Declinio e queda do dólar?

Dando continuidade ao esforço de entender a política econômica internacional do governo Trump, publica-se aqui um artigo que põe em dúvida os resultados que supostamente pretende atingir. Ao invés de tornar “a América grande de novo”, essa política pode levar, segundo o autor, ao aprofundamento do declínio do império norte-americano. Será?

Autor: Jeffrey Frankel [1]Project Syndicate – 20 de março de 2025

A desvalorização do dólar e o domínio do dólar não são necessariamente mutuamente exclusivos. Mas a abordagem para enfraquecer o dólar que o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, está considerando significaria quase certamente o fim do reinado do dólar americano como moeda internacional dominante.

Em 1985, as autoridades dos EUA se reuniram com contrapartes de outros países do G5 no Plaza Hotel de Nova York para negociar uma intervenção coordenada para reduzir o valor do dólar. O bem-sucedido Acordo Plaza está agora, aparentemente, servindo de inspiração para o governo do presidente dos EUA. Eis que Donald Trump está buscando maneiras de enfraquecer o dólar com a esperança de melhorar a balança comercial dos Estados Unidos. Inspirando-se nele, Trump e seus seguidores – notadamente Stephen Miran, o novo presidente do Conselho de Assessores Econômicos – estão chamando o ajuste por eles agora desejado de “Mar-a-Lago Accord”, pois seria negociado no resort homônimo do presidente na Flórida.

Pode-se imaginar uma proposta sensata de intervenção coordenada entre as principais economias para enfraquecer o dólar. Os Estados Unidos tomariam medidas para reduzir seu déficit orçamentário e os grandes países superavitários, como a Alemanha, aumentariam o deles, enfrentando assim o fator fundamental dos desequilíbrios comerciais internacionais atualmente existentes.

Mas o Acordo de Mar-a-Lago não acolhe esse caminho. Ao invés, consiste em uma visão coercitiva que corre o risco de fazer exatamente o que o governo Trump teme: prejudicar a capacidade dos Estados Unidos de financiar seus déficits (e, em particular, de manter as taxas de juros baixas), além de minar o status do dólar americano como a principal moeda internacional.

Considere-se o que ocorre com as taxas de juros. Uma intervenção de bancos centrais estrangeiros para enfraquecer a taxa de câmbio do dólar implicaria numa redução em suas participações na propriedade dos títulos do Tesouro dos EUA. Mas a queda na demanda por títulos do Tesouro levaria à queda de seus preços e ao aumento das taxas de juros. Logo, é assim que se deve pensar: se a balança comercial melhorar quando a economia estiver em plena capacidade, os componentes da demanda doméstica (consumo das famílias e investimento empresarial) serão reduzidos.

Quanto ao dólar, o seu destronamento é, em certo sentido, parte integrante da visão que anima o Acordo de Mar-a-Lago. A primeira pessoa a usar o termo foi o economista Zoltan Pozsar, que propôs um acordo de “Bretton Woods III”, o qual substituiria o sistema monetário global baseado no dólar. Em seu lugar, seria criado um sistema baseado em moedas digitais do banco central (CBDCs), juntamente com ouro ou outras commodities. De acordo com Pozsar, desse modo, o governo dos EUA fortaleceria seu balanço patrimonial reavaliando o ouro.

Mas tal esforço para desvalorizar o dólar americano poderia muito bem levar ao desaparecimento do dólar como moeda global dominante – um processo que seria acelerado se a flexibilização monetária pelo Federal Reserve dos EUA fizesse parte do acordo. Embora Trump tenha pressionado por uma política monetária mais acomodatícia, ele também deixou claro que quer manter a primazia global do dólar americano, mesmo que tenha que usar tarifas para forçar países (como as economias do BRICS) a não tentar miná-lo [criando um sistema pagamentos que não usa o dólar].

