Choque chinês na grande agricultura do Brasil e dos EUA

Adam Tooze – Blog do autor – 3 de maio de 2026

A integração da China à economia mundial mostrou ser o desenvolvimento mais dramático da história econômica moderna. No que diz respeito aos “desequilíbrios globais”, esta é uma história de superávits comerciais líquidos e do crescente poder chinês na indústria. Mas o outro lado disso são as importações de matérias-primas, energia e alimentos. Na agricultura, a China passou por uma “abertura” altamente incomum.

O comércio global de alimentos ocorre entre blocos, nos quais produção e consumo se desenvolveram sob regulação governamental rigorosa e uma economia política dominada por grandes interesses corporativos incumbentes – os chamados “regimes alimentares” (termo atribuído a Harriet Friedmann e Philip McMichael). A agricultura foi um dos setores originais a experimentar o que Karl Polanyi chamou de “duplo movimento”, de “abertura” de mercado seguida de uma reação coletiva regulatória.

Exceto em momentos de crise, essa economia política enraizada geralmente não permite mudanças dramáticas nos fluxos comerciais ou nos regimes de produção. Tudo foi projetado para preveni-los. Mas desde os anos 2000, o crescimento da demanda na China que tem sido a força motriz do regime alimentar “corporativo neoliberal”.

Ora, China desempenhou esse papel como importadora, não como exportadora. Do ponto de vista liberal, é um dos grandes triunfos da era do “livre comércio”. A questão é se estamos à beira de uma nova fase em que a China aplica à “grande agricultura” as políticas com as quais virou de cabeça para baixo tantas áreas importantes da produção industrial?

Na década de 1990, a China participou pouco do comércio agrícola com o resto do mundo, mantendo sempre um pequeno superávit comercial. Vinte anos depois, a China expandiu substancialmente suas exportações. Mas também se tornou um importador agrícola ainda maior, com o maior déficit de comércio de alimentos do mundo e uma taxa de autossuficiência estimada em menos de 70%.

Veja-se neste ponto o gráfico acima posto que mostra o balanço do comércio de alimentos da China na últimas 6 décadas..

Dizer que esse desenvolvimento desigual no comércio agrícola da China é incomum se afigura bem pouco. Ao redor do mundo, os mercados agrícolas são fortemente contestados e ferozmente defendidos por políticas nacionais, grupos de lobby e interesses corporativos. Ver um desequilíbrio para o déficit é altamente incomum.

A escala do déficit da China no comércio de alimentos a coloca em um patamar diferente. Para ver quão incomum é a trajetória da China, compare-a com a dos EUA e da UE – os outros grandes atores do comércio global. Desde 2000, as importações de produtos agrícolas dos EUA também aumentaram, mas estão amplamente equilibradas.

Junto com a China, o NAFTA e a categoria dispersa RM (resto do mundo) dominam o comércio agrícola dos EUA. No papel, o México tem um PIB per capita semelhante ao da China e, desde a década de 1990, sofreu um choque considerável de integração comercial por meio do NAFTA. No entanto, desde a década de 2010, o balanço comercial de alimentos do México com os EUA mudou fortemente para superávit. No mesmo período, a UE tem ampliado gradualmente seu superávit de exportação agrícola.

Para entender como foi possível ocorrer o enorme déficit comercial agrícola da China, é preciso compreender um pouco mais sobre a economia política do desenvolvimento do interior chinês no período de reformas e abertura. Essa é uma tarefa para outra hora.

Mas um fator chave para ajudar a entender essa mudança é reconhecer que ela é aditiva. A Europa e os EUA podem ter ajustado seus regimes de consumo alimentar nas margens nas últimas décadas. Mas os padrões básicos são relativamente estáticos. Isso contudo não é verdade para a China. Desde a década de 1990, a dieta nacional foi completamente transformada, com um grande aumento no consumo de proteína de carne e peixe.

No gráfico acima é bem claro que esse aumento no consumo de proteína foi aquilo que impulsionou a globalização agrícola da China. Em grãos básicos, tal como mostra a tabela abaixo[1], a China é em grande parte autossuficiente.

De fato, graças aos subsídios de preços, a China acumulou enormes estoques de milho, arroz e trigo. Mas na ração animal de alto valor – principalmente na criação de porcos (600 milhões de unidades), acima de tudo a soja, o déficit é enorme. O enorme aumento da demanda por carne na China domina totalmente a dinâmica da indústria global da soja, como mostra este gráfico de 2019.[2]

A produção de soja no Brasil e nos EUS disparou nos últimos 25 anos com Brasil liderando o caminho.[3] O crescimento da produção brasileira tem sido impulsionado pela demanda chinesa, que representa entre 73 e 83% das exportações brasileiras.

Assim, para resumir o pano de fundo histórico, o último quarto de século viu o surgimento de um sistema alimentar dramaticamente novo para um sexto da humanidade (China), com níveis muito maiores de consumo de proteína fornecidos por rações cultivadas principalmente no Brasil.

A pergunta óbvia, em um momento de mudança como o que estamos vivendo, é se isso pode ser esperado que continue. A dependência das importações na escala da China para algo tão básico quanto proteína é uma vulnerabilidade. É uma vulnerabilidade que nem os EUA nem a UE enfrentam, muito menos outros “atores globais” como a Rússia. Em um ambiente geopolítico de crescente estresse, não é surpresa que a “segurança alimentar” seja uma preocupação fundamental para a liderança de Pequim. No ano chocante de 2022, Xi Jinping mencionou o problema a cada cinco dias.        

Claro, palavras da moda sobre políticas aparecem e desaparecem com frequência em Pequim. Mas e se a China estiver falando sério sobre esse tema? Essa é a pergunta que faço em um artigo de opinião no Financial Times. E se Pequim aplicasse à agricultura o mesmo conjunto de ferramentas de política “industrial” multifacetado, que teve um impacto tão dramático em áreas como a nova energia? Esse é o cenário explorado em um relatório recente da Systemiq encomendado pela Fundação Gordon e Betty Moore.[4]

Como aponta a Systemiq e seus colaboradores na Universidade Agrícola da China, os sinais de mudança já estão aparecendo. Entre os 14º e 15º Planos Quinquenais, os elementos-chave de uma mudança de política “todo o sistema” parecem estar sendo implementados. Se isso se desenrolar na linha do tempo da política industrial, nos próximos 15-20 anos poderemos muito bem ver uma mudança espetacular no regime alimentar da China. As consequências para o sistema agrícola global que se formou desde o início dos anos 2000 podem ser dramáticas. As importações chinesas dos EUA podem cair mais de 85%. No Brasil, a queda pode ser de 36%.

O ponto aqui não é fazer uma previsão específica sobre o futuro dos mercados agrícolas globais. O objetivo é enfatizar o quão radicalmente nova é a configuração atual do comércio agrícola global. Quão assimétrica ela é em relação à dependência da China de insumos-chave para a agricultura de alto valor e como a história da política industrial chinesa desde a década de 2010 nos ensinou lições sobre quem, rapidamente, e como parâmetros básicos da economia mundial podem ser alterados.


[1] Fonte: https://millermagazine.com/blog/chinas-new-grain-equation-balancing-self-sufficiency-and-rising-feed-demand-6743

[2]https://www.proag.com/news/ers-report-interdependence-of-china-united-states-and-brazil-in-soybean-trade/

[3] Ver https://adamtooze.substack.com/p/chartbook-273-feeding-the-world-whilst?utm_source=substack&utm_medium=email

[4] https://www.systemiq.earth/wp-content/uploads/2026/04/Chinas-Food-Future-Report.pdf?utm_source=substack&utm_medium=email

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