A indústria deixou de ser o motor do crescimento?

Dani Rodrik escreveu um artigo com o seguinte título: “Como me tornei um cético da indústria de transformação”. Nele, sustenta que “o modelo de crescimento liderado pela industrialização está vacilando”. E que “a melhor alternativa para as economias em desenvolvimento agora está em aumentar a produtividade em todos os serviços que absorvem mão de obra”. Ora, ele contraria assim uma famosa tese de Nicholas Kaldor segundo a qual “a indústria [de transformação] é o motor do crescimento”. Veja-se, pois, os seus argumentos, que são muito importantes se a sua tese estiver correta.

Dani Rodrik [1]Social Europe– 22 de julho de 2026

Em um recente encontro de acadêmicos e formuladores de políticas em Harvard, um participante me lembrou que eu havia publicado uma coluna há 15 anos sobre “The Manufacturing Imperative” [A indústria como imperativo]. Como o título sugere, o texto enfatizou a importância da industrialização para impulsionar o crescimento econômico, para criar bons empregos e para nutrir uma classe média na estrutura da sociedade. “Este é um dos meus artigos favoritos de todos os tempos”, disse o formulador de políticas africano ao público presente no encontro assinalado.

Dificilmente há maior recompensa para um estudioso do que ver suas ideias ressoarem fortemente na compreensão das pessoas para as quais escreveu no passado. Mas, nesse caso, uma repreensão gentil veio junto com o elogio. O que eu havia escrito naquela coluna, e em muitos outros escritos, parecia conflitar fortemente com os argumentos que eu agora apresentara na conferência sobre os limites da industrialização.

A contradição era real. Nos últimos anos, tornei-me cético quanto à viabilidade do modelo tradicional de crescimento liderado pela indústria. Venho defendendo, por isso, nos últimos tempos, um modelo diferente de crescimento econômico, que enfatiza o desenvolvimento de capacidades produtivas em serviços que absorvem mão de obra, os quais são em sua maioria locais e, por isso, não sofrem concorrência internacional.

[N. T.: o leitor deve lembrar que o argumento clássico de Kaldor se baseia no fato de que a indústria dinamiza a economia doméstica porque tem encadeamentos para frente e para trás que se espalham no seu interior, o que evidentemente falta para os serviços aqui aludidos. No parágrafo seguinte, Rodrik parece afirmar que a tese de Kaldor deixou de ser verdadeira por causa da globalização da produção.]

Venho alertando formuladores de políticas na África e em outras regiões em desenvolvimento que tentar emular o modelo do Leste Asiático produziria, na melhor das hipóteses, enclaves manufatureiros. Estes conteriam uma pequena fatia de empresas produtivas integradas às cadeias globais de valor, enquanto a maior parte da força de trabalho permaneceria presa em atividades de baixa produtividade.

O México exemplifica como esse resultado vem acontecido. Como destacou Santiago Levy, ex-vice-ministro das finanças do México, na mesma conferência, as exportações de bens manufaturados do México aumentaram mais de dez vezes desde que o país se uniu aos Estados Unidos e ao Canadá para formar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) em 1994. Mas isso não foi muito auspicioso.

O México está à porta de um mercado gigante; possui formuladores de políticas determinados a promover o comércio exterior e o investimento interno necessário para que isso ocorra. Poucos países tiveram a suposta benção de ter as melhores condições para uma industrialização orientada para a exportação. No entanto, o desempenho econômico geral do México tem sido desanimador, mesmo para padrões latino-americanos pouco exigentes, com uma trajetória de produtividade declínio.

Tamanho das empresas sobreviventes: manufatura vs. serviços e comércio. Notas: O tamanho da empresa no eixo vertical é medido como o número de trabalhadores. Os eixos horizontais agrupam a formação por idade em 1998 e 2018.

O que, no passado, fez da indústria de transformação uma poderosa fonte de crescimento econômico foi a sua capacidade de empregar muitos trabalhadores pouco qualificados, enquanto fazia demandas limitadas sobre a governança e infraestrutura dos países de baixa renda. A manufatura de hoje é diferente. Competir com sucesso nos mercados mundiais – e com a China em particular – exige habilidades, tecnologias e outras capacidades que são escassas em países pobres – justamente porque são pobres. A manufatura não oferece mais um caminho capaz de contornar essas restrições fundamentais.

