Da libido, por meio do desejo

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

Como se tentou mostrar criticamente no texto O humano segundo Freud aqui publicado, esse autor pensa o humano com um ser reativo regido pela inércia orgânica, ou seja, pela tendência de conservar a quantidade de excitação no nível mais baixo possível – e não como um ser proativo que busca a excitação e a mantém em nível alto até o momento em que sente a necessidade de descansar.

Numa linha de argumentação semelhante, aqui se buscará entender como Sigmund Freud pensa o desejo humano com o fim de criticá-lo por não o tomar como uma força produtiva, na verdade, como a força produtiva primordial do sujeito social possível. Com esse fim se lerá, para dela se apropriar, a crítica feita por Gilles Deleuze e Félix Guattari em O anti-édipo – capitalismo e esquizofrenia. Para apresentá-la de um modo bem compreensível, se empregará aqui não o texto original, mas a explicação contida no livro Capitalismo, desejo e política – Deleuze e Guattari leem Marx, de Rodrigo Guéron.[2]

Para pôr em andamento a apreciação pretendida, é preciso antes trazer aqui, de forma suscinta, o que Freud entende por pulsão e desejo.

A pulsão é pensada como uma noção metapsicológica. Eis que ela emerge numa zona limite – e algo misteriosa – entre o psíquico e o somático para funcionar como o motor do sistema psíquico. Se provém de excitações que ocorrem no corpo, consubstancia-se como uma força intensiva que atua no psiquismo, exigindo dele que “trabalhe”, ou seja, que entre em atividade. Nesse sentido, “a pulsão seria tanto a excitação enquanto tal, oriunda do somático, quando a representante coisal[3] no psíquico dessa excitação”.[4] Ademais, a pulsão não seria – e isso também se afigura misterioso – nem consciente nem inconsciente já que se revelaria apenas como força intensiva que opera no ser vivo humano.

Segundo Freud toda pulsão tem quatro elementos invariáveis: o impulso, o alvo, o objeto e o destino. Ora, não é preciso detalhar aqui esses momentos, pois o que precisa ser relembrado é o caráter meramente reativo da pulsão em geral. Se o impulso lhe confere um caráter de princípio ativo, a sua lógica de movimento em direção ao alvo é apassivadora, pois visa reduzir a quantidade de excitação ao mínimo possível. Como se sabe, ele descreveu assim a lei que supostamente rege as pulsões:

“Um atributo universal das pulsões e, talvez, da vida orgânica em geral, [vem a ser] a saber uma compulsão inerente (…) para recuperar um estado anterior de coisas que a entidade viva fora obrigada a abandonar, sob pressão de perturbadoras forças externas”. [5]

Nessa perspectiva, o desejo será compreendido por Freud como uma moção que surge no processo primário da psique e que meramente suscita, demanda ou reclama satisfação. Nasce de traços de memória que moram no inconsciente e que estão ligados às primeiras vivências de satisfação; abrolha no consciente de modo transfigurado por meio de uma imaginação que se reporta ao passado, tal como ocorre no modelo do sonho. Freud, ademais, distingue – e isso é bem importante – desejo de necessidade. O vocabulário da psicanalise apresenta essas duas noções do seguinte modo:

“A necessidade, nascida de um estado de tensão interna, encontra a sua satisfação por uma ação específica que fornece o objeto adequado (alimentação, por exemplo); o desejo está indissoluvelmente ligado a “traços mnésicos” e encontra a sua realização na reprodução alucinatória das percepções que se tornaram sinais dessa satisfação”. [6]

Antes de passar à crítica, importa ainda examinar como Jacques Lacan torceu a noção freudiana de desejo. Eis que ele a colocou no centro da sua metapsicologia supostamente freudiana, distinguindo-a das noções similares de necessidade e demanda. A primeira dela dirige-se a coisas determinadas (comida, por exemplo) e segunda dirige-se a uma pessoa (solicitando atenção, por exemplo).

O desejo, para Lacan, nasce de uma suposta incompletude constitutiva do ser humano; trata-se, assim, para ele, de uma característica fundante, antropológica, que distingue o humano dos outros animais. O desejo vem a ser, para ele, desejo do desejo do outro, uma falta que nunca poderá ser eliminada. Sendo assim, o humano é posto como um ser aprisionado num lógica sisífica já que, se tem que se esforçar sempre para encontrar satisfação, permanece sempre como um eterno insatisfeito. Assim pensado, afigura-se como uma contrapartida do capital tal como compreendido por Marx. Pois, se este é insaciável, se segue uma lógica infinita de acumulação, o sujeito assujeitado tem de seguir também uma lógica infinita de insatisfação.

