Venezuela: a virada final

Michael Roberts – The next recession blog – 17/02/2026

Em artigo anterior, Michael Roberts examinou a economia petrolífera da Venezuela, agora ele revisita esse país para mostrar o que aconteceu com a Revolução Bolivariana.

O sequestro do presidente venezuelano Maduro e de sua esposa pelas forças militares dos EUA foi o primeiro sinal. A subsequente tomada do poder pela vice-presidente Delcy Rodriguez e seu acordo para permitir que os EUA controlassem as receitas de exportação de petróleo da Venezuela e atraíssem multinacionais de energia americanas para investir, tudo isso sinaliza o fim da revolução chavista que começou há mais de 25 anos. Por isso, é muito oportuno que um novo livro tenha sido publicado para mostrar o que aconteceu na Venezuela para chegar a esse ponto.

O livro Venezuela in crisis (Venezuela em Crise) foi publicado agora pela Haymarket Books. Este livro reúne “alguns dos pensadores marxistas, socialistas e anticapitalistas mais importantes da Venezuela, representando uma série de tradições e organizações políticas de esquerda.” Os escritos em espanhol foram traduzidos para que os falantes de inglês possam ler os argumentos e ter contato com as experiências das vozes de esquerda locadas na Venezuela. “Levar essas vozes a um público de língua inglesa permitirá” – está dito no prefácio –“que os leitores se envolvam com os debates e perspectivas atuais da esquerda venezuelana”.

Alguns colaboradores do livro serviram no gabinete de Chávez, mas se tornaram depois críticos do governo Maduro. O livro foi editado por Anderson Bean, da North Carolina Agricultural and Technical State University, que já escreveu sobre a Venezuela.  O capítulo introdutório, de sua lavra, oferece ao leitor a essência dos capítulos do livro.

Bean começa apontando que, durante os anos 2000, a revolução chavista-bolivariana na Venezuela foi uma inspiração para outros no chamado Sul Global, talvez até mais do que a revolução cubana dos anos 1960. A eleição de Hugo Chávez nas eleições de 1998, após décadas de governos corruptos, a favor do  capitalismo dependente e pró-EUA, foi uma explosão de ar fresco.  Nos anos seguintes, a presidência de Chávez “melhorou o bem-estar material dos venezuelanos, trouxe maior igualdade social e empoderou setores da sociedade que tradicionalmente eram excluídos do processo político.”

Bean argumenta que houve três componentes-chave na presidência de Chávez: primeiro, a reescrita da constituição para promover a ampla participação cidadã e proteções abrangentes dos direitos humanos; segundo, a redistribuição dos lucros do petróleo por meio de vários programas sociais que reduziram os níveis oficiais de pobreza em 37,6% e a ‘pobreza extrema’ em 57,8%.

Em 2008, a Venezuela também tinha o salário-mínimo mais alto de toda a América Latina, e a desigualdade no país caiu para uma das mais baixas do país. Em 2011, a Venezuela era o segundo país mais igualitário do Hemisfério Ocidental; apenas o Canadá apresentava níveis menores de desigualdade. Em terceiro vem aquilo que Bean considera o “mais transformador”:  a transferência de poder para os setores populares por meio da criação de novas formas de assembleias populares e experimentos com controles operários e conselhos comunitários.

Mas a partir de 2013, as coisas começaram a dar errado, não pouco, mas muito errado. De 2013 a 2021, o PIB da Venezuela caiu 75%, a inflação atingiu 130.000% em 2018, a maior do mundo!  A porcentagem de domicílios classificados como pobres aumentou de 48,4% em 2014 para 81,5% em 2022.

O salário-mínimo mensal, então de US$2,23, era o mais baixo de toda a América Latina. De fato, o salário-mínimo mensal era de apenas US$0,15 por dia, oito vezes menor que o limite então estabelecido pelo Banco Mundial para pobreza absoluta de US$1,25 por dia.  Isso se comparou ao salário-mínimo mensal sob Chávez de US$ 300, mais de 60 vezes maior.

