Fim do privilégio exorbitante da América?

Destruindo a fé dos mercados no dólar

Desmond Lachman [1]Project Syndicate7 de julho de 2025

Desde seu retorno ao cargo, o presidente dos EUA, Donald Trump, vem destruindo sistematicamente a fé nos mercados, no dólar e na economia dos EUA. Se ele se recusar a atender à essas advertências, como parece provável, os EUA devem se preparar para uma crise do dólar e do mercado de títulos no período que antecede as eleições de meio de mandato do próximo ano.

Quando era ministro das Finanças da França na década de 1960, o ex-presidente francês Valéry Giscard d’Estaing reclamou do “privilégio exorbitante” conferido aos Estados Unidos pela posição do dólar como principal moeda de reserva do mundo. Ele nunca poderia imaginar que os EUA poderiam perder essa vantagem por atitudes de seu presidente.

Veja-se que essa vantagem implica, essencialmente, que os EUA podem tomar empréstimos a taxas de juros bem baixas, podem incorrer em déficits comerciais grandes persistentemente, podem imprimir dinheiro para financiar os seus déficits orçamentários.

Desde que retornou à Casa Branca em janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, vem destruindo sistematicamente a fé no dólar, está minando a solvência dos mercados financeiros globais, assim como a confiança no banco central norte-americano (Fed). Ademais, ele colocou já as finanças públicas dos Estados Unidos em um caminho ainda mais insustentável do que aquele que encontrara ao assumir o cargo em janeiro último.

Quando Trump iniciou seu segundo mandato, o déficit orçamentário dos EUA havia aumentado para 6,2% do PIB; a economia estava quase no pleno emprego e a relação dívida pública/PIB havia subido para cerca de 100%. Mas as coisas, devido ao que veio vindo depois, vão piorar muito. Longe de colocar as finanças dos Estados Unidos em ordem, Trump e seus apoiadores no Congresso aprovaram um orçamento oneroso, que ficou conhecido como “Big, Beautiful Bill”. O apartidário Escritório de Orçamento do Congresso estima que essa lei orçamentária adicionará cerca de US $ 3,4 trilhões ao déficit orçamentário na próxima década.

A relação dívida pública/PIB dos Estados Unidos está agora a caminho de atingir, em 2030, um nível muito maior do que aquele alcançado no final da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA desfrutavam de condições muito mais favoráveis de desempenho econômico. Ao contrário do período pós-guerra, a economia dos EUA hoje não está mais capacitada para crescer aceleradamente, suportando assim um fardo de dívida maior. Não é de admirar que as principais agências de crédito, como a Moody’s, tenham agora tirado a nota de crédito AAA dos EUA.

Trump está minando a confiança no dólar também por causa de sua notória falta de preocupação em manter a inflação sob controle. A inflação está atualmente acima da meta de 2% estabelecida pelo Federal Reserve; mas corre o risco de subir ainda mais devido às agressivas tarifas postas por Trump sobre as importações estrangeiras. Como se sabe, elas atingiram níveis não vistos em 100 anos.

Apesar desse risco, Trump está pressionando o Fed a cortar as taxas de juros em 1-2 pontos percentuais. Ademais, ele está sinalizando que pretende nomear um novo gerente de política monetária para suceder o atual presidente do Fed, Jerome Powell, cujo mandato expira em maio de 2026. E esse novo gerente teria de adotar uma política monetária favorável à expansão – e não à contração – do PIB.

Para piorar a situação, Trump tem lançado dúvidas sobre o compromisso dos Estados Unidos em honrar totalmente seus compromissos de dívida. Em um dos primeiros rascunhos de seu “Big, Beautiful Bill” havia uma disposição que permitia a imposição de um “imposto vingativo” de até 20% sobre os proprietários estrangeiros de ativos dos EUA, incluindo títulos do Tesouro.

