Autores: Stephen Maher e Scott Aquanno[1]
A análise do papel das finanças no desenvolvimento do capitalismo contemporâneo oferecida por este livro é marcadamente diferente daquela geralmente encontrada em plataformas políticas progressistas e em estudos críticos. De fato, há hoje um consenso quase universal, particularmente após a crise de 2008, de que as finanças são uma força corrosiva e parasitária na economia industrial “real”. O mesmo acontece com os muitos males do neoliberalismo, de crises às desigualdades sociais, pois, elas são constantemente atribuídas à “financeirização”.
Enquanto os progressistas temem que a prosperidade e a competitividade nos EUA diminuam sem regulamentações para controlar o poder das finanças, os marxistas, por sua vez, veem em geral a financeirização como um sintoma do “capitalismo tardio” e como um prenúncio do declínio imperial americano. Essas ideias animaram debates políticos entre socialistas e progressistas, bem como as plataformas de figuras políticas que vão de Hillary Clinton a Jeremy Corbyn.[2]
Muitos observadores seguiram Giovanni Arrighi ao ver a financeirização como um estágio inevitável em um ciclo de crescimento e declínio no sistema mundial capitalista.[3] Nessa visão, o declínio das potências hegemônicas está intimamente ligado à expansão das finanças. Arrighi, no entanto, minimiza o papel central das finanças no crescimento e dinamismo do capitalismo nas fases iniciais dos ciclos.
Os bancos de investimento foram os principais atores na organização da corporação moderna no século XIX; no presente momento, as finanças continuam sendo parte integrante da forma multifacetada de organização corporativa atualizada. As finanças são o centro nevrálgico do capitalismo global contemporâneo, constituindo a infraestrutura que possibilita a circulação de valor por meio de sistemas de produção internacionalizados. O aumento da proeminência das finanças não aponta para o declínio do império dos EUA – em vez disso, destaca a centralidade americana na economia global.
Ecoando essa história de declínio, progressistas como William Lazonick e Greta Krippner afirmam que a ascensão das finanças levou ao “enfraquecimento” da atividade de produção. Em vez de investir em crescimento e prosperidade de longo prazo – argumentam – as finanças estão preocupadas apenas em “ganhar dinheiro rápido”. A ascensão das finanças impôs consequentemente uma “visão de curto prazo” às empresas industriais, levando-as a abandonar os investimentos nos “bons empregos” que sustentavam os padrões de vida da “classe média” do pós-guerra, bem como a pesquisa e desenvolvimento necessários para que as corporações americanas mantivessem a liderança global.
Em vez disso, as empresas desviaram fundos para os serviços financeiros “improdutivos” e, assim, encheram os bolsos de acionistas ricos. O fato de os altos executivos serem compensados com opções de ações apenas aumenta os incentivos para que eles se envolvam em tais estratégias disfuncionais; leva-os a inflar os preços das ações por meio de recompras de ações para obter ganhos contingentes.[4]
Aqui se argumenta que não veio da benevolência ou da visão de longo prazo dos gerentes corporativos, mas do equilíbrio das forças de classe e, particularmente, da capacidade dos sindicatos de obter ganhos salariais, a menor desigualdade observada no período do pós-guerra. Como argumentaremos, essa melhor distribuição da renda foi apoiada pelas circunstâncias únicas do boom do pós-guerra, bem como pela estrutura do comércio mundial antes do advento da livre mobilidade de capital.
O que causou o aumento da desigualdade e a reversão dos programas sociais associados ao neoliberalismo não foi a ascensão das finanças, mas a incapacidade do capitalismo de manter esses compromissos. Com o fim do boom do pós-guerra, a militância salarial sindical espremeu os lucros, causando uma crise de uma década, a qual resolvida apenas com a derrota dos trabalhadores. E esta foi possível porque o capitalismo conquistou vastos contingentes de forças de trabalho de baixa remuneração, os quais se tornaram disponíveis à exploração por meio da globalização. A financeirização foi, portanto, fundamental para restaurar a lucratividade e resolver a crise dos anos 1970 – levando a uma “segunda era de ouro” do capitalismo, embora não tão “dourada” quanto a primeira do pós-guerra mais imediato.
