Nick Johnson é um economista britânico versado mais fortemente no keynesianismo. Mas, às vezes, ele apresenta resultados que provém do marxismo em seu blog. Nessa postagem, ele interpreta o choque econômico ocorrido recentemente na Argentina de Javier Milei.
Para tanto, ele resume, primeiro, a teoria inflacionária de Robert Rowthorn. A causa da inflação, para esse autor, é estrutural, mas ela é viabilizada por uma política econômica que poderia ser chamada de “relaxamento monetário e fiscal”.
Em sequência, ele examina a “choque” do governante anarcocapitalista, que atende pelo nome acima mencionado. E chega a uma posição dentro da tradição radical na compreensão da inflação.
Inflação, crescimento e o Estado moderno
Nick Johnson – The political economy of development – 13/07/2025
Faz-se aqui uma citação de um artigo[1] de Robert Rowthorn, professor emérito de economia da Universidade de Cambridge, que, ao longo de sua longa carreira, ele publicou textos sobre uma grande variedade de temas de economia política. (…)
Embora o trecho abaixo date de 1977, ele é importante. Os escritos de Rowthorn sobre a inflação foram influentes e permaneceram altamente relevantes ainda hoje. O seu escrito enfatiza as relações entre o crescimento econômico da economia capitalista [ou seja, a dimensão mais notória da aparência da acumulação de capital] e as crises ou recessões.
Trata, assim, do papel dos governos na gestão do crescimento, quer ele assuma a forma de “deixar para o mercado” quer opte por “intervir no mercado”. A própria inflação faz parte desse processo de gestão. Assim, o artigo, escrito numa perspectiva marxista, oferece uma explicação para a inflação que abrange todo o espectro político de possíveis políticas governamentais.
A citação também serve como um indicador para a postagem em sequência, mais longa desta, que aplica a estrutura teórica de Rowthorn na interpretação da situação atual na Argentina, onde o governo de direita do presidente independente está impondo um programa de reforma econômica radical envolvendo uma “terapia de choque”.
“A inflação é um dispositivo para regular o ritmo da expansão econômica: ela é projetada para aumentar os lucros às custas de outras rendas e promover a acumulação de capital. É uma alternativa a outros métodos de controle que envolvem uma intervenção direta no funcionamento da economia, quer para reduzir os custos de modo a aumentar a rentabilidade, quer para alterar a forma como as decisões são tomadas para que a economia possa funcionar com uma taxa de lucro mais baixa.
Os governos recorrem à inflação porque (1) são incapazes ou não querem enfrentar os problemas básicos que surgem no curso do desenvolvimento econômico e (2) não estão dispostos a enfrentar uma crise de magnitude suficiente para resolver esses problemas. Mas a inflação é um sintoma e não a causa primeira do problema econômico. A economia, diante de um problema de lucratividade, se adapta por meio do aumento dos preços cada vez maiores. Essa dinâmica se mantém para que o sistema econômico continue “saudável”, ou seja, funcionando.
Eventualmente, essa abordagem se torna impraticável e o estado se depara com a escolha que originalmente tentou evitar. Ou tem de intervir para resolver os problemas básicos, ou tem de provocar uma crise na esperança de que isso cure o doente. Na realidade, é claro, os governos geralmente assumem uma posição intermediária e optam por uma combinação de intervenção e crise. De fato, intervenção e crise não são alternativas simples, pois a própria crise torna possíveis novas formas de intervenção que antes não eram viáveis.
Assim, crise, intervenção e inflação estão todas associadas aos problemas gerais da expansão econômica e são, de uma forma ou de outra, métodos de regulação dessa expansão: a crise atua como um expurgo que periodicamente elimina os obstáculos a uma maior expansão, a intervenção estatal é uma forma de cirurgia que remove esses obstáculos diretamente.
A inflação é um paliativo que fornece alívio temporário e permite que a economia tolere esses obstáculos por um tempo. O Estado moderno depende de todos esses métodos, e a combinação exata em uso a qualquer momento depende da natureza dos problemas econômicos, do caráter e da eficácia do aparato estatal e da situação política.
A terapia de choque do governo Milei
Nick Johnson – The political economy of development – 16/07/2025
O presidente libertário da Argentina, Javier Milei, desencadeou recentemente ondas de choque econômico que abalaram a Argentina. Cortou subsídios, rasgou regulamentações e enfrentou a inflação de frente; a sua agenda foi rotulada de “terapia de choque” por amigos e inimigos.
