Publica-se em sequência um escrito de Yanis Varoufakis em que ele tenta encontrar uma racionalidade mais substantiva na política econômica de Donald Trump. Talvez seja apenas uma enormidade já que a sua tese não parece estar apoiada em documentos abalizados. Mesmo se provém de seu estilo altisonante, talvez ajude a compreender melhor essa política.
Autor: Yanis Varoufakis [1] – Sin Permiso [2] – 27/02/2025
Diante das medidas econômicas do presidente Trump, os seus críticos centristas oscilam entre o desespero e uma fé pungente de que seu frenesi tarifário desaparecerá. Eles assumem que Trump vai bufar até que a realidade revele a falsidade de seu raciocínio econômico. Eles não se deram conta do seguinte: a imposição de tarifas feita por Trump faz parte de um plano econômico global sólido, mesmo que seja inerentemente arriscado.
A maneira de pensar dos centristas assenta-se em um equívoco de como o capital, o comércio e o dinheiro se movem ao redor do mundo. Como o cervejeiro que se embriaga com sua própria cerveja, eles acabaram acreditando em sua própria propaganda: para eles, vive-se num mundo de mercados competitivos em que o dinheiro é neutro e os preços se ajustam para equilibrar a oferta e a demanda de tudo. Ora, o Trump não sofisticado é, de fato, muito mais sofisticado do que eles no sentido de que ele entende como o poder econômico bruto – e não a produtividade marginal – decide quem faz o quê a quem, tanto nacional quanto internacionalmente.
Embora se corra o risco de olhar para o abismo quando se tenta espiar a mente de Trump, é preciso entender o seu pensamento sobre três questões fundamentais: por que ele acha que os Estados Unidos são explorados pelo resto do mundo? Qual é a sua visão de uma nova ordem internacional na qual os Estados Unidos podem se tornar “grandes” novamente? Como planeja obter esse resultado? Só então é possível elaborar uma crítica sensata do plano mestre de Trump para a economia mundial.
Por que o presidente acha que os Estados Unidos foram maltratados economicamente? A sua principal reclamação é que a supremacia do dólar pode conferir enormes poderes ao governo e à classe dominante dos EUA, mas, em última análise, os estrangeiros se valem dela de maneiras que levam os Estados Unidos ao declínio. Então, o que a maioria considera um privilégio exorbitante dos Estados Unidos, ele vê como um fardo exorbitante.
Trump lamenta o declínio da indústria manufatureira dos EUA há décadas: “se não se tem aço, não se tem um país” é o que diz. Mas por que culpar o papel global do dólar? Porque, responde Trump, os bancos centrais estrangeiros não estão deixando o dólar se desvalorizar para o nível “certo”, de tal modo que as exportações dos EUA se recuperem e as importações desacelerem. Não é que os bancos centrais estrangeiros estejam conspirando contra os Estados Unidos. Vem a ser porque o dólar é a única reserva internacional segura da qual eles podem se valer. É natural que os bancos centrais europeus e asiáticos acumulem os dólares que fluem para a Europa e a Ásia quando os americanos importam coisas.
Ao manter reservas em dólar, ao não vender os dólares que têm para os possuidores de euros, ienes, rebimbes, o Banco Central Europeu, o Banco do Japão, o Banco Popular da China e o Banco da Inglaterra suprimem parte a demanda por suas moedas (e, portanto, parte também de seus valores, ou seja, mantém-nas desvalorizadas). Isso ajuda seus próprios exportadores a aumentar as vendas para os Estados Unidos e ganhar ainda mais dólares. Em um círculo interminável, esses novos dólares se acumulam nos cofres dos banqueiros centrais estrangeiros que, para ganhar juros com segurança, os empregam para comprar dívida do governo dos EUA.
E é aí que reside o problema. De acordo com Trump, os Estados Unidos se afiguram como muito importantes porque são um bom cidadão global que se sente compelido a fornecer aos estrangeiros os ativos em dólares de reserva de que precisam. Em suma, a indústria manufatureira americana entrou em declínio porque os Estados Unidos são um bom samaritano: os seus trabalhadores e sua classe média sofrem para que o resto do mundo possa crescer às suas custas.
