Escrevendo no dia 10 de abtil, após a queda nos precos dos titulos do tesouro americano, a autora desta postagem se mostrou alarmada. Pouco depois voltou ao normal. Será que o pior já passou? Eis uma pergunta que não tem uma resposta fácil. Leia-se, portanto, o que ela tem a dizer. De qualquer modo, o preço dos titulos do tesouro americano cairam de novo ontem diante das ameaças de demissão que pesam sobre o presidente do Fed.
Autora: Ann Pettifor [1] – Sin Permiso – 19/04/2025
É preciso considerar os perigos do Tesouro dos EUA que figura aogra como uma “fábrica de garantias” de baixa qualidade. Pois, outra falha do sistema bancário paralelo poderá explodir o que chamo de cassino global? E qual será o impacto nas famílias, empresas e governos?
O mercado de títulos dos EUA parece estar afundando, como mostra o gráfico da Bloomberg abaixo. É preciso, pois, parar de falar apenas sobre comércio e começar a falar sobre títulos do Tesouro dos EUA.
Trump jogou uma bola de demolição no sistema financeiro global
Todo mundo fala sobre comércio, desequilíbrios comerciais, tarifas comerciais e tensões comerciais. Ora, essa negociação em curso é realmente assustadora. As guerras comerciais levam a guerras reais.
O instigador dessas guerras é o presidente dos Estados Unidos. Mas ele é culpado por algo mais perigoso do que a interrupção do sistema de comércio mundial. Eis que ele está também ameaçando a estabilidade do sistema financeiro global.
O Casino Global e o Sistema Bancário Paralelo
O casino global, como chamo o sistema financeiro internacional, é o espaço remoto e não regulamentado onde os jogadores (financistas e instituições financeiras) se reúnem para especular em grande escala. Isso inclui fundos de hedge, empresas de private equity e empresas de gestão de ativos, mas também fundos de pensão. E essa é uma visâo que defendo há muito tempo
Os bancos centrais não apenas toleraram a existência desse cassino e se recusam a regulá-lo adequadamente, mas também já resgataram periodicamente seus jogadores e operadores, mais ou menos incondicionalmente. Eles fizeram isso em 2007-9, mas também em março de 2020, quando o COVID-19 derrubou os mercados financeiros globais.
Os cassinos não dependem mais dos bancos tradicionais para obter crédito ou manter suas economias. Operadoras como Blackrock e Blackstone, globalizadas e graças à mobilidade do capital, agora fazem negócios e movimentam capital sem esforço através das fronteiras nacionais e ao redor do mundo. Eles possuem enormes quantidades da poupança mundial. Essas economias não podem ser depositadas com segurança em um banco tradicional, pois as garantias contra perdas fornecidas pelos governos são limitadas a cerca de US$ 250.000.
Instituições financeiras globalizadas (como fundos de gestão de ativos, capital de risco e fundos de hedge) se instalaram, portanto, no equivalente financeiro da estratosfera e criaram um sistema de “shadow banking”.
No total, o sistema bancário paralelo ou “repo market”, definido como o sistema de intermediação financeira não bancária (NBFI)) pelo Conselho de Estabilidade Financeira, administra mais de US$ 230 trilhões em economias globais.
Dentro do sistema bancário paralelo, o casino depende fortemente de ativos públicos como garantia. Os mais importantes e seguros são os títulos do Tesouro dos EUA. A garantia é usada como garantia e conveniência para os credores, incluindo fundos de gestão de ativos e fundos de pensão.
Os mutuários (fundos de hedge, empresas de private equity e outros especuladores) usam a garantia para alavancar (emprestar) fundos adicionais de outros jogadores de cassino. Às vezes eles usam a mesma garantia repetidamente. Imagine se os proprietários de imóveis pudessem fazer hipotecas dessa maneira.
Os credores que têm dinheiro ou poupança trocam garantias por dinheiro, geralmente de curto prazo, durante a noite.
Em vez de cobrar juros sobre o empréstimo, os credores compram de volta a garantia (daí o mercado ser tido como de “recompra”) e retêm uma parte (um “corte”) do empréstimo quando o dinheiro é reembolsado, como pagamento dos juros do empréstimo. Em outras palavras, o mutuário paga ao credor um pouco mais do que o que foi emprestado a ele.
A garantia mais valiosa utilizada no sistema bancário paralelo é a dívida pública dos países da OCDE, ou seja, as suas “promessas de pagamento” apoiadas pelo Estado e pelos contribuintes. Contudo, a garantia mais segura de todas tem sido a dívida (títulos do Tesouro ou promessas de pagamento) do Tesouro dos EUA.
