs, mansões e fast fashion”, porque essas são coisas altamente lucrativas para o capital. Por outro lado, há subprodução crônica de coisas obviamente necessárias como moradia acessível e transporte público, porque esses são muito menos lucrativos para o capital, ou não são lucrativos de forma alguma.”

Eles mostram corretamente que a razão pela qual o aquecimento global e a redução das emissões de gases de efeito estufa não estão sendo tratados sob o capitalismo. Embora as energias renováveis já sejam muito mais baratas que os combustíveis fósseis, a produção de combustíveis fósseis é até três vezes mais lucrativa.

 Eis o que dizem: “Da mesma forma, construir e manter rodovias é muitas vezes mais lucrativo para empreiteiros privadas, fabricantes de carros e companhias petrolíferas do que construir uma rede moderna de ferrovias públicas superrápidas e seguras. Assim, os capitalistas continuam pressionando nossos governos a subsidiar combustíveis fósseis e construção de estradas, mesmo enquanto o mundo queima.” 

Eis como como os autores expuseram esses pontos de de forma metafórica: “o capitalismo se importa com as perspectivas da nossa espécie tanto quanto um lobo se importa com as de um cordeiro.”

O capitalismo está bloqueando tecnologias e investimentos para o bem coletivo e está nos prendendo “em ciclos intermináveis de violência imperialista.”   O imperialismo é um produto do capitalismo, onde “a acumulação de capital em economias avançadas depende de enormes insumos de mão de obra barata e da natureza do sul global. Para manter esse arranjo, o capital usa todas as ferramentas à sua disposição – dívidas, sanções, golpes e até mesmo invasão militar aberta para manter as economias do sul subordinadas.”

Então, qual é a resposta para o capitalismo e o imperialismo?  Os autores são diretos, novamente. “A solução está nos encarando. Precisamos urgentemente superar a lei capitalista do valor.”  Sim. Mas quando se trata de um programa para superar a lei do valor no capitalismo, as alternativas oferecidas por nossos autores tornam-se embotadas (em seu outro sentido).

Hickel e Varoufakis nos oferecem três condições necessárias, mas não para substituir o capitalismo pelo socialismo, mas para substituir a “ditadura” capitalista por “uma democracia funcional e ecologicamente sólida”.  Então, não querem ir do capitalismo para o socialismo, mas da ditadura para a democracia.  Neste artigo, a palavra ‘socialismo’ está completamente ausente.

E por que isso fica claro quando os autores detalham suas três condições para a mudança. “A primeira condição é uma nova arquitetura financeira que penalize “investimentos” privados destrutivos e permita o financiamento público para fins públicos.”  Isso é um pouco vago. O que isso significa na prática?  “No cerne dessa arquitetura precisamos de um novo banco público de investimento que, em associação com os bancos centrais, converta a liquidez disponível em tipos de investimento consistentes com uma prosperidade comum e sustentável.” 

O quê?  Então, a resposta para a dominação do capital financeiro não é assumir bancos, companhias de seguro, fundos hedge etc. para poder depois planejar os investimentos.  Não, é apenas criar um banco público em competição com o setor financeiro capitalista existente.  Considerando que o investimento capitalista nas economias modernas é cerca de cinco vezes maior do que o investimento público, como essa proposta reverte essa proporção e acaba com a ‘ditadura’ do capitalismo?

A segunda condição é ter “uso extensivo da democracia deliberativa para decidir metas setoriais, regionais e nacionais (por exemplo, em relação ao crescimento ou até mesmo à redução de diferentes produtos) para as quais as novas ferramentas de finanças públicas serão direcionadas.”  

Portanto, tal banco público de investimento “nosso” deve ser administrado democraticamente e as decisões sobre investimentos que ele faz devem ser tomadas democraticamente.  Tudo bem, mas e quanto às decisões de investimento que estão sendo tomadas, nos grandes bancos de investimento privados nos EUA, nos cinco grandes bancos comerciais do Reino Unido, etc.?  Parece que suas decisões ficam intocadas.

Ah! Não, não são, porque a terceira condição para acabar com a ‘ditadura’ capitalista, segundo os autores, é a formação de empresas “funcionando na linha de um funcionário, uma ação, um voto.”  As corporações não devem se tornar propriedade comum dos trabalhadores. Em vez disso, cada trabalhador recebe uma ação para ter, por isso, um voto nas decisões da empresa.

Estranho isso, porque qualquer trabalhador pode comprar uma ação de uma empresa agora mesmo e votar.  O que acontece com as ações já detidas pelas grandes corporações, empresas de private equity e instituições financeiras?  Eles não devem ser expropriados?  Se forem, por que não dizer, em vez de apenas nos oferecer a ideia de um trabalhador, um voto?

Os autores encerram seu texto com a afirmação de que pode existir um mundo que evite o colapso ecológico e que acabe com a pobreza global: “é uma perspectiva tangível”.  O problema é que as três prescrições políticas apresentadas por Hickel e Varoufakis ficam muito aquém de alcançar isso, porque não levam ao fim do que chamam de ‘ditadura’ capitalista.


[1] Varoufakis, Yannis – Tecnofeudalismo – o que matou o capitalismo. Editora Crítica, 2025.

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