
Guerra, crise e a política como encenação permanente
Por José Paulo Guedes Pinto[i] – 03 de janeiro de 2026
Vivemos uma época em que a política já não se organiza prioritariamente em torno da resolução de problemas concretos, mas da produção incessante de narrativas. Guy Debord chamou esse momento histórico de sociedade do espetáculo: um mundo em que a experiência direta é substituída por imagens, versões e encenações, e onde o falso se perpetua como verdade socialmente aceita, interrompida apenas por raros momentos de realidade.
Nesse cenário, guerras, sanções econômicas, ameaças diplomáticas e crises políticas passam a funcionar menos como respostas estruturais e mais como instrumentos de gestão simbólica do poder.
Guerras e conflitos como narrativas de distração
Guerras e intervenções não são apresentadas em sua materialidade brutal: mortes, destruição, deslocamentos em massa, mas como eventos midiáticos cuidadosamente roteirizados. Tornam-se histórias morais: o bem contra o mal, a democracia contra o autoritarismo, a ordem contra o caos.
A escalada da guerra por Israel no pior momento político do governo Netanyahu ilustra bem essa lógica. Não se trata apenas de geopolítica ou segurança nacional, mas também do uso estratégico do conflito para reorganizar apoios internos, deslocar o debate público e suspender críticas. A guerra funciona como cortina de fumaça e como apoio político em sociedades profundamente fracionadas. Não é coincidência que esse tipo de ação emerja justamente quando crises internas se aprofundam.
Trump e a crise econômica, política e moral
Donald Trump vive hoje uma crise múltipla. Não apenas econômica, com dificuldades evidentes em cumprir a promessa de prosperidade generalizada, mas também política (eleição de diversos prefeitos socialistas no final de 2025) e moral. O avanço de investigações e relatórios ligados aos arquivos Epstein, envolvendo redes de pedofilia e tráfico sexual que orbitam as elites econômicas e políticas dos EUA, adiciona uma camada explosiva a esse cenário.
Esse tipo de crise ameaça corroer sua legitimidade pessoal e simbólica. E é exatamente nesses momentos que o espetáculo se intensifica.
Trump já demonstrou, reiteradas vezes, que governa e faz política por meio do choque. Sanções econômicas anunciadas com grande estardalhaço contra China, Brasil e outros países foram apresentadas como demonstrações de força, apenas para serem revogadas ou flexibilizadas pouco tempo depois. O objetivo raramente foi econômico em sentido estrito, até porque os resultados foram catastróficos para um governo que prometeu redução de preços desde o primeiro dia. O objetivo foi narrativo.
Criar a crise, dominar o noticiário, ocupar o espaço simbólico e depois recuar, faz parte do jogo.
O caos como método político
Esse padrão não é exclusivo de Trump. No Brasil, Jair Bolsonaro governou de maneira muito semelhante. Em momentos cruciais de desgaste do governo, durante a pandemia, com os escândalos de corrupção, crises institucionais – surgia sempre uma notícia bombástica, uma declaração absurda, um ataque às instituições ou uma decisão deliberadamente caótica.
O caos não era um efeito colateral: era o método.
De crise em crise, Bolsonaro atravessou um mandato inteiro sem entregar prosperidade consistente ou resolver problemas estruturais, mantendo a sociedade em permanente estado de tensão, polarização e conflito simbólico. O espetáculo substituiu o governo.
Venezuela, resistência e complexidade real
Quem já visitou a Venezuela sabe que o esporte preferido da população é discutir política. Além disso trata-se de uma sociedade com histórico de mobilização intensa. A base das Forças Armadas sempre foi majoritariamente chavista, o que torna qualquer imposição externa ou rearranjo artificial altamente instável e conflitivo.
Por isso, se fosse apostar, apostaria num recuo do governo Trump. É muito difícil imaginar os EUA “governando” a Venezuela com apoio político interno, por meio de empresas norte-americanas, sob a fantasia de “pegar o petróleo de volta”. Não ficaria surpreso se houver recuo dos EUA num curto prazo, a realidade insiste em se impor.
A crise estrutural do capitalismo dos EUA
Como analisa Michael Roberts (link: https://eleuterioprado.blog/2025/12/25/o-capitalismo-e-o-k/#more-8416), os Estados Unidos vivem uma economia em forma de “K”: uma elite concentrando ganhos extraordinários, enquanto a maioria enfrenta estagnação salarial, precarização e aumento do custo de vida. Trata-se de uma crise estrutural, não conjuntural.
Quando a prosperidade prometida não chega, a política-espetáculo se intensifica. Criam-se inimigos externos, disputas morais, guerras simbólicas e conflitos reais para administrar a frustração social sem enfrentar suas causas profundas.
O espetáculo como anestesia e como arma
Debord foi claro: o espetáculo não é apenas mentira, é uma organização social da mentira. Ele transforma política em entretenimento, guerra em narrativa moral e crise em espetáculo contínuo.
Trump, Bolsonaro e outros líderes contemporâneos compreenderam isso intuitivamente. Governar passa a ser manter a atenção, não resolver problemas. O caos vira linguagem; a crise, recurso.
Conclusão: quem controla o espetáculo governa o conflito
O imperialismo contemporâneo não domina apenas territórios através de tanques e drones, domina percepções. Antes de vencer no campo militar ou econômico, precisa também ir bem no campo simbólico. Enquanto aceitarmos o espetáculo como política, seguiremos presos a ciclos de crise, guerra e frustração.
Romper com isso exige recusar o espetáculo e defender a política real. Por isso precisamos ocupar as ruas, saudar todas as manifestações de apoio à Venezuela (até de pessoas e grupos de direita) e demonstrar todo o apoio possível ao povo venezuelano.
[i] José Paulo Guedes Pinto é professor Associado no Bacharelado em Relações Internacionais, no Bacharelado em Ciências Econômicas e no programa de pós-graduação em Economia Política Mundial da Universidade Federal do ABC (UFABC). Doutor em Economia pela Universidade de São Paulo (2011) e pós doutor pela London School of Economics and Political Science.
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