Autor: Michael Roberts. Apresentação: Eleutério F. S. Prado
Michael Roberts fez uma apresentação desse tema na Conferência da Associação de Economia Heterodoxa, em Londres, em junho de 2025. Aqui se faz um esforço para traduzir essa apresentação num texto corrido. Para colocar em dúvida a suposta “história de recuperação” dos páises atrasados, esse blogueiro famoso faz primeiro uma pergunta. Para apresentar, depois, uma resposta contundente.
Eis a pergunta: “Os países pobres do chamado Sul Global estão “alcançando” os países mais ricos do chamado Norte Global?”
Para poder responder a essa pergunta, apresenta “três medidas” de desenvolvimento relativo: a renda per capita; a produtividade do trabalho; e os índices de ‘desenvolvimento humano (serão aqui omitidos). Em todas as três medidas, o Sul Global não está fechando a lacuna que o separa do mundo desenvolvido, com a possível exceção da China”. Posto isso, uma nova pergunta se apresenta: por quê?
Roberts menciona, então, que “três explicações são possíveis para essa situação. O fato concreto é que os países pobres não estão se recuperando e se tornando ricos como os países ricos; ao contrário, continuam atrasados…
Em primeiro lugar, há a explicação marxista que se vale da teoria do imperialismo: “a) por meio da troca desigual, há transferências substanciais de renda do Sul para o Norte; b) o próprio processo de acumulação de capital produz uma tendência de queda da lucratividade, a qual tende, por sua vez, a frear os investimentos e, assim, os aumentos da produtividade do trabalho”.
Mas há também a explicação do Banco Mundial: para os burocratas desse banco “há investimento suficiente, mas falta inovação, assim como infusão de tecnologia”. Essa vertente não se será aqui apresentada por dificuldade de interpretação.
Ademais, há a explicação institucionalista mainstream: eis que “faltam, segundo ela, instituições democráticas no Sul Global tal como as que existem no Norte Global; Nessa visa, a democracia surge supostamente como o motor da prosperidade”. Também essa vertente não será aqui apresentada com mais detalhes..
Finalmente, Michael Roberts explica “por que a China é a exceção?”.
A primeira estatística que apresenta é a da evolução da renda per capita de alguns países selecionados. Grosso modo, ela mostra que não se observa um processo alcançamento, com exceção da China. As duas figuras abaixo ilustram essa tese:
Em sequência, ele apresenta a questão “ conseguirão os países do BRICS fechar a lacuna da renda per capital que existe entre eles e os países desenvolvidos?”. A sua resposta é bem clara: Nenhum dos BRICS alcançará o nível de país de alta renda nos próximos 20 anos, exceto a China. A renda per capita média de 2023 para as economias de alta renda é de US$ 41.278 e os países do BRICS estão longe de se aproximarem desse valor nos próximos anos.. A China o alcançaria até 2041, ou seja, ela igualaria o nível projetado para os países de alta renda até 2046.
O gráfico em sequência ilustra essa proposição:
Ora, o que está acontecendo com a evolução da produtividade do trabalho nesse países selecionados em relação à produtividade do trabalho nos Estados Unidos? O gráfico em sequência mostra que apenas para o caso da China se observa uma recuperação apreciável. O caso da Índia mostra alguma recuperação. Já no caso do Brasil se observa uma perda relativa de produtividade em relação ao país dominante, enquanto no caso da Rússia se vê estabilidade.
Apresentada as estatísticas que mostram a incapacidade em obter uma recuperação dos países com melhores chances – o caso da China é distinto, mas se mostra imperfeito -, Michael Roberts passa a mostrar a explicação que considera correta para esse fracasso. Afinal, por que os países em desenvolvimento nunca se tornarão desenvolvidos?
A explicação marxista se completa por meio de dois pontos:
a) há substanciais transferências de renda dos paises atrasados para os adiantados e elas provém principalmente da troca desigual, um dos mercanismo de extração de que se nutre o imperialismo;
b) sobrevém no curso do alçamento “uma queda da lucratividade no Sul Global e ela reduz o crescimento da acumulação de capital e, portanto, os aumentos suficientes na produtividade do trabalho e na renda per capita”.
Segundo os seus estudos, há uma transferência constante de renda do sul global para o norte desenvolvido; e ela monta cerca de 1,0% do PIB dos países não desenvolvidos como um todo; isso acrescenta 1,1% no PIB dos países desenvolvidos.
Michael Roberts também apresenta um outro gráfico que expõe o mesmo problema: O G7 obtém uma transferência positiva que soma 1,7% de seu PIB, os países do G5 recebem 0,3% de seu PIB, enquanto os países que formam o BRICS fazem uma transferência negativa que atinge o nível de 1,2 de seu PIB.
Valendo-se em sequência do livro seminal dos economistas brasileiros Ademir Antônio Martins, Alessandro Mierbach e Henrique Morrone, Unequal development and capitalism: catching up or falling behind in the global economy, ele diz primeiro que “Há uma contradição entre aumentar a produtividade e sustentar a lucratividade: ao aumentar a primeira isso leva a uma queda na segunda e, portanto, acaba limitando o crescimento;
Para citar Marquetti et al em sequência: “As vantagens de uma menor mecanização nos países seguidores, implicando em menor produtividade do trabalho e maior produtividade do capital e, portanto, uma taxa de lucro mais alta, começam a se desgastar quando a produtividade do capital diminui mais rapidamente do que a produtividade do trabalho. Isso indica que o país seguidor está gradualmente perdendo sua vantagem de atraso à medida que as disparidades nas taxas de lucro e incentivos para a acumulação de capital diminuem em relação ao país líder, potencialmente comprometendo o processo de recuperação.
“Essa trajetória muitas vezes leva a uma queda na taxa de lucro e, portanto, a uma diminuição nos incentivos ao investimento e à acumulação de capital. Como contornar esse problema é uma das questões centrais que um nacional plano de desenvolvimento deve enfrentar.”
O gráfico em sequência é posto para ilustrar essa afirmação. Apesar da lucratividade superior observada no bloco dos países dominados em relação ao bloco imperialista, a tendência de queda se mostra em ambos mantendo o mesmo padrão.
Contudo, o caso da China é exceção. Entre 1951 e 1978, a correlação entre a taxa de lucro e o crescimento do PIB é baixa, mas ela se eleva entre 1979 e 2019 devido as reformas capitalistas induzidas pelo Estado, sob o comando inusitado do PCC.
Ao fim e ao cabo da exposição, eis as conclusões a que chega Michael Roberts:
- Os países do Sul Global (6 bilhões de pessoas) não estão “alcançando” o Norte Global (2 bilhões de pessoas).
- A principal razão é que a riqueza (valor) está sendo persistentemente transferida do Sul para o Norte E a queda da lucratividade no Sul Global está reduzindo o crescimento da produtividade do trabalho.
- A China pode ser a exceção porque o crescimento de seu investimento é menos determinado pela lucratividade do que em qualquer outra grande economia do Sul Global.









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