Autor: Michael Roberts – The next recession blog – 03/05/2025
Falando ao Congresso dos EUA no dia 2 de fevereiro último, após 100 dias no cargo, o presidente Donald Trump afirmou que as novas tarifas sobre as importações dos maiores parceiros comerciais dos EUA causariam “uma pequena perturbação” que logo acabaria. Eis que – disse – “as tarifas vêm para tornar a América rica novamente e para tornar a América grande novamente. E isso já acontecendo e vai acontecer muito rapidamente.”
Na verdade, muito rapidamente. Em 1º de fevereiro, Trump impôs tarifas de 25% sobre produtos importados do Canadá e do México pelos EUA e uma tarifa adicional de 10% sobre as importações chinesas, de tal modo que todos os três principais parceiros comerciais dos Estados Unidos passam agora a enfrentar barreiras significativamente maiores. As medidas provocaram uma resposta imediata de Pequim, que disse que cobraria uma tarifa de 10 a 15% sobre produtos agrícolas dos EUA, desde soja e carne bovina até milho e trigo a partir de 10 de março.
O Canadá também impôs tarifas sobre US $ 107 bilhões em importações dos EUA, começando com US $ 21 bilhões em importações imediatamente. “O Canadá não deixará essa decisão injustificada sem resposta” – disse o primeiro-ministro Justin Trudeau. As taxas contra Ottawa estão fixadas em 25%, exceto para petróleo e produtos energéticos canadenses, os quais enfrentam uma tarifa de 10%. O Canadá responde por cerca de 60% das importações de petróleo dos EUA.
A China também atacou empresas americanas, colocando dez empresas em uma lista negra de segurança nacional; ademais, impôs controles de exportação a outras 15 empresas norte-americanas. Também proibiu a empresa de biotecnologia americana Illumina de exportar seus equipamentos de sequenciamento de genes para a China. Pequim adicionou a Illumina à sua lista de “entidades não confiáveis” no mês passado em resposta à enxurrada inicial de tarifas de Trump.
Todas as planejadas levariam o nível tarifário dos EUA para mais de 20% em apenas algumas semanas, o nível mais alto desde antes da Primeira Guerra Mundial. Como aponta Joseph Politano, os custos dessas imposições são enormes. Eis que cobrem US $ 1,3 trilhão em importações dos EUA ou cerca de 42% de todos os produtos trazidos para os Estados Unidos. Trata-se, pois, do maior aumento de tarifas desde a infame Lei Smoot-Hawley de quase um século atrás.
As tarifas aumentarão os preços dos EUA para as principais matérias-primas, como gasolina, fertilizantes, aço, alumínio, madeira, plástico e muito mais. Mantimentos, especialmente frutas e vegetais frescos do México, tornar-se-ão mais difíceis de encontrar. As indústrias manufatureiras dependentes de cadeias de suprimentos complexas e integradas na América do Norte – de veículos, computadores, produtos químicos, aviões e muito mais – podem parar se esses elos forem cortados à força. Os custos podem aumentar para telefones, laptops e eletrodomésticos, onde a produção está particularmente concentrada na China e no México. Os exportadores serão prejudicados pelo aumento dos custos das matérias-primas, pela valorização da moeda e pelas próximas tarifas retaliatórias – tudo isso reduzirá a atividade econômica dos EUA.
Os custos totais dessas tarifas obteriam US $ 160 bilhões dos consumidores e das empresas dos EUA, pois pagarão doravante mais por suas compras de produtos importados; apesar disso, .mais tarifas estão por vir já que as últimas medidas chegam apenas a 40% das que estão propostas. Se o próximo lote for implementado, aumentará o custo das importações para mais de US $ 600 bilhões, ou 1,6% do PIB.
Um argumento econômico para impor tarifas sobre produtos importados é proteger as empresas domésticas da concorrência estrangeira. Ao tributar as importações, os preços domésticos tornam-se relativamente mais baratos do que os estrangeiros, de tal modo que os cidadãos mudam os gastos dos últimos para os primeiros, expandindo assim a indústria doméstica. Mas esse argumento tem pouco suporte empírico.
O Fed de Nova York analisou recentemente o impacto do aumento das tarifas sobre as empresas domésticas. Concluiu que “extrair ganhos com a imposição de tarifas é difícil porque as cadeias de suprimentos globais são complexas e os países estrangeiros retaliam. Usando os retornos do mercado de ações nos dias de anúncio da guerra comercial, nossos resultados mostram que as empresas sofreram grandes perdas nos fluxos de caixa esperados e nos resultados reais. Essas perdas serão amplas, mas as empresas expostas à China experimentarão as maiores perdas.”
Além disso, como mostra o economista dinamarquês Jesper Rangvid, Trump olha apenas para o comércio bilateral de bens, ignorando o comércio de serviços e os ganhos do capital e do trabalho. Acontece que a renda que os EUA obtêm de suas exportações de serviços, pelo menos para a zona do euro, é bem significativa. Somada aos retornos sobre o capital e os salários do trabalho, compensam os déficits bilaterais de bens. [Se como mostra a figura em sequência, o balanço em conta corrente já foi favorável à zona do euro, atualmente] o saldo geral da conta corrente bilateral da zona do euro com os EUA está próximo de zero.
