IA: uma quebra anunciada

Ernst Lohoff [2]O boom do mercado de ações de IA[1]

O setor de IA mobiliza somas astronômicas de capital financeiro. Não se trata de um negócio lucrativo para as empresas de tecnologia que estão investindo, mas as suas ações continuam a alcançar níveis recordes. Os alertas sobre uma bolha de IA que pode estourar em breve estão crescendo. Faz-se muitas vezes uma comparação com a bolha das ponto-com ocorrida no final dos anos 1990. No entanto, a estrutura do mercado e a dinâmica de depreciação nestes dois casos diferem significativamente.

Como regra geral, especialistas econômicos não preveem que as bolhas financeiras vão estourar em breve ou o fazem apenas muito tarde. Foi isso que aconteceu no outono de 1845; então, uma queda da bolsa de valores trouxe o grande boom ferroviário da Inglaterra a um fim abrupto, arruinando financeiramente muitos investidores, incluindo Charles Darwin. No início do atual milênio, a situação era semelhante. Alguns meses antes do crash das empresas ponto-com, em março de 2000, a maioria dos economistas ainda previa uma nova alta nos preços das ações das empresas que então produziam computadores.

Hoje, a situação é diferente. Os sinais de alerta nunca foram tão expressivos. Cinco anos atrás, no início do boom da IA, artigos no Financial Times e no Wall Street Journal já mencionavam a existência de uma possível bolha no setor de IA. Hoje, quase todo mundo está alertando que a sua eclosão está próxima.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco da Inglaterra estão tão preocupados quanto o Deutsche Bank e a imprensa empresarial em geral. Figuras proeminentes da indústria da tecnologia da informação (TI), como Sam Altman, CEO da Open AI, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Bill Gates se apresentam agora como profetas de um colapso iminente.

Até na televisão se fala “iminência do estouro da bolha da IA”. O noticiário televisivo anunciou recentemente que “a fabricante de chips Nvidia foi a primeira empresa a atingir um valor de mercado de cinco trilhões de dólares”. Após esse recorde, o índice Nasdaq da bolsa de tecnologia dos EUA também atingiu um recorde histórico.

Claro, também há vozes dissidentes como a de Jerome Powell. Aprisionado na obrigação de ser otimista, o presidente do Federal Reserve dos EUA (Fed) afirmou recentemente que o boom da IA não é precisamente uma bolha. Não haveria paralelo, segundo ele, entre a bolha das empresas ponto.com e a atual alta nos preços das ações das empresas de IA.

Comparação com a bolha das ponto.com

No entanto, uma semelhança se mostra óbvia: na segunda metade dos anos 90, o preço das ações de inúmeras startups explodiu, mas apenas algumas delas estavam conseguindo obter lucros. Bastava então ter alguma conexão com a Internet – que ainda era jovem na época – para alguém poder se lançar num empreendimento. Agora, no entanto, a escala é muito maior. Desde o início desta década, a palavra mágica “IA” teve efeito semelhante, despertando a imaginação dos investidores. Aqueles capazes de prometer ganhos com IA puderam e ainda estão podendo levantar grandes somas de capital para sustentar um investimento que requer muito dinheiro.

A Open AI, operadora do Chat GPT, é um exemplo marcante. Somente no terceiro trimestre deste ano, a empresa registrou um prejuízo de doze bilhões de dólares. Apesar dos seus números estarem fortemente no vermelho, o seu valor de mercado disparou, atingindo US$ 500 bilhões. Isso vale também para os seis maiores empresas americanas desse setor (Nvidia, Microsoft, Apple, Amazon, Meta, Alphabet), que investem bilhões em IA. O valor de mercado dessas empresas aumentou cerca de oito trilhões de dólares nos dois primeiros anos após o lançamento do Chat GPT, em novembro de 2022. Para ilustrar a escala do fenômeno, veja-se que isso equivale ao dobro da produção econômica anual da Alemanha.

Contudo, como mostrou a crise das empresas ponto.com, essas somas de “capital fictício” (Marx) podem evaporar quando os lucros esperados não se concretizam e os investidores desapontados tentam escapar do desastre. Na crise das empresas ponto.com cinco trilhões de dólares em capitalização de mercado das empresas de TI foram destruídos globalmente

A Bolsa de Valores de Frankfurt também não foi poupada. Quando suspendeu as transações como as ações do índice Nemax, em março de 2003, as empresas listadas no Neuer Markt (um segmento da bolsa de valores alemã introduzido na década de 1990 no modelo Nasdaq) haviam perdido 95% de seu valor em comparação ao pico da especulação. Levou 15 anos para o Nasdaq dos EUA voltar ao nível de março de 2000.