Além disso, ver as finanças apenas como buscadora de ganhos de curto prazo ignora o fato de que algumas das maiores estrelas do capitalismo contemporâneo atraíram muitos investimentos, apesar de não serem lucrativas no curto prazo. Por exemplo, o Uber tem operado consistentemente com prejuízo, mas tem sido sustentado por investidores que buscam o desenvolvimento de tecnologia de carros autônomos que supostamente permitirá que a empresa se torne lucrativa em algum momento.[5]
A Tesla, mesmo perdendo dinheiro com as vendas de veículos, conseguiu manter o foco no desenvolvimento de longo prazo de uma infraestrutura de carros elétricos inovadora.[6] E os investidores despejaram capital na Amazon por mais de uma década, apesar da lucratividade baixa ou inexistente; algo que a revista The Economist descreveu como “a maior aposta da história nas perspectivas de longo prazo de uma empresa”.[7] Da mesma forma, as empresas industriais de muitos setores arcaram voluntariamente com consideráveis custos de curto prazo da reestruturação global durante as décadas neoliberais, a fim de garantir sua competitividade e lucratividade a longo prazo.
Nada disso é surpreendente. Afinal, por que financistas ou executivos corporativos teriam interesse em destruir a capacidade de extrair valor a longo prazo de seus próprios ativos? Além disso, a suposição de que o pagamento de dividendos ou o envolvimento em recompras de ações devem ocorrer às custas de novos investimentos é infundada. No contexto de baixas taxas de juro, não há qualquer contradição necessária entre investir na produção e, ao mesmo tempo, em pesquisa (I) e desenvolvimento (D), por um lado, e realizar recompras e pagamentos de dividendos, por outro, uma vez que as empresas podem contrair empréstimos praticamente gratuitos.
De fato, o investimento corporativo e os gastos em P&D aumentaram como proporção do PIB nas últimas quatro décadas, assim como os pagamentos de dividendos, juntamente com um aumento acentuado nos lucros. Apesar de devolver grandes quantias de caixa excedente aos investidores por meio de recompras, os investimentos contínuos em P&D por gigantes da tecnologia como Apple, Microsoft e Google têm sido claramente suficientes para manter suas posições como líderes globais.
Além dos lamentos sobre as prerrogativas de curto prazo mantidas por Wall Street, muitos marxistas argumentaram que a “financeirização” está enraizada em uma crise mais profunda – até mesmo fundamental – do modo de produção capitalista. Para Robert Brenner, Cedric Durand e David Harvey, a queda da taxa de lucro nos setores industriais a partir do final da década de 1960 levou ao desvio do investimento corporativo da manufatura para serviços financeiros relativamente lucrativos e de rápido crescimento.[8]
Eles argumentam que isso criou a ilusão de crescimento econômico ao gerar uma série de bolhas especulativas, que serviram apenas para mascarar a falta subjacente de lucratividade industrial. O economista francês François Chesnais vincula a centralidade política e econômica das finanças ao seu papel na integração econômica internacional, mas também argumenta que a financeirização é um aspecto de uma crise econômica prolongada caracterizada pela superprodução e uma queda na taxa de lucro. Para Chesnais, uma “recessão global” observadas por quatro décadas mostra já o declínio do sistema mundial capitalista.[9]
Esses relatos baseiam-se em uma certa interpretação da teoria de Marx do “capital fictício”. Segundo essa teoria, muitas formas de capital financeiro são “fictícias”; eis que estão separadas do capital industrial “real”. Nessa visão, as finanças são amplamente vistas como uma forma de recepção passiva de uma parte do mais-valor gerado pela indústria por meio do pagamento de várias formas de juros (que incluem juros sobre empréstimos, bem como dividendos e taxas de serviço).
Enquadrar tudo, desde ações corporativas ao lançamento de derivativos, como capital fictício tende, na melhor das hipóteses, a minimizar o papel que esses instrumentos financeiros desempenham na formação do capital industrial; na pior das hipóteses, concebe as finanças como um câncer na economia “real”, que estaria melhor sem elas. Isso abre a porta para interpretações que podem se aproximar bastante da teoria social-democrata de “esvaziamento” – embora, em vez de salvar o capitalismo restringindo as finanças, esses teóricos geralmente tenham como objetivo demonstrar que o capitalismo está condenado à morte.
