Eleutério F. S. Prado[1]
Sobre a “inércia orgânica”
Para entender a metapsicologia de Sigmund Freud é preciso fazê-lo metodologicamente. Eis que ele pensa o homem social do seu tempo partindo do homem animal que ainda, supostamente, mora dentro dele, apesar de ter sido já transformado pela civilização. Ora, esse homem animal é para ele, essencialmente, um ser pulsional.
Antes de apresentá-lo como tal, é preciso começar lembrando que a existência humana percorre ciclos sucessivos de atividade e inatividade e que eles acontecem num tempo de vida limitado. Como se sabe, essa ciclicidade se inicia no útero e termina na morte.
Para maior clareza, representa-se esse processo como uma sucessão esquemática e temporal de estados que se alternam entre o repouso e a atividade. Nesse esquema, denomina-se aqui o momento ascendente, que vai do repouso à atividade, de “momento Marx” e o momento descendente, que vai da atividade ao repouso, de “momento Freud”. Pois, o primeiro autor ressalta a atividade como característica do ser humano, enquanto o segundo privilegia de certo modo a inatividade. Para Freud – e isso pode parecer estranho – as pulsões têm como característica essencial tenderem à estase, ao ponto morto.
Em Além do princípio do prazer,[2] encontra-se a seguinte afirmação: “o aparelho psíquico se empenha em conservar a quantidade de excitação nele existente a mais baixa possível”.[3] Mas também se acha esta outra em sua obra: eis que descobrira “um atributo universal das pulsões e, talvez, da vida orgânica em geral, a saber, uma compulsão inerente (…) para recuperar um estado anterior de coisas que a entidade viva fora obrigada a abandonar, sob pressão de perturbadoras forças externas”.[4] Dito de outro modo, a tendência à inatividade é endógena e a tendência à atividade vem de fora no ser humano!
Freud expõe, assim, uma suposta natureza comum das pulsões. Ora, esse modo de pensar o humano – e isso é muito claro – consiste numa má aplicação da mecânica clássica: ele é comparado, implicitamente, com uma bola que recebe um impulso de um taco qualquer e que rola um pouco na mesa de bilhar, tendendo a parar seja na própria mesa seja numa de suas caçapas. Na verdade, essa inércia da bola se lhe afigura também como uma propriedade inerente à vida orgânica em geral.
É, pois, preciso corrigi-lo: tanto a tendência à inatividade como a tendência à atividade são endógenas; o ser humano é, como todo ser vivo, autopropelido, um processo em que ele próprio vem a ser. Nessa perspectiva, também as pulsões – crê-se aqui – têm de ser compreendidas em sua ciclicidade, admitindo desde o início que elas têm momentos ativos e momento inativos, que a compulsão, portanto, não pode ser tomada como se apenas guardasse uma tendência “regressiva” ou “inercial”.
Mantendo ainda a consideração do homem animal, Freud lhe atribui duas pulsões fundamentais no escrito já citado, de 1920. Eis com ele próprio as apresenta num texto produzido dez anos depois, O mal-estar na civilização[5]:
“Partindo de especulações sobre o começo da vida e de paralelos biológicos, concluí que deveria haver, além da pulsão para conservar a substância vivente e juntá-la em unidades cada vez maiores, uma outra, a ela contrária, que busca dissolver essas unidades e conduzi-las ao estado primordial inorgânico”.[6]
Assim, Freud concebia um de seus dualismos mais famoso, pois, por um lado, haveria a pulsão de vida ou erótica, mas, por outro, existiria ao seu lado uma pulsão de morte ou tanatória”. A primeira e a segunda delas foram associadas por ele às figuras míticas, respectivamente, de Eros e Tânatos. Ora, esse dualismo parecia-lhe fértil para explicar psicanaliticamente os comportamentos humanos.
“Os fenômenos da vida se esclareceriam pela atuação conjunta ou antagônica dessas duas pulsões. As manifestações eróticas eram suficientemente visíveis e ruidosas. Mas não era fácil mostrar a atividade dessa suposta pulsão (…) no interior do ser vivo (…). Levava mais longe a ideia de que uma parte dessa pulsão se voltava contra o mundo externo, vindo a luz como pulsão de agressão e destruição.[7]
Voltada para fora, a pulsão de morte assim pensada destruiria coisas animadas ou inanimadas. Voltada para dentro, ela produziria a autodestruição do indivíduo. Contudo, ele suspeita que “essas duas espécies de pulsões raramente – talvez nunca – surjam isolada uma da outra, mas se fundem em proporções diferentes e muito variadas”. Havendo passado já, discretamente, do homem animal ao homem social, mas ainda pensando esse último de maneira abstrata, ele dá exemplos:
“Assim, no sadismo (…) teríamos uma fusão, particularmente forte, entre a pulsão erótica e a pulsão de destruição [voltada para fora, ou seja, para outra pessoa]. Em sua contraparte, ou seja, no masoquismo, teríamos uma ligação da destrutividade voltada para dentro com a sexualidade.[8]
Como essas duas espécies de ações envolvem violência, visariam elas manterem e conservarem a vida? Como ademais, elas também envolvem sexo, visariam elas abalarem e destruírem a vida? Como resolver tais enigmas? Como dissolver as contradições a que se chega trabalhando com as noções postas por Freud?