Mas o status hegemônico do dólar também sustenta o excepcionalismo americano, como Trump sabe e aprecia. A compra de títulos do Tesouro dos EUA por bancos centrais estrangeiros permite que o governo dos EUA incorra em déficit e consiga pagar por um exército superdimensionado que levaria à falência qualquer outro país. E por ser o eixo dos pagamentos internacionais, o dólar hegemônico permite que o presidente exerça o equivalente moderno da diplomacia das canhoneiras: sancionar qualquer pessoa ou governo à vontade.
Isso não é suficiente, aos olhos de Trump, para compensar o sofrimento dos produtores americanos que são enfraquecidos pelos produtores de outros países já que os seus bancos centrais exploram um serviço (a possibilidade de manter reservas em dólares) que os Estados Unidos lhes fornecem gratuitamente, o que mantém em contrapartida o dólar sobrevalorizado.
Para Trump, os Estados Unidos estão minando as suas próprias bases devido a glória do poder geopolítico e pela oportunidade de guardar os recursos estrangeiros. Essa riqueza importada beneficia Wall Street e os agentes imobiliários, mas apenas às custas das pessoas que o elegeram duas vezes: os americanos nas áreas centrais que produzem aqueles bens “viris” como aço e automóveis de que uma nação precisa para permanecer viável.
E essa não é a pior preocupação de Trump. O pesadelo maior é que essa hegemonia seja efêmera. Já em 1988, enquanto promovia seu Art of the Deal com Larry King e Oprah Winfrey, ele lamentou: “Somos uma nação devedora. Algo vai acontecer nos próximos anos neste país, porque você não pode continuar perdendo 200 bilhões de dólares por ano.” Desde então, ele está cada vez mais convencido de que um terrível ponto de inflexão está se aproximando: à medida que a produção dos EUA diminui em termos relativos, a demanda global pelo dólar aumenta mais rápido do que a renda dos EUA. O dólar então tem que se valorizar ainda mais rápido para atender às necessidades de reserva do resto do mundo. Isso não pode durar para sempre.
Quando os déficits dos EUA excederem um certo limite, os estrangeiros entrarão em pânico. Eles venderão seus ativos denominados em dólares e procurarão outra moeda para mantê-los. Os americanos serão deixados no meio do caos internacional, com um setor manufatureiro destruído, mercados financeiros em ruínas e um governo insolvente. Esse cenário de pesadelo convenceu Trump de que ele tem uma missão que consiste em salvar os Estados Unidos: para tanto, ele tem o dever de inaugurar uma nova ordem internacional. E essa é a essência de seu plano: realizar um choque contrário àquele de Nixon, que acabou com o sistema de Bretton Woods, em 1971, e foi a ponta de lança da era da financeirização. Ele quer produzir, em 2025, um choque global que anule a obra de seu antecessor.
Um elemento central para essa nova ordem mundial seria um dólar mais barato, ou seja, desvalorizado [3] que continuaria, entretanto, sendo a moeda de reserva mundial. Isso poderia reduzir ainda mais as taxas de juros sobre empréstimos de longo prazo dos Estados Unidos. Trump pode navegar (com um dólar hegemônico e títulos do Tesouro dos EUA de baixo rendimento), mantendo a própria embarcação (um dólar depreciado)? Ele sabe que os mercados nunca conseguirão isso sozinhos. Somente os bancos centrais estrangeiros podem fazer isso por ele. Mas para que eles concordem em fazê-lo, eles devem primeiro ser sacudidos. E é aí que suas tarifas entram em jogo.
E é isso que seus críticos não entendem. Eles acreditam erroneamente que ele acha que as tarifas por si só reduzirão o déficit comercial dos EUA. Ora, ele sabe que isso não ocorrerá. A sua utilidade reside em sua capacidade de chocar os bancos centrais estrangeiros e levá-los a reduzir as taxas de juros domésticas. Como resultado, o euro, o iene e o rebimbe se enfraquecerão [4} em relação ao dólar. Isso anulará os aumentos de preços dos produtos importados nos Estados Unidos, sem afetar os preços pagos pelos consumidores americanos. A suposição é que os países que sofrem as tarifas serão aquele que realmente pagarão as tarifas que Trump lhes impôs.
Mas as tarifas são apenas a primeira fase de seu plano diretor. Com altas tarifas (…) e com os dólares estrangeiros se acumulando no Tesouro, Trump pode esperar enquanto amigos e inimigos na Europa e na Ásia clamam por ajuste. É aí que entra em jogo a segunda fase do plano de Trump: o grande negócio.