As finanças não são antagônicas à indústria. Como exporemos nos outros capítulos, a história mostra que ela tem estado profundamente entrelaçada com a produção capitalista. As finanças – dentro e fora da empresa não financeira – disciplinam a extração de mais-valor, promovem a competitividade e facilitam a circulação internacional e a valorização do capital.
A capacidade das multinacionais de movimentar livremente investimentos em todo o mundo em um piscar de olhos tem sido uma condição crucial para que elas estruturem e reestruturem redes de produção flexíveis, dinâmicas e globalizadas. Longe de ser apenas um “cassino” especulativo, os derivativos em particular são essenciais para as corporações gerenciarem os riscos da produção globalizada. As finanças também são vitais para fusões e aquisições de empresas, bem como para manter o consumo no contexto dos salários estagnados das últimas décadas.
O economista radical Costas Lapavitsas evita definir as finanças como separadas ou opostas à indústria, destacando seu papel estrutural no capitalismo.[10] No entanto, ao argumentar que as finanças “exploram a todos nós”, ele tende a minimizar o papel importante e muito positivo que as finanças desempenham na produção de valor. Em vez de ser apenas uma força rentista e extrativista na economia, as finanças têm sido fundamentais para permitir a competitividade e o dinamismo do capital produtivo.[11]
Além disso, em grande parte, ele entende a financeirização da corporação não financeira em termos de mudança na composição de ativos – isto é, como uma questão de investir mais pesadamente em serviços financeiros. A transformação mais profunda da corporação, pela qual o capital-dinheiro se tornou mais proeminente em sua estrutura organizacional, não é explorada.
Lapavitsas também não interroga suficientemente a mudança na relação entre corporações e instituições financeiras; eis que ele não compreende bem as características definidoras do capitalismo de acionistas da era neoliberal: a concentração de ações em poderosos investidores institucionais, a intensificação da disciplina do investidor na corporação não financeira e a reestruturação da governança corporativa para refletir o empoderamento das finanças.
Talvez o ponto mais crítico esteja no fato de que Lapavitsas – como muitos economistas marxistas e não marxistas – ignora em grande parte o papel central do estado imperial americano na organização da estrutura econômica e da hegemonia política das finanças. Essa omissão abriu caminho para interpretações, como a de Robert Brenner e Dylan Riley, bem como a de Cedric Durand, de que o Estado foi hoje instrumentalizado ou “capturado” por um setor financeiro corrosivo.
Um dos principais argumentos apresentados neste livro é que o papel do Estado na gestão e estruturação do sistema financeiro reflete o que Nicos Poulantzas chamou de sua “autonomia relativa” de empresas e frações capitalistas específicas na supervisão dos interesses sistêmicos gerais e de longo prazo do capitalismo. Como enfatizamos, o capitalismo não é apenas um sistema econômico, mas também um sistema político, exigindo que o Estado gerencie os dilemas e os conflitos de poder entre diferentes frações do capital dentro do bloco de poder – embora sempre no contexto de contradições e pressões econômicas mais profundas.
Como Leo Panitch e Sam Gindin argumentam há muito tempo, as finanças não representam um desafio nem para a produção nem para a hegemonia americana. Em vez disso, vem a ser um componente básico da ordem imperial americana que tornou a globalização possível. Para eles, a integração financeira global representa o culminar do projeto de “fazer o capitalismo global” empreendido pelo Estado americano desde a Segunda Guerra Mundial.
A responsabilidade imperial única do Estado americano de supervisionar o sistema mundial foi, acima de tudo, orientada para garantir a livre circulação de capital através das fronteiras, independentemente da origem nacional – criando um capitalismo verdadeiramente global em vez de capitalismos regionais ou nacionais distintos.[12] Como eles mostram, a base crítica para isso foi a integração das finanças globais. Embora isso significasse que as finanças se tornariam mais poderosas na economia global, as empresas industriais foram capazes de aceitar isso precisamente porque também se beneficiaram desse avanço.
Panitch e Gindin traçam as interconexões entre o papel imperial único do estado americano, o desenvolvimento institucional do estado e a ascensão das finanças. Ao fazer isso, eles mostram como a globalização não foi o resultado automático de “leis” econômicas, mas exigiu o desenvolvimento de capacidades estatais específicas. Isso levou à centralização do poder do Estado no Fed e no Tesouro, e seu isolamento das pressões democráticas.