Princípio do prazer
Para pensar, agora, o homem social de um modo mais amplo, Freud começa pela mesma abstração antes apresentada. No primeiro dos dois textos aqui examinados, apresenta de início o homem sem os efeitos da socialização para, em sequência, mostrá-lo já como ser socializado. Com esse objetivo, introduz dois conceitos fundamentais para mostrar um vir a ser que afeta tanto a pulsão erótica quanto a pulsão tanatória. De início, entretanto, ele se refere apenas à pulsão erótica.
Segundo Freud, essa pulsão é governada pelo princípio do prazer, ou seja, pela “evitação do desprazer ou geração do prazer”. Ele não diz, portanto, que o processo psíquico busca constantemente situações prazerosas; afirma, apenas, de acordo com a lógica da inércia acima criticada, que, diante de uma tensão desprazerosa, toma uma direção [rumo] a um rebaixamento dessa tensão”.[9]
Ora – diz em sequência –, “o princípio do prazer é próprio de um funcionamento primário do aparelho psíquico”. Mas ele não pode atuar livremente já que se defronta com uma barreira e ela consiste na própria vida social. Ela, com os seus imperativos, pressiona ao psique do indivíduo e o obriga a entrar num modo de funcionamento que chama de secundário. Diante da necessidade de “autoafirmação do organismo em meio as dificuldades do mundo externo, [o princípio do prazer] se torna inconveniente e mesmo perigoso em alto grau”. Sob o imperativo da autoconservação, ele se transforma então no princípio de realidade.
Sendo assim, é preciso perguntar em que consiste esse novo princípio?
“Sem abandonar a intenção de obter afinal o prazer”, o aparelho psíquico “exige e consegue o adiamento da satisfação; renúncia a várias possibilidades desta [espécie], aceita temporariamente o desprazer, num longo rodeio para chegar ao prazer”.[10]
Freud assevera, então, que esse adiamento é responsável por uma parte das sensações de desprazer que o organismo é obrigado a acolher durante a sua existência. Pois, a fonte mais importante de desprazer na vida social vem de conflitos e cisões que ocorrem dentro do aparelho psíquico.
“A energia que corre no aparelho psíquico vem de impulsos inatos”, mas estes nem sempre podem ser acolhidos pacificamente. Eis que muitas vezes eles entram em conflito, ameaçando assim a unidade do eu. Por se mostrarem “incompatíveis em suas metas ou exigências”, obrigam que certas escolhas precisam ser feitas. Alguns, então, “são segregados dessa unidade por meio de um processo de repressão (…) que lhes corta, assim, as suas possiblidades de satisfação”. (…) “A repressão transforma possibilidades de prazer em fontes de desprazer (…); ora – acrescenta – todo desprazer neurótico é desse tipo”.[11]
Além do princípio do prazer
Apresentado o princípio do prazer constrangido pelos imperativos da vida social e, assim, transformado em princípio de realidade, Freud vai introduzir o que julga que está além dele, ou seja, a repetição compulsiva que só se explica – supostamente – pela pulsão de morte. E ele a descobre na análise de uma brincadeira infantil e na clínica com doentes que resistem ao tratamento psicanalítico. A meta da psicanálise, ele o diz, vem a ser tornar consciente o que mora no inconsciente, mas esse devir encontrava-se muitas vezes obstado pela resistência dos pacientes.
“O doente não consegue lembrar de tudo o que nele está reprimido, talvez precisamente do essencial, não se convence, em consequência, da justeza da construção que lhe é informada. Ele é antes levado a repetir o reprimido como vivência atual, em vez de, como preferiria o médico, recordá-lo como parte do passado” (…). Essa resistência procede (…) das instâncias da psique que anteriormente efetuaram a repressão.[12]
Pode parecer à primeira vista que o psicanalista descobriu assim, já, aquilo que ele quer demostrar. Não, isso requer dele mais uma rodada de argumentos. É assim, pois, que ele continua na tarefa difícil de apresentar aos seus leitores a pulsão de morte:
“Sem dúvida, a resistência do Eu consciente e pré-consciente está a serviço do princípio do prazer, pois ele quer evitar o desprazer que seria gerado pela liberação do reprimido; para conseguir admitir a existência desse desprazer [que fora e está reprimido] é preciso apelar para o princípio de realidade. Mas em que relação com o princípio do prazer se acha a compulsão de repetição, a manifestação da força do reprimido?”