Esse imposto seria aplicado aos países que adotassem políticas fiscais que o governo Trump considera “injustas” na relação com os EUA. Além disso, os principais conselheiros de Trump sugeriram forçar os bancos centrais estrangeiros a converter os títulos de menor prazo do Tesouro dos EUA, que eventualmente possuam, por títulos de 100 anos, sem qualquer pagamento de cupom.

Acrescente a isso o flagrante desrespeito de Trump pelo estado de direito. Por tudo isso, os mercados veem poucos motivos para confiar nos EUA. Isso explica por que o dólar se depreciou mais de 10% desde o início de 2025. E esse foi o seu pior desempenho, relativo ao primeiro semestre do ano, desde 1973. Essa queda é ainda mais chocante à luz dos fortes aumentos tarifários de Trump e do aumento do diferencial de taxas de juros de curto prazo em relação às de outras grandes economias. Era de se esperar, como bem se sabe, que esses eventos aumentassem o valor do dólar.

Outra indicação do colapso da confiança do mercado nos EUA é o aumento de mais de 25% nos preços do ouro nos últimos seis meses. Veja-se também o que aconteceu com o rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos: eis que disparou depois que Trump anunciou suas tarifas no “dia da libertação” no início de abril; ademais, ele permaneceu elevado, apesar da considerável turbulência no mercado de ações. Como se sabe, quando aumenta a incerteza no mercado de ações isso costuma desencadear uma fuga para o porto mais seguro dos títulos do Tesouro dos EUA.

A mensagem não poderia ser mais clara: os mercados estão descontentes com o caminho da política econômica do governo Trump. E isso é um problema para ele já que os mercados, ao contrário dos políticos, não podem ser pressionados diretamente. Se ele se recusar a atender às advertências dos investidores, como parece provável, os EUA devem se preparar para uma crise do dólar e do mercado de títulos no período que antecede as eleições de meio de mandato, já no próximo ano. Os dias em que o mundo permitia à América viver além de seus meios estão rapidamente chegando ao fim.

O dólar está forte por enquanto

MichaelRoberts – The next recession blog – 07/04/2025

Os principais banqueiros centrais do mundo se reuniram no calor sufocante de Sintra, em Portugal.  A grande questão em pauta, de acordo com a mídia financeira, era saber se o dólar americano vai continuar caindo.  O que traz consigo a questão adicional de saber se o domínio do dólar nos mercados mundiais está terminando. Se isso ocorrer, tem-se o fim “privilégio exorbitante” mantido pelos EUA por controlar a oferta da principal moeda comercial e financeira do mundo.

É verdade que o dólar caiu em relação a outras moedas importantes para níveis mais baixos em três anos e meio (veja-se o gráfico em sequência [2]); e essa queda ocorreu desde que Donald Trump assumiu o cargo em janeiro. As suas birras tarifárias e suas reversões selvagens aumentaram a incerteza no comércio internacional e nos mercados financeiros; os investidores, então, passaram a questionar se devem ou não manter as suas compras e os seus ativos em dólares.

Mas seria essa última a verdadeira razão para a queda do dólar?  Veja-se, primeiro, que o dólar americano está passando por uma baixa em relação às outras moedas a qual, com oscilações, já dura 3 anos (veja-se o próximo gráfico).  Mas esse resultado tem de ser avaliado frente as máximas históricas a que antes chegara (por volta de julho 1922).  Considerando um período mais longo, não se pode dizer que o dólar está muito mais fraco em relação ao euro, à libra, ao iene ou ao renminbi.

É verdade que o valor do dólar caiu cerca de 9% desde janeiro, com uma queda de 4,5% somente em abril. Mas mesmo após o impacto das birras tarifárias de Trump, o índice do dólar está praticamente alinhado com o que que se observa há dez anos.

Na minha opinião, a verdadeira razão pela qual o dólar enfraqueceu recentemente em relação ao euro e outras moedas é que a economia dos EUA está desacelerando. Ademais, há agora a pressão sobre o Federal Reserve dos EUA para que corte a taxa de juros para reduzir os custos de empréstimos, as taxas de hipoteca e os custos do serviço da dívida para empresas e famílias.

