Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 30/06/2025
Os líderes mundiais se reúniram em Sevilha, Espanha, para uma cúpula de ajuda da ONU para países em desenvolvimento. Esta foi a Quarta Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento. Pelo menos 50 líderes mundiais, incluindo o presidente francês Macron, a chefe da UE von der Leyen e o chefe da ONU Andrés Guterres estarão lá. A conferência deve aumentar o apoio ao desenvolvimento global, os chamados objetivos de desenvolvimento sustentável estabelecidos décadas atrás pela ONU, com o objetivo de tirar os países pobres e seus povos da pobreza.
Esses objetivos louváveis, como muitas iniciativas da ONU no século XXI, provaram ser insustentáveis. Enquanto os líderes mundiais pontificam em Sevilha durante essa semana, a realidade é que o fosso entre os países ricos e o resto do mundo não diminuiu – pelo contrário, aumentou. E em vez de esforços renovados para aumentar o financiamento para o chamado mundo em desenvolvimento, o oposto está acontecendo.
O presidente dos EUA, Trump, destruiu o financiamento e o pessoal da agência de desenvolvimento dos EUA, a USAID. Espera-se que o financiamento da USAID caia de US$ 60 bilhões em 2024 para menos de US$ 30 bilhões em 2026. Alemanha, Grã-Bretanha e França, entre outras economias ricas, também estão fazendo cortes para financiar enormes aumentos nos gastos com armas para a guerra.
Os países do Grupo dos Sete (G7), que juntos respondem por cerca de três quartos de toda a assistência oficial ao desenvolvimento (ODA na sigla em inglês), devem reduzir seus gastos com ajuda em 28% para 2026 em comparação com os níveis de 2024. Este seria o maior corte na ajuda desde que o G7 foi estabelecido em 1975 e, de fato, nos registros de ajuda que remontam a 1960.
O próximo ano marcará o terceiro ano consecutivo de declínio nos gastos com ajuda do G7 – uma tendência não vista desde a década de 1990. Se esses cortes forem adiante, os níveis de ajuda do G7 em 2026 cairão em US$ 44 bilhões, para apenas US$ 112 bilhões. Os cortes estão sendo impulsionados principalmente pelos EUA (queda de US$ 33 bilhões), Alemanha (queda de US$ 3,5 bilhões), Reino Unido (queda de US$ 5 bilhões) e França (queda de US$ 3 bilhões).
A instituição de caridade internacional Oxfam diz que os cortes na ajuda ao desenvolvimento são os maiores desde 1960; a ONU, por sua vez, coloca a crescente lacuna entre o que é necessário para o desenvolvimento sustentável e o que é entregue em US $ 4 trilhões. O diretor executivo da Oxfam Internacional, Amitabh Behar disse o seguinte:
“A perda de presença do G7 no desenvolvimento do mundo é sem precedentes e não poderia vir em pior hora, com a intensificação da fome, da pobreza e dos danos climáticos. O G7 não pode pretender construir pontes por um lado e derrubá-las com o outro. Isso envia uma mensagem vergonhosa ao Sul Global, de que os ideais de colaboração do G7 não significam nada”.
Os países pobres não estão apenas recebendo menos apoio financeiro. Eles estão enfrentando um fardo cada vez maior de dívidas para com os bancos e instituições financeiras dos países ricos. A dívida externa total do grupo dos países menos desenvolvidos mais do que triplicou em 15 anos, segundo a ONU. A dívida total nas chamadas economias emergentes (excluindo a China) atingiu 126% de seus PIBs. O estoque total da dívida externa dos países pobres atingiu um recorde histórico de 8,8 trilhões em 2023, um aumento de 2,4% em relação ao ano anterior.
Os pagamentos da dívida são agora maiores do que os novos fluxos de crédito e capital. Em 2023, os países de baixa e média renda (excluindo a China) experimentaram uma saída líquida para o setor privado de US$ 30 bilhões em dívidas de longo prazo – um grande dreno para o desenvolvimento. Desde 2022, os credores privados estrangeiros extraíram quase US$ 141 bilhões a mais em pagamentos do serviço da dívida de mutuários do setor público em economias em desenvolvimento do que desembolsaram em novos financiamentos. Por dois anos consecutivos, os credores externos das economias em desenvolvimento estão retirando mais do que colocando.
