Guerra Rússia-Ucrânia: três anos depois

Autor: Michael Roberts – Fonte: The next recession blog – 24/02/2025

Ucrânia: uma catástrofe humana

Chegou-se já ao fim do terceiro ano da guerra Ucrânia-Rússia. Após três anos de guerra, a invasão da Ucrânia pela Rússia causou perdas impressionantes ao povo e à economia da Ucrânia. Existem várias estimativas do número de civis ucranianos e de baixas militares (mortes e feridos): 46.000 civis e talvez 500.000 soldados. As baixas militares russas são quase as mesmas. Milhões fugiram para o exterior e muitos outros milhões foram deslocados de suas casas na Ucrânia.

Uma avaliação ucraniana confidencial do início de 2024, relatada pelo Wall Street Journal, colocou as perdas de tropas ucranianas em 80.000 mortos e 400.000 feridos. De acordo com dados do governo, no primeiro semestre de 2024, três vezes mais pessoas morreram na Ucrânia do que nasceram, informou esse jornal. No ano passado, as perdas ucranianas foram cinco vezes maiores do que as da Rússia, com Kiev perdendo pelo menos 50.000 militares por mês.

Desde 2021, o PIB da Ucrânia caiu 25% e, em consequência, mais 7,1 milhões de ucranianos agora vivem na pobreza.

A economia na Ucrânia

Os danos para aqueles que permanecem na Ucrânia são imensos. As perdas na aprendizagem das crianças ucranianas são uma preocupação particular: a força de trabalho desse país acabará tendo uma qualidade inferior de educação devido às interrupções no processo de aprendizagem causadas pela guerra (e antes disso, devido à Covid).

Estima-se que até, o presente momento, essas perdas sejam da ordem de US$ 90 bilhões; um valor quase igual ao das perdas em capital investido em meios de produção físicos. Estudos também mostram que a guerra durante os primeiros cinco anos de vida de uma pessoa está associada a um declínio de cerca de 10% nos escores de saúde mental quando ela está na faixa dos 60 e 70 anos. O problema não consiste apenas nas baixas devidas à guerra e nos danos econômicos atuais, mas também os prejuízos de longo prazo causados aos ucranianos que permaneceram no país.

Apesar da guerra, houve uma recuperação econômica modesta no ano passado. As exportações de energia aumentaram. Os portos da Ucrânia no Mar Negro ainda estão funcionando e o comércio está fluindo para o oeste ao longo do Danúbio e, em menor grau, por trem. Enquanto isso, a agricultura apresentou uma recuperação modesta. Mesmo assim, a fabricação de ferro e aço ainda permanece em uma fração de seu nível pré-guerra; de 1,5 milhão de toneladas por mês antes da guerra, agora são produzidas apenas 0,6 milhão por mês.

Mas a Ucrânia carece fortemente de pessoas fisicamente aptas para produzir ou, alternativamente, ir para a guerra. A taxa de desemprego da Ucrânia era de 16,8% em janeiro, contudo há escassez de trabalhadores porque as pessoas qualificadas deixaram o país e um grande número foi mobilizada para ingressar nas forças armadas. A situação é tão grave que se tem falado em mobilizar jovens de 18 a 25 anos, os quais estão sendo poupados atualmente; contudo, isso parece ser altamente impopular entre os ucranianos e, se a medida for implementada, ela reduziria ainda mais a disponibilidade de força de trabalho para o emprego civil.

A Ucrânia ainda continua totalmente dependente do apoio do Ocidente. Precisa de pelo menos US $ 40 bilhões por ano para sustentar os serviços governamentais, apoiar sua população e manter a produção. Depende da União Europeia para o financiamento da atividade civil e dos EUA para todo o financiamento da atividade militar – tem-se mantido, pois, por meio dessa “divisão de trabalho”.

Além disso, o FMI e o Banco Mundial ofereceram assistência monetária, mas, neste caso, a Ucrânia tem que mostrar que tem “sustentabilidade”, ou seja, que é capaz de pagar quaisquer empréstimos que lhe forem concedidos. Portanto, se os empréstimos bilaterais dos EUA e dos países da UE (e são principalmente empréstimos, não ajuda direta) não se materializarem, o FMI não poderá lhe estender o seu programa de empréstimos.

Logo, é preciso pensar sobre o que acontecerá com a economia da Ucrânia, se e quando a guerra com a Rússia terminar. De acordo com a última estimativa do Banco Mundial, supondo que a guerra termine este ano, a Ucrânia precisará de US$ 486 bilhões nos próximos dez anos para se recuperar e se reconstruir. Esse montante é quase três vezes o PIB atual.