O colapso das rendas reais e o aumento acentuado da pobreza na década de 2010 levaram a uma crise migratória. Desde 2016, milhões de venezuelanos fugiram do país em busca de trabalho no exterior para enviar dinheiro de volta para casa. Hoje, estima-se que o número de refugiados e migrantes venezuelanos no mundo seja cerca de 7,7 milhões, ou 20% de todos os venezuelanos. A Venezuela agora tem o maior número de deslocados na América Latina e o segundo maior número do mundo, logo atrás da Síria.

O que explica esse colapso do perfil inspirador para o pesadelo?  Bean diz que houve duas causas.  A primeira foram as sanções dos EUA impostas à Venezuela, juntamente com várias tentativas do Estado americano, em colaboração com a oposição de direita venezuelana doméstica, de minar a economia venezuelana para promover mudanças de regime.

O imperialismo americano via a Venezuela como uma ameaça já que uma nacionalização da indústria petrolífera fora feita por Chávez. Ademais, Chávez tentara construir relações comerciais com outros países latino-americanos fora da órbita dos acordos comerciais liderados pelos EUA, ao mesmo tempo em buscava apoio em comércio e investimento de países como a China. O sucesso inicial da presidência chavista era uma anátema.

De fato, em 2002, os EUA, em colaboração com a classe empresarial venezuelana, tentaram um golpe para derrubar Chávez. Ele destituído do cargo por quarenta e sete horas, antes de ser reintegrado por mobilizações populares em massa. Do final de 2002 ao início de 2003, os EUA apoiaram um lockout do petróleo para paralisar a produção de petróleo, com o objetivo declarado de forçar Chávez a renunciar.

Em 2014, os EUA apoiaram novamente a direita venezuelana em violentos protestos de rua chamados guarimbas, exigindo ‘la salida’, ou a “saída”, de Maduro. Os EUA, novamente em colaboração com setores da direita venezuelana, tentaram mais um golpe em janeiro de 2019, quando Juan Guiadó se declarou inconstitucionalmente presidente da Venezuela. Após o golpe de janeiro falhar em derrubar Maduro, Guiadó tentou novamente em abril de 2019, mas foi frustrado mais uma vez.

Essas tentativas de golpe fracassaram, mas uma série de sanções econômicas foi imposta. Sob as sanções de Trump, instituições e cidadãos dos EUA foram proibidos de negociar dívida venezuelana. Todos os ativos do governo foram congelados. O país foi impedido de reestruturar sua dívida externa ou cronogramas de pagamento.

Os pagamentos enviados por países participantes de seu programa de pagamento preferencial de petróleo foram bloqueados. A venda de bilhões de dólares em créditos comerciais foi proibida. Sanções também fecharam a Venezuela para o mercado de petróleo mais importante, os EUA, e propriedades mantidas no exterior foram confiscadas. A refinaria Citgo, sediada nos EUA, da qual o Estado dependia para suas fontes de renda, foi bloqueada. Essas medidas levaram a uma perda de 6 bilhões de dólares em receita do petróleo apenas em 2018. As sanções congelaram 17 bilhões de dólares em ativos do país e custaram ao país cerca de 11 bilhões em perdas de exportação em 2019, ou 30 milhões de dólares por dia.

O Centro de Pesquisa Econômica e de Políticas Econômicas, sediado em Washington, DC, publicou um relatório de 2019 detalhando os efeitos das sanções dos EUA sobre a Venezuela. Somente entre 2017 e 2018, as sanções mataram cerca de 40.000 venezuelanos e mergulharam muitos outros mais cairam na precariedade. Mais de 300.000 pessoas foram colocadas em risco devido à falta de medicamentos e de cuidados de saúde, incluindo 80.000 venezuelanos soropositivos que estão sem medicamentos antirretrovirais há anos. Além disso, obter a medicação cardiovascular ou insulina necessária é um desafio para os 16.000 venezuelanos que precisam de diálise, os 4 milhões com diabetes e hipertensão e as 16.000 pessoas com câncer.

