Fim do consenso sobre o livre comércio

Tarifas, criptomoedas e caos – ou seja, um reordenamento econômico mais profundo parece estar remodelando o sistema global. A tese de Mark Blyth abaixo apresentada tem sido criticada por diversos autores, mas é importante conhecê-la mesmo se endossa a atual politica do governo norte-americano.

Autor: Mark Blyth[1]Social Europe – 9 de abril de 2025

Com o governo Trump impondo tarifas “insanas” ao resto do mundo, muitos comentaristas estão preocupados com o problema da “sanitização”: imputar justificativas convincentes a políticas que não têm nenhuma lógica. Comentaristas ingênuos, eles argumentam, distraem as pessoas da marra que está se desenrolando diante de seus olhos. A entrada da família Trump na esfera das criptomoedas – as quais funcionam como um convite aberto para subornos – certamente apoia essa interpretação.

Mas essa é a única conclusão a ser tirada, ou algo mais pode estar acontecendo? Considere-se uma explicação alternativa.

O projeto dos EUA de promover o livre comércio global já havia sido abandonado na época da eleição de 2016, quando Donald Trump e Hillary Clinton fizeram campanha contra a parceria transpacífica. Trump então impôs tarifas sobre produtos da China e de outros países, e muitas delas foram mantidas ou estendidas pelo presidente Joe Biden.

Uma das políticas de assinatura de Biden, a Lei de Redução da Inflação, foi uma tentativa de promover a reindustrialização dos EUA em setores verdes, que, além de protegidos pelas tarifas de Trump, seriam subsidiados. A última onda de tarifas de Trump também deve impulsionar a reindustrialização, embora de uma variedade mais intensiva em carbono. Assim, o livre comércio parece estar fora do cardápio tanto de republicanos quanto de democratas.

A razão para essa adoção bipartidária de políticas protecionistas diz respeito ao papel global do dólar na promoção de desequilíbrios comerciais estruturais. Como John Maynard Keynes reconheceu em 1944, todos os países, deixados à sua própria sorte, preferem antes ser exportadores superavitários a importadores deficitários. Os exportadores líquidos de hoje na União Europeia, Ásia e Golfo ganham dólares que suas próprias economias não podem absorver. Eis que gastá-los aumentaria os salários e os preços domésticos, prejudicando a competitividade. Os dólares ganhos são passivos para os bancos locais, e a maneira mais fácil de transformá-los em ativos é comprar dívida do governo dos EUA, efetivamente devolvendo o dinheiro aos Estados Unidos para que possam continuar a comprar exportações.

Assim, nos últimos 40 anos, os EUA importaram praticamente tudo o que quiseram, emitindo títulos digitais que pagam juros de 2% sem nunca serem resgatados, porque os títulos do tesouro (T-bills) são veículos de poupança dos exportadores. Isso significa, entre outras coisas, que os EUA não têm restrição de conta corrente.

Por que os EUA querem acabar com esse estado de coisas aparentemente mágico? Porque, como argumentam Matthew Klein e Michael Pettis, desafiar as restrições da conta corrente de fato acarreta custos de longo prazo. Os países que são exportadores líquidos acumulam enormes superávits ao preço de reduzir o investimento doméstico e os salários locais, o que deprime suas economias, enquanto os EUA “se beneficiam” de produtos estrangeiros baratos ilimitados, mas ao preço de esvaziar sua própria capacidade industrial. Em 1975, os três maiores empregadores nos EUA eram a corporação Exxon, General Motors e Ford; em 2025, os maiores empregadores são Walmart, Amazon e Home Depot. O primeiro grupo fabricava bens transacionáveis no mercado externo, enquanto as últimas empresas vendem importações no mercado interno.

Dados esses efeitos de longo prazo, figuras importantes em ambos os partidos dos EUA passaram a considerar o “privilégio exorbitante” do dólar como um fardo exorbitante. Ambas as partes querem “reequilibrar” a economia dos EUA promovendo a produção doméstica, o que implica um ajuste forçado dos exportadores estrangeiros para reduzir sua demanda por dólares.

Por que os dois partidos simplesmente não dizem o que querem? Provavelmente porque falar em “ser roubado” por outros países é mais convincente para a base apoiadora do que argumentos sobre os pontos mais delicados da política comercial. Além disso, o fato de o governo Trump não ter um plano abrangente para reequilibrar a ordem global não significa que tal reordenamento já não esteja acontecendo.

Afinal, o motor de exportação da Alemanha estava engasgando-se antes mesmo da pandemia. Seu recente afrouxamento do “freio da dívida” (um teto constitucional para déficits estruturais) e a adoção de uma política de investimento deficitário sugerem que um reequilíbrio em direção ao consumo doméstico já está em andamento. O aumento dos gastos com defesa da UE estimulado por Trump adicionará mais impulso a essa tendência, e a perspectiva de uma área do euro mais incentivada pelo consumo dará aos investidores globais uma alternativa viável ao dólar.

Quanto à China, parece ter percebido que inundar o resto do mundo com exportações verdes (veículos elétricos, painéis solares e assim por diante) tem seus limites. Já se diversificou em relação ao mercado dos EUA, o que aumentou a necessidade de maior consumo doméstico. Enquanto isso, o resto da Ásia, voltada para a exportação, parece ansiosa para se estabelecer nos EUA para manter o acesso ao mercado.

Um mundo assim reequilibrado precisaria de menos dólares. Acabar com o sistema atual será massivamente perturbador, sem dúvida, e a perspectiva de reindustrialização dos EUA pode ser ilusória. Mas é importante lembrar que ambas as partes veem isso como necessário. O reequilíbrio começou antes de Trump entrar em cena e está sendo impulsionado por forças que podem durar mais que ele.


[1] Mark Blyth é professor de economia internacional William R. Rhodes e professor de relações internacionais e públicas no Watson Institute for International and Public Affairs, Brown University.