Para muitos na esquerda, este é um roteiro familiar e perigoso que figura como um fundamentalismo de mercado envolto numa linguagem tecnocrática. Mas, ao dar um passo para trás, surge uma pergunta diferente: e se esse tipo de intervenção às vezes funciona, não apesar de sua brutalidade, mas justamente por causa dela? Através de uma lente marxista, as reformas de Milei figuram menos como uma aberração e mais com um caso em que o governante busca salvar o capitalismo.
Apresentando a terapia de choque
A doutrina da “terapia de choque” como um programa de política econômica ganhou destaque pela primeira vez na década de 1980 no contexto dos empréstimos do FMI a países em desenvolvimento em crise com dívidas insustentáveis. Ela foi oficialmente denominada “ajuste estrutural”. Isso foi aplicada em várias nações da América Latina e da África, mas também nos países que eram membros da antiga União Soviética e da Europa Oriental, quando este, na década de 1990, se afastaram do comunismo.
Os empréstimos foram, em muitos casos, condicionados a pacotes radicais de reforma econômica, que incluíram rápida liberalização da economia, desregulamentação, austeridade fiscal (cortes de gastos públicos eram prioritários em relação aos aumentos de impostos). O “choque” foi assim chamado porque as reformas tinham que ser promulgadas rapidamente, na crença de que isso aumentaria sua eficácia. As ideias por trás de tais políticas ficaram conhecidas por meio do Consenso de Washington; eis que foram projetadas e aplicadas pelo FMI, Banco Mundial e Tesouro dos EUA, todos com sede na capital dos EUA.
A terapia de choque tornou-se amplamente criticada por muitos autores na esquerda política. Ela foi considerada altamente prejudicial para as economias e para sociedades envolvidas, pois aumentavam o desemprego e a pobreza à medida que continha a economia e minava os esforços domésticos para promover indústrias nascentes, tudo em nome do livre mercado. A imposição externa dessas políticas também foi considerada prejudicial politicamente, pois minou a soberania nacional.
Mas há uma alternativa à rejeição total desse tipo de política pela esquerda e ao entusiasmo pela direita? Uma análise marxista não rejeita necessariamente todos os aspectos da terapia de choque. Na verdade, fornece uma estrutura para entender por que às vezes funciona e é capaz de gerar um crescimento revigorante. Assim, se faz uma afastamento do debate e do julgamento moral e se busca o caminho de uma crítica estrutural.
A estrutura marxista não se coaduna com certas panaceias da esquerda e da direita. Ela pode reconhecer que reformas mais profundas e uma série de intervenções estatais são necessárias a longo prazo para promover o desenvolvimento econômico bem-sucedido. Tanto a trajetória liderada pelo mercado quanto a liderada pelo Estado podem permitir a reestruturação industrial e restaurar a lucratividade necessária para o crescimento, mas a prosperidade duradoura e a coesão social exigem legitimidade política e apoio institucional.
Uma perspectiva marxista
Karl Marx e, aprendendo com ele, Joseph Schumpeter, apresentaram o argumento de que o crescimento econômico sob o capitalismo é caracterizado por ondas de destruição criativa. No longo prazo, a difusão de tecnologias novas e em evolução em toda a economia, que é essencial para aumentar a produtividade do trabalho no longo prazo, leva ao surgimento e expansão de novas empresas, assim como à estagnação, falência, aquisição e reestruturação de empresas menos bem-sucedidas e lucrativas. Há criação e destruição, processos que, em suma, eliminam os “capitais” menos eficientes.
Marx via a lucratividade no setor privado como o motor do desenvolvimento capitalista; é o lucro que fornece a motivação e os recursos para o investimento produtivo, o aumento do crescimento e da produtividade. Economias estagnadas podem ser atormentadas por baixa lucratividade crônica, o que exigirá um período de reestruturação industrial e destruição criativa para restaurar as taxas de lucro e inaugurar uma nova fase de crescimento e desenvolvimento. Isso pode significar um abalo e uma destruição e desvalorização acentuada no valor do capital e do trabalho empregados pelas empresas.
A terapia de choque, como tem sido aplicada até hoje, pode ser vista como uma aceleração forçada do processo de destruição criativa. Embora seja uma forma de restaurar e promover as forças de mercado em toda a economia, ela depende da ação institucional, seja do Estado ou de órgãos externos à nação, como o FMI.