Uma coisa é certa: no cenário da crise econômica que se avizinha não haverá simplesmente, mais um crash, agora de IA. Em primeiro lugar, é preciso ver que o processo continuo de digitalização mudou  de modo crucial a situação econômica do mundo. A digitalização, implementada pelo setor privado, tornou-se perversamente onipresente nas economias. Os gigantes da tecnologia de hoje são os sobreviventes da extinção econômica em massa daquela época. Toda a infraestrutura digital global é propriedade dessas empresas privadas. As “sete gloriosas” (que incluem, além das empresas de tecnologia já mencionadas, a Tesla) ocupam posições estratégicas chaves na economia mundial, as quais lhes trazem, como se sabe, enormes lucros.

Durante a bolha das empresas ponto.com, as startups jovens, com exceção das empresas de telecomunicações, eram apenas um farol de esperança. No caso da atual bolha da IA, as empresas gigantes não estão só tomando emprestado imensos recursos de investidores, mas também estão na vanguarda do desenvolvimento de uma nova tecnologia. As necessidades financeiras para o desenvolvimento do setor de IA também são muito maiores do que aquelas necessárias para o estabelecimento do setor de TI. Claro, a implementação de redes móveis e infraestrutura digital também exigiu investimentos consideráveis. Mas, comparados às quantias colossais que as empresas de IA já gastaram e ainda planejam gastar, as necessidades de capital daquela época parecem pequenas.  

Acima de tudo, a expansão exigida agora da capacidade computacional está engolindo somas astronômicas. De acordo com uma estimativa de analistas do banco de investimentos Morgan Stanley, sediado em Nova York, os gastos globais para construir data centers atingirão cerca de 3 trilhões de dólares até 2028. Isso supera até mesmo a capacidade financeira dos principais grupos econômicos. Segundo estimativas dos analistas, eles só conseguirão suportar pouco mais da metade desse valor. O déficit terá que ser compensado principalmente por meio de empréstimos tomados nos mercados de capitais.

A parcela financiada do investimento em projetos de IA tem aumentado dramaticamente. Até mesmo grupos como a Meta, que financiaram os seus investimentos por muitos anos com seu próprio fluxo de caixa, foram obrigados a mudar de política. Para construir o data center Hyperion na Louisiana, a Meta está investindo US$ 6 bilhões de seu próprio capital, mas outros US$ 26 bilhões vieram de créditos obtido da empresa de investimentos e coproprietária Blue Owl Capital.

A situação de dívida das empresas de IA de segundo e terceiro nível é ainda mais dramática. “Até mesmo a pequena empresa britânica de IA em nuvem Fluidstack, que empregava apenas dez pessoas no ano passado, pegou emprestado até dez bilhões de dólares do banco de investimento australiano Macquarie, segundo reportagens da mídia”, informou a Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) no início de novembro. Os chips de IA da empresa foram dados como garantia.

Particularidades da bolha de IA

A continuidade dos consideráveis fluxos financeiros externos necessários para alimentar a febre da indústria de IA dependerá, claro, da capacidade de manter os retornos esperados pelos investidores. A evolução da rotatividade será decisiva. De acordo com uma previsão publicada em setembro pela consultoria Bain & Company, as empresas de IA precisarão gerar US$ 2 trilhões em receita anual até 2030 para se tornarem lucrativas. No entanto, o líder de mercado, Open AI, alcançou apenas um faturamento de 4,3 bilhões de dólares no primeiro semestre de 2025.

Será que o mercado de aplicações comerciais de IA realmente crescerá tão rápido e de maneira exorbitante tal como requerido? Isso parece improvável, já que o entusiasmo dos potenciais usuários de IA têm diminuído. De acordo com o estudo “State of AI in Business 2025” do Massachusetts Institute of Technology, 95% das empresas que começaram a usar IA até agora não viram aumento na produtividade ou no ritmo de crescimento de suas vendas.

Provavelmente, trata-se de um fenômeno transitório. Adaptar processos de negócios à IA leva tempo; ademais, os funcionários, que temem por seus empregos, põem resistência. Børge Brende, presidente do Fórum Econômico Mundial (WEF na sigla em inglês), prevê ganhos de produtividade de até 10% por meio do uso da IA a longo prazo, ou seja, um enorme corte de empregos. Mas isso exige perseverança e, nesse entretempo, a lucratividade pode se tornar um objetivo inalcançável para a maioria dos provedores de IA. Como foi dito em uma matéria publicada em The Economist, “mesmo que a tecnologia alcance seu potencial máximo, muitas pessoas vão perder a cabeça.”

