As tarifas de Trump e a estratégia global de Pettis

Autor: Nick Johnson – Blogue The political economy of development – 12 de fevereiro de 2025. Primeiro de três artigos sobre essa temática.

O retorno das políticas tarifárias de Donald Trump, em 2025, reacendeu os debates sobre a eficácia das barreiras comerciais na redução do déficit comercial dos EUA e para o fortalecimento da manufatura doméstica. Enquanto Trump argumenta que as tarifas forçarão as empresas a trazerem a produção de volta aos EUA, o economista Michael Pettis, baseado na China, afirma que as tarifas por si só não podem resolver os desequilíbrios comerciais fundamentais. Em vez disso, ele defende reformas econômicas mais amplas, tanto no nível global quanto no doméstico. Esta postagem explora as principais diferenças entre essas duas perspectivas e examina como seria uma estratégia comercial mais abrangente.

A economia de Trump e o comércio

Donald Trump espera que suas tarifas possam resolver uma série de problemas. Em termos puramente econômicos, o seu governo argumenta que elas são projetadas para reduzir a dependência de produtos estrangeiros, tornando as importações mais caras, incentivando assim a fabricação doméstica e a criação de empregos. Ademais, elas podem ser usadas como uma ferramenta de barganha para proteger a propriedade intelectual e lidar com práticas comerciais desleais, particularmente com as da China.

As tarifas também podem ajudar a reduzir o déficit comercial dos EUA, uma vez que, ao tornar os produtos importados mais caros, podem incentivar consumidores e empresas a comprarem produtos fabricados nos EUA. Se o preço dos produtos estrangeiros aumentarem, as alternativas produzidas internamente se tornarão mais competitivas. Se consumidores e empresas responderem mudando suas compras para produtos fabricados nos EUA, a produção doméstica aumenta, reduzindo a necessidade de importações. Esse impulso à produção doméstica pode levar a uma maior criação de empregos.

Uma dependência reduzida de produtos estrangeiros também pode resultar se as empresas ajustarem suas cadeias de suprimentos para evitar importações tarifadas, reduzindo o volume geral de importações. Essa redução nas importações (sem uma redução igual nas exportações) ajudaria a diminuir o déficit comercial.

Além disso, existe o potencial de aumento das exportações dos EUA, se outros países negociarem a redução das tarifas sobre produtos dos EUA em troca de alívio tarifário. No entanto, isso depende de como os parceiros comerciais vão responder – tarifas retaliatórias podem, em vez disso, prejudicar as exportações dos EUA.

Existem outros contras potenciais na abordagem de Trump de “América primeiro”, que abordarei a seguir. Primeiro, veja-se como raciocina Pettis.

A abordagem de Pettis

O professor Michael Pettis, especialista em finanças da Universidade de Pequim e membro sênior do Carnegie Endowment for International Peace, escreve há muitos anos sobre desequilíbrios econômicos e financeiros globais e critica a maneira como muitos economistas convencionais analisam o comércio internacional. Ele tem uma visão sistêmica dessas questões e tem fornecido perspectivas diferenciadas sobre as políticas tarifárias de Trump.

Ele enfatiza que o impacto das tarifas depende do contexto econômico específico e de como elas são implementadas, observando que, sob certas condições, elas podem impulsionar os empregos, os salários e a economia geral dos EUA.

No entanto, ele também adverte que o sucesso das tarifas na consecução das metas econômicas depende de vários fatores, incluindo a estrutura da economia doméstica e as respostas dos parceiros comerciais. Ele alertou que, sem abordar os desequilíbrios econômicos subjacentes, é improvável que as tarifas por si só levem aos resultados desejados pelo governo dos EUA.