Esses processos também podem atingir o setor público, especialmente quando ele é percebido como ineficiente. Reduções acentuadas nos gastos públicos levarão à perda de empregos, cortes nos subsídios públicos ao setor privado poderão reduzir temporariamente a atividade econômica. A desregulamentação, geralmente favorecida pela direita, pode ser exigida em nome da remoção de barreiras ao crescimento. Os cortes de impostos podem reduzir alguns dos custos enfrentados pelas empresas, ao mesmo tempo em que são vistos como uma forma de melhorar os incentivos individuais para trabalhar, economizar e investir.
Acredita-se que grandes déficits orçamentários do governo contribuam para a alta inflação. Daí a demanda por austeridade fiscal. À medida que os gastos públicos caem mais rapidamente do que as receitas fiscais, um equilíbrio ou mesmo do superávit orçamentário acontece.
Historicamente, o momento destrutivo da terapia de choque tem sido visto como funcional da perspectiva capialista, mas pode ter um imenso custo social, na forma de desemprego em massa, queda de salários e redução da provisão pública de bens e serviços, resultando em aumento da pobreza e dificuldades generalizadas.
Tudo isso pode ser violento e perturbador para o trabalhadores; contudo, é também visto como generativo para a classe capitalistas. A terapia de choque não é uma reforma econômica puramente técnica, mas um realinhamento do poder de classe por meio do Estado em favor do capital, mesmo que seus proponentes não vejam dessa forma.
De fato, longe de encolher, o Estado pode crescer quando atua em favor do capital. Essa perspectiva marxista pode ser útil, pois tende a ser mais honesta e realista sobre os limites e desvantagens do crescimento e desenvolvimento capitalistas. Eis o que Mushtaq Khan costumava dizer cinicamente: o capitalismo “não é bom”, mas de que outra forma poderão os países pobres obter progresso material, tirando parte de suas populações da pobreza?
Argentina sob Milei: um estudo de caso
Javier Milei, o atual presidente da Argentina, é um economista que se autodenomina como anarcolibertário. Ele chegou ao poder prometendo um choque econômico, uma reforma capitalista julgada necessária, a fim de inverter a estagnação e o retrocesso de décadas do país. Mais imediatamente, enfrentou hiperinflação, crise da dívida e fuga de capitais e uma perda de confiança pública na capacidade do Estado de administrar a economia.
O seu programa pode ser visto como uma forma de terapia de choque: Milei cortou os gastos públicos em quase um terço; obteve um superávit no orçamento público da Argentina sob a crença de que isso afetararia a inflação. Ele promulgou uma desregulamentação generalizada e cortes nos subsídios públicos. Ele rejeitou de modo explícito do gradualismo; julgou que “limpeza do mercado” era imperativa. Após uma recessão acentuada e um aumento do desemprego e da pobreza em relação a níveis já elevados, a inflação caiu significativamente, juntamente com uma recuperação do crescimento.
No momento, o presidente continua popular. O terrível estado de longa data da economia deu-lhe legitimidade crucial e alguma justificativa para reformas liberais radicais. Mas as melhorias precisarão ser sustentadas e desenvolvidas para que o seu programa tenha continuidade. A estabilidade política e a coesão social são necessárias para o sucesso a longo prazo, pois há limites para uma agenda de liberalização e austeridade. Existe o potencial de uma reação política e instabilidade que pode desfazer as reformas.
Caminhos para a reestruturação: o mercado versus o Estado?
O velho argumento de que há uma dicotomia, ou seja, de que há um opção mercado ou Estado, não se sustenta historicamente. As reformas de Milei exigiam autoridade estatal e, mesmo que ele continue no caminho liberal, precisará manter a legitimidade política e o apoio público. Mais realisticamente, o desenvolvimento capitalista exibe uma relação mutável, mas contínua, entre o mercado, o Estado e outras instituições.
Uma reestruturação bem-sucedida tende a exigir uma combinação de reformas envolvendo nos planos econômicos e institucionais. Milei confiou no poder do Estado para forçar uma crise na crença de que isso permitiria uma reestruturação liderada pelo mercado. Se funcionar, devemos ver a eliminação de empresas “zumbis” menos eficientes e a restauração da disciplina capitalista.
No entanto, como se está vendo, essa política pode ter altos custos sociais. Além disso, na medida em que conduz a uma perda permanente de capacidade industrial, pode também conduzir a uma perda de know-how organizacional e tecnológico. Não está claro se a reforma liderada pelo mercado leva automaticamente a um episódio sustentado de crescimento econômico.