Essa independência permitiu que essas agências interviessem com flexibilidade na gestão das contradições de um capitalismo globalizado, livre da arbitrariedade da responsabilidade democrática ou da “captura” direta pelos capitalistas. O Estado relativamente autônomo era, portanto, capaz de agir em nome, se não a mando, do capital. A financeirização, a globalização e o desenvolvimento de um estado mais autoritário faziam parte da “criação do capitalismo global”.
As finanças sempre estiveram intimamente ligadas ao Estado – formando o que David Harvey chamou de “nexo entre o estado e as finanças”, pelo qual as finanças “se integram diretamente” a uma parte do aparato estatal.[13] Não se pode entender as finanças sem levar em conta o papel central do poder do Estado em apoiá-las e protegê-las; nem se pode entender a estrutura do poder do Estado sem levar em conta sua integração com a economia.
No entanto, até o momento, houve poucas, se houveram algumas, tentativas sérias de traçar o desenvolvimento histórico do aparato econômico do Estado americano. Como mostraremos, a evolução do sistema financeiro ao longo do século XX dependeu da expansão contínua das funções econômicas do Estado. Isso levou ao surgimento de uma estrutura autoritária de poder no próprioEstado capitalista democrático; ora, essa estrutura se tornou atualmente um fundamento básico do novo capital financeiro.
Sociólogos e cientistas políticos também catalogaram algumas das principais mudanças no capitalismo corporativo ao longo do século XX, incluindo a financeirização. No entanto, muitas vezes eles não conseguem situar as mudanças institucionais em relação ao capitalismo como um sistema e, portanto, são incapazes de perceber como tais mudanças permitem e resultam da reestruturação competitiva da acumulação – mesmo vendo a concentração econômica como levando à supressão, em vez da intensificação, da competitividade.
Além disso, o foco nas instituições nessas avaliações, e não na produção e circulação de valor, sustenta a percepção de que a financeirização surgiu repentinamente com a ascensão do capitalismo de acionistas neoliberal – ignorando assim as interconexões mais profundas e complexas que sempre existem entre as finanças e a produção, pois o capitalismo é fundamentalmente uma economia baseada no dinheiro. Da mesma forma, a dinâmica da luta de classes, que é tão fundamental para a compreensão da história, desaparece em grande parte desses estudos.
O sociólogo John Scott mostrou como a concentração de investidores institucionais a partir da década de 1970 gerou uma mudança histórica na gerência das empresas; elas eram amplamente controlada por “gestores internos”, mas sob a forma neoliberal, passaram a se sujeitarem a uma maior disciplina do investidor na forma de “hegemonia financeira poliárquica”.
Em vez de bancos de investimento singulares controlarem diretamente as redes de corporações, como no capital financeiro clássico, constelações de instituições financeiras concorrentes estabeleceram alianças efêmeras nos conselhos corporativos para exercer ampla influência e disciplina sobre os ” gerentes internos” corporativos.[14] Gerald Davis foi mais longe, alegando que a concentração de ativos em fundos mútuos (especialmente no fundo Fidelity) constituía um “novo capital financeiro”.
No entanto, ele argumentou que essa propriedade concentrada não se traduziu em controle mediante restrições regulatórias; ela não surgiu de conflitos de interesse ou da vocação dos fundos mútuos ativos para obter ganhos de curto prazo; para ele, ocorreu simplesmente porque negociar ações é mais fácil do que um intervencionismo direto.[15] Davis, portanto, define o novo capital financeiro como uma “combinação historicamente única de concentração e liquidez” que traduz em “propriedade sem controle”. No entanto, Davis não previu como essa dinâmica seria alterada pela concentração verdadeiramente impressionante de patrimônio em fundos de investimento passivos, como os administrados pela Black-Rock, Vanguard e State Street.