Ao contrário de seus antecessores, de Carter a Biden, Trump desdenha reuniões multilaterais e negociações conjuntas. Ele é um homem do um contra um. Seu mundo ideal é um modelo de centro e raio, como uma roda de bicicleta, no qual nenhum dos raios individuais tem muita influência na operação da roda. Nessa visão de mundo, Trump está confiante de que pode tratar cada um dos raios sequencialmente. Com tarifas de um lado e a ameaça de retirar o escudo de segurança dos EUA (ou implantá-lo contra eles) do outro, ele acredita que pode fazer com que a maioria dos países concorde.
Aquiescência a quê? Espera que eles aceitarão uma valorização substancial de suas moedas mantendo as suas posições em dólares no longo prazo. Ele não só espera que cada parceiro reduza a taxa de juro de seu país, pois pretende obter coisas diferentes dos seus diferentes parceiros. Os países asiáticos, que atualmente detêm a maioria dos dólares, serão obrigados a vender uma parte de seus ativos em dólares de curto prazo em troca de sua própria moeda (as quais, assim, se valorizarão). Já dos países da zona do euro, relativamente pobres em dólares e atormentados por divisões internas (o que supostamente aumenta seu poder de barganha), Trump pode exigir três coisas: a concordância em trocar seus títulos de longo prazo por títulos de mais longo prazo ou mesmo perpétuos, permissão que a manufatura alemã migre para os Estados Unidos e, é claro, que eles aceitem comprar muito mais armas fabricadas nos Estados Unidos.
É possível imaginar o sorriso de Trump à medida que pensa sobre esta segunda fase de seu plano mestre? À medida que um governo estrangeiro acede às suas demandas, ele terá obtido outra vitória. E quando algum governo recalcitrante resiste, as tarifas continuam presentes, fornecendo ao seu Tesouro um fluxo constante de dólares, um fluxo que pode dispor como achar melhor (já que o Congresso controla apenas as receitas fiscais).
Uma vez concluída esta segunda fase de seu plano, o mundo terá sido dividido em dois campos: um lado protegido pela segurança americana ao custo de uma moeda valorizada, a perda de fábricas e a compra forçada de exportações americanas, incluindo armas. O outro campo estará estrategicamente mais próximo talvez da China e da Rússia, mas ainda conectado aos EUA por meio de um comércio reduzido que ainda fornecerá aos EUA receitas tarifárias regulares.
A visão de Trump de uma ordem econômica internacional desejável pode ser violentamente diferente daquela que eu gostaria que existisse, mas isso não dá licença para subestimar sua solidez e propósito, como a maioria dos centristas faz. Como todos os planos bem elaborados, o seu pode dar errado, é claro. A depreciação do dólar pode não ser suficiente para anular o efeito das tarifas sobre os preços pagos pelos consumidores americanos. Ou a dívida pública pode ser grande demais para manter os juros de longo prazo baixos o suficiente. Mas, além desses riscos administráveis, o plano mestre será testado em duas frentes políticas.
A primeira ameaça política ao seu plano mestre é interna. Se o déficit comercial começar a encolher como esperado, o dinheiro privado estrangeiro deixará de inundar Wall Street. De repente, Trump terá que trair sua própria tribo de financistas e agentes imobiliários indignados ou a classe trabalhadora que o elegeu. Enquanto isso, uma segunda frente será aberta. Vendo todos os países como se fossem dependentes dos EUA, Trump pode descobrir em breve que fomentou dissidências no exterior. Por exemplo, Pequim pode abandonar suas precauções e transformar os BRICS em um novo sistema de Bretton Woods no qual o yuan desempenha o papel de ancoragem que o dólar desempenhou no Bretton Woods original. Este seria talvez o legado mais surpreendente, consequência de seu plano mestre, da política econômica de Trump.
[1] Ex-ministro das Finanças da Grécia, professor de economia na Universidade de Atenas.
[2] Fonte original: https://unherd.com/2025/02/why-trumps-tariffs-are-a-masterplan/
[3] N. T.: Como se sabe, as tarifas norte-americanas tendem a valorizar o dólar – não a desvalorizá-lo.
[4] N. T.: Ou seja, se desvalorizarão; parece haver uma incongruência aqui já que o objetivo do plano mestre suposto só poderia ser a valorização dessas moedas em relação ao dólar, tal como será dito mais adiante.

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