Apresenta-se abaixo um artigo que contrapõe duas grandes teses sobre a atual política tarifária dos EUA. Primeiro, ele resume as explicações de Stephen Miran, um autor ligado ao atual governo dos EUA, as quais expõem supostamente a lógica implícita dessa política; em sequência, ele contrapõe essas teses à posição crítica mantida por Paul Krugman. Para tanto, o artigo apresenta a seguinte questão: “as tarifas de Trump são a resposta certa para reestruturar o sistema de comércio global?”. Para depois concluir que “a teoria econômica e as evidências históricas sugerem que não”.
Alberto Ortiz Bolaños [1] – Publicação do autor [2] – 18/02/205
Desde a campanha eleitoral dos Estados Unidos, Donald Trump tem falado repetidamente sobre questões relacionadas à sua agenda make America great again e agora, como presidente, ele está começando a agir. Além das políticas de imigração contra pessoas sem documentos, os elementos essenciais de sua agenda incluem uma política tarifária ligada às questões de segurança e às ameaças contra o abandono do dólar como ativo de reserva.
Trump assinou ordens executivas impondo tarifas sobre aço e alumínio e aumentando as tarifas sobre produtos da China. Ele interrompeu temporariamente a ameaça de impor tarifas de 25% ao México e ao Canadá, indicando que no fSteinal de fevereiro será revisado – e esses países estão fazendo esforços suficientes para contribuir para a segurança dos Estados Unidos e impedir que a China contorne as tarifas por meio desses países.
Em geral, é complexo encontrar a lógica dos pronunciamentos e ações de Trump, mas Stephen Miran, presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Trump, escreveu um artigo explicando as razões por trás das políticas comerciais, financeiras e de segurança deste segundo mandato de Trump. Abaixo, apresentamos um resumo do documento intitulado A user’s guide to restructuring the global trading system [Um Guia do Usuário para Reestruturar o Sistema de Comércio Global] que foi publicado em novembro de 2024 pela Hudson Bay Capital, onde Miran consta como estrategista sênior.
O documento de Miran examina minuciosamente as estratégias para reequilibrar o comércio dos Estados Unidos; aborda, assim, a questão dos déficits comerciais persistentes, os quais seriam eliminados por meio de uma combinação de políticas tarifárias e cambiais. Um tema central de seu texto é a necessidade de fortalecer a segurança nacional, particularmente no contexto da competição estratégica com a China e a Rússia.
Argumento principal: Miran argumenta que os déficits comerciais dos Estados Unidos são o resultado da sobrevalorização estrutural do dólar como moeda de reserva internacional. Essa sobrevalorização prejudica os setores manufatureiro e exportador dos Estados Unidos, tornando os produtos americanos menos competitivos no mercado global. Para resolver esse problema, Miran propõe uma estratégia multifacetada que inclui tarifas seletivas e políticas cambiais destinadas a ajustar as taxas de câmbio e promover uma indústria manufatureira doméstica mais forte.
O documento apresenta os seguintes pontos chave:
1º) Déficits comerciais e o papel do dólar: O documento enfatiza que a demanda inelástica pelo dólar como ativo de reserva internacional leva à sua sobrevalorização. Essa situação é agravada à medida que a economia global cresce mais rápido do que a economia americana, tornando mais caro para os Estados Unidos fornecerem o ativo de reserva, dando segurança para o comércio global.
2º) Tarifas como ferramenta política: Miran apresenta as tarifas não apenas como uma ferramenta para gerar receita, mas também como um mecanismo para forçar os países a ajustarem as suas taxas de câmbio. Ao aplicar tarifas, os Estados Unidos podem pressionar outros países a desvalorizarem as suas moedas, compensando assim o impacto inflacionário das tarifas e compartilhando o ônus de usar o dólar como ativo de reserva.
3º) Implementação estratégica: Miran sugere que as tarifas sejam implementadas gradualmente e diferenciadas por país, levando em consideração as preocupações de segurança nacional e as políticas comerciais. Ele propõe aumentos tarifários mensais condicionados a melhorias nas práticas de propriedade intelectual e à abertura de mercados, particularmente no caso da China.
