Do choque tarifário de Trump: por quê?

Autor: Eleutério F. S. Prado [1]

As medidas tarifárias do governo Trump, assim como as dúvidas sobre quais seriam os seus reais objetivos, tem causado perplexidade.  Se se confia num escrito de Stephen Miran, que figura como presidente do Conselho de Assessores Econômicos do atual presidente dos EUA, o choque tarifário que está sendo implementado visa sobretudo reindustrializar a economia norte-americana. Pois, como disse Trump metaforicamente, “se não se tem aço, não se tem um país”.

Na abertura do sumário executivo do seu Um manual para reestruturar o sistema de comércio global [2], ele expressa esse objetivo: “O desejo de reformar o sistema de comércio global e de colocar a indústria americana em terreno mais justo em relação ao resto do mundo tem sido um tema consistente para o presidente Trump por décadas”. O indicador desse problema se encontraria no balanço em conta corrente [3] dos EUA (apresentado na figuara acima publicada), que tem apresentado déficits constantes desde meados dos anos 1980.

Segundo essa tese, portanto, o atual sistema de comércio vem prejudicando a produção industrial nesse país; e a causa estaria na política de acumular reservas internacionais por parte dos outros países do mundo, em especial aqueles que conseguem obter um superávit no balanço de comércio com os EUA:

“A raiz dos desequilíbrios econômicos” – diz ele – “está na persistente supervalorização do dólar que impede o equilíbrio do comércio internacional; eis que essa supervalorização é impulsionada pela demanda inelástica por ativos de reserva. À medida que o PIB global cresce, torna-se cada vez mais oneroso para os Estados Unidos financiarem o fornecimento de ativos de reserva [para o resto do mundo] e manterem o guarda-chuva de defesa [do Ocidente], já que os setores que produzem de bens comercializáveis e, em especial, o setor industrial, ​​estão arcando com o peso dos custos”.

Se é esse o diagnóstico, então é de se esperar que o objetivo da política econômica seja desvalorizar o dólar frente as outras moedas, como o euro e o rebimbe, reduzindo ou anulando o déficit do balanço de comércio que, como se sabe, tem apresentado um déficit persistente. Ao obter essa redução, abre-se supostamente um espaço para o crescimento da indústria doméstica.  

Ora, como é bem sabido, as tarifas têm um efeito contrário àquele supostamente colimado, ou seja, tendem a valorizar o dólar – e não a desvalorizá-lo. Dessa perspectiva, as tarifas sobre os bens importados pelos EUA se afiguram, então, como inadequadas para “reformar o sistema de comércio global” e isso tem sido apontado por especialistas na teoria do comércio internacional, como Paul Krugman.

A perplexidade aqui pode aumentar ainda mais já que é bem claro que o próprio Stephen Miran tem esse ponto em consideração. Note-se no trecho em sequência que ele fala em “compensação monetária”, sugerindo que ela “pode inibir os ajustes nos fluxos comerciais”. Ou seja, a valorização do dólar, que vem juntos com o enorme choque tarifário, contraria os “ajustes nos fluxos comerciais”. Ademais, tende a eliminar o efeito inflacionário interno já que os custos são transferidos para as nações que exportaram os seus produtos para os EUA. E isso é saudado como uma vantagem pois “melhora o compartilhamento dos encargos do fornecimento de ativos de reserva”.   

“As tarifas fornecem receita e, se compensadas por ajustes no valor da moeda, apresentam efeitos colaterais inflacionários ou adversos mínimos (…). Embora essa compensação monetária possa inibir os ajustes nos fluxos comerciais, ela faz com que as tarifas sejam, em última análise, financiadas pelas nações tarifadas; o poder de compra real das moedas desses países diminui; assim, a receita arrecadada [pelo EUA] melhora o compartilhamento dos encargos do fornecimento de ativos de reserva”.

Em face dessa incongruência, parece admissível supor que o objetivo apontado do choque tarifário é apenas retórico – não efetivo; nesse caso, ele estaria sendo ventilado porque torna essa política mais aceitável – e aprovável – para os trabalhadores norte-americanos, que se sentiram prejudicados pelo declínio da indústria tradicional a partir do início dos anos 1980, quando a política econômica desse país deslanchou a globalização neoliberal. Mas, se assim for, o que impulsiona o choque tarifário?   

Ao ler com cuidado o argumento de Miran pode-se aventar a hipótese de que o verdadeiro objetivo desse choque consistiria na arrecadação de um volume expressivo de recursos – pagos em parte pelos consumidores do país importador (via elevação dos preços nominais) e em parte pelos fornecedores de mercadorias dos países exportadores (via desvalorização de suas moedas frente ao dólar) – com a finalidade última de compensar uma redução dos impostos pagos pelas empresas que produzem nos EUA. O objetivo que avulta, nesse caso, seria incrementar a lucratividade dessas empresas.

Note-se que outros autores chamaram também a atenção para a incongruência aqui apontada. Contudo, buscando encontra a racionalidade da política tarifária norte-americana, eles fazem em geral outra suposição. Admitem que o choque tarifário não visaria de fato corrigir os déficits persistente do balanço de comércio, mas vem a ser apenas parte de uma estratégia de negociação. O governo Trump teria por propósito últimos “obrigar” os países que detém uma proporção significativa das reservas em dólar a entrar num acordo por meio do qual eles valorizariam as suas próprias moedas. Assim se reproduzia, com maior dimensão e potência, o que ocorreu por meio do Acordo do Plaza[4], assinado em 1985 no hotel assim denominado, em Nova York. O novo acordo teria até um nome pré-estabelecido: “Mar-a-Lago Accord”.