O presidente do Fed, Powell, está sob tremenda pressão para cortar as taxas de juros; mas ele tem relutado em fazer isso porque espera que as medidas tarifárias de Trump elevem a taxa de inflação ao consumidor.  Trump está exigindo que ele renuncie imediatamente para que possa nomear um presidente do Fed que esteja disposto a reduzir as taxas de juros.

O comitê de política monetária do Fed (FOMC na sigla em inglês) está dividido sobre se deve manter as taxas de juros altas, supostamente para manter a inflação baixa; ou, em vez disso, se deve cortar as taxas para ajudar a economia dos EUA.  Esse dilema é realmente uma falsa opção porque, como tenho argumentado, os bancos centrais não “gerenciam” de fato as economias capitalistas por meio da política monetária, seja para “controlar a inflação” seja para “impulsionar o crescimento”.

No entanto, há uma expectativa crescente de que o Fed acelere seus cortes de juros pelo resto deste ano e, assim, reduza o diferencial entre as taxas de juros dos EUA e as da Europa e do Japão. Isso tornará menos atraente manter ativos em dólar, o que contribuirá para manter o dólar mais fraco do que antes.

Mas nada disso significa que o dólar perderá seu status hegemônico nos mercados mundiais.  Pensar assim é, na melhor das hipóteses, uma ilusão e um mau julgamento sobre a força das outras grandes economias. A presidente do BCE, Christine Lagarde, ousou expressar esse tipo de pensamento positivo há algumas semanas; então, disse: “O euro pode se tornar uma alternativa viável ao dólar… criando a abertura para um ‘momento global do euro’”. Sério?!  Lagarde parece não ter notado a estagnação das principais economias da Europa? 

Aqui estão os últimos números das taxas de crescimento anual previstas para as principais economias: 7,4% para a Índia, 5,4% para a China; 2,9% para o Brasil; 2,3% para o Canadá; 2,0% para os EUA; 1,7% para o Japão; 1,4% para a Rússia; 1,3% para o Reino Unido; 0,8% para a África do Sul; 0,7% para a Itália; 0,6% para a França; e, finalmente, zero para Alemanha.

Esses números sugerem que, dentro das principais economias do G7, as economias do Canadá e dos EUA estão se saindo duas vezes melhor do que as economias europeias. Estas se encontram estagnadas; mas é verdade que os EUA estão começando a se juntar a elas nesse aspecto. Os últimos dados do PIB real dos EUA mostram uma queda de 0,5%; há, também, a perspectiva de que a indústria dos EUA se contraia (abaixo de 50 no gráfico em sequência).

Esta é, segundo penso, a razão real pela qual o dólar está enfraquecendo. É também a razão pela qual o Fed, provavelmente, cortará as taxas de juros ainda este ano.  Mas o dólar ainda representa 58% das reservas internacionais; tem, pois, uma participação bem acima da mantida pelo euro, que é de 20%.  Logo, pode-se aventar que o pensamento positivo de Lagarde não se sustenta.  


[1] Membro sênior do American Enterprise Institute; ex-vice-diretor do Departamento de Desenvolvimento e Revisão de Políticas do Fundo Monetário Internacional e ex-estrategista-chefe econômico de mercados emergentes da Salomon Smith Barney.

[2] O “U.S. Dollar Index” monitora a força do dólar em relação a uma cesta das maiores moedas. DXY foi originalmente desenvolvido pelo Federal Reserve Americano, em 1973, para fornecer um valor médio do dólar americano em relação às moedas ao redor do mundo. Esse índice desce quando o dólar americano perde “força” (ou seja, se desvaloriza) em relação a outras moedas; sobre quando ocorre o contrário Essa são as seis moedas utilizadas no cálculo do índice: Euro (EUR) 57.6% de peso Yen japonês(JPY) 13.6% de peso Libra esterlina (GBP) 11.9% de peso Dólar canadense (CAD) 9.1% de peso Coroa sueca (SEK) 4.2% de peso Franco suíço (CHF) 3.6% de peso