Mas os autores do livro aqui resenhado se esforçam para argumentar que o colapso na Venezuela não pode ser atribuído apenas ao imperialismo dos EUA e às suas sanções. Apesar do dano causado pelas sanções na Venezuela, o outro grande componente foi a má gestão econômica e o programa neoliberal do governo Maduro, cada vez mais autoritário. 

Economistas capitalistas tradicionais afirmam que o colapso da Venezuela foi resultado do socialismo; enquanto muitos à esquerda afirmam que o regime de Maduro precisava ser defendido como exemplo de socialismo.  Ambos os lados estavam errados.  Bean e os outros autores deste livro não aceitam que Chávez (e Maduro depois dele) tenham estabelecido uma economia socialista, ou mesmo que a Venezuela estava no “caminho do socialismo”.

Como argumentei anteriormente em meus próprios posts sobre a Venezuela, o relativo sucesso de Chávez em melhorar a situação da maioria dos venezuelanos baseou-se no boom dos preços das commodities durante os anos 2000. Com o preço do petróleo e do gás natural alto, até mesmo um aumento modesto em royalties e impostos gerou um enorme influxo de receitas do governo. Essa receita extra permitiu a Chávez aumentar os gastos sociais, criar diversos programas de distribuição e melhorar o padrão de vida da maioria dos venezuelanos.

Mas, como Bean aponta, Chávez conseguiu fazer isso sem tocar no setor capitalista venezuelano. “Não houve uma transformação real e significativa das relações sociais de propriedade, nenhuma transformação da divisão internacional do trabalho, nem desafio às prerrogativas do capital transnacional.” O capital privado ainda dominava a Venezuela durante as presidências de Chávez e Maduro.

A esmagadora maioria dos meios de produção permaneceu nas mãos da esfera privada e da classe capitalista. Na verdade, sob Chávez, entre 1999 e 2011, a participação do setor privado na atividade econômica aumentou de 65% para 71%. A produção e distribuição da maioria dos bens e serviços, incluindo indústrias-chave como grandes operações de importação e processamento de alimentos, farmacêuticos e autopeças, ainda são controladas pelo setor privado.

Mesmo em casos em que o Estado possuía os meios de produção, por exemplo, a empresa estatal de petróleo e gás natural Petroleum of Venezuela (PDVSA) e as indústrias de concreto e asfalto, era e continuou sendo a burocracia estatal que controlava e tomava todas as decisões nessas indústrias, e não os trabalhadores.

De fato, como o próprio Chávez disse: “Quem pensaria em dizer que a Venezuela é um país socialista? Não, isso seria enganar a nós mesmos. Estamos em um país que ainda vive no capitalismo, apenas iniciamos um caminho. Estamos tomando medidas contra a corrente mundial, inclusive em direção a um projeto socialista. Mas isso é para o médio ou longo prazo.”

 Mais importante, como também argumentei, não houve ruptura com a dependência do país da exportação de minerais e hidrocarbonetos. A dependência da Venezuela das exportações de petróleo aumentou durante a era Chávez e Maduro, deixando o país como uma única alternativa e subordinado aos mercados financeiros e petrolíferos globais.

O ‘compromisso’ com o capital venezuelano terminou com o fim do boom das commodities em 2013. Em 2015, os preços das commodities haviam atingido o menor nível dos últimos doze anos. Essa mudança também coincidiu com a morte de Chávez e sua substituição por Maduro. Maduro enfrentou o dilema.  Como Bean coloca: “Agora, em uma situação de receitas estatais austeras, quem iria pagar pela crise? Seria o trabalho e as pessoas trabalhadoras comuns, as bases sociais que apoiaram e votaram em Chávez no poder? O mais importante: “haveria um conflito com o capital que havia sido adiado por anos?”

A resposta logo ficou clara. Como disse em um dos capítulos o economista venezuelano Luis Salas: “Não há muita diferença entre o programa econômico da oposição [de direita] e o do Governo [Maduro]…” A única diferença com a oposição é que o Governo quer chegar a acordos com os russos, chineses ou turcos; e a oposição, com americanos e europeus. São alianças capitalistas, mas com parceiros diferentes.”  