Os danos diretos da guerra já atingiram quase US$ 152 bilhões. Cerca de 2 milhões de unidades habitacionais – 10% do estoque total de moradias da Ucrânia – foram danificadas ou destruídas, bem como 8.400 km (5.220 milhas) de rodovias, rodovias e outras estradas nacionais e quase 300 pontes. Cerca de 5,9 milhões de ucranianos permaneceram deslocados fora do país e os deslocados internos somam cerca de 3,7 milhões.

O que resta dos recursos da Ucrânia (aqueles que não foram anexados pela Rússia) foi ou está sendo vendido para as empresas ocidentais. No geral, 28% das terras aráveis da Ucrânia agora pertencem a uma mistura de oligarcas ucranianos, corporações europeias e norte-americanas, bem como ao fundo soberano da Arábia Saudita. A Nestlé investiu US $ 46 milhões em uma nova instalação na região ocidental de Volyn, enquanto a gigante alemã Bayer planeja investir 60 milhões de euros na produção de sementes de milho na região central de Zhytomyr.

A MHP, a maior empresa avícola da Ucrânia, é de propriedade de um ex-assessor do presidente ucraniano Boris Poroshenko. A MHP recebeu mais de um quinto de todos os empréstimos do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) nos últimos dois anos. Ela emprega 28.000 pessoas e controla cerca de 360.000 hectares de terra na Ucrânia – uma área maior do que o Luxemburgo, membro da União Europeia.

O governo ucraniano está comprometido com uma solução de “livre mercado” para a economia do pós-guerra, o que inclui novas rodadas de desregulamentação do mercado de trabalho, as quais rebaixarão os padrões desse mercado para aquém dos mínimos da União Europeia; inclui também fortes cortes nos impostos corporativos e de renda; inclui, em adição, a privatização total dos ativos estatais restantes. No entanto, as pressões da economia de guerra estão forçando, por enquanto, o governo a colocar essas políticas em segundo plano; as demandas da atividade militar estão ainda prevalecendo.  

O objetivo do governo da Ucrânia, da UE, do governo dos EUA, das agências multilaterais e das instituições financeiras americanas agora encarregadas de arrecadar fundos e alocá-los para a reconstrução é restaurar a economia ucraniana como uma forma de zona econômica especial, com dinheiro público para cobrir quaisquer perdas potenciais para o capital privado. A Ucrânia também ficará livre de sindicatos, regimes e regulamentos fiscais severos para empresas e quaisquer outros obstáculos importantes a investimentos lucrativos do capital ocidental em aliança com os oligarcas ucranianos.

Fontes ucranianas estimam o custo da restauração da infraestrutura: o financiamento do esforço de guerra (munições, armas etc.); as perdas nos estoques habitacional, imóveis comerciais, a compensação por morte e ferimentos, os custos de reassentamento, o suporte de renda etc. chegará a US$ 1 trilhão, ou seis anos do PIB anual anterior da Ucrânia – isso sem contar a perda de renda atual e futura

Isso representa cerca de 2,0% do PIB da União Europeia por ano ou 1,5% do PIB do G7 por seis anos. Até o final desta década, mesmo que a reconstrução corra bem e supondo que todos os recursos da Ucrânia pré-guerra sejam restaurados (ou seja, a indústria e os minerais do leste da Ucrânia estão nas mãos da Rússia), a economia ainda estará 15% abaixo do nível pré-guerra. Caso contrário, a recuperação será ainda mais longa.

A economia na Rússia

A invasão da Ucrânia pela Rússia no início de 2022 para assumir as quatro províncias de língua russa no Donbass, no leste da Ucrânia, ironicamente, deu um impulso à economia. Em 2023, o crescimento real do PIB foi de 3,6% e superior a 3% em 2024. A economia de guerra da Rússia, portanto, está se mantendo por enquanto.

Nos últimos três anos de guerra, a Rússia conseguiu enfrentar as sanções econômicas, investindo quase um terço de seu orçamento em gastos com defesa. Também conseguiu aumentar o comércio com a China e vender seu petróleo para novos mercados, em parte usando uma frota paralela de navios-tanque. Conseguiu, assim, contornar o teto de receitas que os países ocidentais esperavam que minasse o esforço de guerra do país.

Metade do petróleo extraído foi exportado para a China em 2023. A Rússia se tornou, portanto, o principal fornecedor desse insumo básico para a China. As importações chinesas da Rússia aumentaram mais de 60% desde o início da guerra, já que o país, em contrapartida, conseguiu fornecer à Rússia um fluxo constante de bens industriais, incluindo carros e dispositivos eletrônicos, preenchendo assim a lacuna de importações perdidas de mercadorias ocidentais. O comércio entre a Rússia e a China atingiu US$ 240 bilhões em 2023, um aumento de mais de 64% desde 2021, antes da guerra.