O resultado é que, mesmo quando os países conseguem atrair mais trabalhadores para a indústria, isso acontece por meio da expansão de pequenas empresas, em sua maioria informais, e às custas da produtividade. Esta é a história da industrialização na Etiópia, que já representou a esperança de que o modelo do Leste Asiático pudesse ser transplantado na África. A expansão do emprego indústria e o aumento da produtividade decorrente costumavam andar lado a lado nos processos de industrialização, tal como ocorreu no Japão, Coreia do Sul e Taiwan; agora eles seguem direções opostas na Etiópia, Bangladesh, Índia e até Vietnã.

Embora relutante por muito tempo, tornei-me agora um cético sobre a industrialização como fonte de crescimento. As evidências eram difíceis de ignorar, à medida que as tecnologias industriais se tornavam mais sofisticadas e o fracasso dos países fora do Leste Asiático em se industrializarem com sucesso tornava-se mais evidente. Comecei a considerar estratégias alternativas de crescimento não porque passei a considerar a industrialização ampla como menos desejável, mas porque me convenci de que se tornou menos viável. Como John Maynard Keynes teria dito sobre isso: “Quando os fatos mudam, eu mudo de ideia; e você, o que faz?”

Aqui está um cálculo sóbrio. Dos dois bilhões de trabalhadores no mundo em desenvolvimento hoje, estimo que cerca de três quartos (1,5 bilhão) estejam em ocupações que não exigem educação universitária nem estão expostos à economia internacional por meio do comércio ou da terceirização internacional. São agricultores de subsistência, vendedores ambulantes, trabalhadores do varejo e de serviços de alimentação, trabalhadores ocasionais e outros em ocupações não comerciais. Ora, esses números só aumentarão nos próximos anos, mesmo que sua participação no total diminua um pouco.

A questão crítica que os formuladores de políticas enfrentam é como ampliar as oportunidades econômicas para esses trabalhadores. Os números deixam dolorosamente claro que nem a industrialização nem a educação podem ser a resposta, por mais desejáveis que possam ser. Encontrar maneiras de aumentar a produtividade dos trabalhadores em serviços que absorvem mão de obra será crucial; caso contrário, os ganhos no padrão de vida não se mostrarão sustentáveis.

Serviços não transacionáveis têm sido, tradicionalmente, um freio para o crescimento econômico. Muitos formuladores de políticas são, portanto, pessimistas quanto ao seu potencial de alavancagem. Mas isso pode estar mudando. Algo semelhante a uma revolução na produtividade dos serviços está em andamento, de modo mais visível nas economias avançadas, por meio de inovações organizacionais, uso de plataformas digitais e outras novas tecnologias.

Para as economias em desenvolvimento como um todo, as últimas três décadas foram um raro período de rápido crescimento econômico e convergência com economias avançadas. Ora, de modo bem notável, os responsáveis por esse resultado foram os serviços, e não as indústrias.

Como mostram os economistas Tianyu Fan, Michael Peters e Fabrizio Zilibotti em trabalhos empíricos detalhados, o notável crescimento econômico da Índia tem sido impulsionado por ganhos de produtividade em serviços ao consumidor, como varejo e hospitalidade, produzidos para mercados locais, e não em serviços exportadores intensivos em qualificação, como TIC e BPO, pelos quais o país é bem conhecido. Esses autores documentaram que está em ação um mecanismo semelhante nas economias em rápido crescimento da África Subsaariana.

As evidências sugerem a possibilidade de um ciclo virtuoso de crescimento econômico baseado em serviços destinados às classes médias. A expansão dessas classes desloca a demanda do consumidor para serviços de maior qualidade e mais produtivos, o que, por sua vez, possibilita o aumento da renda dos trabalhadores que sustenta a classe média. Mas o processo não é automático. Exige um papel importante do governo na facilitação dos aumentos necessários de produtividade.

Como argumentamos Rohan Sandhu, da Harvard Kennedy School e eu mesmo, no artigo Servicing Development: Productive Upgrading of Labor-Absorbing Services in Developing Economies, muitos experimentos bem-sucedidos ao redor do mundo já fornecem prova de que essa tese está correta. Incluem-se aí as iniciativas que incentivam empresas plataforma a empregar insumos e trabalhadores locais, auxiliam microempresas com treinamento e certificação, e fornecem IA personalizada e outras ferramentas tecnológicas adaptadas às circunstâncias dos países em desenvolvimento.

Esforços dedicados nesse sentido podem construir um modelo de crescimento mais confiável e mais inclusivo. Sem eles, a grande maioria dos trabalhadores no mundo em desenvolvimento se manterá na precariedade, isolada dos enclaves de alta produtividade ligados à economia global.


[1] Professor de economia política internacional na John F Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, é presidente da Associação Econômica Internacional e autor de Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy (Princeton University Press).

Deixe uma resposta