Isso é ainda mais provável devido ao fato de que os avanços técnicos no setor de IA são tão rápidos que equipamentos e produtos se tornam possivelmente obsoletos muito antes de seus custos serem amortizados; ora, isso representa uma ameaça que afeta todos os investimentos em IA. O fato de o progresso técnico levar à depreciação do capital existente não é por si só um fenômeno novo. Marx já havia analisado esse processo e lhe dado o nome um tanto estranho: “depreciação moral”. No entanto, essa “perda moral” se limitava então aos meios de produção; era insidioso, mas permanecia como algo parcial.

Agora, no caso da IA, a coisa será diferente. Por exemplo, até mesmo produtos criados com enormes recursos rapidamente se tornam obsoletos. Uma geração de ferramentas de IA segue a seguinte, tornando os esforços de desenvolvimento de ferramentas ultrapassados economicamente inúteis. Por outro lado, como resultado dos avanços tecnológicos, uma infraestrutura de IA que ainda ontem era ultramoderna pode se tornar descartável amanhã.

A realidade desse perigo ficou clara em janeiro, quando a empresa chinesa Deepseek apresentou seu modelo de linguagem. Ele parecia melhor que o Chat GPT, pois poderia ser montado sem chips excessivamente sofisticados e com esforços computacionais muito menores do que os produtos concorrentes do Vale do Silício. Quando essa notícia foi anunciada, não apenas os investidores que haviam apostado seu dinheiro em data centers prenderam a respiração já que todo o setor americano dedicado à IA ficou abalado. Em um único dia, as ações da fabricante de “superchips” Nvidia caíram 17%. Esse evento sozinho já fez desaparecer quase 600 bilhões de dólares em valor de mercado até agora.

IA e monopólios naturais

Os livros didáticos de economia geralmente elogiam a concorrência. Uma exceção a ela vem do “monopólio natural”: ao se pesquisar o termo no Google, a sua IA dará a seguinte resposta: “Um monopólio natural surge quando é mais lucrativo para uma única empresa abastecer um mercado do que para múltiplos fornecedores. Isso geralmente se deve a altos custos fixos e economias de escala, que tornam a concorrência ineficiente. Exemplos disso são empresas de utilidade pública como eletricidade ou abastecimento de água, pois construir redes adicionais seria antieconômico”.

E, de fato: seria um enorme desperdício de recursos e dinheiro construir e manter redes elétricas paralelas ou mais de um sistema de abastecimento de água na mesma cidade. No entanto, isso não impediu a sociedade capitalista de cometer regularmente tais absurdos ao longo de seu desenvolvimento. Assim, de longe o projeto de infraestrutura mais importante do século XIX, a construção de uma rede ferroviária, ocorreu dessa forma, o que resultou no desperdício de consideráveis somas de dinheiro em estruturas paralelas supérfluas, especialmente no país pioneiro da Grã-Bretanha.

Sabe-se que um conjunto heterogêneo de sociedades anônimas concorrentes criaram linhas ferroviárias na grande ilha, depois no continente europeu, sem um plano geral e em concorrência umas com as outras. Na Alemanha, apenas em 1885, todas as grandes companhias ferroviárias privadas foram transferidas para o Estado. Após, esse processo se tornou algo aguardado nos outros grandes países capitalistas da Europa.

No final do século XX, a prática de transformar a construção de nova infraestrutura em uma área de atividade para capital privado concorrente voltou em grande escala. Na década de 1990, sob o guarda-chuva da religião neoliberal do mercado, as redes de telefonia móvel e toda a infraestrutura de TI foram construídas dessa forma, e ambas ainda estão nas mãos de empresas com fins lucrativos hoje.

A ideologia neoliberal da competição, no entanto, não muda o fato de que alguns segmentos centrais do setor de TI têm uma forte tendência a formar um “monopólio natural”. A multiplicidade de sistemas operacionais diferentes cria problemas de compatibilidade. Contudo, as pessoas tendem a usar o serviço de informação que todo mundo usa; por isso, apenas um acaba dominando o mercado; em consequência, a receita de publicidade que pode ser obtida também fica concentrada. Por isso, a fase em que muitas startups competiam no mesmo segmento de mercado durou apenas alguns anos em vários setores-chave. O crash das ponto.com, que levou à falência de tantas startups, acelerou o processo de concentração que já estava acontecendo.

Uma vez que uma empresa adquire uma posição dominante no mercado e impõe o padrão em uma área, não é mais tão fácil tirá-la dessa posição. Por anos, cerca de 90% das buscas na internet do mundo foram feitas no Google, e recentemente, mais de 70% dos desktops do mundo ainda rodavam o sistema operacional Windows. Apenas as mudanças tecnológicas abrem novas perspectivas. Até lá, empresas com monopólio de fato no setor de TI têm uma espécie de lucro garantido.