No entanto, a guerra intensificou uma aguda escassez de mão de obra que já se observava antes dela. Como a Ucrânia, a Rússia agora está desesperadamente carente de pessoas – embora por razões diferentes. Mesmo antes da guerra, a força de trabalho da Rússia estava encolhendo devido a causas demográficas naturais. Desde o início da guerra, em 2022, cerca de 750 mil trabalhadores russos – ou seja, a classe média com especialização em tecnologia da informação, finanças, administração etc. – deixaram o país.

Enquanto isso, o exército russo está recrutando dezenas de milhares de homens em idade ativa. Algo entre 10.000 e 30.000 pessoas se juntam ao exército todos os meses. Em contrapartida, essa escassez beneficiou com segurança de emprego os trabalhadores russos que não estão nas forças armadas, já que os gerentes relutam em demitir aqueles que estão contratados.

Os salários subiram dois dígitos de tal modo que a pobreza e o desemprego recuaram para níveis bem baixos. Para os trabalhadores mais mal remunerados do país, os salários nos últimos três trimestres aumentaram mais rápido do que em qualquer outro segmento da sociedade, registrando uma taxa de crescimento anual de cerca de 20%. O governo está gastando maciçamente em apoio social para famílias, aumentos de pensões, subsídios hipotecários e compensação para os parentes daqueles que servem nas forças armadas.

Mas a inflação disparou e o rublo se depreciou significativamente em relação ao dólar, forçando o banco central russo a aumentar sua taxa de juros para mais de 20%.

Uma economia de guerra implica que o Estado intervém e até mesmo substitui ou mesmo anula as decisões do setor privado para que o esforço de guerra tenha sucesso. O investimento estatal, ademais, substitui o investimento privado. Ironicamente, no caso da Rússia, isso foi acelerado pela retirada das empresas ocidentais dos mercados russos e pelas sanções que lhe foram impostas pelo Ocidente. O Estado russo assumiu as empresas estrangeiras e/ou as revendeu a capitalistas locais comprometidos com o esforço de guerra.

Os gastos com novas construções, equipamentos de alta tecnologia e novos pacotes atingiram um pico nos últimos 12 anos, tendo chegado a 14,4 trilhões de rublos (US $ 136,4 bilhões), um aumento de 10% em relação ao ano anterior. A taxa de crescimento do investimento superou a taxa de crescimento do PIB por uma margem mais ampla do que em qualquer momento nos 15 anos anteriores, de acordo com o Centro de Análise Macroeconômica e Previsão de Curto Prazo, com sede em Moscou.

Os principais destinos dos investimentos até então inéditos do país são a substituição de importações, a construção da infraestrutura do leste do país e a produção militar. A engenharia mecânica, que inclui a fabricação de produtos de metal acabados (armas), computadores, óptica e eletrônica e equipamentos elétricos, é uma das áreas de investimento que mais tem crescido.

Muitos economistas ocidentais estão prevendo um colapso na economia russa – algo que vêm apregoando nos últimos três anos. A aguda escassez de mão de obra, a inflação persistente e crescente causada pelo aumento dos gastos militares e pelas sanções cada vez mais rígidas – alega-se – finalmente trarão uma crise econômica que forçará Moscou a abandonar seus objetivos na Ucrânia e pôr fim à guerra em termos mais aceitáveis para Kiev e seus aliados.

Muitos analistas atribuíram esses sinais de superaquecimento aos gastos elevados com a guerra na Ucrânia, apontando para gastos militares recordes, que devem atingir mais de 7% do PIB em 2024. Com a expectativa de que os gastos com defesa aumentem quase 25% este ano, respondendo assim por cerca de 40% dos gastos do governo federal, alguns levantaram a tese de que a economia russa vai cair numa ‘estagflação’, combinando alta inflação com baixo ou nenhum crescimento.

Mas, apesar de travar a guerra mais intensa na Europa desde 1945, Moscou conseguiu financiar a guerra com déficits orçamentários modestos entre 1,5% e 2,9% do PIB desde 2022. Como resultado, o Kremlin mal teve que pedir emprestado para financiar o esforço militar. As receitas fiscais geradas pela atividade doméstica dispararam desde o início da guerra. Com cerca de 15% do PIB, a Rússia tem a menor relação dívida estatal em relação ao PIB das economias do G20. Assim, apesar de estar isolada da maioria das fontes externas de capital, a Rússia continua mais do que capaz de financiar o investimento doméstico e os gastos do governo com seus próprios recursos.