Como a professora Daniela Gabor argumentou, os Estados Unidos, como o Reino Unido e a UE, são uma “fábrica de garantias” para o sistema financeiro privado globalizado.
A dívida pública (títulos do governo) é um “pipeline” vital para o funcionamento eficaz do sistema financeiro privado globalizado. Os especuladores dependem fortemente dessa dívida pública para conceder e tomar empréstimos e para a criação de “crédito” no setor bancário paralelo.
Donald Trump e a “fábrica de garantias” dos Estados Unidos
Hoje, a confiança na garantia supostamente mais segura produzida pela “fábrica” dos Estados Unidos, o Tesouro dos EUA, está desaparecendo rapidamente. Investidores e especuladores, perplexos com a imprudência de Trump e o flagrante desrespeito de seu governo pelo estado de direito, estão vendendo suas “garantias” americanas. Ao despejar mais títulos do Tesouro no mercado de títulos, eles estão fazendo com que o preço dos títulos caia.
Devido à forma como o mercado de títulos funciona, isso significa que o rendimento (aproximadamente equivalente à taxa de juros) dos títulos dos EUA está aumentando. Essas taxas de juros crescentes servem como base para definir hipotecas e taxas de juros na economia como um todo.
O aumento das taxas de juros é uma má notícia para governos, empresas e famílias altamente endividadas. Mas é especialmente perigoso para os especuladores que tomaram empréstimos pesados para fins de… especulação dentro do sistema bancário paralelo.
Esta semana, os operadores se envolveram em uma “operação” dita “on-chain”, bem incompreensível, que alguns descrevem como uma “operação de base”. Não se precisa provavelmente saber como funciona, mas por precaução, os jornalistas da página Alphaville do Financial Times explicaram-na assim: “Eles vendem futuros do Tesouro e compram títulos do Tesouro para se proteger, capturando um spread de alguns pontos-base quase sem risco…”
Digamos que se investe US$ 10 milhões em títulos do Tesouro e se venda um valor equivalente de futuros. Assim se pode usar os títulos do Tesouro como garantia para, digamos, alavancar US$ 9,9 milhões em empréstimos de curto prazo no mercado de recompra. Então você compra outros US$ 9,9 milhões em títulos do Tesouro, vende uma quantidade equivalente de futuros do Tesouro e repete o processo indefinidamente.”
Os títulos do Tesouro dos EUA estão se tornando “ativos de risco”?
Os operadores estão sob pressão porque, para fazer essas apostas, alavanc²am enormes empréstimos contra quantias finitas de garantias (títulos do Tesouro dos EUA) que agora estão diminuindo de valor. Os seus credores não estão satisfeitos e exigem que garantias adicionais sejam fornecidas ou que as dívidas sejam pagas integralmente. Isso os coloca sob pressão para vender títulos e levantar dinheiro.
Outros, inquietos com as atividades do que foi descrito como o “sindicato do crime” na Casa Branca, estão vendendo seus títulos do Tesouro dos EUA porque não confiam em Trump e em suas repetidas ameaças de demitir o governador do Federal Reserve. E porque o valor do título está diminuindo… É melhor sacar e comprar ativos mais seguros em outro lugar.
Dado que a China possui uma grande quantidade de títulos do Tesouro, dado o desprezo de Donald Trump pelo país, dados os seus ataques aos acordos de livre comércio da OMC aos quais a China foi convidada a aderir em 2001, tudo isso pode persuadir o governo chinês a vender seus títulos do Tesouro dos EUA, acelerando a queda do valor do ativo.
No momento, o preço dos títulos do Tesouro dos EUA está caindo e os rendimentos estão subindo. As obrigações do Tesouro, como explica o site da Bloomberg, de repente estão sendo negociados como “ativos de risco”, não como garantias seguras.
A questão é a seguinte: quando é que a queda do sistema bancário paralelo, altamente endividado, vai explodir? Quando o valor da dívida pública utilizada como garantia fracassará? Quando isso vai acontecer mais uma vez? E como outra falha do sistema bancário paralelo afetará famílias, empresas e governos?
Precisamos, pois, começar a falar sobre os títulos do Tesouro dos EUA.
[1] Economista britânica. Diretora de Pesquisa de Políticas em Macroeconomia (PRIME), Pesquisadora Honorária do City Political Economy Research Centre, Universidade de Londres, Fellow da New Economics Foundation e Fellow do Green New Deal Group.


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