Davis viu como o fundo Fidelity de US $ 1 trilhão enfrentava “dificuldades em permanecer flexível em seus investimentos”, fato que o levou a mudar para outras linhas de negócios. No entanto, a BlackRock sozinha agora tem US$ 10 trilhões em ativos sob gestão. Além disso, ao contrário da Fidelity, que, como observa Davis, é um investidor de relativamente curto prazo, esses fundos passivos são de longo prazo. Como tal, eles exercem o poder não por meio de trocas de posição, mas por meio de controle direto. O novo capital financeiro, como o antigo, é fundado na concentração e na visão de longo prazo e, consequentemente, é definido acima de tudo pela fusão de propriedade e controle.[16]
Benjamin Braun conduziu a pesquisa mais importante sobre o que ele chama de “capitalismo de gestão de ativos”, o novo regime de governança corporativa que, em sua visão, substituiu o capitalismo de acionistas neoliberal. No entanto, apesar da extensa concentração e diversificação que define esse regime, Braun argumenta que as empresas de gestão de ativos “não têm interesse econômico direto” nas empresas de seu portfólio.[17]
Isso ocorre porque, como “intermediários que cobram taxas”, eles supostamente não se beneficiam diretamente do desempenho das empresas nas quais detêm participações: todos os retornos são repassados a seus clientes e eles ganham dinheiro apenas com tais taxas. Consequentemente, ele argumenta, o seu principal interesse é maximizar o valor dos ativos sob gestão; eis que eles têm pouco incentivo para realizar intervenções dispendiosas para melhorar o desempenho das empresas que se encontram no portfólio. Isso distingue o capitalismo de gestão de ativos do capital financeiro clássico, no qual as empresas eram amplamente controladas por financistas.
No entanto, apesar da aparente falta de controle ativo das empresas de gestão de ativos, Braun também sugere (de forma um tanto ambígua) que a centralização de ativos nessas empresas sufocou a concorrência.[18] Outros pesquisadores, como Jan Fichtner, Eelke M. Heemskerk e Javier Garcia-Bernardo, argumentaram que, embora as Três Grandes sejam investidores passivos, elas não são proprietárias passivas. Em vez disso, eles mostram que essas empresas adotam estratégias de votação coordenadas e centralizadas em todos os fundos que administram, permitindo-lhes exercer um poder substancial sobre as empresas de seu portfólio.
Talvez ainda mais significativo, eles sugerem que essas empresas podem exercer um “poder oculto” nos bastidores. No entanto, esses estudiosos também assumem que a centralização do poder financeiro leva à supressão da concorrência. À medida que as empresas gigantes de gestão de ativos passam a possuir todos os concorrentes em um determinado setor, essas empresas perdem o incentivo para competir, levando a preços mais altos, o que supostamente corrói o dinamismo do capitalismo.[19]
De fato, a concorrência entre as gigantes gestoras de ativos as obriga a intervir para maximizar a competitividade das empresas de seus portfólios. As empresas de gestão de ativos competem entre si, bem como com todas as outras instituições financeiras, para atrair poupanças. Isso significa que devem oferecer os retornos mais atraentes aos seus clientes em comparação com outros pontos de venda possíveis.
Além disso, como Braun reconhece, as taxas que essas empresas cobram são calculadas como uma porcentagem do valor dos ativos que possuem. Se eles têm interesse em maximizar suas taxas, então eles também devem possuir um interesse semelhante em maximizar o valor de suas participações. Dado que eles não podem negociar, isso lhes dá um incentivo direto para intervir na governança corporativa. Os interesses das empresas de gestão de ativos e os de seus clientes são praticamente idênticos.
A implicação clara desse tipo de atuação é a necessidade de “salvar o capitalismo de si mesmo”, controlando as finanças e restaurando a concorrência. Braun, Fichtner et al. veem as finanças como parasitárias, pois, para eles, elas drenam a renda da indústria, minando a competitividade e aumentando os preços para os consumidores, sem acrescentar nada à produção ou à prosperidade nacional. Pelo contrário, argumentamos que o novo capital financeiro é intensamente competitivo, que ele amplia disciplina para maximizar a exploração e os lucros. A principal tarefa política, então, não é “restaurar a competitividade” atacando as finanças, pois consiste precisamente no oposto: é preciso criar espaços protegidos das pressões competitivas para que seja possível criar formas mais cooperativas e democráticas de organização social, política e econômica. É o próprio capital, não apenas as finanças, que deve ser confrontado por aqueles que buscam criar um mundo mais justo e sustentável.