Ao invés da barragem tarifária de Trump “tornar a América grande novamente”, ela tem todas as perspectivas de levar a economia dos EUA a uma recessão, puxando para baixo outras grandes economias. O Instituto de Kiel calcula que as exportações da União Europeia para os EUA cairiam de 15 a 17%, levando a uma contração “significativa” de 0,4% no tamanho da economia da UE, enquanto o PIB dos EUA encolheria 0,17%. Se houver tarifas retaliatórias da UE, os danos econômicos dobrariam; a inflação, ademais, aumentaria em 1,5 ponto percentual. As exportações de manufaturas alemãs para os EUA seriam as mais atingidas, caindo quase 20%.
Embora a magnitude exata das exportações perdidas ao longo do tempo não seja clara (já que levará tempo para que as cadeias de suprimentos sejam redefinidas), se essas taxas persistirem, é provável que criem um peso substancial nos PIBs das principais economias que negociam com os EUA. O impacto geral na manufatura dos EUA pode totalizar quase 1% do PIB em exportações perdidas.
Trata-se de uma estimativa. Os economistas da Universidade de Yale vão mais longe. Eles modelaram o efeito das tarifas planejadas de 25% sobre os bens vindos Canadá e do México e de 10% sobre os da China, bem como das tarifas de 10% da China já em vigor. Eles calcularam que essas tarifas levariam a tarifa média efetiva ao seu nível mais alto desde 1943. Os preços domésticos aumentariam mais de 1% em relação à taxa de inflação atual, o equivalente a uma perda média por consumidor doméstico de US$ 1.600 a US$ 2.000 em 2024. Eles reduziriam o crescimento real do PIB dos EUA em 0,6% pontos este ano e tirariam 03-0,4% pontos das taxas de crescimento anual futuras, eliminando os ganhos esperados de produtividade da introdução da IA.
A Câmara de Comércio Internacional dos EUA está tão preocupada que calculou que a economia mundial poderia enfrentar um colapso semelhante à Grande Depressão da década de 1930, a menos que Trump recuasse em seus planos. “Nossa profunda preocupação é que isso possa ser o início de uma espiral descendente que nos coloca no território da guerra comercial dos anos 1930 “, disse Andrew Wilson, vice-secretário-geral desse órgão. Portanto, as medidas de Trump podem ir muito além de “uma pequena perturbação”.
Mesmo antes do anúncio das novas tarifas, havia sinais significativos de que a economia dos EUA estava desacelerando de algum modo. O impacto do aumento das tarifas de importação pode ser um ponto de inflexão para a entrada em uma recessão. Esse parece ser o sinal dado por Wall Street. Quando Trump anunciou as medidas tarifárias, todos os ganhos no mercado de ações dos EUA obtidos desde a vitória eleitoral de Trump foram eliminados.
Em questão de semanas, a narrativa sobre a economia dos EUA mudou do “excepcionalismo” para o alarme sobre uma súbita desaceleração do crescimento. As vendas no varejo, a produção manufatureira, os gastos reais do consumidor, as vendas domésticas e os indicadores de confiança do consumidor caíram nos últimos dois meses. As previsões de consenso para o crescimento real do PIB para o 1º trimestre de 2025 são agora de apenas 1,2% anualizado.
O rastreador GDP NOW do Fed de Atlanta, tal como mostra o gráfico em sequência, prevê uma contração.
A manufatura dos EUA está em recessão há um ano ou mais, mas o que também é preocupante segundo os últimos indicadores da atividade manufatureira foi um aumento significativo nos custos. Eis o que disse Timothy Fiore, presidente do ISM
“A demanda diminuiu, a produção se estabilizou e a redução de pessoal continuou à medida que as empresas experimentam o primeiro choque operacional da política tarifária do novo governo. O crescimento dos preços acelerou devido às tarifas, causando novos atrasos na colocação de pedidos, paralisações de entrega de fornecedores e impactos no estoque de fabricação”.
Ele mencionou que os novos pedidos tiveram a maior queda desde março de 2022, pondo a atividade econômica em território de contração; assim, a produção desacelerou acentuadamente. Além disso, as pressões aceleraram para o nível mais alto desde junho de 2022.
Tudo isso parece mostrar que o chamado excepcionalismo da economia dos EUA desde o fim da pandemia sempre foi uma ilusão estatística. Um estudo revela a verdadeira condição de muitas famílias americanas quanto ao emprego, salários e inflação. Primeiro, há o baixo nível do desemprego, um valor quase recorde nos números oficiais, de apenas 4,2%. Mas esse número inclui como empregados, sem-teto fazendo trabalhos ocasionais. Se na contagem dos desempregados fossem incluídos aqueles que conseguem encontrar apenas trabalho de meio período ou que ganham um salário de pobreza (cerca de US $ 25.000), a porcentagem chegaria, na verdade, a 23,7%.
