Uma defesa da hipótese tecno-feudal

Autora: Jodi Dean[1] – Sidecar – 6/05/2022

O capitalismo ainda é o mesmo de sempre? – eis a questão a ser investigada.

A crítica da razão tecno-feudal, feita por Evgeny Morozov e publicada nos últimos números (133/134) da New Left Review (NLR), tem como alvo a crescente lista de pensadores que viram homologias entre o feudalismo e as tendências atuais no sistema capitalista – estagnação prolongada, redistribuição ascendente da renda por meios políticos, um setor digital em que alguns “barões” se beneficiam de uma massa de usuários “vinculados” a seus domínios algorítmicos e do crescimento de um setor de serviços ou de servidores.

Entre os acusados proponentes da “tese feudal” estão Yanis Varoufakis, Mariana Mazzucato, Robert Kuttner, Michael Hudson e eu. Morozov descarta a analogia com o feudalismo ao caracterizá-la como decorrente de uma busca de atenção intelectual faminta de memes e mesmo uma falha em entender o capitalismo digital. Recusa o insight sobre a possibilidade de que esse sistema possa estar se transformando em algo que não pode ser mais adequadamente descrito como capitalismo. Estaria ele certo?

Ao definir em que consiste o capitalismo, Morozov contrasta certas conceituações de marxistas como Robert Brenner com a do principal teórico do sistema-mundo, Immanuel Wallerstein. Como observa, os marxistas geralmente concebem o processo de extração de excedentes sob o feudalismo como uma “expropriação” impulsionada por meios coercitivos ou políticos extraeconômicos: os senhores expropriam a produção dos camponeses sobre os quais exercem poder político e jurídico soberano.

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