Nos últimos dois anos, a Rússia registrou um superávit em sua conta corrente de cerca de 2,5% do PIB. Enquanto a Rússia puder continuar a exportar grandes volumes de petróleo, é improvável que essa situação mude para pior. As receitas do petróleo e do gás da Rússia cresceram 26% no ano passado, chegando a US$ 108 bilhões. E isso ocorreu mesmo com a produção diária de petróleo e gás caindo 2,8%, em 2024, de acordo com autoridades do governo russo citadas pela Reuters. Apesar de continuar sendo o país mais sancionado do mundo em 2024, a Rússia exportou um recorde de 33,6 milhões de toneladas de gás natural liquefeito (GNL) nesse ano, o que representa um aumento de 4% em relação ao ano anterior.

O Instituto de Finanças Internacionais (IFI) orçou um preço do petróleo que garante o equilíbrio fiscal da Rússia (valor necessário para equilibrar os gastos orçamentários) em US $ 77 por barril até 2025. Ao mesmo tempo, orçou o preço externo do petróleo (o preço necessário para equilibrar a conta corrente externa) em US$ 41 por barril. Note-se que este é o segundo mais baixo entre os principais exportadores de hidrocarbonetos. Isso significa que o preço atual do petróleo dos Urais é mais do que suficiente para atende a necessidade de manutenção desse equilíbrio.

Mas nenhum desses investimentos em “economia de guerra” apoiará o crescimento da produtividade da Rússia a longo prazo. A economia de guerra terá de voltar à acumulação capitalista usual quando a guerra terminar. E a economia russa continua fundamentalmente baseada na extração de recursos naturais – ela não se funda, portanto, na fabricação de produtos industriais. Note-se que a produção de guerra não contribuiu para a acumulação de capital no longo prazo.

Além disso, a Rússia permanece tecnologicamente atrasada e dependente de importações de alta tecnologia. Mesmo com estímulos fiscais maciços, ela ainda não gerou tecnologias adequadas para participar em um mercado de exportação competitivo, a não ser em armas e energia nuclear. A Rússia não é, portanto, um ator importante em nenhuma das tecnologias de ponta, da inteligência artificial à biotecnologia.

A depressão demográfica, o declínio da qualidade da educação universitária e o corte dos laços com escolas internacionais e a fuga de cérebros exacerbam esses problemas. A lacuna tecnológica provavelmente aumentará, com a Rússia confiando cada vez mais nas importações chinesas e na engenharia reversa (cópia). O crescimento real potencial do PIB da Rússia provavelmente não é superior a 1,5% ao ano, já que o crescimento vem sendo restringido por uma população menor e envelhecida, assim como por baixas taxas de investimento das quais resulta pouca elevação da produtividade.

A economia de guerra russa está bem-posicionada para continuar a guerra por vários anos à frente, se necessário. Mas quando a guerra acabar, Putin pode enfrentar uma queda significativa na produção e no emprego. A mensagem subjacente é que a fraqueza do investimento, da produtividade e da lucratividade do capital russo, mesmo excluindo as sanções, significa que a Rússia permanecerá fraca economicamente pelo resto desta década.

A economia na paz vindoura

O presidente Trump declarou que está buscando um acordo de paz por meio de negociações diretas com a Rússia. Isso significaria o fim do apoio financeiro e militar dos EUA à Ucrânia. A atual liderança da Ucrânia se opõe a qualquer acordo que signifique a perda de território e qualquer veto à futura adesão à OTAN. Os líderes europeus declararam que apoiarão a Ucrânia e continuarão a financiar a guerra e fornecer apoio militar.

Trump quer de volta o que o governo dos EUA gastou com a Ucrânia até agora, bem como garantias para gastos futuros para reconstruir a economia. Ele reclamou das enormes transferências de fundos para a Ucrânia não contabilizadas. Isso, contudo, vem de desinformação. A maior parte dos fundos que os EUA alocaram para a Ucrânia foram aplicados domesticamente para financiar a base industrial de defesa e para reabastecer os estoques dos EUA. Os fabricantes de armas dos EUA estão obtendo enormes lucros com esta guerra.

Agora Trump está exigindo que a Ucrânia forneça para os EUA mais de 50% de seus direitos minerais sobre “terras raras” em troca dos US $ 500 bilhões que serão necessários para a reconstrução do pós-guerra. Trump: “Quero que eles nos deem algo por todo o dinheiro que investimos e vou tentar resolver a guerra e tentar acabar com todo esse morticínio. Estamos pedindo terras raras e petróleo, qualquer coisa que pudermos obter”.