Gilles Deleuze e Felix Guattari recusam essa compreensão do humano. Eles tomam o ser humano como uma máquina desejante, entendendo-se por “máquina” não um mecanismo determinístico como se faz usualmente, mas como um sistema em transformação que se autoproduz, que está em conexão com outros sistemas e que é capaz de produzir fluxos (ações manipulativas e/ou ações linguísticas). Esse sistema é material e a sua materialidade caracteriza tanto o ser individual quanto o ser social (que costumam designar por “socius”).

 Ademais, eles caracterizam a produção de desejo como esquizofrênica; ao escolher essa palavra, pretenderam apontar não para a doença mental conhecida por esse nome (mente dividida), mas para dizer que a produção de desejo é a fonte criadora da vida individual e social. Se é alimentada pela libido como pensa Freud, para além da compreensão desse autor, não creem eles que ela precisa ser reprimida já no seio da família para que a civilização seja possível.

Assim, eles estão dizendo também que a produção do desejo não pode ser compreendida desde o princípio como neurótica, ou seja, como atividade que foi já capturada desde sempre pela estrutura edipiana da família e que, por isso, está constrangida por uma falta de natureza antropológica.

A libido, segundo a apresentação de Guéron, mostra que a vida deve ser compreendida como produção num sentido mais amplo e radical em relação àquele usual na sociedade regida pelo modo de produção capitalista. Eis que a produção para Deleuze e Guattari não compreende apenas a produção econômica, mas a produção da vida do indivíduo e da vida social como um todo.

“Está-se, pois,” – diz Guerón – “diante de uma das primeiras conclusões (uma chave importante) da aliança que os dois fazem com Marx para se opor a Freud e à psicanálise, a de que não há qualquer força intermediária [necessária] entre o desejo e o socius: nenhuma estrutura psíquica [neurótica] e, muito menos, uma estrutura determinada pelo triângulo familiar edipiano”.

Se não se pode ignorar a família e o triângulo edipiano que existe dentro dela, não se pode sobretudo tomá-los como fundamentos primeiros, ou seja, como aquilo que funda e constitui a priori o ser humano civilizado. Eis que, para Deleuze e Guattari, “a família seria assim uma estrutura criada a posteriori, como consequência [necessária] das relações sociais de produção”. Eles não ignoram o papel social estruturante da relação de edípica na formação da força produtiva própria do humano; contudo, como diz Guerón, veem-na como decorrência de uma operação de poder necessária na constituição dos modos de produção baseados na opressão de classe e que ganha uma função especial no capitalismo.

Esse autor que se está aqui citando, fala da existência de um paralelismo entre as descobertas do trabalho como fonte da riqueza social feita pela economia política clássica e da libido como fonte da produtividade do ser humano. Em sequência, depois de sintetizar um primeiro momento, deixa-se com o seu próprio texto a tarefa de sintetizar um segundo momento desse paralelismo.

Por um lado, antes do nascimento da economia política, a riqueza era vista nas propriedades dos objetos, como se fosse algo essencial próprio deles como tais; após, essa essência passou a ser vista nos sujeitos que trabalhavam, ou seja, consistia no próprio trabalho que deles fluía e que criava tudo o que era útil para os próprios humanos. Por outro, antes da psicanálise, o desejo era visto como aquilo que, meramente, era atraído pelos objetos, algo portanto que tinha uma fonte objetiva; após, passou-se a compreender que essa fonte morava no sujeito e que consistia na libido.

Esse paralelismo entre as descobertas da psicanálise e da economia política tem um desdobramento. Segundo Deleuze e Guattari – aponta Guéron –, a compreensão do trabalho como fonte da riqueza social vem junto com a consciência de que ele não é livre, mas que se encontra sujeitado por meio da propriedade privada à forma mercadoria. Eis que o trabalhador, que já não possui a propriedade dos meios de produção, tem de vender a sua força de trabalho por um valor menor do que aquele produzido por seu trabalho. Algo semelhante, ocorre com a compreensão da libido e do desejo no âmbito da psicanálise.

Os dois autores franceses fazem então, nesse ponto, uma observação extremamente singular, qual seja, afirmam que a psicanálise fez o mesmo movimento que a economia política não apenas quando descobriu, como esta última, a produção no sujeito, mas também quando frustrou sua descoberta — a libido, o desejo —, remetendo-a ao triângulo edipiano e, portanto, à estrutura da família burguesa. (…) Toda a potência, todas as possibilidades que são abertas quando Freud afirma o caráter central da libido e do desejo em seu pensamento se esvaziam quando ele vincula a libido ao triângulo edipiano [pai, mãe e filha/filho]: o desejo é remetido à estrutura familiar, que passa a funcionar na psicanálise como uma espécie de estrutura intermediária entre o desejo e o socius.