Com certeza, como observou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a desvalorização e o domínio do dólar não são necessariamente mutuamente exclusivos. No final da década de 1990, por exemplo, o dólar simultaneamente se depreciou e representou uma parcela maior das reservas cambiais dos bancos centrais. Mas há uma clara tensão entre os dois objetivos. Se um acordo, tal como o de Mar-a-Lago, desencoraja os bancos centrais de manter títulos do Tesouro dos EUA, é especialmente difícil ver como o status global do dólar poderia sobreviver.

No entanto, é exatamente isso que Miran parece preparado para impulsionar. Ele propõe fazer com que os bancos centrais estrangeiros mantenham títulos americanos de 100 anos sem pagamentos de cupom, em vez dos títulos do Tesouro que agora possuem. (Isso equivaleria a reestruturar a dívida dos EUA por meio de um calote disfarçado.) Disposições alternativas – ou adicionais – incluem a introdução de “taxas de usuário” cobradas de bancos centrais estrangeiros que detêm dívidas dos EUA e um imposto mais geral sobre o investimento estrangeiro nos EUA (uma reminiscência do imposto Tobin sobre transações cambiais de curto prazo que foi proposto na década de 1970).

O fundo soberano (sovereign wealth fund – SWF), criado por ordem de Trump, aparentemente também deve desempenhar algum papel não especificado nessa visão centrada no Acordo de Mar-a-Lago. Não está claro de onde viria o dinheiro para este fundo. Tal como para as economias em desenvolvimento, não seria bom para os EUA criarem um fundo como esse, pois ele teria que tomar emprestado para financiá-lo devido à insuficiência de reservas internacionais. Também vale a pena notar que fundos como esse funcionam melhor quando – ao contrário daquele proposto por Trump – recebem investimentos em ativos estrangeiros, em vez de domésticos.

Mesmo deixando de lado esse fundo soberano, a proposta de Miran não se baseia na realidade. Por que os bancos centrais do mundo e outros investidores aceitariam títulos de 100 anos – que não pagariam juros por um século – no lugar dos bons e velhos títulos atuais (T-bills)? Por que eles engoliriam novas taxas e impostos sobre suas participações ou investimentos em dívidas nos EUA?

Trump pode dizer que a resposta é simples: o fariam para poder evitar as tarifas punitivas. Mas ele brandiu essa arma tão implacavelmente – em nome de tantos objetivos, com tantos adiamentos e reversões – que ela está perdendo rapidamente seu impacto. Longe de se manter junto, ajoelhando-se do diante do homem das tarifas (tariff man), os países estão procurando ficar bem longe dele. Se Trump pressionar demais, o atual gotejamento pode muito bem se transformar em uma fuga para se afastar do dólar.  

As tentativas de alavancar o poder militar e geopolítico dos EUA para coagir os países a aceitarem os termos do Acordo de Mar-a-Lago provavelmente seriam igualmente ineficazes. Sim, na década de 1960, a Alemanha concordou em cobrir os custos de estacionar soldados americanos em seu território, a fim de preservar o sistema de Bretton Woods. E, em 1991, o Kuwait e a Arábia Saudita cobriram uma grande parte dos custos incorridos pelos EUA na Guerra do Golfo. Mas há uma diferença crítica entre agora e então: boa vontade.

Com sua propensão a ameaças e coerção, disposição para trair amigos e aliados e desrespeito por regras e normas, Trump destruiu sistematicamente qualquer capital político internacional que herdou, dizimando a liderança global dos EUA no processo. O coercitivo Acordo de Mar-a-Lago – que remonta à demanda do Império Romano por tributos dos territórios ocupados por suas legiões – apenas aceleraria o declínio da América. A marca Mar-a-Lago tornar-se-ia, assim, bem notada.   


[1] Jeffrey Frankel, professor da disciplina Formação e crescimento de capital na Universidade de Harvard;g atuou como membro do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Bill Clinton. Ele é pesquisador associado do US National Bureau of Economic Research.