Embora Pettis reconheça que as tarifas podem ter efeitos positivos em certas circunstâncias, ele aconselha que elas façam parte de uma estratégia mais ampla que aborde questões econômicas fundamentais para serem verdadeiramente eficazes. Essa estratégia deve abranger o seguinte:

Em primeiro lugar, precisa abordar a poupança global e os desequilíbrios comerciais. Muitos déficits comerciais decorrem de países com alta poupança e alto superávit comercial, como China e Alemanha, que suprimem a renda e o consumo doméstico e dependem em um grau excessivo e desestabilizador do crescimento impulsionado pelas exportações.

Pettis sugere que encorajar esses países a impulsionarem a demanda doméstica aumentando a renda familiar reduziria naturalmente o déficit dos EUA à medida que suas importações aumentassem e partes de suas indústrias exportadoras, particularmente na manufatura, se tornassem relativamente menos competitivas. Esses tipos de políticas reduziriam o excesso de poupança global e diminuiriam os desequilíbrios do comércio global de forma mais sustentável.

Em segundo lugar, os EUA e outros países poderiam implementar alguma forma de controle de capital. No momento, as entradas de capital não regulamentadas nos EUA inflacionam os preços dos ativos e contribuem para os desequilíbrios econômicos, fortalecendo o dólar em relação a outras moedas.

Assim, um dólar mais fraco poderia ajudar a reduzir as importações e o consumo doméstico, ao mesmo tempo em que impulsionaria as exportações e a produção doméstica e o emprego. Pettis recomenda gerenciar esses fluxos para ajudar a estabilizar a economia doméstica.

Em terceiro lugar, os EUA devem desenvolver políticas industriais abrangentes. Em vez de depender de tarifas, deve apoiar e financiar investimentos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento e educação para aumentar sua produtividade e competitividade.

Por último, é necessário coordenar as reformas do comércio internacional. Pettis acredita que tarifas unilaterais são menos eficazes do que negociar acordos comerciais globais que abordam desequilíbrios sistêmicos. Isso poderia promover práticas comerciais justas e desencorajar políticas que levam a superávits comerciais excessivos.

Alguns prós e contras em potencial

Embora muitos economistas permaneçam apegados ao princípio do livre comércio e critiquem as políticas tarifárias de Trump, também há muitos economistas não convencionais ou heterodoxos que pensam de modo diferente. Pettis é um pensador original que é difícil de classificar em qualquer escola de pensamento em particular. Ambas as abordagens da política comercial aqui consideradas têm uma série de pontos fortes e fracos potenciais.

As tarifas de Trump poderiam fornecer proteção de curto prazo para indústrias domésticas em dificuldades e empregos locais, mas em termos econômicos isso tenderia a levar à ineficiência e perdas no bem-estar econômico. Se eles fizerem parte de um pacote mais amplo de políticas que tornam essa proteção limitada no tempo e condicionada a um melhor desempenho, isso melhoraria a possibilidade de sucesso. Mas não está claro se é isso que o novo governo tem em mente.

As tarifas podem impedir práticas comerciais desleais, principalmente da China, embora, é preciso acrescentar, isso esteja longe de ser garantido. Eles também podem ser politicamente atraentes se Trump for visto como alguém que tem uma posição forte na questão do nacionalismo econômico.

Outra desvantagem é que as tarifas podem levar a preços mais altos ao consumidor. Isso provavelmente reduzirá o consumo da economia como um todo, pelo menos inicialmente. No entanto, se a tarifa acabar aumentando a produção doméstica, o emprego e os salários ao longo do tempo, o consumo pode realmente aumentar, embora menos do que o aumento da produção, reduzindo assim o déficit comercial e a taxa de acumulação da dívida dos EUA.

Este é um dos argumentos de Pettis. Mas se as tarifas levarem a um dólar mais forte, o custo mais alto das importações pode ser anulado em parte, enquanto as exportações dos EUA se tornariam menos competitivas, o que significa que o déficit comercial pode não ser muito afetado ou pode até aumentar.

As tarifas também correm o risco de retaliação comercial de outras nações, o que já podemos ver no caso da China. Para Pettis, os países com superávit comercial são mais propensos a sofrer do que os países com déficit comercial de uma guerra comercial, já que seu crescimento econômico depende mais da demanda externa do que da interna.