Em outras palavras, quase um em cada quatro trabalhadores está funcionalmente desempregado na América hoje. O salário médio oficial é de US $ 61.900. Mas se se rastreasse a força de trabalho como um todo – ou seja, se se incluísse os trabalhadores de meio período e aqueles que estão procurando emprego, o salário médio ficaria na verdade pouco mais de US $ 52.300 por ano. Isso significa que “os trabalhadores americanos em média estão ganhando 16% menos do que as estatísticas predominantes indicam.” Em 2023, a taxa oficial de inflação foi de 4,1%. Mas o verdadeiro custo de vida aumentou mais do que o dobro, pois chegou a 9,4%. Isso significa que o poder de compra caiu em média cerca de 4,3% em 2023.
A resposta dos líderes europeus às medidas tarifárias de Trump, assim como a sua aparente retirada de apoio à Ucrânia em sua guerra contra a Rússia, parece, no entanto, uma preparação para mais guerra. Os gastos globais com defesa atingiram um recorde de US$ 2,2 trilhões no ano passado; na Europa, em particular, eles subiram para US$ 388 bilhões, níveis não vistos desde a “Guerra Fria”, de acordo com o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.
Martin Wolf, o guru econômico keynesiano liberal do Financial Times diz que “os gastos com defesa precisarão aumentar substancialmente. Observe-se que era de 5% do PIB do Reino Unido, ou mais, nas décadas de 1970 e 1980. Pode não precisar estar nesses níveis a longo prazo, pois a Rússia moderna não é a União Soviética. No entanto, pode precisar ficar nesse valor mais alto durante a preparação, especialmente se os EUA se retirarem.
Como pagar por isso? “Se os gastos com defesa forem permanentemente mais altos, os impostos devem aumentar, a menos que o governo encontre cortes de gastos suficientes, o que é duvidoso.” Contudo, diz Wolf, não é preciso se preocupar pois gastar com tanques, tropas e mísseis é realmente benéfico para a economia. “O Reino Unido também pode esperar realisticamente retornos econômicos sobre seus investimentos em defesa. Historicamente, as guerras têm sido a mãe da inovação.”
Wolf então cita os exemplos maravilhosos dos ganhos que Israel e Ucrânia obtiveram com a guerra: “A “economia inicial” de Israel começou em seu exército. Os ucranianos agora revolucionaram a guerra de drones.” Ele não menciona o custo humano envolvido na obtenção de inovação pela guerra. Para esse analista, “o ponto crucial, no entanto, é que a necessidade de gastar significativamente mais em defesa deve ser vista não apenas como uma necessidade e não apenas, também, como um custo, embora ambos sejam verdadeiros. Se feito da maneira certa, também é uma oportunidade econômica.” Portanto, a guerra afigura-se como a saída da estagnação econômica.
O futuro chanceler da Alemanha, Friedrich Merz (depois de vencer a recente eleição), adotou o mesmo discurso. Em uma reviravolta completa em relação a sua campanha eleitoral, quando ele se opôs a qualquer gasto fiscal extra com o objetivo de “equilibrar” as contas do governo, ele agora está promovendo um plano para injetar centenas de bilhões em financiamento extra nas forças armadas e na infraestrutura da Alemanha, projetado para reviver e rearmar a maior economia da Europa.
Uma nova disposição isentaria os gastos com defesa acima de 1% do PIB do “freio da dívida” que limita os empréstimos do governo, permitindo que a Alemanha levante uma quantidade ilimitada de dívida para financiar suas forças armadas e fornecer assistência militar à Ucrânia. E ele planeja introduzir uma emenda constitucional para criar um fundo de € 500 bilhões para infraestrutura, que duraria dez anos. De repente, há muito dinheiro e empréstimos a serem disponibilizados para armas e empreendimentos militares.
O plano do Reino Unido é dobrar seus gastos com “defesa”, cortando seu programa de ajuda aos países pobres do mundo. Trump também congelou a ajuda externa dos EUA. A dívida global atingiu US$ 318 trilhões, com um aumento de US$ 7 trilhões em 2024. A dívida global em relação ao PIB global aumentou pela primeira vez em quatro anos – de modo que a dívida aumentou mais rápido do que o PIB nominal, atingindo 328% do PIB.
O Instituto de Finanças Internacionais (IIF) alertou que os países pobres estão sob imensa pressão à medida que suas dívidas continuam a crescer. A dívida total nessas economias saltou US$ 4,5 trilhões em 2024, elevando a dívida total dos mercados emergentes para um recorde histórico de 245% do PIB. Muitas dessas economias pobres agora têm que rolar um recorde de US $ 8,2 trilhões em dívidas este ano, com cerca de 10% dela denominada em moedas estrangeiras – tem-se, pois, uma situação que pode rapidamente se tornar perigosa se o financiamento acabar.
Portanto, está-se agora diante de mais guerra e mais pobreza à frente.




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