A libido, por meio do desejo, pode em princípio se converter numa ação realizadora centrada daquele que se configura, então, como sujeito. Contudo, na sociedade de classe o homem não pode ser um sujeito pleno que se autodetermina como ser social e que luta livremente para realizar aquilo que deseja; ao contrário, ele tem de permanecer como um ser reprimido, como alguém estruturalmente insatisfeito, que se tornou capaz de trabalhar para outrem, tornando-se, assim, um assujeitado e, possivelmente, um explorado.

Se, na primeira crítica, apontou-se para o caráter passivo e reativo do “sujeito” tal como concebido por Sigmund Freud, nesta segunda, buscando o apoio de Deleuze e Guattari por meio do livro notado de Rodrigo Guéron, aponta-se para o aprisionamento desse sujeito em potência à estrutura da família autoritária em que imperam as relações edípicas; eis que nesse processo, ele é transformado em “sujeito”, ou seja, em sujeito pressuposto que está posto como homo alienatis e como homo oeconomicus. Assim como a propriedade privada aprisiona o trabalho e o explora, a família aprisiona o desejo e o reprime, tudo para que o capital sisífico possa prosperar.  

Uma nota complementar

Guéron se espanta com a “aliança” que Deleuze/Guattari fazem com Marx para criticar a psicanálise. E, por isso, escreve:

“Pode parecer estranho, mas a aliança com Marx permite a Deleuze e Guattari [criticar] as concepções de um desejo constituído por uma negatividade, por uma falta que lhe seria constitutiva. [E é assim] mesmo que em Hegel, mestre de Marx, a negatividade seja uma força central, responsável pela ruptura que move o processo dialético”.

Ora, ao fazê-lo, ele cria confusão já que identifica identificar em apenas um  dois sentidos distintos do termo “negatividade”. A negatividade em Lacan e em Freud tem o caráter de um fundamento primeiro, operação lógica e metafísica por meio da qual uma falta é posta como essência transistórica do ser humano. Ora, a dialética hegeliana e marxiana não admite esse tipo de fundamentação do discurso, já que paralisa o tempo e congela a mudança; ao contrário, como ensina Ruy Fausto, o discurso dialético sempre suprime o ato de fundar para que o tempo possa transcorrer, permitindo a transformação.[7]

Dito de outro modo, nesse contexto, enquanto a negação do entendimento afirma uma posição que se remete a uma impossibilidade para agora e sempre, a negação na dialética apresenta uma pressuposição presente agora e que está referida a algo possível no futuro.    


[1] Professor aposentado do Departamento de Economia da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br. Blogue na internet: https://eleuterioprado.blog

[2] Guéron, Rodrigo – Capitalismo, desejo e política – Deleuze e Guattari leem Marx. Nau Editora, 2020.

[3] Para Freud, lê-se no dicionário, representação é um processo fundamental de criação de imagens mentais ou traços mnésicos no sistema nervoso, a partir de estímulos externos. Ele distingue a representação coisal (inconsciente) e representação linguística (pré-consciente e consciente).

[4] Ver Birman, Joel – As pulsões e seus destinos. Civilização Brasileira, 2009, p. 96.

[5] Citação encontrada em Marcuse, Herbert – Eros e Civilização – Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Zahar Editores, 1968, p. 43. Contudo, em Além do princípio do prazer encontra-se uma expressão semelhante: “Uma pulsão seria um impulso, presente em todo organismo vivo, tendente à restauração de um estado anterior, que esse ser vivo teve de abandonar por influência de forças externas, uma espécie de elasticidade orgânica ou, se se quiser, a expressão da inércia da vida orgânica”. Ver Freud, Sigmund – Além do princípio do prazer. In: Freud: Obra completas, vol. 14. Companhia das Letras, 2010, p. 202.

[6] Lagache, Daniel – Vocabulário da psicanálise – Laplanche e Pontalis. Martin Fontes, 2001, p. 114.

[7] Ver Fausto, Ruy – Dialética e fundação, a dialética e o tempo. Seção do capítulo Dialética marxista, humanismo e anti-humanismo. Em Marx: lógica e política. Editora Brasiliense, 1983, p. 34-35.

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