Por último, os direitos aduaneiros não abordam os desequilíbrios subjacentes em matéria de poupança e investimento. A balança comercial, ou mais precisamente a conta corrente de qualquer país, pode ser vista como medindo a diferença entre a poupança doméstica total e o investimento. As tarifas só podem funcionar se mudarem o equilíbrio entre os dois.

N. T.: Como se sabe, tem-se sempre que

C + S = C + I + (G – T) + (X – M)

Rearranjando essa identidade da contabilidade nacional, tem-se:

S – I = (G – T) + (X – M)

Supondo de G – T = 0, ou seja, que não déficit público nos EUA (o que é falso), tem-se que a “balança comercial…é igual a diferença entre a poupança doméstica total e o investimento”.  Posto isso, havendo mostrado que o investimento supera a poupança quando há déficit na balança de comércio, pode-se voltar ao texto do autor.

A abordagem de Pettis merecer vários elogios. Ele aborda as causas fundamentais dos desequilíbrios comerciais, e não apenas alguns dos sintomas. Em um mundo ideal, incentivaria a cooperação global em vez de guerras comerciais e apoiaria a sustentabilidade econômica de longo prazo. Em seu livro Trade Wars Are Class Wars, em coautoria com Matthew Klein, ele conclui com um apelo por uma abordagem mais progressista da reforma econômica doméstica e global e argumenta contra o sistema atual que tende a exercer pressão descendente sobre salários, condições de trabalho e bem-estar, ao mesmo tempo em que beneficia setores financeiros, empresários e os já ricos.

Tudo isso requer cooperação internacional, o que pode ser difícil de alcançar. Isso nos leva ao reino da geopolítica e da economia política. Os benefícios econômicos, embora potencialmente muito maiores e mais sustentáveis, levariam mais tempo para serem mostrados em comparação com as tarifas. A reforma sistêmica também é mais complexa de implementar do que simples políticas tarifárias.

Um caminho a seguir?

Ambas as abordagens sofrem de limitações, embora em termos econômicos Pettis ofereça uma estratégia muito mais coerente já que aborda a natureza sistêmica do comércio e das finanças globais. Uma combinação das tarifas de Trump e da reestruturação econômica de Pettis poderia ser uma solução provável? Em vez de tarifas amplas, os EUA poderiam impor tarifas seletivas a indústrias com preocupações econômicas ou de segurança nacional legítimas.

Políticas contínuas que incentivam o investimento produtivo por meio de maior apoio governamental a indústrias críticas, como produção de semicondutores e energia renovável, que foram perseguidas pelo governo Biden, podem ajudar a reduzir a dependência de produtos estrangeiros. Finalmente, Trump poderia se envolver com parceiros comerciais para incentivar práticas comerciais globais equilibradas, em vez de confiar apenas em medidas protecionistas. Infelizmente, a abordagem transacional de soma zero na qual ele parece confiar não oferece muita esperança para ações tomadas no espírito de interesse próprio esclarecido, particularmente no clima econômico e político de hoje.

Em conclusão

Embora as tarifas de Trump possam acabar oferecendo um impulso de curto prazo para indústrias domésticas específicas, elas não abordam as causas profundas dos desequilíbrios comerciais. A estratégia econômica sistêmica mais ampla de Pettis fornece uma solução de longo prazo muito mais sustentável, mas requer mudanças políticas significativas e coordenação internacional.

Uma abordagem equilibrada que combine tarifas estratégicas com reformas estruturais mais profundas poderia fornecer um caminho mais eficaz para a política comercial e industrial dos EUA. A questão-chave permanece: os formuladores de políticas estarão dispostos a adotar uma estratégia tão sutil ou o nacionalismo econômico continuará a dominar o debate comercial? Por enquanto, infelizmente, o último parece mais provável. No longo prazo, no entanto, à medida que o equilíbrio entre a força econômica global e o poder político muda, muita coisa pode mudar.