Os custos totais do serviço da dívida (principal mais pagamentos de juros) de todos os países como renda média e baixa (LMICs na sigla em inglês) atingiram um recorde histórico de US$ 1,4 trilhão em 2023. Excluindo a China, os custos do serviço da dívida subiram para um recorde de US$ 971 bilhões em 2023, um aumento de 19,7% em relação ao ano anterior e mais que o dobro dos valores vistos há uma década.
Um relatório recente encomendado pelo falecido Papa Francisco e coordenado pelo economista ganhador do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz calcula que 3,3 bilhões de pessoas vivem em países que desembolsam mais com o pagamento de juros do que com a saúde.
Dados recentes do órgão de comércio e desenvolvimento da ONU, UNCTAD, revelam que 54 países gastam mais de 10% de suas receitas fiscais apenas no pagamento de juros. A carga média de juros para os países em desenvolvimento, como parcela das receitas fiscais, quase dobrou desde 2011. Mais de 3,3 bilhões de pessoas vivem em países que agora gastam mais com o serviço da dívida do que com saúde, e 2,7 bilhões em países que gastam mais com dívidas do que com educação.
A ajuda global para nutrição cairá 44% em 2025 em comparação com 2022: o fim de apenas US$ 128 milhões em programas de nutrição infantil financiados pelos EUA para um milhão de crianças resultará em 163.500 mortes infantis extras por ano. Ao mesmo tempo, 2,3 milhões de crianças que sofrem de desnutrição aguda grave – a forma mais letal de desnutrição – correm o risco de perder seus tratamentos que salvam vidas.
Um em cada cinco dólares de ajuda aos orçamentos de saúde dos países pobres deve ser cortado ou ameaçado: a OMS relata que quase três quartos de seus escritórios nos países estão sofrendo sérias interrupções nos serviços de saúde e, em cerca de um quarto dos países onde opera, algumas instalações de saúde já foram forçadas a fechar completamente.
Os cortes de ajuda dos EUA podem levar a até 3 milhões de mortes evitáveis todos os anos, com 95 milhões de pessoas perdendo o acesso aos cuidados de saúde. Isso inclui crianças que morrem de doenças evitáveis por vacinação, mulheres grávidas que perdem o acesso aos cuidados e aumentam as mortes por malária, tuberculose e HIV.
De acordo com um novo relatório da UNCTAD para a conferência de Sevilha, os setores críticos para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável sofreram, em particular, com a queda no investimento estrangeiro. Os fluxos de investimento para os países em desenvolvimento em infraestrutura caíram 35%, energia renovável 31%, água e saneamento 30% e sistemas agroalimentares 19%. Apenas o setor de saúde teve crescimento. Os projetos aumentaram cerca de um quinto em número e valor, mas os volumes totais permaneceram pequenos – menos de US$ 15 bilhões.
Antes do início da conferência em Sevilha, os EUA anunciaram que não participariam ou concordariam com nenhum plano. Então, alguns governos fizeram uma declaração. Eles apresentaram uma proposta fraca, não vinculativa para eles e sem justificativa para implementá-la, a saber, que os vários bancos de desenvolvimento em todo o mundo deveriam triplicar sua capacidade de empréstimo, particularmente para “gastos sociais essenciais”. E deve haver “mais cooperação contra a evasão fiscal”. Alguma esperança. Na realidade, os empréstimos e títulos para cumprir as metas de sustentabilidade diminuíram.
Em um post anterior, mostrei que os países do chamado Sul Global não estão “alcançando” os países imperialistas ricos do chamado Norte Global, seja em renda por pessoa, em produtividade ou por qualquer índice de desenvolvimento humano. Ao mesmo tempo, as enormes desigualdades de renda e riqueza, entre e dentro dos países, continuam a piorar.
Qual é a resposta? Não mais empréstimos de bancos e governos a taxas de juros exorbitantes e crescentes (o Reino Unido ou a Alemanha tomam emprestado de 3 a 4%, enquanto os países em desenvolvimento cobram de 6 a 8%), mas sim o cancelamento e a anulação dos encargos da dívida existente para os países pobres (não gosto da palavra “perdão” da dívida, pois não há nada a perdoar).
E então o que é necessário é um plano global de investimento público no Sul Global voltado para infraestrutura, saúde, educação e serviços públicos, juntamente com o apoio a tecnologias e indústrias geradoras de emprego. Isso poderia ser facilmente financiado pelos países ricos com um imposto sobre a riqueza dos muito ricos e pela propriedade pública dos principais bancos e multinacionais que atualmente dominam as finanças globais. Claro, isso não acontecerá sem mudanças revolucionárias no Norte Global.




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