Note-se, em adição, que essa última suposição encontra apoio no próprio escrito de Miran. Pois, além da política tarifária, ele recomenda a adoção de uma política monetária que visaria desvalorizar o dólar frente às outras moedas. O objetivo, portanto, contradita o efeito das tarifas no câmbio. No trecho que se cita em sequência, ela aparece junto – e de modo gritante – com a incongruência apontada:

“A demanda por ativos de reserva causa desvios persistentes dos equilíbrios nos mercados de câmbio que equilibrariam o comércio. Esse desequilíbrio no comércio ocorre porque a taxa de câmbio real fica muito valorizada. A sobrevalorização da taxa de câmbio pode ser corrigida por tarifas, como discutido acima, ou abordando a subvalorização das moedas de outras nações”.

Ora, para além da confusão entre valorizar ou desvalorizar a taxa de câmbio do dólar com as outras moedas, supondo que a segunda alternativa é que seria real, parece bem difícil avaliar a viabilidade dessa política já que ela dependeria da disposição – sob coação – de outros países de entrar num acordo com os Estados Unidos. De qualquer modo, esse esforço para enfraquecer o dólar politicamente pode desencadear uma crise financeira mundial de grandes proporções. E isso não é desconhecido por Miran, pois, segundo ele, há riscos:

“E esses riscos podem ser um desincentivo para manter títulos de renda fixa denominados em dólar. Se uma mudança esperada nos valores da moeda levar a saídas em larga escala do mercado do Tesouro, em um momento de déficits fiscais crescentes e risco de inflação ainda presente, isso pode fazer com que os juros dos títulos de longo prazo aumentem. Como partes significativas da economia — como a habitação — estão vinculadas à (…) curva de rendimento, tal aumento pode ter consequências adversas materiais”.

De qualquer modo, nesse momento é preciso perguntar se a relação de causação apontada por Miran se afigura como verdadeira ou falsa: é a demanda por reservas internacionais em dólar que produz a sobrevalorização da moeda norte-americana? Ora, essa tese pode ser contestada. Raguram Rajan, num escrito que a contradita[5], lembrou que há uma explicação mais consistente para os déficits crônicos da balança de comércio dos Estados Unidos: eis que eles viriam dos gastos públicos “excessivos”, ou seja, provêm largamente dos déficits fiscais[6] que têm sido uma constante há bastante tempo.

“A explicação mais simples é que o Congresso dos EUA gasta como quer, contando com o resto do mundo para comprar os títulos do tesouro que financiam o que as receitas domésticas não podem cobrir. (…) Se o excesso de demanda por ativos financeiros dos EUA fosse realmente um problema, o Congresso dos EUA poderia simplesmente ter déficits menores, fazer com que os estrangeiros se atropelassem para comprar um montante menor desses títulos, o que redundaria em taxas de juros mais baixas nos EUA (e maior produção nos EUA)”.

 Na verdade, o fato de o dólar ser efetivamente a moeda de reserva – assim, também, o principal meio de transação – internacional é uma vantagem para os Estados Unidos e, de fato, uma “vantagem excepcional”. Pois, é um privilégio poder financiar gastos dentro e fora dos Estados Unidos por meio de emissão de uma moeda puramente fiduciária de ampla aceitação internacional. Entretanto, ao se valer desse recurso por longos anos, como o dinheiro emitido retorna ao Fed na forma de dívida pública, esse país acabou acumulando uma dívida pública que atualmente está em 124% do PIB. Como se sabe, os debates no Congresso sobre os limites do endividamento têm mostrado quão aguda é agora a situação do orçamento público norte-americano.

Como se pode ver por meio dessas anotações, é difícil suprimir a perplexidade com as medidas tarifárias do governo Trump já que apontam para objetivos contraditórios, para impasses e para resultados adversos. E isso reflete em parte os dilemas da situação enfrentada. O que parece certo é que elas tentam responder a um período histórico iniciado com a crise de 2008 e que se caracteriza pela reversão parcial das ondas de globalização, as quais se iniciaram e se seguiram, como bem se sabe, após o fim da II Guerra Mundial.    


[1] Professor aposentado da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br; Blogue na internet: https://eleuterioprado.blog

[2] Miran, Stephen – A user’s guide to restructuring the global trading system. Hudson Bay Capital, 2024.

[3] A conta corrente, ou conta de transações correntes, reúne a balança comercial (exportações e importações) e a balança de serviços (transportes, seguros, remessas e recebimento de juros e lucros, rendas e transações unilaterais). 

[4] O Acordo do Plaza, de 1985, assinado por Japão, Estados Unidos, França, Alemanha Ocidental e Grã-Bretanha no Hotel Plaza de Nova York, desvalorizou o dólar para ajudar os EUA a sair da recessão e reduzir o déficit comercial do país.

[5] Rajan, Raguram – Trumponomics’ exorbitant burden. Project Syndicate, 11/03/2025.

[6] Como se sabe pela contabilidade nacional, se o gasto público supera o montante tributado, supondo que a poupança é aproximadamente igual ao investimento, então o valor dos bens e serviços importados deve superar o valor dos bens e serviços exportados; dito de outro modo, se há déficit público, então o balanço em conta corrente também deve ser deficitário.