4º) Segurança Nacional e Reindustrialização: Um fio condutor do documento é a importância de um setor manufatureiro diversificado para a segurança nacional. Miran alerta para os riscos de depender de fornecedores estrangeiros, especialmente da China, para produtos críticos como aço, alumínio, semicondutores e produtos farmacêuticos. Ele destaca a necessidade de reindustrializar os Estados Unidos para garantir a capacidade de produzir armas e sistemas de defesa internamente. Miran cita Trump “se você não tem aço, você não tem um país”. Essa preocupação está por trás das recentes tarifas sobre as indústrias de aço e alumínio.
5º) Políticas cambiais: Miran explora diferentes estratégias para ajustar as taxas de câmbio, incluindo abordagens multilaterais e unilaterais.
6º) Volatilidade e Gradualismo do Mercado: Miran reconhece que as políticas tarifárias e cambiais podem gerar volatilidade nos mercados financeiros. Portanto, ele enfatiza a importância de implementar políticas gradualmente e comunicando claramente as intenções do governo para minimizar a incerteza.
7º) Considerações sobre o mercado e a volatilidade: Miran antecipa que a implementação dessas políticas será gradual para evitar consequências indesejadas nos mercados, compartilhando os custos de fornecimento de ativos de reserva e o guarda-chuva de defesa. Ele reconhece que as tarifas são mais familiares e oferecem ganhos imediatos, enquanto as políticas cambiais são mais arriscadas.
Em resumo, a análise de Miran apresenta uma estrutura abrangente para reequilibrar o comércio dos Estados Unidos por meio de uma combinação estratégica de tarifas e políticas cambiais. O objetivo é reduzir os déficits comerciais, fortalecer a segurança nacional e promover uma economia americana mais resiliente e competitiva. O documento ressalta a necessidade de uma abordagem gradual e coordenada para minimizar a volatilidade que pode afetar o funcionamento dos mercados e maximizar as chances de sucesso. O que a teoria econômica e as evidências históricas nos dizem sobre essas ideias e ações?
Em uma recente conferência intitulada How to think about trade imbalances? [Como pensar sobre os desequilíbrios comerciais?], o ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, analisa essa “nova visão” do comércio internacional. Nota, de início, que ela argumenta que os desequilíbrios comerciais são causados por distorções de política econômica, os quais prejudicam países com déficits, justificando, assim, a imposição de tarifas. Essa “nova visão” focada nos desequilíbrios comerciais é exemplificada por trabalhos como o de Pettis e Hogan (2024), e os argumentos acima resumidos de Miran.
Paul Krugman refuta essa visão:
Com base em exemplos históricos de grandes excedentes comerciais, ele argumenta que não se deve esperar uma tendência para um comércio equilibrado
Poios, os desequilíbrios nem sempre são causados por distorções políticas, mas podem resultar de fluxos de capital e diferenças no crescimento da produtividade, como o caso dos Estados Unidos entre 1995 e 2005, período em que ocorreu a revolução da tecnologia da informação.
A desindustrialização não é necessariamente um problema sério causado por déficits comerciais; ademais, o sucesso econômico não depende apenas de um setor manufatureiro forte. Ele até menciona que os salários no setor manufatureiro não são agora relativamente mais atraentes.
As tarifas não são uma solução adequada, pois levam a retaliações e fortalecem o dólar, afetando negativamente as exportações.
Krugman ressalta que não está claro se o tamanho do setor manufatureiro deve ser um objetivo político. As indústrias estratégicas são uma questão a ser separada; os subsídios podem ser mais eficazes para protegê-las do que as tarifas. Além disso, supondo que um grande setor manufatureiro seja desejável, não é possível garantir que as tarifas sejam um instrumento adequado para obter esse resultado.
Outro elemento importante é que as tarifas e as desvalorizações da moeda não são equivalentes. As desvalorizações contraem as importações e aumentam as exportações, enquanto as tarifas restringem as importações, mas também afetam as exportações por meio da apreciação cambial.