[1] Segunda parte do primeiro capítulo do livro The fall and rise of american finance – From J. P.Morgan to BlackRock. Londres e Nova York: Verso, 2024, escrito pelos dois citados professores do Departamento de Ciência Política da Universidade Técnica de Ontario, Canadá. Correios eletrônicos: scott.aquanno@ontariotechu.ca e stephen.maher@ontariotechu.ca.
[2] Stephen Maher, Sam Gindin, and Leo Panitch, Class Politics, Socialist Policies, Capitalist Constraints, in Leo Panitch and Greg Albo, eds., Socialist Register 2020: Beyond Market Dystopia: New Ways of Living, London: Merlin Press, 2019.
[3] Giovanni Arrighi, The Long Twentieth Century: Money, Power, and the Origins of Our Times, London: Verso, 1994; Giovanni Arrighi and Beverley J. Silver, Chaos and Governance in the Modern World System, Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999.
[4] Gretta R. Krippner, Capitalizing on Crisis: The Political Origins of the Rise of Finance, Cambridge, MA: Harvard University Press, 2012; William Lazonick, Profits Without Prosperity, Harvard Business Review, Septem ber 2014; William Lazonick, The Financialization of the U.S. Corporation: What Has Been Lost, and How It Can Be Regained, Seattle University Law Review 36: 2, 2013; William Lazonick and Mary O’Sullivan, Maximizing Shareholder Value: A New Ideology for Corporate Governance, Economy and Society 29: 1, 2000, 13-35; William Lazonick and Mary O’Sullivan, eds., Corporate Governance and Sustainable Prosperity, London: Palgrave, 2002.
[5] Seth Fiegerman, Uber Is Losing Billions: Here’s Why Investors Don’t Care, CNN, June 1, 2017.
[6] Timothy B. Lee, Tesla Keeps Losing Money. So Why Is It Worth More Than Ford? CNBC, April 5, 2017.
[7] Corporate Short-Termism Is a Frustratingly Slippery Idea, The Economist, February 16, 2017.
[8] David Harvey, A Brief History of Neoliberalism, Oxford, UK: Oxford University Press, 2005; Robert Brenner, The Boom and the Bubble: The US in the World Economy, London: Verso, 2003; Robert Brenner, “Escalating Plunder,” New Left Review 123, May/June 2020; Dylan Riley and Robert Brenner, “Seven Theses on American Politics,” New Left Review 138, November/December 2022; Cedric Durand, Fictitious Capital: How Finance Is Appropriating Our Future, London: Verso, 2017.
[9] Francois Chesnais, Finance Capital Today: Corporations and Banks in the Lasting Global Slump, Chicago: Haymarket Books, 2018.
[10] Costas Lapavitsas, Profiting Without Producing: How Finance Exploits Us All, London: Verso, 2014.
[11] Ben Fine, Financialization from a Marxist perspective, International Journal of Political Economy, 42: 4, 2013, 47-66.
[12] Panitch and Gindin, Making of Global Capitalism.
[13] Harvey, Limits to Capital, 321; David Harvey, The Enigma of Capital and the Crises of Capitalism, Oxford, UK: Oxford University Press, 2011, 55
[14] Scott, Corporate Business and Capitalist Classes.
[15] Gerald F. Davis, A New Finance Capitalism? Mutual Funds and Ownership Re-concentration in the United States, European Management Review 5:1, 2008, 11-21.
[16] Ibid., 13, 20.
[17] Benjamin Braun, Asset Manager Capitalism as a Corporate Governance Regime, in Jacob Hacker, Alex Hertel-Fernandez, Paul Pierson, and Kathleen Thelen, eds., The American Political Economy: Politics, Markets, and Power, Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2021, 273.
[18] Benjamin Braun, From Exit to Control: The Structural Power of Finance Under Asset Manager Capitalism, Working Paper, Max Planck Institute for the Study of Societies.
[19] Jan Fichtner, Eelke M. Heemskerk, and Javier Garcia-Bernardo, Hidden Power of the Big Three? Passive Index Fund, Re-concentration of Corporate Ownership, and New Financial Risk. Business and Politics, 19:2, 2017, 298-326.

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