Como disse o senador americano Lindsey Graham: “Esta guerra é sobre dinheiro … O país mais rico de toda a Europa em terras raras é a Ucrânia, o valor desses minerais vai de dois a sete trilhões de dólares… Então, Donald Trump vai fazer um acordo para recuperar nosso dinheiro, para nos prover com minerais raros…” O problema é que cerca de metade desses depósitos (no valor de cerca de US$ 10-12 trilhões) estão em áreas controladas pela Rússia.

Tudo isso é apenas mais uma indicação de que os ativos da Ucrânia serão divididos pelas potências ocidentais. No mês passado, o presidente da Ucrânia, Zelenskyy, assinou uma nova lei expandindo a privatização de bancos estatais no país. Veio em complemento do anúncio do governo ucraniano feito em julho o seu programa de “privatização em grande escala datado por 2024, que visa impulsionar o investimento estrangeiro no país e arrecadar dinheiro para o orçamento nacional”. Grandes ativos programados para privatização atualmente incluem o maior produtor de minério de titânio do país, um dos principais produtores de produtos de concreto e uma planta de mineração e processamento.

A Ucrânia, segundo o texto de uma lei de 2018, previa privatizar as cerca de 3.500 empresas estatais do país; ela previa que cidadãos e empresas estrangeiras poderiam se tornar proprietários desses ativos. Centenas de empresas de menor escala estão sendo privatizadas, gerando receitas estimadas em 181 milhões de libras esterlinas nos últimos dois anos. Isso envolve um subprograma de sete anos chamado SOERA (atividade de reforma de empresas estatais na Ucrânia), que é financiado pela USAID com o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido como parceiro minoritário. A SOERA trabalha para “promover a privatização de empresas estatais selecionadas, e desenvolver um modelo de gestão estratégica para as empresas estatais que permanecem em propriedade do Estado”.

O capital britânico também está participando. Documentos do Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido publicados recentemente observaram que a guerra oferece “oportunidades” para a Ucrânia realizar “algumas reformas extremamente importantes”. “O Reino Unido espera colher benefícios para as empresas britânicas com a reconstrução da Ucrânia”, observa um relatório sobre a ajuda britânica à Ucrânia no início deste ano pelo órgão de vigilância da ajuda.  

A invasão de Putin levou o povo ucraniano às mãos de um governo pró-livre mercado e anti-trabalhista que permitirá que o capital ocidental assuma os ativos da Ucrânia e explore sua força de trabalho diminuída. Talvez essa passagem tenha sido inevitável – de oligarcas pró-Rússia e pró-Ocidente antes da guerra para o capital ocidental agora.

A guerra não apenas destruiu a Ucrânia; enfraqueceu seriamente a economia europeia, pois os custos de produção dispararam com a perda de importações de energia barata da Rússia. Mas parece que os líderes europeus querem continuar a guerra, mesmo que Trump queira retirar os Estados Unidos dela. Eles estão lutando desesperadamente para obter fundos com essa finalidade e para fornecer mais ajuda militar ao governo ucraniano sitiado. Alguns líderes estão propondo o envio de tropas para a Ucrânia. Portanto, querem mais “guerra e não paz”.

Igualmente ruim é a decisão da OTAN e dos principais líderes da Europa de dobrar os gastos com defesa de cerca de 1,9% do PIB até o final da década, supostamente para resistir a ataques russos iminentes; julga-se que isso ocorrerá se Putin conseguir uma paz vencedora este ano. Isso é ridiculamente justificado com base no fato de que os gastos com “defesa” “são o maior benefício público de todos” (Bronwen Maddox, diretora da Chatham House, o “think-tank” de relações internacionais, que apresenta principalmente as opiniões do estado militar britânico).

Maddox concluiu que: “o Reino Unido pode ter que pedir mais empréstimos para pagar os gastos com defesa de que precisa com tanta urgência. No próximo ano e além dele, os políticos terão que se preparar para recuperar dinheiro por meio de cortes nos benefícios de doença, pensões e saúde. No final, os políticos terão que persuadir os eleitores a renunciar a alguns de seus benefícios para cobrir os gastos em defesa. Esta mesma mensagem veio também do líder do partido vencedor nas eleições alemãs.

Isso significará um enorme desvio de investimento de serviços e benefícios públicos extremamente necessários e do investimento tecnológico para a produção de armas improdutivas e destrutivas. Isso coloca uma enorme incerteza sobre o futuro da Europa como entidade econômica líder pelo resto desta década e para além.