Diferentemente dos tradicionais “monopólios naturais”, que eram limitados a um determinado território, os monopólios digitais se estendem agora ao mundo inteiro. Até a próxima revolução tecnológica, eles podem impor taxas de uso à sociedade global, o que é quase como uma licença para imprimir dinheiro. Não é de se admirar que as dez empresas mais ricas do mundo pertençam todas ao setor de TI.

Partes significativas do setor de IA também seguem essa lógica de “o vencedor leva tudo”. John Lovelock, analista de tecnologia da consultoria Gartner, resumiu a situação ao falar recentemente sobre chatbots: “Os grandes provedores de IA estão em uma corrida para ficarem em primeiro lugar”. Lovelock espera que, eventualmente, restem apenas um ou dois modelos de IA. E em toda a indústria de IA, os sinais dos tempos também apontam para um processo de concentração acelerado: “Assumimos que, nos próximos anos, apenas 10% das startups atuais continuarão operando de forma independente.” As outras, portanto, serão absorvidas ou fecharão.

Desde o início, os gigantes de TI basearam as suas estratégias corporativas na premissa de que a revolução da IA engoliria quase todos os seus rebentos.  Todos eles buscam estar entre os poucos sobreviventes da grande batalha final para que possam, como mestres do universo da IA, poder receber os tributos da sociedade global, os quais ofuscarão tudo o que existiu até então. No entanto, isso significa que todos os investidores que não apostaram no vencedor investiram num sonho que, ao seu tempo, transformou-se em pesadelo. A forma que a destruição de capital fictício tomará permanece aberta. Mas não há dúvida de que isso acontecerá.

O lar de todas as bolhas

A importância do hype em torno da IA, especialmente para os Estados Unidos, mas também para a economia global como um todo, não pode ser subestimada. O economista de Harvard Jason Furman concluiu que, no primeiro semestre de 2025, 92% do crescimento do produto interno bruto dos EUA foi atribuído a investimentos em infraestrutura de IA. O setor da construção está se beneficiando desse andamento. Em 2024, um recorde de US$ 180 bilhões foi investido na construção de data centers de IA.

Expandir as capacidades das usinas que abastecem esses novos consumidores de energia também cria empregos e lucros nos setores convencionais. Embora o consumo global de eletricidade dos data centers de IA tenha atingido 50 bilhões de quilowatt-hora em 2023, espera-se que esse montante se torne 4 vezes maior até 2030, chegando a 550 bilhões de quilowatt-hora – um desastre para a proteção climática, mas uma vantagem para o produto interno bruto.

Se os sonhos florescentes de IA desmoronarem, não será apenas o único motor de crescimento restante nos EUA que vai desaparecer. Uma reação em cadeia também ameaça os mercados financeiros. O ponto de partida mais provável do estouro ocorrerá nos fundos de investimento. Essa parte não regulamentada do sistema financeiro cresceu tremendamente nos últimos anos e tem sido um grande contribuinte para o financiamento da febre da IA. Portanto, ela seria a mais afetada por um revés do processo de acumulação.

Em seu relatório sobre estabilidade financeira global publicado em outubro, o FMI expressou preocupação a esse respeito. Ele alerta não apenas sobre o risco de “correções repentinas e abruptas de mercado” nos investimentos acionários relacionadas à IA, mas também sobre possíveis apuros no setor financeiro conhecido como “shadow banking”.  Se isso vier a ocorrer, terá um efeito de “amplificação de choque”.

O estouro da bolha de IA não afetará apenas um setor econômico, mas desencadeará uma crise geral. Isso, é claro, se aplica antes de tudo ao berço dos gigantes da tecnologia. Na era do capitalismo focada na dinâmica dos mercados financeiros, os Estados Unidos já estiveram na origem de duas crises que abalaram a economia mundial: o estouro da bolha das ponto.com e a grande crise financeira de 2008. Em ambos os casos, a recessão decorrente foi superada graças ao surgimento de novas e maiores bolhas. Elas se originaram na economia dos Estados Unidos, mas permitiram que a economia global retornasse ao crescimento. No entanto, o estouro da bolha da IA pode muito bem significar o fim do papel dos EUA como berço de todas as bolhas globais.


[1] Publicado originalmente no Jungle World 2025/47 em 20/11/2025

[2] Ernst Lohoff é coautor, junto com Norbert Trenkle, do livro La Grande dévalorisation? Pourquoi la spéculation et la dette de l’Etat ne sont pas les causes de la crise, Crise & Critique, 2023.

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