Krugman conclui que a “nova visão” do comércio está incorreta e que as tarifas não são uma ferramenta eficaz para lidar com os desequilíbrios comerciais. Isso ocorre porque a eficácia das políticas tarifárias depende do grau de compensação cambial das tarifas. Miran assume que essa compensação será alta, de modo que o exportador vai arcar com o custo da tarifa, eliminando, assim, os possíveis efeitos inflacionários internos; considera, ainda, que os fluxos comerciais não são reduzidos e que os Estados Unidos vão arrecadar muito imposto sobre importações com pouco reequilíbrio comercial.
Ora, Krugman indica que, na realidade, essa remuneração ocorre ao nível do produto e depende das elasticidades. Em produtos com oferta muito elástica ou com demanda muito inelástica, o consumidor pagará uma parte maior do imposto.
Além disso, a eficácia é reduzida quando há uma resposta do país ao qual as tarifas são impostas e há riscos de uma guerra comercial.
E como já mencionado, as tarifas não ajudam a depreciar o dólar; pelo contrário, elas tendem a apreciá-lo.
Portanto, se se acredita que os desequilíbrios comerciais são o resultado de distorções criados pelos governos e que os déficits comerciais causam a desindustrialização e que a desindustrialização é ruim, pode-se ter simpatia por tarifas. No entanto, pelo que já foi dito, as tarifas não são uma resposta adequada para o problema. Além disso, se os desequilíbrios comerciais vierem de países superavitários que intervêm no câmbio, a ameaça tarifária não é uma ferramenta racional para forçá-los a mudarem as suas políticas.
Há também o efeito dos déficits fiscais e dos incentivos ao investimento no balanço em conta corrente. Lembre-se que o resultado da conta corrente é definido como a diferença entre, por um lado, a soma das exportações de bens e serviços e dos rendimentos obtidos no exterior e, por outro, a soma das importações de bens e serviços e dos rendimentos pagos ao exterior e que, esse resultado provém dos resultados da balança de serviços mais a balança comercial.
Além disso, a balança em conta corrente é determinada pela diferença entre poupança e investimento nacional (público e privado). As políticas de Trump, semelhantes às de seu primeiro mandato, incluem continuar a manter o imposto de renda relativamente baixo, o que, sem um grande ajuste nos gastos públicos, implica a manutenção dos déficits fiscais. Ao mesmo tempo, espera-se que sejam novamente concedidos fortes incentivos ao investimento. Portanto, com menor poupança pública e maior investimento, espera-se que os déficits em conta corrente continuem, independentemente das tarifas.
Outro ponto importante reside na temporalidade das tarifas; uma tarifa mesmo temporária altera o preço relativo afetando desse modo o consumo ao longo do tempo; gera, assim, substituições entre períodos, a qual evita os períodos encarecidos pelas tarifas. Além disso, dado que Trump disse que a cobrança de tarifas seria redistribuída entre os consumidores, o efeito renda torna-se relevante. Se parte da arrecadação for diluída no processo administrativo, mesmo uma tarifa permanente acaba tendo efeitos de redução das possibilidades de consumo.
Por fim, é importante ter em mente a possibilidade adversa de que Trump e sua equipe possam gerar instabilidade financeira. Trump sabe que os seus anúncios geram incerteza e volatilidade, algo que se reflete no desempenho financeiro e econômico do país. Uma implementação gradual e pré-anunciada como a que Miran sugere requer controle na comunicação e consistência entre o que é dito e o que é feito. A falta de credibilidade pode acabar gerando incerteza e instabilidade nos mercados financeiros.
Compreender os elementos que sustentam as crenças e ações de Trump e sua equipe, assim como avaliá-los com base em evidências históricas e teoria econômica, permite entender a ameaça que enfrentamos e nos preparar melhor para uma eventual resposta.
[1] Fundador e CEO da consultoria Bank and Finance.
[2] Nome original do ariigo traduzido: Are Trump tarrifs the right answer for reestructuring the global trading system? Economic theory and historical evidence suggest thar are not. Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/trumps-tariffs-right-answer-restructuring-global-trading-ortiz-7utce

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