A compulsão a repetição faz reviver o que motivou a repressão, mas isso, segundo o psicanalista, não contraria ainda o princípio do prazer; ao contrário, parece estar bem a seu favor. Freud, então, aponta para o que chama de um fato digno de nota: eis que a compulsão à repetição é capaz de trazer de volta do passado experiências ruins, momentos penosos e sofridos, que em si mesmos não trazem qualquer prazer.
“Em vista das observações extraídas da conduta na transferência e do destino das pessoas, sentimo-nos encorajados a supor que na vida psíquica há realmente uma compulsão à repetição, que sobrepuja o princípio do prazer. (…) Ora, essa compulsão [aparece também] nos sonhos das vítimas de neurose traumática e no impulso que leva as crianças a brincarem.”[13]
Veja-se a que brincadeira de repetição ele se refere: a criança observada faz sumir um brinquedo, simulando assim a saída da mãe para trabalhar (algo desagradável), mas em seguida ela faz esse mesmo brinquedo aparecer, simulando desse modo a volta da mãe para casa (algo agradável). Como Freud observara essa criança praticando o jogo “coisa some/coisa aparece”, que é formado por um ciclo, pela repetição compulsiva de uma mesma sequência, ele deduz que está diante do operar sequencial da pulsão de morte e da pulsão de vida. E aqui aparece o ponto de pulo, pois ele dá prioridade da primeira dessas duas pulsões.
“Compulsão à repetição e direta satisfação prazerosa da pulsão parece entrelaçadas em íntima comunhão. (…) O que se observa é suficiente para justificar a hipótese de que se trata de uma compulsão à repetição (…), a qual se afigura como mais primordial, mais elementar, mas instintual do que o princípio do prazer, por ela posto de lado”.[14]
Ora, na interpretação desse jogo infantil, a prioridade que Freud dá à pulsão de morte em relação à pulsão de vida explica-se simplesmente por sua adesão neurótica prévia ao princípio do Nirvana. Ora, esse princípio já foi criticado nessa nota como unilateral, mas agora se aprofunda essa crítica afirmando que se trata de uma fundação primeira do entendimento freudiano:
O fato de havermos reconhecido como dominante na vida psíquica, talvez da própria vida dos nervos, o esforço de diminuir, manter constante, abolir, a tensão interna dos estímulos (princípio do Nirvana, na expressão de Barbara Low), tal como se exprime no princípio do prazer – é um dos nossos mais fortes motivos para crer na existência da pulsão de morte.
Para concluir esse breve artigo, é preciso dizer que aquele que aqui escreve não se conforma com a prioridade fundante, antropológica, dada por Freud, à pulsão da morte. Pois, suspeita que essa prioridade é apenas um reflexo da lógica compulsiva que governa a acumulação de capital e, assim, a vida de todos aqueles que estão a ela submetidos.
Se transformação do trabalho vivo e trabalho morto é tomada como eterna, eterna se torna essa lógica que penetra a vida social como todo, marcando o seu ritmo e o seu desenvolvimento. Se Freud tem alguma razão é porque essa mortificação prospera no modo de produção capitalista e aparece especialmente na vida daqueles que buscam terapia psicanalítica. Marcuse tem razão ao denominar o princípio de realidade de princípio de desempenho, concebendo-o como historicamente determinado.
Notas
[1] Professor aposentado do Departamento de Economia da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br. Blogue na internet: https://eleuterioprado.blog
[2] Freud, Sigmund – Além do princípio do prazer. In: Freud: Obra completas, vol. 14. Companhia das Letras, 2010.
[3] Op. cit., p. 164.
[4] Citação encontrada em Marcuse, Herbert – Eros e Civilização – Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Zahar Editores, 1968, p. 43. Contudo, em Além do princípio do prazer encontra-se uma expressão semelhante: “Um instinto seria um impulso, presente em todo organismo vivo, tendente à restauração de um estado anterior, que esse ser vivo teve de abandonar por influência de forças externas, uma espécie de elasticidade orgânica ou, se se quiser, a expressão da inércia da vida orgânica”. Idem, p. 202.
[5] Freud, Sigmund – O mal-estar na civilização. Penguin/Companhia de Letras, 2011.
[6] Idem, p. 64.
[7] Idem, p. 64.
[8] Idem, p. 65.
[9] Op. cit, 2010, p. 162.
[10] Idem, p. 165.
[11] Idem, p. 166-167.
[12] Idem, p. 177-178.
[13] Idem, p. 183.
[14] Idem, p. 183-184.

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