Como Roberto López argumenta em outro capítulo do livro, “[A] posse de Nicolás Maduro como presidente em 2013 significou o quase total abandono do programa antineoliberal e o retorno das mesmas políticas econômicas implementadas na última década do século XX. Maduro manteve o discurso radical de seu antecessor e apresentou seu governo como genuinamente “operário” e “socialista”. No entanto, no cargo, ele implementou uma verdadeira mudança de curso econômico, abrindo portas para políticas neoliberais, em um marco de crescente autoritarismo.”  Essa também foi minha opinião no meu post na época.

Em 2016, o governo Maduro abriu o Arco de Mineração do Orinoco para exploração mineral. E em 2021, Maduro introduziu as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) para empresas capitalistas, livres de tributação e regulamentação. Em 2018, a presidência de Maduro aboliu o direito à greve.  Com a chamada Lei Antibloqueio em 2020, Maduro efetivamente suspendeu a constituição e concedeu autoridade ao poder executivo para conduzir a economia. 

Maduro abandonou a política de salário digno adotada sob Chávez e introduziu uma lei contra os “discursos de ódio’ que estabeleceu penas de prisão de até vinte anos para discursos contra o governo. O governo também privatizou grandes ramos da indústria, incluindo petróleo, ferro, alumínio, ouro e diamantes. “Muitas dessas privatizações tinham como alvo as mesmas indústrias que Chávez havia nacionalizado anteriormente, na prática realizando uma apropriação reversa que devolveu ativos estatais antigos à propriedade capitalista.”

Mas talvez o pior de tudo tenha sido a prática do clientelismo. Sob Maduro, o Estado venezuelano se transformou numa piñata (pote frágil), onde uma casta político-militar distribui recursos, privilégios e benefícios financeiros para garantir lealdade e manter seu domínio do poder. O governo Maduro buscou um compromisso e chegar a acordos com os setores empresariais, incluindo a Fedecámaras — a grande organização empresarial que desempenhou um papel fundamental no fracassado golpe de 2002 contra Chávez. As vozes de qualquer outra organização da classe trabalhadora foram ignoradas.

A conclusão dos autores deste livro da esquerda na Venezuela é que, entre observadores nos países avançados do Norte Global, houve uma tendência “de, sem querer, dar credibilidade a um regime que usa a linguagem do socialismo para obscurecer suas próprias práticas opressivas e anti-trabalhadoras. Ao não lidar com as realidades da crise venezuelana, tais posições inadvertidamente deixam de lado as lutas do povo venezuelano, que luta tanto contra as consequências do governo Maduro quanto contra as sanções sufocantes impostas pelos Estados Unidos.”

Não foi o socialismo que falhou na Venezuela, mas sim a falha em aplicar políticas socialistas para acabar com o sabotagem do setor capitalista no país e unir as organizações da classe trabalhadora na luta contra o imperialismo dos EUA. 

Agora, em fevereiro de 2026, a administração Rodriguez está prostrada diante do imperialismo americano.  A administração Trump tem sido inteligente e cautelosa; ainda não substituiu Maduro pela direita, de livre mercado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz (sic), Maria Machado, por medo de gerar um tumulto e até mesmo uma guerra civil.  Em vez disso, está forçando Rodriguez a ceder a todas as suas exigências em preparação para eleições futuras que poderiam então trazer um regime completamente pró-EUA.

Aparecendo ao lado de Rodríguez no palácio presidencial de Miraflores na última quarta-feira, o secretário de energia dos EUA, Chris Wright, disse: “Queremos libertar o povo e a economia venezuelanos.”  Uma pesquisa da Gold Glove Consulting esta semana revelou que Corina Machado venceria com uma vitória esmagadora em uma nova votação, com 67% a favor dela contra 25% de Delcy Rodríguez. Setenta e dois por cento dos entrevistados sentiram que a Venezuela estava “caminhando em uma direção positiva” após a captura de Maduro.

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