Um caminho de reforma mais estatista, no qual o governo desempenha um papel mais forte na coordenação do desenvolvimento da economia capitalista, pode diminuir a necessidade do tipo de resultados econômicos e sociais destrutivos que se vê agora na Argentina. Um programa liderado pelo Estado pode ajudar a coordenar o investimento em toda a economia, promover a aprendizagem institucional e manter a coesão social por meio de medidas de redistribuição e provisão pública.
Por outro lado, em contextos específicos, pode conduzir à captura do Estado por uma burocracia o que poder criar ineficiências no longo do tempo. Ora, isso ocorrerá se o apoio às empresas e aos setores não for condicionado e não incentivar a melhoria do desempenho, como o rápido aumento da produtividade e da competitividade internacional.
Assim, existem também limites políticos para um caminho mais intervencionista, embora estes possam evoluir ao longo do tempo se as instituições estatais forem capazes de experimentar e aprender a gerenciar o desenvolvimento com mais sucesso do que simplesmente deixar as coisas para “o mercado”. As experiências das economias do Leste Asiático, como Japão, Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura e China, bem como estados de desenvolvimento menos bem-sucedidos, mas ainda bem-sucedidos, como a Malásia, são instrutivas aqui.
De uma perspectiva marxista, a reforma liderada pelo mercado pode ser vista como reestruturação por coação, enquanto a reforma liderada pelo Estado pode ser chamada de reestruturação gerenciada. A primeira prevaleceu historicamente em toda a antiga União Soviética após seu colapso na década de 1990. A segundo prevaleceu na ascensão dos Tigres do Leste Asiático, que tiveram um enorme sucesso econômico, o que não deixou de ser liderado pelo Estado.
O contexto é importante: a necessidade de uma abordagem mais sutil
Mas não existe uma abordagem universal e única para gerenciar um caminho de crescimento e de desenvolvimento bem-sucedido. Ademais, aquilo que pode ser considerado bem-sucedido pode variar. Os resultados dependem de contextos variados marcado pelo grau de integração internacional, a força das instituições domésticas, a legitimidade política e o equilíbrio de poder entre grupos em toda a sociedade. Estes próprios evoluirão à medida que o desenvolvimento avança, assim como a forma do que provavelmente serão as reformas mais bem-sucedidas.
Nem a terapia de choque nem a política industrial são inerentemente superiores em todos os momentos. No caso da Argentina, Milei pode ter sucesso em reiniciar a acumulação temporariamente, mas o desafio de longo prazo permanece: como manter a legitimidade política, o aumento da produtividade e a coesão social. Para conseguir essas coisas, o Estado deve fornecer infraestrutura de qualidade, educação pública e um Estado de bem-estar social, todos os quais, entre outras coisas, apoiam as necessidades das empresas.
Também permanecem questões sobre lucratividade de curto prazo e legitimidade e capacidades de longo prazo. A rápida desregulamentação pode restaurar as condições de investimento, mas acabar corroendo a confiança pública e as capacidades de governança.
Além disso, os ganhos de eficiência podem estar associados à fragmentação social. A eliminação de subsídios e proteções trabalhistas pode liberar capital, mas irá destruir a capacidade de consumo e reprodução social, desestabilizando a sociedade e minando algumas das bases necessárias para um crescimento econômico sustentado.
Em conclusão: crise e estabilidade
Há que defender uma visão dinâmica da reforma, da reestruturação e do desenvolvimento. A crise (terapia de choque) pode abrir espaço, mas, a longo prazo, a arte de governar é vital para construir uma prosperidade mais duradoura. Aí reside uma série de contradições: o capitalismo precisa de flexibilidade e ordem, destruição e coordenação. A intervenção estatal sob o capitalismo torna-se necessária para a sustentabilidade política, mesmo que as reformas de mercado sejam bem-sucedidas economicamente por um tempo. O que começa como terapia de choque deve evoluir para mais reformas lideradas pelo Estado, ou corre o risco de entrar em colapso no caos.
No final, talvez seja necessário perguntar se um capitalismo reformado pode ser construído sobre as ruínas da terapia de choque ou se algo mais radical é necessário.
[1] Bob Rowthorn (1980) – Inflation and crises, Capitalism, Conflict and Inflation, London: Lawrence and Wishart. (artigo publicado originalmente em Marxism Today, novembro de 1977.

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